Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

SOFRIMENTOS INSENSATOS VIII

melgaçodomonteàribeira, 07.03.13

 

 

Levantou-se e, depois de lavar as mãos, pôs-se a caminho da feira. Passou diante da estação de camionetas que despejavam rebanhos de pessoas azafamadas, vindas das inúmeras aldeias do concelho. Desceu em seguida, mais à frente, uma rua onde já havia algumas tendas e que desaguava na alameda cuja metade esquerda estava totalmente invadida pelas barracas de cores extravagantes e garridas dos tendeiros. Gostava de ir cedo à feira para evitar os errantes ociosos, os madraços que, a partir de determinada hora, passeavam pela feira brincando e namoriscando e estorvavam quem verdadeiramente lá ia para comprar. E, ao mesmo tempo, podia contemplar, passear o olhar e escolher calmamente, quando realmente queria fazer compras.

Estava um belo dia de sol outonal com um céu completamente azul. Contudo, devido à proximidade do rio e à presença das numerosas e densas tílias que faziam o charme da alameda, as pessoas sentiam um pequeno frio ambiente. Ela, que estava acostumada desde sempre ao frio extremo, quase que podia dizer que era um dia lenitivo, de princípio de primavera.

Misturou-se à multidão de camponeses, carregados de sacos e de embrulhos sumários, que se moviam em todos os sentidos e que eram o grosso dos feirantes. Caminhava lentamente, reparando mais nas pessoas do que nos artigos, nos objectos ou nas roupas que os vendedores expunham por cima das bancas ou dependuravam em cabides. Só passados uns breves momentos constatou e se lembrou que não era uma feira como as outras. Havia muita mais gente e diferente do que nas feiras habituais por ter calhado um feriado. Inumeráveis pessoas, que habitualmente trabalhavam, tinham aproveitado a aprazível manhã para percorrerem familiarmente a alameda e farejarem os bons artigos.

Não tinha em mente nenhuma intenção de comprar, como sempre, mas, por último, acabava por encontrar graça ou utilidade a qualquer bugiganga ou peça de lingerie. O seu prazer era escrutar, fitar atentamente os rostos, avaliar o carácter através das roupas, da fala, distinguir os tiques, o feitio, as alegrias e as tristezas, a miséria, os provincianismos... Era como o olho da consciência ao qual nada escapa, mas que não expele qualquer julgamento. Com que júbilo tentava penetrar naquelas modestas consciências tão comuns, tão pouco diferentes de aspecto ! Era um mundo de aparência, de carnaval e de ilusão, onde a verdade dificilmente era acessível. No meio de tanta gente que se parece, encontram-se por vezes pessoas das quais dizemos : “parece fulano ou beltrano” e, quase que imediatamente, reparamos que não é verdade, que estamos a brincar connosco, com o nosso sonho, como um gato com o rabo. “Não vou tardar em fazer estudos de sociologia”, pensou, ao mesmo tempo que deitava uma visada distraida a uma blusa.

Pôs-se novamente em marcha, ao reparar que a vendedora se precipitava sobre ela. Era-lhe insuportável esta mania que os comerciantes tinham de coagir as pessoas.

Tinha percorrido as barracas que se encontravam do lado do rio. Mais para diante, era a feira dos animais: vacas, porcos, todo género de ovinos, galináceos, coelhos... Atravessou a estrada com cuidado e principiou, em sentido contrário, a visita de outras tantas tendas, estendais e alguns quiosques. Daquele lado, a multidão era mais densa pois ali se encontravam numerosos comércios, armazéns, restaurantes e cafés.

As folhas mortas que, apesar de não haver vento, se desprendiam das grandiosas tílias já meias carecas, alinhadas dos dois lados da alameda, depositavam-se, torbilhonando, rapidamente e em quantidade, por cima das barracas montadas há poucas horas. O inverno estava cada vez mais perto e o outono afastava-se cada vez mais.

O olhar estagnou-lhe numa tenda de lanifícios na qual vendiam meias, camisolas, luvas, cachecóis, garruços, coisas simples mas prácticas e cada ano diferentes. É claro que a tendeira, que se encontrava no outro lado com duas clientas, notou de imediato o seu interesse e lançou-lhe :

— Escolha, minha linda senhora, escolha que eu vendo mais barato do que dado. Só um momentinho que já sou sua.

Riu-se, era a filosofia popular que se exprimia da maneira mais simples e vernácula. Olhou para a tendeira, coberta de lã (a melhor maneira de publicitar o que vendia), com as luvas (punhetes) cortadas na ponta dos dedos, história de poder manejar comodamente as moedas e as notas. Tinha cara de descendente de mongol. O olhar sagaz da Áurea não devia enganá-la. Conseguia ver para lá das aparências. Procurava compreender a alma, o espírito e a fisionomia das coisas e dos seres cujos efeitos são os acidentes da vida e não a própria vida. Uma mão não está apenas presa a um corpo mas exprime e continua um pensamento que há que compreender e completar. O dom de ler nas consciências provinha-lhe do sentimento de que a realidade que lhe era dada a contemplar parecia-lhe bem mais verdadeira do que aquela a que só os sentidos acediam. “Onde estariam as suas raízes? Quantos povos estiveram ou passaram pelo nosso país? Quantos descendentes deixaram ficar?”A maioria das pessoas não reparava nas diferenças morfológicas que as distinguia e que são como um carimbo num passaporte, como um objecto que tem marcado por detrás made in. Muitas gerações passaram e o país acabou por ser um mosaico de raças. A mais marcante e numerosa, a que mais se retardou no nosso país, e que, por isso, mais descendentes deixou no condado, é a  que  os portugueses menos apreciam.  É certo que ninguém pode escolher os seus pais, mas abjurar as suas origens, as suas raízes... é como renegar-se a si próprio. “Tenho mesmo que fazer estudos de antropologia... e, se calhar, talvez de psicologia, também.”, voltou a dizer-se.

Pegou num par de meias de lã bem grossas, à sua medida, e procurou, no meio dum grande monte, um cachecol que não fosse muito comprido e que não tivesse cores muito berrantes. Acabou por encontrar um não muito grande, dum branco pálido que lhe agradou.

— Escolha, escolha, minha linda senhora ! Se calhar estou enganada e ainda é menina...

— É verdade, ainda sou menina – respondeu a Áurea com um agradável sorriso.

— Desculpe-me mas como as lindas meninas não ficam solteiras muito tempo...

A jovem mulher corou timidamente. Caíra na ratoeira. “Patifona !” – pensou.

— Atão não compra mais nada? – à negativa da Áurea, continuou – Compre umas luvinhas, menina, você tem umas mãozinhas tão delicadas !

A rapariga sorriu-lhe amavelmente e pagou sem regatear ao constatar que o que lhe pedia não era exagerado. Despediu-se. Mas o diabo da tendeira não pôde ficar por ali.

— Atão continuação de um bom dia e a ver se p’rà próxima lhe posso chamar senhora, tá bem ?

A rapariga assentiu abanando a cabeça. “Tremenda mulher ! - pensou, respeitosamente - Com um moral e um humor destes não devia ser fácil que se deixasse abater. Pelo menos, aparentemente.” Quanto mais convivia com as pessoas, mais gostava delas e de sociologia.

Com o pequeno saco plástico, no qual a mulher lhe metera o cachecol e as meias, continuou, mais alegre ainda, o passeio matinal pela feira. Gostara da mulher. Gostava das pessoas alegres, com força e humor inabaláveis, que possuiam um determinado sentido da vida. Embora nativa, era muito nova para conhecer profundamente a “filosofia”, a “psicologia” comportamental montês. À primeira vista, a dos feirantes, dos ciganos era mais subtil, mais efusiva. Seguramente que o viajar foi um factor preponderante, senão principal.

 

(continua)