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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

A CAPITAL 20-9-1924

melgaçodomonteàribeira, 07.03.13

 

 

A  CAPITAL

 

DIARIO REPUBLICANO DA NOITE

 

SABADO, 20 DE SETEMBRO DE 1924

  

COISAS NOSSAS

  

O CONTRABANDO, NA FRONTEIRA DO RIO MINHO,


EXERCE-SE EM LARGA ESCALA DEIXANDO LUCROS


MAGNÍFICOS E A GUARDA FISCAL, OU RECEBE


GRATIFICAÇÕES, OU TEM NELE PARTICIPAÇÃO DIRECTA

 

 

   Monsao, 16 – Como já tive ocasião de dizer, a fronteira do Minho é porta aberta, para a saída de vários géneros para Espanha, o que está causando grandes prejuízos ás classes menos abastadas, que teem de os adquirir por preços eguaes áqueles por que os pagam os contrabandistas.

   No nosso regresso de Vigo o acaso deparou-nos o encontro com um desses contrbandistas, com quem trocámos impressões.

   Devido ao adeantado da hora o nosso informador prometeu-nos varias informações assim como ensinar-nos os locaes mais próprios para a passagem do contrabando, marcando-nos um encontro às Portas do Sol, em Monsão para hontem.

 

   À hora combinada lá estávamos, dispostos a saber como era possível a sahida diária para Espanha dos productos que aparecem nos mercados.

   O nosso cicerone convida-nos a acompanharl-o para a beira do rio, indicando-nos, aqui e ali, os locais onde, pela calada da noite, atracam os barcos galegos que veem buscar o contrabando.

   — E a vigilancia da Guarda Fiscal? – interrogámos.

   — A fronteira está muito mal guarnecida de guarda fiscal. Além disso muitos guardas tambem trazem as mulheres e os filhos no negocio. Como vê, estão comprometidos e teem receio de serem denunciados.

   Imagine que não são só os soldados os implicados na passagem do contrabando; são tambem sargentos e oficiais. Mas estes não se dedicam ao contrabando baixo; andam mais alto e recebem grossas luvas.

   — ! ?

   — Sim. Porque, por aqui, não se passam só ovos, galinhas, carnes e outros generos de passagem facil; passam-se tambem sacas de cacau, gado etc.

   E compreende que estas coisas não se fazem sem prévio acordo com quem está encarregado de vigiar a fronteira.

   Mas isto por aqui ainda não é nada. Vá até Melgaço, onde o rio se atravessa a pé e começa a raia seca, e então terá ocasião de vêr o que é passar contrabando em pleno dia e nas barbas da autoridade.

   — Qual é o negocio mais rentoso do contrabando?

   — Tem epocas. Nesta ocasião são os ovos e as carnes secas. Em Portugal, a duzia de ovos custa 5$50 a 6$00, e nós vendemos em Espanha cada duas dúzias por um duro, que ao cambio do dia regula entre 24$00 a 25$00, deixando-nos assim um lucro de 12$00 a 13$00 em cada duas duzias.

   É verdade que muitas vezes temos que gratificar os guardas; mas quando isso acontece é nos dias de grande passagem. Depois, não ha apalpadeiras para as mulheres que se dedicam ao negocio, sendo-lhe assim facil fazer a passagem.

   — Quando é o melhor dia para o contrabando?

   — O dia das feiras. Como sabe, nesse dia é que nós adquirimos maior quantidade de generos. A fronteira fica tambem completamente desguarnecida, porque a Guarda Fiscal vae prestar serviços à Companhia dos Fósforos.

   — À Companhia dos Fósforos?

   — Sim. É nos dias de feira que os aldeões veem às vilas fazer o seu negocio, e a guarda fiscal, em vez de estar a vigiar a fronteira, vae para as estradas que dão para as aldeias apalpar os tranzeuntes, a fim de lhes caçar a isca e os isqueiros prendendo e autuando aqueles que os trazem, devido a terem metade da multa.

   — Mas não teem eles tambem participação no contrabando apreendido?

   — Teem, mas como já lhe disse, falta-lhes autoridade para procederem, devido a viverem do contrabando, alegando que o Estado não lhes paga o suficiente para se sustentarem e sustentarem as familias.

   — E as autoridades administrativas?

   — Ainda o ano passado a imprensa local e varias entidades fizeram ver ao administrador do concelho as irregularidades que se davam na fronteira. Foi então ordenado um inquerito que deu o resultado de todos os outros: negligencia, falta de capacidade, terminando com a transferencia de alguns guardas.

   Mas ha ainda outro contrabando, tambem importante, e com o qual a guarda fiscal nada tem.

   — Qual é?

   — A emigração clandestina.

   Quizemos averiguar o que se passa com a emigração e os agentes encarregados de velarem na fronteira para que ela não se faça. Mas o nosso informador marca-nos outro encontro, em que nos explicará  quem são os responsáveis pela sahida diaria de centenas de emigrantes sem documentos, para a América, França e Brazil.

 

 ABREU VIEIRA

 

 Camborio Refugiado