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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

SOLDADO 404-40

melgaçodomonteàribeira, 07.03.13

 

 

    A lareira na cozinha quase não se fazia sentir tal era o frio que entrava pelas frinchas de portas e janelas, mal calafetadas com folhas de jornal. Na sala, duas braseiras aqueciam um pouco os pés enregelados; na parede principal, duas litografias, a Rainha D. Amélia numa, seu filho Rei D. Manuel II noutra.

    — Os meus primos, diria Amália, - filha de Félix Igrejas, neta bastarda de condessa – a visitante mais curioso.

    A mesa, nessa noite de Consoada, estava posta para os oito da família. Amália e Ilídio presidiam, em volta os cinco filhos; Ernestina e Guisele, Ná, Tó e Mi. Faltava um, Bé o mais novo, que a guerra levou p’ra longe, levou-o p’rás ilhas dos Açores – como ele diz -, dizia mãe Amália na conversa de vizinhas.

    Não bastava a guerra que tinha acabado na Galiza e no resto da Espanha, que arrasou a terra de sua mãe Conceição, Santa Cristina de Baleixo na Galiza, e que tão mal os tinha feito passar – o irmão Emiliano, Meliano p’rá família e amigos chegados, não diria o mesmo, mas isso era o trabalho dele, na frota -, agora levaram o Bé p’ra outra guerra, para um sítio que ela não conseguia imaginar e isso enchia-a de raiva.

    Guerra sim, mas guerra onde ela controlasse o filho, do frio ao calor, do caldo d’unto ao naco de broa. Foi ela que o pariu!... e agora?

    — Uns montes metidos no meio da auga – berrava p’rás vizinhas.

     Na mesa, o lugar do Bé era ocupado por uma grande fotografia emoldurada do filho soldado, sorriso irreverente, a ler uma carta – quem sabe da namorada?, que a mãe não sabia escrever – devidamente fardado, sob o sol do Faial.

    Debaixo do sorriso benevolente do Ilídio, Amália serviu os pratos dos filhos, Bé incluído.

    Foi-lhes servido o polvo com couves, as tostas e o geremú no fim. Não lhes faltou o tinto do novo, vertido no copo, que naquela noite não se usava tigela.

    A fotografia teve o mesmo tratamento da família, o Bé estava presente.

    Amália, dormiu descansada, sabia que o seu Carricinho estava bem e com eles comungava de um Santo Natal, as raparigas deitadas e o seu Ilídio estava em segurança em casa do Meliano a dar umas voltas de dança e a beber uma tigela, com a musica do rádio que no Inverno era um gaguejo, em vez da concertina de que ela tanto gostava.

    O irmão também gostava, mas desde que se meteu com o maluco do Pires, deu-lhe para a modernice, e agora era o rádio. E até cinema!... Claro que a casa era grande, com garagem e quintal onde não faltava o tanque das lampreias e as uvas colhão de galo. Tinha até aquecimento sem precisar de braseiras, onde é que já se viu!

    No carro, um Ford que o Meliano alugava a quem de médico precisava, ou a senhor p’rás suas voltas, isso sim, gostava ela de andar.

    Chegou a ir a Viana, ver as moças com aquelas voltas, ouro tão rico, nem as mais ricas que apareciam na senhora da Peneda tinham coisa assim; ver o mar – água tanta que o rio parece uma levada – e uma ponte de ferro que parecia um bordado.

    E ao Bom Jesus de Braga, onde faltava a festa, só missa e o farnel, mas tão bonito com aquelas capelinhas todas.

    E São Bento da Porta Aberta… e São Bento do Cando que ficou ali tão perto; até junto de Fiães no S. Bento ficamos, que os ovos cozidos e a lampreia seca ainda estavam quentes e o vinho fresco. Até às carvalheiras de Lordelo em Tangil, na festa do Senhor do Bomfim onde prendiam com alfinetes as notas no manto do santo e davam conta do barril até chegar a hora da Procissão.

    A frota dava-lhe dinheiro mas também muito trabalho, agora estava aqui, logo acolá, o Tó e o Ná ainda davam uma mão nas cobranças do imposto indirecto sobre a mercadoria entrada no concelho – que ele arrematou à Câmara -, mas transportar os galegos fugidos da guerra, com a PIDE e a Guarda sempre atrás, era um risco. Ao pé da casa sabia ele o que fazer, mas quando passava o Douro…

    E a Aninhas cada vez mais tísica deitada naquela cama, só a beber a água da Fonte da Vila, que a outra a matava.

    Mas naquela noite do Menino Jesus, a Amália, nem homem nem frota lhe tiravam o sorriso.

    O seu menino estivera com eles.

    Ninguém cantava o Malhão como ela, e depois de uma malga, atirava o cabelo p’ra trás e saía aquela modinha que não deixava ninguém parado. E foi o que fez.

    Amália, encheu a tigela, olhou para os primos reis pregados na parede, atirou o cabelo para trás, fechou os olhos até ver o filho na guerra e cantou:

 

    Oh Malhão, Malhão,

    Que vida é a tua

    Comer e beber

    Oh de repimpim

    Passear na rua

 

    O Ilídio parecia gozar a essa hora das delícias que o dinheiro da frota proporcionava ao Meliano. Delícias amargas, que o cunhado de bom olho percebeu. O Bé, não estava, o Bé andava p’ra lá.

    As malgas encheram-se e a um chiuuu do Meliano, a rádio calou. Um abraço ao cunhado, um abanão e – não te esqueças que também é meu.

    — Viva o Carriço!

    — Viva!

    — Viva o Carriço!

    — Viva!

    As malgas voltaram a encher-se, outro viva saiu.

    A concertina atirada para um canto por mor da música da rádio, fez a sua entrada a sinal do dono da casa. Logo saltou daquelas gargantas o Ó Oliveira da Serra para em seguida se fazer silêncio e deixar o Ilídio gargantear:

 

    Ó vai ó linda

    Só a mim ninguém me leva

    Ó vai ó linda

    P’r’ onde vai o meu amor

 

    Longe, nuns montes no meio da água, o soldado 404/40 era o rei da Consoada na Vila.

 

(continua)

 

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