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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

SOFRIMENTOS INSENSATOS III

melgaçodomonteàribeira, 07.03.13

 

 

A Palmira ajudara a mãe a sentar-se na cadeira de balanço, desbotada pelos anos e pelo fumo, que estava ao lado da lareira, depois de esta se ter asseado. Resmungava sempre um bocado para se lavar ou fazer outra coisa qualquer. Com a idade, começava a ficar calaceira, desleixada. Não tinha ânimo para nada. O único esforço que consentia com agrado, e ainda bem, pois era-lhe necessário andar, era ao domingo, para ir à igreja. Mas a filha não a deixava descurar-se e, como o doutor lhe tinha dito, todos os dias a fazia dar umas voltas no quinteiro. Era bom para as pernas e para o coração, dizia-lhe.

A Delfina sentia-se bem, quentinha, ao lado das flâmulas coloridas, companheiras da sua achacosa solidão, que, havia anos, ritmavam os seus frescos e intermináveis dias outonais e invernais.

A filha preparava o caldo para pôr ao lume no pesado pote preto. Batatas inteiras que esfarrapava com o garfo uma vez cozidas, feijões, cenouras cortadas em grossas rodelas, uns grãos de arroz, meio copo de massa de cotovelos muito pequenos, couves esfarrapadas, um pouco de farinha milha, um fio de azeite, sal e um pedaço do fundo do pernil afumado (ou uma chouriça ou um naco de presunto ou unto) eram os ingredientes invariáveis deste excelente e nutritivo caldo que, diariamente, comiam. O único desvio era quando matava uma galinha para a mãe, que gostava muito, e aproveitava para fazer uma deliciosa canja com os miúdos. Uma boa malga, do que se podia considerar uma refeição completa, era mais do que suficiente para cada um deles.

Cozinhava sempre na lareira. Portanto, tinha uma boa cozinha de ferro que lhe comprara o marido em Braga. Os velhos hábitos, enraizados, são difíceis de cambiar. Fazia sempre caldo para dois dias. Era mais cómodo e, como a feijoada, também era mais saboroso quando requecido.

Do tecto, pendia por cima do lume a cadeia de ferro e o gancho em forma de S que servia para prender os potes. Pegou nele e, depois de o prender na alça do pote, enganchou-o num elo do fundo da corrente. Assim, as chamas, mais libres do que se o pote estivesse pousado por cima das brasas, eram maiores e lambiam-lhe o cu vigorosamente.

Olhou para a mãe fortuitamente, que parecia estar irrequieta, e perguntou-lhe se estava bem, quentinha, ao que ela assentiu. Estava bem, estava. Só que os dias, quanto mais passavam, mais longos lhe pareciam. A última carta que receberam da França excitara-a desmedidamente. Nela, o genro deixava planar a possibilidade da sua vinda no Natal. Ainda que assim fosse, faltavam mais de dois meses e ele só costumava certificar verdadeiramente a sua presença o máximo uma semana antes. Entretanto, não desesperava e pedia a ajuda de Deus.

A Delfina gostava muito do Belardo. Talvez mais do que da filha que, quantas vezes, a desdizia, chegando a pisar o limiar do desacato. Ele, sim, era um homem de palavra, de princípios e de respeito. Só tinha uma cara. Na frente dele, a filha remoia bem as palavras antes de abrir a boca. “Home” ! Sabia pô-la no devido lugar quando disparatava. Um simples olhar seu era suficiente para que a mulher o compreendesse imediatamente. “Coitado Belardo pensava. Trabalha tanto, hai tantos anos é tam longe da terra !” Mas, fosse como fosse, tinha fé de que não morreria sem voltar a abraçá-lo. Com ele na casa, os dias tinham mais sol, mas eram demasiado curtos. A última vez que viera fora no ano em que a filha Áurea acabara os estudos no magistério. Ficara contente como um cuco. Que evento ! “Como se fosse onte”, lembrava-se a Delfina, melancólica. Nunca pensara que tal coisa pudesse fazer dele um pai tão feliz. Tinha de quê. Era a primeira e a única professora que o lugar dera. Tinha sido há mais de três anos.

— Bamos, minha mai, bamos dar umas boltinhas p'rô quinteiro.

A pobre mulher, interronpida repentinamente nas suas aprazíveis reminiscências, sobressaltou e olhou para a filha, interrogadora.

— Nom seja manhôsa, minha mai ! Bamos p'rô quinteiro enq’anto nom chobe ou já estab'à dormir ?

Fez uma careta. Eram estes preconceitos insultuosos, estes comentários indecentes da filha que denunciavam a sua pouca paciência para com ela, que desgustavam e nauseavam a Delfina. Há pessoas que irradiam, que aquecem; ela absorbia todo esplendor, todo calor, como um pote ao lume. Levantou-se contrariada e, com a filha que a agarrava pelo braço, desceu as escadas diante do Fedelho, tão contrariado como ela.

IV

O Armindo, de olhos abertos, encostado ao eucalipto, não parava de sonhar. Com a idade dele, tinham ido muitos ganhar a vida para outros lados. Ele não podia ir para lado nenhum. Não avistava escapatória concebível. Avidez tinha ele, faltavam-lhe as possibilidades. Estava condenado a guardar gado e a suportar os olhares e as palavras de abandono, de falsa compaixão. Desconfiava da piedade que exaltava nele um prazer indecente, sentimentos um tanto indignos, uma comichão nas feridas da alma. Sentia-se doente. A sua doença não era a que ele via, mas sim a que lhe mostravam, que lhe impunham. Sentia uma desesperante solidão, um abandono assustador. “Estou bazio”, pensava. Via-se despejado. Nada o impedia de se ver e, portanto, havia anos que não se punha diante dum espelho.  Inchava de desejos em vez de saciar-se. Não incorporava nada, nem bem, nem mal, e a sua alma não era mais do que um odre cheio de vento. Via-se fundido, aspirado, desaparecer num estômago voraz que lhe feria os ossos. Fechou os olhos para constranger os pensamentos incongruentes, incoerentes e insuportáveis que há muito o remoíam, o rasgavam  lentamente.

— Ô Mindo, el tu dormes ?

O rapaz estremeceu. A voz fez-lhe abalar qualquer coisa dentro dele, qualquer coisa que só aquela voz podia atingir e avivar. Reconheceu imediatamente a voz melodiosa da Lídia que o fez sorrir e abrir os olhos com enorme prazer. Para ele, ela era como o orvalho da manhã que revigorava as plantas. Foi um balde de água fria que o reavivou e lhe aliviou, momentaneamente, a queimadura que continuamente o abrasava.

A miúda estava parada por debaixo do carvalho que cobria e ensombrava aquele pedaço do caminho, encostada às pedras do muro, um saco ao ombro e fincada graciosamente na típica vara. Olhava para ele sorrindo, com um ar prazeroso e provocador que demonstrava o degrau de carinho com que o considerava. Com a irmã dele e a avó, fazia parte das pessoas que sempre tiveram uma relação franca com ele, que jamais pronunciaram uma simples palavra de travesso ou lhe lançaram um olhar que o pudesse ferir ou mesmo lembrar-lhe o seu martírio. Era um espelho que reflectia a sua imagem melhorada.

Ficava desatinado quando via a rapariga. Só ela conseguia suscitar-lhe um pouco de gosto, de desejo ou de interesse pela vida. O sangue invadia-lhe o rosto e aquecia-lhe as bochechas. Contente mas confuso, tremia e tinha enorme  dificuldade em coordenar e articular as palavras que lhe saíam fragmentadas com uma fluência incontrolável. Dava-lhe a impressão que, consciente disso, não desagradava à moça e que até a divertia.

— Nom... nom sei !  Enfado-me... aqui sozinho. É tu, onde bás ? À ‘zenha ?

— Si ! Bou moer um saco de centeio. Quêres bir comigo ?

Ficou pasmado, sem fala, durante uns segundos. A moça passava ali de vez em quando e falava-lhe sempre, amistosamente, mas era a primeira vez que o convidava para ir com ela. Ganhava uns tostões indo ao moinho moer o centeio ou o milho das pessoas que não tinham tempo ou não podiam fazê-lo. Não hesitou. Não devia deixar as cabras ao abandono mas o prazer inefável que a sua presença lhe proporcionava e a vontade de poder acompanhá-la à azenha do tio Júlio foi mais forte do que a razão. Pela rapariga, era homem para correr qualquer risco. Quantas vezes sonhara que eram namorados !

— É às cabras, que lhes faço ? – perguntou precipitadamente.

— As cabras nom te bam fugir, home !

Era a resposta que esperava. Nem percebera por que razão perguntara tal coisa. Não podia conter o júbilo que o invadira e perturbava. Sem pensar duas vezes, levantou-se de um salto. Aproximou-se das cabras e disse-lhes com voz forte :

— Nom saiades daqui, oubistes? Nom me criedes problemas, é ?

A rapariga deu uma vibrante gargalhada descobrindo os lindos dentes brancos, bem alinhados, e perguntou-lhe :

— Êl tu crês qu’elas t’entendem?

— Claro que si, mulhêr ! – confirmou  com seriedade.

Agarrou no seu pau e, com um entusiasmo encantador, pegou no saco que a rapariga trazia às costas e foram andando e conversando negligentemente pelo caminho fora, em direcção do regato, da azenha. Sentia-se eufórico como nunca se sentira.

 

(continua)