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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

SOFRIMENTOS INSENSATOS VI

melgaçodomonteàribeira, 07.03.13

 

 

VII

O Armindo, apoiado ao eucalípto que já tinha a marca das suas costas, falava sozinho e ria de satisfação. Sentia-se leve, diferente. Tivera oportunidade de ver o mais perto possível a linda cara da Lídia, a sua pele rosada, os seus olhos mordazes. Havia tanto tempo que pensava nela, que sonhava com ela ! Era verdade que sempre manifestara amizade por ele mas, hoje, pensou descobrir nela, nos seus gestos, no modo como olhava para ele ou como lhe falava, um prazer manifesto e contagioso que nunca lhe tinha visto. Pareceu-lhe ver no seu convite, na sua presença jovial, um preâmbulo, qualquer coisa mais séria, mais sólida. “Quem dera”, ideou, contente.

Nunca vira uma rapariga nua nem nunca tivera relações. A irmã trazia dos Arcos revistas de moda ordinárias e ele, que lhe subtraira duas, regalava-se olhando para os belos manequins de calcinhas e sutiã. Certas noites, na cama, acariciando-se, imaginava que fazia amor com elas. No verão, chegara a espreitar as moças que, às vezes, iam refrescar-se para uma poça que havia no regato, antes das azenhas. Não vira nada pois ficavam com uns saiotes que lhes chegavam aos tornozelos e que, mesmo depois de molhados, apenas deixavam trespassar umas sombras confusas. Portanto, a excitação não era menor. Quando ouvia os outros falar nisso, ficava atrapalhado. Era coisa que evitava para não ser propósito de risadas.

A Rosa, a “rota” do lugar, manifestava uma irresistível perdição pelos homens e especialmente pelos jovens adolescentes que acuava constantemente. Tinha-os desvirgado a todos à excepção do Armindo. Talvez o facto de ser como era, a tivesse premunido de tentar tirar-lhe o virgo. Andava pelos quarenta. Mulher madura, de comportamento ofensivo, provocante, ainda bastante excitante, mexia-se com uma destreza felina e, quando falava com os homens, devorava-os, lançando-lhes desconcertantes olhares de impudência. Umas simples e meigas palavras chegavam-lhe para pôr um homem de pau feito, diziam. Os rapazes contavam que era mais quente do que um braseiro no inverno. Se pudesse, passava o dia por cima dum. Contavam que andava sempre sem calcinhas e que mijava de pé afastando as pernas. Por andar sempre de preto apesar de nunca ter casado, chamavam-lhe a Viúva.

Este pecado polposo, este desejo ardente do corpo levava-a a uma concupiscência animal. E, às que por detrás a criticavam pela sua luxúria, respondia que se se ocupassem melhor dos maridos, estes não teriam razão para andar atrás dela. Frequentava os homens, e não o contrário, que ela queria e quando queria, gabava-se. Vivia com a mãe que nunca saía da casa e, pecado inexpiável, nem à missa iam. O padre do lugar, na sua surda revolta contra o desejo e os prazeres carnais, tentara incutir-lhes o medo do Inferno, alimentado há séculos pela religião, astuta servidora do legislador e do juiz. Tempo perdido. As línguas contavam que, sem ninguém suspeitar, tinha andado grávida duas vezes e duas vezes dera à luz, vendendo seguidamente os filhos. O Salvador, havia alguns meses, dissera-lhe que era mentira. E o Armindo, sem pestanejar, acreditava nele. Até lhe fizera uma promessa que um dia destes lhe pediria para cumprir. Para já, hesitava.

Subitamente, a triste realidade voltou a impor-se-lhe. A deficiência manifestou-se asperamente, lembrando-lhe que não poderia ter quaisquer possibilidades nem que fosse simplesmente de namorar. O rosto tornou-se uma máscara de revolta raivosa contra o infortúnio, contra o mundo. Uma risada nervosa de asco escapou-lhe ao lembrar-se do que a avó Delfina dissera quando, pequenino, ficara aleijado: “Ê como Deus o fijo.” Quantas vezes, quando ao domingo ia à missa com a mãe e a avó, perguntara ao Senhor por que razão o fizera diferente dos outros ! Nunca obtivera resposta. Se fora o Senhor que o fizera assim, nada tinha que lhe agradecer. Pensara mesmo em deixar de ir à missa, se não fosse a imcompreensão e a intolerância da mãe e da avó.

Suspirou. A vida dele, até ali, fora feita de suspiros, de troça e de amargura.

Ainda não tinha vontade de voltar para a casa. Tirou o tabaco e as mortalhas  e, meticulosamente, enrolou o segundo cigarro do dia. Ia fazer-lhe bem, ia relaxá-lo. Acendeu o cigarro, fechou os olhos e tentou exorcismar os funestos pensamentos que não cessavam de o importunar e de lhe corromper a vida.

O lindo rosto da Lídia voltou a assediá-lo. Tinha fé mas, mesmo que não passasse de uma quimera pessoal, para ele tinha um significado extraordinário, indescritível. Os rapazes, que tinham mais ou menos a sua idade, disputavam-se para saber qual deles seria o primeiro a namorar ou até a ir mais longe com a Lídia. Era considerada a moça mais bonita do lugar. Como os pais eram carenciados, os filhos dos mais abastados do lugar consideravam-na como uma presa encurralada, fácil. Quem lhe dera poder mostrar àqueles bazófias, àqueles fabuladores, que sempre o diminuiram e lhe apontaram sem vergonha nem indulgência os defeitos, que tinha outras qualidades, outros sentimentos e outras vontades. Não fora ele o causador da sua imperfeição, e estes, se fossem criaturas de boa vontade e o  quisessem ver, deviam minimizar, tolerar e até esquecer as suas anomalias corporais. As lágrimas, amargas, escorreram-lhe pelas faces.

O balido das cabras fê-lo abrir os olhos e voltar à realidade. Eram horas de regressar. Os animais não precisavam de relógio, a natureza regia-os. Reagrupou-as sem dificuldades. Depois de terem passado o dia a apascentar, estavam ansiosas por regressar ao estábulo. Pegou no saco de pano azul escuro onde trazia o farnel e pô-lo a tiracolo. Enfiou o chapéu usado na cabeça e pegou na vara, que eram um complemento da sua personalidade, e pôs-se a caminho. O balido das cabras encantava-o. Quando estavam satisfeitas, abanavam o chocalho, como os cães abanam o rabo.

Foi calcorreando calmamente o caminho de regresso. As duas vacas, que tinham passado o dia a pastar no campo, ao ouvirem ao longe o tlintlim das cabras que já conheciam, aproximaram-se da grande cancela de madeira, descorada pela chuva e pelo sol, que servia de porta, e esperaram que o rapaz viesse abri-la. Depois, serenamente, como acontecia há vários anos, sem nenhuma injunção, juntavam-se ao cortejo, interpondo-se entre ele e as cabras. A chocalhada, que os animais orquestravam, cadenciava a marcha até ao estábulo.

Quando avistou o cruzeiro, onde os caminhos da azenha e de Lubiô se uniam, deparou com os três súcios do lugar, os mais torcidos. Estavam sentados na base do cruzeiro que formava um quadrado de pedra, e onde, habitualmente, se encontravam. Era o centro “cultural” dos jovens locais. As feições transformaram-se-lhe numa ríspida careta que tentou disfarçar. Andara na escola com eles. O pior era o António, o filho do Rogério, antigo imigrante, que tinha na mão os outros dois. Obedeciam-lhe como se fosse o messias. Um era o filho do Beites, que tinha a única loja do lugar, e o outro era o filho do sacristão, o Gaspar. O António e o Beites estudavam em Melgaço. Os campos e os seus trabalhos, assim como os animais e o estrume, não foram feitos para eles, gabavam-se. Era trabalho de primitivos. Passavam o tempo a limpar o nariz e a contar histórias abjectas que enjoavam o Armindo. Para eles, o Armindo não tinha apenas uma deficiência física; era atrasado, simplesmente.

Mesmo assim, fez os possíveis por esboçar um tímido sorriso que, finalmente, não passou de um ricto.

— Olhade quem bem ali ! Êl ê o Mindo, rapazes ! Bém cô’as namoradas ! – começou o António.

Andavam a estudar há quase cinco anos mas tinham enorme dificuldade em abandonar a fala do monte. Tinham-na tão arraigada como a estupidez.

— É já traz uma prenhada – licitou o Gaspar.

As estrondosas gargalhadas dos outros dois fizeram eco no interior da cabeça do rapaz, ao mesmo tempo que uma raiva animalesca o exortava a reagir abruptamente. A cólera bestial fez-lhe surgir um velho fundo instintivo, mau e brutal. O sangue, a ferver, inundara-lhe o rosto. Conseguiu controlar-se a tempo, reagindo com as mesmas armas que eles, as palavras. Não parou, ao passar por eles. Não tinha medo deles, era uma maneira de marcar o desprezo com que os considerava.

— Bós, enq’anto tuberdes quem trabalhe p’ra bos manter é p’ra bos bestir, sobra-bos tempo p’ra dizerdes baboseiras. Continuade !

Os três energúmenos, assombrados com a inesperada e ultrajante réplica do Armindo, não souberam como reagir, ficando embasbacados, sem fala.

Continuando no mesmo rítmo descontraído que até ali trouxera, juntando-lhe apenas uma pitada de desenvoltura, seguiu em direcção da casa. Sentia-se como um jogador que ganhara uma cartada difícil e inesperada. Os calores que do seu corpo se libertavam fizeram-no tomar a decisão de, a partir dali, não baixar mais a orelha nem deixar-se pisar o rabo por esses asnos. Estava farto de ouvir zombarias, de ser ridicularizado. Iria até ao fim, aguentaria, sem virar a cara, as afrontas e o desprezo desta gente. E, isto, fossem quais fossem as consequências.

Quando entrou no quinteiro, voltavam a cair umas grossas gotas de água. Desta vez não olhou para o céu. Podia cair a cântaros, estava na casa.

 

(continua)