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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

CARTA DO MESTRE AEC

melgaçodomonteàribeira, 07.03.13

 

 

Carta de mestre António El Cambório a seu amigo e compadre Dom Cambório Refugiado Lusitanus ou como viviam uns melgacenses em terras de Bracara Augusta nos idos de 972.

 

   Caro amigo: as suas perguntas são verdadeiramente interessantes e impertinentes. Agradeço-lhe imenso por ter pensado em mim para esclarecê-lo.

   Se a minha memória me não atraiçoa, creio que esses singulares companheiros de uma época muito apreciada por nós eram três: dois irmãos e um primo, nativos da modesta vila de Vinhais, terras dos nossos progenitores da Casa de Bragança.

   Pessoas simplórias, bastante rudes, eram possuidoras daquele vilão lapso distintivo das criaturas primitivas que tentam, claudicantemente, modelar e escamotear as maneiras grosseiras que as caracterizam.

   Um deles, como Vossa Senhoria legitimamente mencionou, permitia-se conceber uma hipotética integração no restrito círculo do universo espacial assim como uma improvável presença nos jogos olímpicos de Munique. Pobre plebeu!

   Mas o mais vil, o mais apócrifo era, sem controvérsia, o primo. Havia que ver como ele agarrava nos talheres mal a Dona Adelaide, ex-rameira no chique bairro da nossa graciosa Sé, pousava a travessa com o restrito conteúdo de massa com frango habitual! Que Vossa Senhoria me perdoe, mas parecia o toureiro que esperava o animal para lhe cravar as “banderillas” no lombo. Depois do “Sirvam-se” consuetudinário, ao qual nós respondíamos com a devida e reverente cortesia : “Primeiro vocês”, o ignominioso indivíduo, sem hesitar, cravava o forcado nas duas pernas de frango como se fossem dois trofeus merecidos. Assim passaram semanas sem sabermos qual era o prazer proporcionado pela delicada e refinada carne das pernas dos galináceos. Nem pelos seus congéneres que, como nós, apenas as viam passar, formulava a mais sucinta consideração. Mas para nós, pessoas com princípios e cultas, que vínhamos de terras onde a deferência é rainha, a afronta não podia perdurar.

   Foi graças à perspicácia de Vossa Senhoria que, determinado dia, não podendo suportar mais o seu arrojo grosseiro, usou as mesmas armas que o vil indivíduo, ou seja, não retribuiu a gentileza ao túrbido plebeu e apropriou-se das duas suculentas gambetas do galináceo servindo-se prioritariamente. Lembro-me da careta de contrariedade, de exasperação incontidas que a sua desprezível fisionomia exteriorizou naquele instante e que se traduziu por uma ausência deliberada de vénias para connosco durante um período assaz longo. Coisa que não foi nada desagradável nem perturbadora para pessoas discretas, de valores e de nobre linhagem como nós.

   Ah! A graciosa donzela, a filha da Dona Adelaide, estava no coração de todos nós sem excepção. Quantas vezes a minha frágil mão direita cedeu aos caprichos de uma verga escaldada e endurecida pela atracção que esta excitante e inebriante polposa criatura exercia sobre o meu instável equilíbrio libidinal! Apesar da sua errónea e frígida indiferença, éramos todos escravos do seu charme.

   Vossa Senhoria, as minhas humildes e limitadas reminiscências têm, apesar de tudo, uma distante ideia do amigo da Dona Adelaide que eu, modestamente, designaria de proxeneta, título honorífico nas camadas da plebe.

   Espero sinceramente ter trazido todos os esclarecimentos às delicadas questões que importunavam Vossa Senhoria. Fico, todavia, à Vossa inteira disposição se por acaso uma das respostas o não satistaz.

 

   Rogo-lhe, Vossa Senhoria, que acredite na expressão das minhas mais sinceras e cordiais saudações de benevolência.

 

   Seu vassalo, António El Cambório, Conde de Parada do Monte.  

 

   A. E. C. correu a Europa a nosso pedido e com cartas de Sua Majestade Senhor de Melgaço e afins. A passagem por Bracara Augusta levou-o a terras de Santiago e, mais tarde, às terras Gaulesas onde desenvolveu a arte da escrita e da musica e, em seguida, a de fazer filhos em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo. Encontrou na sua viagem grandes nomes como Carlos de Valença, Arturinho de Monção ou Zé Pequeno de Cousso, todos eles  destacados e irrefragáveis botânicos, pioneiros na exploração e na experimentação das plantas canabináceas, com os quais celebrou tratados herbáceos,  culminando estes na classificação das subespécies do canábis sativa L. e, por conseguinte, no desenvolvimento da kaya em terras da hespaniola. Actualmente, recolhido em terras de Val-de-Marne.

 

António El Cambório