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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

SOFRIMENTOS INSENSATOS IX

melgaçodomonteàribeira, 07.03.13

 

 

X

A manhã começou com uma chuva miudinha mas persistente. A Palmira ocupou-se da mãe com a habitual negligência. Depois de lhe dar as sopas, que a Delfina ingurgitou paulatinamente, acendeu a lareira cuja pedra ainda estava morna e, depois de a vestir, sentou-a na consumida cadeira.

Ocupou-se seguidamente das tarefas diárias habituais. Mas, quando depois da  chuva ter parado quis ir passear com a mãe para o quinteiro, deparou com uma ferronha resistência da sua parte. Não tinha as forças suficientes para tal, argumentou. Não se sentia mal nem estava doente. Uma simples baixa de forma, concluiu. A filha, desconfiada e contrariada, não cessou de ralar, de importuná-la, até que a mulher, cansada de ouvi-la, disse-lhe que queria ir deitar-se.

— Nom tem nada qu’ir p’rà cama. Nom está doente é inda hai pouco que se lebantou. Está mi bem aí sentada.

Não falou mais. Como se ela não estivesse ali, e com a languidez de ânimo inveterado que a distinguia, ocupou-se a preparar a lavadura para o suíno.

A pobre Delfina parecia fixar a lareira mas, através da cortina colorida das chamas, imaginava um rosto impreciso que a confortava, uma mão familiar aberta que se avançava para ela como se quisesse consolá-la... O desleixe, a incompreensão, o fastio e a desafeição que a filha lhe exprimia causavam-lhe uma pena, um sofrimento atroz. Não só a feria mas parecia ter prazer em fazê-lo e em mostrar-lhe que era intencional. Arranhava como os gatos. Esta maneira de ser germinara nela tão naturalmente como os efeitos da sua triste vida se reproduziram nas suas feições. Tornou-se áspera e pesarosa porque uma pessoa que é infeliz na vida sofre e o sofrimento engendra a amargura, a malvadez. E em vez de se vitimizar pessoalmente, virou-se contra a mãe que era a mais indefesa.  As lágrimas chegaram-lhe à porta dos olhos mas compeliu-as a ficarem por ali. Então, escorreram-lhe interiormente, fazendo-a tremer ligeiramente. Nem chorar diante dela podia sem correr o risco de ter que sujeitar-se às suas ignomínias.

Estática na cadeira, lembrava-se do gosto, do amor que sempre tivera e tinha por ela. Quando ela e o Abílio, ainda novos, souberam que não podiam ter mais filhos, redobraram de carinhos e de atenção para com a Palmira que ainda era uma miudinha com pouco mais de quatro anos. Foi crescendo como uma moça sensível, impenetrável que, talvez por ser morgada, já lutava contra as fortes decepções da vida. A sua doçura inicial foi-se transformando numa indiferença egoista, num baluarte contra a dureza da vida, numa capacidade espantosa que consistia em preservar e proteger “a sua vida, a sua pequena vida.” Fora a maior riqueza que Deus lhes dera e tudo fizeram para se mostrarem dignos do dom. Os anos foram passando e, depois de casar e ser mãe, o seu carácter foi degenerando lentamente, até chegar a este ponto de abdicação, de negligência moral e amorosa. Ela e o Abílio nunca tiveram nada e nunca nada lhes faltou. Viveram felizes. A filha e o homem tinham uma casa em condições, tinham comprado um grande campo, um bom monte, tinham estudado a filha que ganhava bem a vida, tinham bom dinheiro no banco na vila, mas não era suficiente para serem felizes. Tinham muito e faltava-lhes tudo. A vida decerto que tinha uma grande parte de culpa mas não era uma razão para se vingar nos outros.

— Bou dar de comer ôs animais.

Entretida no passado, só ao reparar no balde e no cesto que a filha tinha nas mãos, é que a Delfina percebeu o que ela lhe tinha dito. Sentiu um frio descer por ela e apertar-lhe o coração dorido. Não respondeu nem olhou para ela. Voltou a fixar as chamas da lareira. Decidiu ignorá-la, como ela lhe fazia constantemente. Hesitava entre o desejo sensual de mãe e a revolta contra a maldade pérfida da filha. Decidiu desafiá-la, importuná-la e, embora com muito custo, deixar de refugiar-se no amor maternal para tudo lhe perdoar. Estava farta da tirania ambígua que a filha sustentava havia anos, desta tirania perfeitamente incorporada na sua vida, na sua substância. O seu olhar demonstrava repreensão, os gestos, desprezo e as suas palavras eram uma alusão penosa à sua velhice. A vida, que para ela tinha sido de uma longa docilidade, em dez anos, tornara-se uma súplica constante e muda. A crueldade até os remorsos lhe havia de comer. Ouviu a porta guinchar duas vezes. Saíra e, para castigá-la, não lhe perguntara, como costumava, se queria ir deitar-se. “Ai que bid’à minha ! Já hai tanto que nom ando a fazer nada neste mundo, Senhor. Êl bós esquecestes-bos de mim !” Desde que o Abílio ficara doente, a vida foi-se-lhe tornando pouco a pouco mais dolorosa. Quantas vezes pediu a Deus que a levasse para a sua beira ! Sabia, por experiência, que a acção de morrer era penosa pois ainda é vida, mas não tinha medo. A morte é outra coisa, é boa, pensava, é apaziguadora. Com os dias que passavam, cada vez mais fastidiosos, ia aprendendo a morrer. Deixou duas pesadas lágrimas sairem-lhe dos olhos.

Nunca desejara tanto a vinda do Belardo. Tinha muito que lhe contar da vida ruim a que a filha a obrigava a abaixar-se. “Ê bô home, ô Belardo. A sorte dele foi ter andado sempre por fora”, pensou. De outro modo, a filha era mulher para o transtornar e acabar por convertê-lo.

Ajeitou-se na cadeira e, com a ponta dos pés, baloiçou-se ternamente. Pensou na neta que estava nos Arcos. Não tinha nada da mãe e alegrava-se por isso. Orgulhava-se por lhe ver as qualidades e os sentimentos que herdara dela. Era por estas razões que ela e a mãe não podiam entender-se. Já se tinham disputado ambas várias vezes por causa do ambiente discordante, sinistro e asfixiante em que trazia a avó mergulhada. “Ê mi boa moça.” A sua sorte também foi viver fora da mãe senão já tinha havido uma desgraça naquela casa.

O Mindo, coitado, esse era corajoso, trabalhador e, como o pai, bom e habitado por uma extraordinária força de vontade. Tivera má sorte, o mal não o poupara mas, ao contrário da Palmira, sofria em silêncio sem embaraçar ninguém. Saber sofrer em silêncio, ao avesso do que se pensa, acaba por aliviar. Com o tempo, acabamos por conhecer as nossas doenças, os nossos sofrimentos e habituamo-nos a viver com eles. Cada qual arrasta a sua infelicidade, os seus defeitos, a sua cruz. A vida é uma doença, mais ou menos longa, incurável, uma sucessão de grandes ou pequenos sofrimentos, aos quais só a morte pode pôr fim.

Adormeceu com a cara virada para o lado da lareira e as mãos cruzadas por cima do regaço.

XI

Quando o Armindo saiu da casa, havia muito que a chuva fininha começara a caír. O chão do caminho da azenha estava ensopado e, em determinados sítios, escorregadiço. Com o saco de milho às costas e a vara na mão, o rapaz foi encurtando a distância que o separava do regato. Conhecia os buracos, as pedras e as bossas que o caminho tinha, tantas vezes o percorrera.

Quando era miúdo e que o tempo estava quente e de sol, gostava de acompanhar a mãe. Depois, enquanto que ela esperava pela sua vez para moer o milho ou o centeio, conversando com as outras pessoas presentes, deambulava à volta do moinho observado, fascinado, as coloridas libelinhas, abundantes por ali, que arrasavam os poços de água pouco profundos em busca de alimento. Ou, então, pulava como um saltimbanco pelas graúdas pedras que atravancavam o curso da água do regato, cantando, até que a mãe chamasse por ele.

Chegou a um sítio onde o caminho iniciava uma descida abrupta. Era uma vertente vertiginosa, duma beleza rara. Ao fundo, ainda que o céu estivesse agrisalhado e uma determinada humidade pairasse no ar,  viam-se vários lugares espalhados e rodeados de campos magnificamente lavrados.

 

(continua)