Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

SOFRIMENTOS INSENSATOS VII

melgaçodomonteàribeira, 07.03.13

 

 

VIII

O Armindo, a mãe e a avó acabaram de cear. A Palmira ajudou a mãe a sentar-se na cadeira, junto da lareira, enquanto lavava a louça com a água bem quente que pusera a ferver no lume. O rapaz, ainda sentado à mesa, olhava para a tigela meia de vinho que tinha diante dele. Gostava de guardar uns bons golos para o fim. Era uma mania que agarrara já não sabia quando.

O dia de hoje fora excepcional, o mais feliz que o Armindo tivera. Riu-se. Pensava na Lídia. “Ê tam bonita, ê tam...”, suspirou interiormente. Não conseguiu acabar a frase. Ele compreendia-se. Tinha a sensação de planar, como quando admirava as aves que vagueavam libremente por cima da sua cabeça, nas alturas celestes. Estava ansioso por que chegasse a madrugada. A noite anunciava-se duradoura.

O candeeiro a petróleo de lata preso no tecto iluminava moderadamente a espaciosa cozinha. Na lareira, no meio de um manto de brasas enrubescidas, uma derradeira acha, que ainda tinha longa vida, fazia saracotear num vira uma labareda luzidia e multicolor. A imagem dos três naquela lúgubre e silenciosa cozinha era duns tempos avelhentados e esquecidos.

A Palmira acabou de lavar a louça e acendeu o pesado candeeiro de cerâmica cor de rosa para levar para o quarto. Acordou a mãe, que toscanejara um pouco enquanto ela estivera ocupada, e, como sempre, só a levou para o quarto depois de ela fazer as necessidades na retrete. Ajudou-a a vestir a camisa de dormir de flanela e deitou-a na cama, aconchegando-lhe bem os cobertores que, depois, prendeu dos lados. Voltou novamente à retrete buscar o bacio para deixar junto da cama da mãe. Simples precaução. Nunca o utilizara. Apesar da idade adiantada da mãe, tinha uma grande sorte por ela não sofrer de incontinência. Pegou no candeeiro e, sem dirigir uma última palavra à mãe, foi para o seu quarto, ao lado, do qual fechou a porta sem barulho.

O Armindo, frenético, quando sentiu a mãe entrar no quarto, apagou o candeeiro, abriu a porta da casa e sentou-se na soleira. O ar fresquinho e puro surpreendeu-o agradavelmente. O silêncio, fortuitamente entrecortado pelo ladro abafado de um cão, era profundo. A lua, quarto crescente, arrojava sombras prateadas e errantes sobre o denso arvoredo que havia do outro lado do caminho.

Sentiu um ligeiro ruido do lado direito e, ao virar a cara, deparou com o Fedelho que subia as escadas vagarosamente, agitando o curto rabo. Veio enrolar-se ao seu lado, encostando-se-lhe aos pés. Pousou-lhe a mão no focinho e acariciou-o demoradamente, dizendo-lhe baixinho: “É, meu Fedelho, êl tu nom estabas bém a dormir, é ?” A casota dele ficava por debaixo das escadas. Fora o Belardo que lha construira com tijolos, há muitos anos.

Deixou-se estar bastante tempo sem mexer. Insensivelmente, acabou por se enterrar num estado de dormência que o fez esquecer momentaneamente a brutal realidade da sua consternante vida e reviver os adoráveis momentos que passara com a Lídia. Ah ! Se pudesse mergulhar eternamente na profundidade destes líricos pensamentos... Lembrou-se do que lhe dissera uma vez o Salvador: “Pensar no que se gosta ê bibê-lo .” Tinha que falar com ele. Estava disposto a enfrentar a realidade, prestes a devorar tudo, a renegar-se para viver uma existência comum. Era o seu direito elementar. Acabara por se ver como um moribundo que só vê a maldade latente e manhosa da vida diante dele. A noite, embora dolorosamente, permitia-lhe dar vazão, através dos sonhos, dos pesadelos, ao desencadeamento da violência íntima, da animalidade. Na noite, reina um mundo inquietante, uma solidão insuportável que nos permite manifestar, exteriorizar os nossos males e os nossos conflitos físicos e morais. Se a vida era um obstáculo a forçar, forçá-la-ia, ainda que saisse espumado, sangrado e de rastos. Ai, maldita infância, que não quer morrer ! Era tempo de ser homem. Quanto mais depressa, melhor. “Hai que bater ô ferro enq’anto está quente”, pensou, decidido. Se não visse o Salvador, ia à casa dele.

Levantou-se e pôs-se a mijar do cimo das escadas. Mandou o Fedelho embora, fechou a porta que chiou fugazmente e foi meter-se na cama. Naquela noite, não precisou das revistas da irmã para poder ter um pequeno mas extático e singular momento íntimo de prazer.

Às sete, como fazia diariamente nesta época, o Armindo estava de pé. Ainda era noite. A mãe já estava na cozinha a preparar a cevada. A Delfina acordava bem mais tarde. Não era que tivessem que fazer mas as noites eram cada vez mais longas e insuportáveis. Antes das dez estavam na cama. Descansar demasiado tornava-se aborrecedor, num cansaço cada vez mais fatigante.

Lavou a cara e foi apressadamente para a retrete. A cena repetia-se todas as manhãs. Passava um tempo infinito a aliviar-se. Desde que principiou a fazer as necessidades livremente, ainda pequenino, habituou-se a cantar na retrete, coisa que a mãe, apesar de se ter acostumado, achava disparatada.

Esfarrapou depois para uma das grandes malgas brancas, repleta de cevada com leite, quase meia peça de pão. Tragou a malga de sopas em poucos instantes.

— Tês q’ir à ‘zenha moer um saco de milho, Mindo, hai pouca farinha.

— É quêr que ba pola manham ?

— Ê-m’igual, mêu filho.

Na capoeira, o galo anunciava as primeiras claridades da alvorada que principiavam a manifestar-se com timidez. O céu estava encoberto. Não sabia o que fazer. Queria falar com o Salvador mas... Talvez fosse melhor ir ao moinho de manhã e dar um salto de tarde à casa do amigo.

— Tam’ém tenho qu’ir ber  s’ô Salbador m’arranjou a cana de pesca.

O velho amigo era um enorme amador que conhecia como ninguém os melhores recantos de pesca do riacho. Havia bastantes dias que o rapaz lhe levara a cana que o pai lhe trouxera da França para lhe reparar o carreto que se blocava. A mãe não lhe respondera, sinal de que tanto lhe dava. Ela evitava sempre contrariá-lo. Tinha as suas razões. Os animais podiam passar o dia na corte. Não era a primeira vez nem era o feno que faltava para lhes dar de comer. Assim decidiu.

IX

Quarta-feira, feriado e feira nos Arcos. A Áurea, que se levantava sempre cedo para ir trabalhar, aproveitava, como cada vez que tinha um dia de descanso, para calacear sossegadamente um bocado na cama. Corrigia alguns deveres ou então mergulhava-se na leitura de um dos numerosos livros da biblioteca que tinha sempre à mão e que eram o seu instrumento predilecto de repouso.

Tomara o pequeno-almoço e continuara, preguiçosamente, sentada à mesa, meditativa. A casa onde estava hospedada situava-se na pitoresca parte histórica da vila. Quando não tinha que ir trabalhar, o pequeno-almoço proporcionava-lhe uns momentos de considerável préstimo. Da galeria, onde estava e tomava todas as refeições, via nascer o dia e entrevia uma larga parte do rio que ladeava a estrada de Monção, através dos grandes vidros das diversas janelas. Os raios do sol, ainda fracos, depois de se refractarem nas águas límpidas e serenas do Vez, penetravam os vidros das janelas, acariciando-lhe e aquecendo-lhe modestamente o rosto. Sentia-se bem.

Na casa, viviam os pais da Natália e ela. O pai era funcionário municipal e não estava longe da reforma. A mãe ocupava-se da casa e duns campinhos situados do outro lado do rio, que tinham comprado há muito para poderem economizar nos legumes. O sossego era digno dum mosteiro. A liberdade e o respeito eram totais.

 

(continua)