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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

3° ANIVERSÁRIO DESTA AVENTURA

07.03.13, melgaçodomonteàribeira

 

Desenho de Manuel Igrejas

 

 

Foi em 9/11/2007 que a aventura na teia principiou. Festejamos, pois, o 3° aniversário.

 

RETALHOS DE MELGAÇO NOS ANOS XXX

 

    O frenesi na Vila de Melgaço devia-se à visita do Presidente da República, prestes a acontecer. Como por certo acontecera em outras localidades, o povo mantinha-se em nervosa ansiedade. As crianças da escola davam os últimos retoques nos exercícios de postura e nas roupas. Todos vestiam o melhor que tinham. No quintal da Escola Conde de Ferreira faziam os exercícios finais. Era verão, o calor insuportável, àquela hora, uma da tarde, o sol abrasador em cima da cabeça das crianças! O cabo da Guarda-Fiscal que estava instruindo a criançada, como ainda havia tempo, mandou que fossem a casa buscar algum tipo de chapéu para cobrir a cabeça. Todos moravam perto. O Manuelzinho que estava naquele meio por andar na escola oficial, também foi. O seu irmão Gú improvisou-lhe um gorro com a pala de um sobretudo que estava sendo feito. Na cabeça do garoto parecia um bivaque cinza como o dos militares. Todos acharam interessante aquele chapéu improvisado.

   O cabo instrutor recomendou que quando fossem para o terreiro todos tinham de se desfazer dos chapéus. Tinham desde chapéus de palha a chapéus de papel de jornal. O Manel podia conservar o dele na cabeça por ser inusitado.

   As autoridades da terra, vestidas a rigor ou, de gala quem era militar, estavam em Penso, freguesia limite entre os concelhos de Monção e Melgaço, aguardando a caravana. O Dr. Durães e o Dr. Sá, com suas fardas verdes de oficiais da Legião, o tenente Lopes, e o tenente do Posto da Guarda Fiscal, cheio de cordões brancos, talabarte e dragonas nos ombros. O sargento da Marinha, elegantíssimo, na farda branca. Todos de luvas. Os automóveis da terra também estavam lá. O carro do Pires e do Emiliano estavam com Cruzes de Aviz, emblema da Legião Portuguesa, recortadas, coladas no pára-brisas e nas portas. Os outros carros também enfeitados com bandeiras nacionais.

   Cerca das três horas da tarde chegou a Penso o cortejo. Foi saudado com foguetes, palmas e vivas e seguiu adiante engrossando com os carros da terra. Desde a Loja Nova até ao Terreiro, pela Calçada, o povo ovacionou e acompanhou os automóveis. Na Praça da República estavam formados os Legionários com as espingardas, mas à paisana, os marinheiros do Posto, o efectivo da Guarda-Fiscal, os Bombeiros com os seus fulgurantes capacetes, e as crianças da escola, todas formadas impecavelmente. As autoridades da terra, após apresentarem seus cumprimentos a Sua Excelência, ao descer do automóvel, também foram formar no centro do Terreiro para a revista da praxe. A maioria dos habitantes do concelho estava à volta da praça. Ao descer do carro, o Presidente foi ovacionado delirantemente. Das varandas e janelas caíram cascatas de pétalas de flores. Tudo pronto para a revista de honra. O João Cataluna pôs toda a sua alma de português no potente sopro de seus pulmões, que no clarim tirou os mais vibrantes sons no toque de sentido. Todos se postaram firmes inclusive o povo em volta. O silêncio caiu absoluto sobre tudo e sobre todos no mais profundo respeito e emoção. Só se escutava o cair da água no tanque por detrás do chafariz no cimo do terreiro. Sua Excelência movimentou-se e o João Cataluna soprou o toque de continência. Os oficiais militares levaram a mão à testa. Os militares e legionários, armados, apresentaram as suas armas, os Bombeiros apresentaram os seus machados e machadinhas, os oficiais legionários e as crianças estenderam o braço direito na saudação romana da legião Portuguesa e Mocidade. Vagarosamente, acompanhado do seu Estado-Maior, o Presidente da República começou a passar em revista as ‘’tropas’’ formadas em sua honra.

   Vestidos à paisana, com um fato cinzento que lhe caía impecavelmente, a estatura mediana e porte elegante, rosto oval e com o cabelo bem penteado e já quase todo branco e o inconfundível e imponente bigode, irradiando simpatia e ternura, Sua Excelência, o Presidente da República Portuguesa, General António Óscar de Fragoso Carmona, com expressão séria, com muita atenção ia olhando todos. O povo de Melgaço tinha respeito e admiração por aquele homem, como de resto toda a população simples do País. O povo continuava no mais profundo silêncio. Chegando às crianças da escola, Sua Excelência reparou no Manuelzinho com seu inusitado barrete e, sorrindo, tocou duas vezes com a mão no rosto do garoto, dizendo: - Muito bem, muito bem!

   O rapazinho estava firme como uma rocha, braço estendido, encarnando naquele momento todos os heróis da Pátria de que já ouvira falar. Quando sentiu as mãos e as palavras do Presidente continuou na mesma firmeza mas as lágrimas da emoção escorreram rosto abaixo e um tremendo soluço sufocou-o.

   Após a revista no Terreiro, o Presidente e a comitiva foram ao edifício dos Paços do Concelho. Pouco demoraram e dali foram a São Gregório, à ponte internacional que liga Portugal à Espanha. Uma hora mais tarde passavam novamente pela Vila directos a outras paragens. No dia seguinte o António da Loja Nova foi chamado ao Porto para dar explicações à Policia Internacional e Defesa do Estado. Na ânsia de participar nas homenagens, ele, que era vice-cônsul honorário da Espanha. Hasteara em sua casa comercial a bandeira daquele País. Reconhecida a sua ignorância em protocolo, foi mandado de volta apenas com advertência.

Melgaço, durante bastante tempo, viveu da emoção daquele acontecimento, retalho feliz na existência daquela gente.

 

 

MANUEL FELIX IGREJAS

 

 

 

 

Sofrimentos insensatos

 

I

 

A Palmira empurrou o portão de ferro e puxou-se para o lado. O Fedelho, que a seguia, indiferente, entrou no vasto quinteiro e dirigiu-se para a porta das cortes com passo lento, próprio dum cão de idade avançada – apesar de, aparentemente, ainda conservar um focinho de cachorro – que sabia o que fazia. Era totalmente branco, albino, diziam. Sentou-se, língua de fora, e esperou que a dona, depois de fechar o portão vagarosamente, viesse atirar para o chão o feixe de erva que trazia às costas. Estava longe o tempo em que ia com ela à erva, buscar faúlha ou tojo ao monte, e explorava incessantemente as proximidades do caminho de focinho no chão, à procura de um rasto odorífero de coelho ! Era rafeiro mas fora treinado para a caça, pois tinha um faro anormal. Hoje, custava-lhe fazer o trajecto de ida e volta da casa à leira, distante de algumas centenas de metros.

A Palmira vivera sempre em Orjás. O lugar situava-se na chapada duma pequena encosta. As poucas casas, dispostas de cada um dos lados do caminho, que por uma grande abertura no arvoredo saía da floresta, a um quilómetro dali, vindo de Cubalhão, e que continuava depois até Cavaleiro Alvo e Lubiô, eram majoritariamente antigas e de construção rudimentar. No meio, a velha igreja, toucada com um campanário bicudo em forma de gorro de lã ; por detrás, o cemitério com os muros meios derrubados, algumas cruzes degradadas e tombas enverdecidas. Em frente, ficava a minúscula escola. Mais adiante, uns bons metros, um largo com um vulgar cruzeiro de granito de onde o caminho bifurcava, indo um para Lubiô, passando por Cavaleiro Alvo, e o outro para o moinho do “tio” Júlio. A Palmira vivia numa ampla casa, a cem metros do cruzeiro, no caminho de Lubiô.

Deixou escorrer lentamente o verde feixe de erva para o chão, diante duma grande porta, e sacudiu as costas com uma mão para tirar as ervas que se agarravam à roupa.

Desde que casara e que o homem, o Belardo, fora para a França andava vestida de preto da cabeça aos pés. Só durante as poucas semanas de descanso que, de tempos a outros, ele vinha gozar à terra, é que ela se vestia de cor. Era a tradição. Na região, quando os homens se ausentavam para trabalhar no estrangeiro, as mulheres vestiam-se de preto. Era uma forma de manifestar a mágoa, a tristeza.

Um suspiro silencioso, inconsciente, escapou-lhe impulsivamente. Era uma reacção habitual, rotineira. Embora ainda não fosse velha, tinha feito sessenta anos em maio, a ausência do homem e a vida ríspida do monte começavam a pesar-lhe cada vez mais. Dirigiu-se para as traseiras da casa. Ali, na metade dum grande campo cercada de rede, tinha os galinheiros e, no resto, uns belos tacos com os principais legumes de que gostava. O cão não mexeu, sabia o que ela ia fazer e já não lhe apetecia acompanhá-la. Quando voltou, trazia nos braços umas folhas de boa couve verde. Sentia-se cansada. Seguida pelo Fedelho, subiu as escadas de pedra grosseira, desgastadas pelo atrito, e abriu a porta da casa que rangeu.

— Ês tu, Palmira ? – ouviu, enquanto sacudia a terra dos socos na soleira.

Era a voz, já trémula, da mãe que dormia no quarto ao lado da cozinha. Acordava sempre depois dela. A filha deixava-lhe a porta do quarto entreaberta continuamente. 

O Fedelho deitou-se no chão, no pequeno patamar, como era hábito seu. A Palmira entrou, pousou as couves por cima da mesa da cozinha e respondeu desleixadamente:

— Sou eu, mai, sou.

A cozinha ficava na maior peça da casa que desempenhava duas funções : cozinha e sala de jantar. A parte desta era do lado direito da porta de entrada. A mobília compunha-se de uma grande e maciça mesa central que podia acolher confortavelmente uma dúzia de pessoas, ainda que só tivesse seis cadeiras. Contra a parede interior, quase a meio, estava encostado um enorme armário de ébano, como a mesa e as cadeiras, cuja metade superior vidrada se encontrava entulhada de louça, testemunha de uma época remota. À primeira vista, via-se que havia muito que não era tirada do imponente armário. De um dos lados deste, um quadro do Sagrado Coração de Jesus, do outro, um de Santa Rita. Os dois muros exteriores eram cortados cada um por uma enorme janela. O amarelo das paredes, que o tempo tinha envelhecido, descorado como os mármores expostos ao ar, dava à sala um aspecto demasiado estático, desleixado. Apenas se serviam da sala de jantar quando o padre, na Páscoa, trazia a Cruz para beijarem ou quando o Belardo estava presente.

Do lado esquerdo, encontrava-se a cozinha. De elevadas dimensões, era a vida da casa. A grande laje da lareira ficava encostada ao muro lateral. Junto do lume, a cadeira de balanço da Delfina, há muitos anos no mesmo lugar, imutável, como se estivesse cravada no solo. Contra a parede de divisão, havia um lava-louça, a cozinha de ferro e um móvel comprido, no qual se guardava de tudo e que ocupava quase a metade da parede. Por cima deste, havia uma mixórdia medonha de produtos cerealíferos, de condimentos, de adubos, de oleaginosos, etc. Encostada ao muro exterior restante, que tinha igualmente uma janela como as da sala, havia uma pequena mesa com quatro cadeiras onde comiam o filho, ela e a mãe, ou, quando a Áurea, a filha, estava, os quatro. Era na cozinha que o quotidiano se passava.

Entre a cozinha e a sala de jantar, encontrava-se a porta que dava acesso aos quartos e à retrete, uma simples dependência com um buraco no chão que  despejava directamente os dejectos na corte das vacas.

O sol já não aquecia o suficiente todos os dias. Enquanto não acendia a lareira, a Palmira não tirava a mãe da cama. Como acordava bastante mais tarde do que ela, aproveitava para fazer alguns dos labores habituais da casa. Pôs a cevada com leite a aquecer no pequeno fogareiro a petróleo. Esfarrapou em seguida pão até encher uma grande malga branca com flores avermelhadas pintadas à volta. Era uma malga que a mãe conservara desde o seu casamento e pela qual tinha um apego exagerado. Deitou-lhe depois a cevada que não deixara ferver e acrescentou-lhe duas grandes colheres de açúcar moreno, antes de mexer bem as sopas. Gostava delas bem docinhas. Pôs-lhe um prato por debaixo e foi ao quarto ao lado, onde ela dormia, levar-lhas. Era um antigo quarto de arrumos que, por estar ao lado da cozinha e da lareira, fora arranjado para ela lá poder dormir. A lareira era o único aquecimento que a casa possuia. Pousou as sopas na mesinha de cabeceira e ajudou a mãe a sentar-se na cama. Deitou-lhe um velho xaile de lã pelas costas e pôs-lhe as sopas no regaço.

— Ô mulhêr, isto ê muito p’ra mim !

Não a ouviu. Havia muito que deixara de ouvi-la. Dizia sempre a mesma coisa e sempre a mesma coisa fazia: a malga ficava limpa. Sentou-se aos pés da cama de ferro, que chiou com o seu peso, e, como que hipnotizada, ficou a olhar para a mãe. Não a via. O seu olhar traspassava-a. Esta, sem lhe prestar qualquer atenção, como se estivesse sózinha, comia a um ritmo cadenciado mas contínuo. A pele curtida pelas intempéries, que contrastava com o branco da camisa de dormir, dava-lhe um ar de sagacidade e de consideração.

A Delfina tinha oitenta e cinco anos e, graças a Deus, não se podia queixar. Comia bem, a horas certas, e a saúdinha ia-se entendendo com ela. A única contrariedade eram as pernas que, às vezes, emperravam um pouco e não lhe permitiam  ir dar as voltas que ela desejaria à igreja ou ao cruzeiro. Tinha-se afastado de um mundo escabroso que todavia continuava a ver, embora cada vez menos. Deixava raramente o aconchego caseiro, as pantufas cinzentas de seda e o roupão preto que lhe tinha trazido o Belardo da França.  Contudo, aos domingos, ia  com a filha, com o neto e, quando presente, com a neta assistir ao ofício religioso. Fora naquela capela que a tinham baptizado e que, havia sessenta e seis anos, se tinha casado. Ao fim da missa, gostava de sentar-se num dos bancos de pedra que havia no adro e trocar umas palavras com as pessoas presentes que não deixavam de ir saudá-la e de lhe apertar a mão afectuosamente. Era o único contacto que tinha com o exterior e o seu momento privilegiado.

 

(continua)

 

A.E.C.

 

 

FRONTEIRAS PORTUGUESAS E LEONESAS

 

NOS FINS DO SEC. XII

 

   O que dizemos no texto, relativamente aos limites de Portugal, estriba-se nos fundamentos que vamos apontar.

   Linha da foz do Minho a Melgaço. No Arch. Nacion., M. 12 de For. Ant., nº 3, f. 22 v. acha-se o foral de Melgaço dado em 1181, e na carta de repovoação de Lapella de 1208 renovam-se a este logar os fóros com que tinha sido povoado in diebus regis D. Alfonsi (Liv.2 de Alem-douro, f. 269). Os povoadores de Melgaço pediram para si os foros de Ribadavia, concelho limitrophe na Galliza. Lê-se no preambulo deste diploma que a nova povoação era fundada na terra ou districto de Valadares, districto que, como hoje vemos da situação desta ultima villa, se dilatava ao longo do Minho para o lado de Monção. Affonso I incluiu nos termos do novo municipio metade de Chaviães, logar exactamente situado no ângulo que a linha de Melgaço a Lindoso fórma com o rio Minho, caíndo quasi perpendicularmente sobre elle. Na restauração de Contrasta (Valença) por Affonso II (Liv. de Affonso III, f. 64 v.) affirma el-rei que seu pae já tinha dado um foral áquelle logar, o qual, portanto, remonta á epocha de Sancho I e, talvez, á de Affonso I, porque nem sempre a carta municipal coincide com a origem das povoações, podendo ellas existir anteriormente e, até, terem tido outro foral, hoje perdido. Isto se vê do fraguemento da demanda de Affonso II e suas irmans (lançado no Liv. 3º de Aff. III, f.26), donde consta existir já o castello de Contrasta por morte de Sancho I, porque logo começaram as discordias de Affonso II com as infantas, durante as quaes foi Contrasta tomada pelos leoneses. Que por este lado o districto  mais meridional da Galliza (Toronho) vinha intestar com o Minho é o que se deduz da restituição feita por Fernando II em 1170 á igreja de Tuy de algumas propriedades sitas no seu reino, de que estava desapossada desde o reino antecedente. Entre ellas figura o lugar de Tominho, a menos de uma legua da margem direita do Minho e a pouca maior distancia das bordas do mar (Docum. Da Esp. Sagr., T. 22, Append. XV). Finalmente, o testemunho de R. de Hoveden nos mostra ser então geralmente sabido, que, ao longo da costa, a foz do Minho formava a divisão entre os dous reinos de Leão e Portugal (Hoved. Ann. apud Savile, p. 672).

 

Linha de Melgaço e Lindoso. De dous documentos do cartulario de Feães (Sandoval, Ygles. de Tuy, f. 132 e 137), provavelmente destruído no incendio que devorou aquelle mosteiro no seculo passado, se conhece que pelos annos de 1166 a 1174 este mosteiro era um territorio português; porque, posto aquelles documentos sejam de particulares, nelles se diz que reinava em Portugal Affonso I, não mencionando o rei de Leão. Que as cercanias do logar onde depois se fundou Lindoso pertenciam a Portugal pelos annos de 1160 resulta evidentemente do relatorio da transladação das reliquias de Sancta Eufemia, as quaes por essa epocha foram levadas a Orense. A ermida de Sancta Marinha, onde ellas se achavam estava já então sobre a fronteira e perto de Manin, ultima povoação sobre o rio Lima do lado de Galliza, como Lindoso é do lado de Portugal.

 

RETIRADO DA NET; INFELIZMENTE NÃO SEI INDICAR O NOME DO AUTOR DO TEXTO NEM A ENTIDADE QUE O PUBLICOU. AS MINHAS DESCULPAS. 

 

ILIDIO SOUSA