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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

SOFRIMENTOS INSENSATOS X

melgaçodomonteàribeira, 07.03.13

 

 

Cansado e ofegante, pousou o saco por cima dum penedo e aproveitou para recobrar as forças tomando fôlego uns momentos. Encantado, deixou vacar pausadamente o olhar pela imensidão que o assombrava, que o fazia evadir-se e esquecer por uns curtos momentos o que o desgastava psiquicamente.

Chegou à azenha do “tio” Júlio  uma hora e um quarto depois de ter saído da casa. Havia um homem cujo segundo saco de milho estava a ser moido e, seguidamente, uma mulher com um único saco. Tinha quase para duas horas de espera. Como não os conhecia e não suportava o ruído  irritante que a mó fazia quando triturava o milho ou o centeio, depois de pousar o saco num canto, resolveu saír e sentar-se numa pedra na qual apoiara as nádegas pela primeira vez há muitos anos.

Os antebraços fincados por cima das coxas ficou a olhar para o regato que, devido aos constantes chuviscos das últimas semanas, vira o caudal espessar cada dia mais. Conhecia tão bem aquela corrente, aquelas pedras e aqueles pedregulhos... Os nefastos recordos eram inelutáveis.

Tinha sete anos quando, um dia de tarde, farto de divagar pelas paragens, decidiu juntar-se à mãe no moinho. Não ultrapassou o limiar da porta. Estacou repentinamente de olhos esbugalhados. A mãe e o moleiro, o velho Teitei, estavam sentados por cima duma grande caixa, ao lado da mó, agarrados um ao outro. Ele estava de costas para o miúdo enquanto que ela, de saia e saiote arregaçados, tinha a cara escondida no meio do peito do moleiro. Abafados pelo barulho da mó, ouviu a mãe soltar uns gemidos, umas queixas. O moleiro tinha a mão esquerda enfiada no meio das coxas leitosas da Palmira. Antes que o vissem, deu meia volta e foi sentar-se numa pedra a pensar no que acabara de ver. Sabia muito bem o que vira. A imagem do pai submergiu-lhe imediatamente o espírito. E ainda mais triste ficou por ser esse baboso de Teitei. Nunca gostara dele. Decidiu não voltar mais ao moinho com a mãe. Não queria voltar a ver a cara do moleiro.

No dia em que, pela primeira vez, disse à mãe que não queria acompanhá-la, esta, que não desconfiava absolutamente de nada, insistiu, pensando que não passava de um pequeno capricho e que o rapaz acabaria por se conformar. Ao aperceber-se da sua birrenta oposição, enervou-se e injungiu-o de acompanhá-la. Então, num desabafo colérico, raivoso, o miúdo gritou-lhe por sua vez:

— Nom bou ô moinho que nom quero bôltar a ber o que bi !

A Palmira, inquieta e a pensar o pior, perguntou-lhe o que vira. O miúdo, a chorar, lançou-lhe um olhar suplicante e, com voz mais moderada, disse-lhe:

— Tu bem sabes o que fazes nô moinho q’ando já nom hai ninguém.

Não precisou dizer mais nada. A mãe percebeu imediatamente. À noite, quando o foi deitar, fê-lo prometer que era um segredo que só os dois conheciam e que mais ninguém devia saber. Enquanto o Teitei foi vivo (morreu quatro anos depois), não voltou à azenha. Tinham passado dez anos, sem nunca mais terem falado no assunto. Estava como que enterrado ou, melhor, em suspensão, sem que soubesse por quanto tempo.

Chegou à casa depois da uma da tarde.  Esfomeado, empanturrou-se com duas malgas do palatal e nutritivo caldo habitual, que tinha fervilhado horas no pote preto por cima do braseiro, preso a meio da corrente. A mãe não estava e a avó, na cama, dormia profundamente.

Acabou de beber o resto do vinho tinto que tinha na tigela, limpou os beiços com o revés da mão e foi alongar-se por cima da cama. Sentia-se cansado, diminuido. Mais tarde, estava decidido, ia à casa do seu amigo, o Salvador. Era tempo de se afirmar. As pálpebras pesavam-lhe. Não tardou em adormecer.

XII

O rapaz abriu os olhos com calaceirice e virou-se para o lado da janela. Não sabia quanto tempo dormira mas sentia-se muito melhor. Ainda era dia. Agarrou-se com as mãos à cabeceira de ferro da cama e espreguiçou-se com indolência. Que bem lhe soube aquela soneca ! Repentinamente, os olhos raiaram-lhe e um belo sorriso iluminou-lhe o rosto. Sonhara com a Lídia, que vivia com ele na casa mas que era sua irmã. Ai, a Lídia matava-o. O silêncio adormecedor que reinava na casa não o puxava muito a levantar-se. Ficou uns minutos a raciocinar, olhando para uma mosca que explorava o tecto acastanhado do quarto. Pensou no que contava ir fazer à casa do Salvador e sentiu-se intimidado. Não era o primeiro a fazer o que, finalmente, se podia considerar uma coisa ordinária mas necessária. A sua dificuldade consistia em ter que passar por ele. Portanto, fora ele que, involuntariamente, lhe pedira ajuda. O homem, sem qualquer preconceito, propôs-se imediatamente para ser intermediário. Não, tinha razões para se sentir atribulado. Ele não tinha coragem para fazê-lo directamente. Por causa da enfermidade, temia encontrar-se perante uma relutância. Os desvios, as diferenças sempre amedrontaram as pessoas. Sobretudo nos lugares onde a compreensão e os conhecimentos são tão reduzidos como o meio.

Sentou-se na beira da cama e esfregou os olhos com satisfação. Calçou as botas ainda húmidas da chuva e pôs o chapéu na cabeça. Ao passar diante do quarto da avó, reparou, através da porta entreaberta, que estava acordada.

— Ô bó, onde foi minha mai ?

— Eu nom sei, meu home. Hai muito que saiu. – respondeu-lhe a mulher que, antes de ele falar, já tinha dado pela sua presença.

— Bocê quêr algo ?

— Nom senhor, meu hominho. – disse-lhe com voz gratificadora.

Foi sentar-se no limiar da porta de entrada. Onde diabo teria ido a mãe ? Quando ele chegara já ela não estava e, desde aí, tinham passado mais de três horas. Quando chegou do moinho, o Fedelho não estava deitado no seu posto. Como o tempo estava de chuva, podia estar na casota. Mas, depois de se sentar à porta, ficou certo que também tinha ido com a mãe, de outro modo, e ainda que chovesse, tinha vindo ter com ele e deitar-se ao seu lado.

O dia estava nebuloso mas a chuva, de momento, sossegara. Se persistisse nos dias seguintes, também lhe estragava o projecto que tinha em mente. Levantou-se e foi às cortes visitar os seus amigos, os animais. Entre eles, havia uma cumplicidade lhana e expansiva. A insensibilidade que as pessoas lhe manifestavam, e que ele considerava como desdém, fê-lo aproximar-se e agarrar-se, cada vez mais, aos animais.  Às vacas, às cabras e ao porco deu-lhes umas palmadinhas amigáveis na garupa. Acariciou-os a todos, dando umas cenouras e batatas a uns e feno e erva a outros. Ficou uns minutos a observá-los, contente. Fechou a porta das cortes à chave e foi ao lado, à adega. Junto do pipote que estava encetado, tinha sempre uma pequena caneca de lata virada por causa do pó. Encheu-a de vinho, que espumou, e bebeu-o com imenso prazer. Ah ! – exclamou-se, ao mesmo tempo que fazia estalar a língua no céu da boca. Gostava de uma boa pinga com agulha, de vez em quando. Foi fora, ao lado da porta, e passou a caneca pela água da chuva que enchia um velho pipote ali encostado. Fechou a porta e dirigiu-se para as escadas no momento em que o portão de ferro se abria e dava passagem à sua mãe e ao Fedelho.

Esperou por eles, observando-os. O cão trazia as patas enlameadas, a dona, os tamancos. Pelo andar, mais penoso do que habitualmente, via-se que vinham ambos de dar uma longa caminhada. Pareciam lassos. Quando a mãe se lhe juntou, reparou que suava.

 

(continua)

 

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