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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

FESTA EM SEIXAS

melgaçodomonteàribeira, 07.03.13

  

Seixas - Foto de rapazao

 

   Era a segunda vez que íamos tocar à AAS, Associação dos Amigos de Seixas. A primeira vez fora no carnaval do mesmo ano e, aparentemente, a gente gostara da nossa música. Por isso, naquele dia, dia da festa de São Bento, padroeiro da vila, lá estávamos nós a tocar novamente.

   Seixas é uma linda vila da margem esquerda do rio Minho. A largueza do rio mostra que a foz não está longe e que os efeitos das marés chegam ali.

   Nas ruas, a multidão movia-se como duas ondas, uma de cada lado e em sentido contrario.

   A sala da associação era no primeiro andar de uma antiga fabrica. Estava cheia. Ao ar livre, num largo da vila, havia outro baile com um grupo que se podia considerar uma orquestra: eram uma duzia.

   Foi durante o nosso intervalo, quando estávamos a ver e a apreciar o outro grupo tocar, que se começou a ouvir uma enorme aclamação: “Amália, Amália !” A singular e adorada fadista portuguesa passeava, descontraidamente, pela festa, xale preto pelas costas, em companhia de um homem de certa idade que, pelo estilo, devia ser seu secretário ou empresário. “Amália, Amália !” Era natural que estivesse de visita à zona pois, se tivesse familia ou amizades por ali, não andaria unicamente na companhia de um secretario. Toda a gente gostaria de se mostrar ao lado da grande Amalia. A multidão era cada vez mais numerosa a entoar o seu nome. Os membros do conjunto que actuava, quando perceberam que ela se encontrava na festa, pararam, anunciaram amavelmente  a sua presença ali e, incitados pelas aclamações ensurdecedoras da multidão, convidaram-na a subir ao palco para interpretar uma canção. Depois de uma rapida concertação com o acompanhante, subiu ao palco sob uma torrente de aplausos. Foi um delirio total por parte da gente que, indubitavelmente, não imaginava nem podia acreditar que a maior, mais conhecida e considerada cantora portuguesa os honrasse com a sua presença e os gratificasse, improvisadamente, com uma canção. O reconhecimento que os portugueses lhe tinham estava à altura do seu talento de fadista. Interpretou o velho “Malhão, malhão” e, em dois segundos, pôs as  pessoas alegres, a saltar, como se fossem todas crianças. Foi um momento enternecedor, de sincera amizade partilhada. Só foi pena não termos sido nós a acompanhá-la. Tinha ficado para a história.

   Regressamos à nossa sala e tocamos mais uma hora. Intervalo. Uma da manhã. O estômago dava sinal. Desci e fui à cantina tentar alivia-lo. Numa das mesas estava o Chancas sentado.

   Cada vez que íamos fazer um baile a qualquer lado, havia sempre quem se propusesse como carregador voluntário com a única finalidade de  entrar gratuitamente no baile. Mas também tínhamos meia dúzia de amigos que, quando podiam, se organizavam e não falhavam uma saída nossa. O Chancas fazia parte destes.

   Dirigi-me para o balcão. Havia caldo-verde, coisa boa para satisfazer e acalmar o estômago. “Olha, Coxo, se vais pedir um caldo-verde, pede outro para mim.” Era o Chancas, sentado a uma das numerosas mesas que havia na grande sala. Com as duas malgas na mão, fui instalar-me na sua mesa. Estava numa de caldos-verdes. Já não sabia quantos tinha ingurgitado, disse-me. Além disso, a gaja que os servia estava a ficar danada com ele porque, malandro guloso, fora várias vezes pedir-lhe uma rodela de chouriço, pretextando que ela se tinha esquecido de lha meter no caldo. Estávamos a saborer a deliciosa sopa devagarinho, com um pedacinho de broa, quando entrou o André, nosso amigo, que se dirigiu para o balcão do bar pedir alguma coisa. “Queres ver que o Cabecinhas (alcunha do André) vai apanhar uma boa seca ?”- inquiriu o Chancas. Sem esperar resposta minha, fez-lhe sinal e perguntou-lhe: “André, vais pedir um caldo-verde ?” Não, vou pedir um sumo”, disse. “Olha, não te importas de pedir uma rodela de chouriço para mim ?” - disse-lhe, gentilmente, o Chancas. “A gaja esqueceu-se de  meter chouriço no meu caldo, pá.” O André deu aos ombros, aproximou-se do balcão e quando chegou a sua vez, pediu um Sumol e uma rodela de chouriço, dizendo à mulher que se tinha esquecido de  deitá-la no seu caldo. A mulher, vermelha de calor, no  meio da confusão que, em geral, reina no bar de um recinto de espectaculos durante o intervalo, mal ouviu pedir mais uma rodela de chouriço, fitou atentamente o André e, simultaneamente, num tom de franca irritação, de reprimenda e de contentamento, como se já estivesse à espera, ironisou. “Ai sim ? Desta vez não me leva, não ! Tive muito cuidado em meter-lhe a rodela de chouriço quando lhe dei o caldo-verde há pouco, sabe ? Andava a brincar comigo, mas acabou-se-lhe a brincadeira, meu amigo. Só tem direito a uma rodela, como toda a gente e mais nada. Agora deixe o lugar a outros, se faz o favor !” O André, estupefacto, sem perceber nada do que lhe tinha acontecido, olhava para nós com um ar inocente. O Chancas, malandro, ria e fazia-lhe sinal com a mão para que cagasse, que não fizesse caso da gaja. “Eu não te disse ?”, gracejou divertido, virando-se para mim. Não sei se o Chancas, alguma vez, lhe explicou a brincadeira.

 

Julho de 2010.

 

A. E. C.