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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

LARÁPIO: PROFISSÃO ÁRDUA II

melgaçodomonteàribeira, 07.03.13

 

 

    Resolvi regressar a Melgaço onde, se tudo corresse bem, o Moisés me preveniria por telegrama, e aproveitar para reconstituir o meu capital bancário que tinha sofrido um desgaste considerável durante aquelas duas semanas. Assim foi.

   Uma semana depois do Ano Novo, recebi o telegrama tão esperado que confirmava o meu ingesso nos TLP.

   Regresso à capital e à rua da Emenda, onde fiquei quase cinco meses. Não ganhava grande coisa, mas chegava para comer e sobrava para ninharias. Os tios do meu amigo nunca quiseram dinheiro por estar no mesmo quarto que o sobrinho e dormirmos na mesma cama.

   O pai do Moisés era sócio da gráfica que havia em Melgaço, onde era imprimido um jornal local, o Notícias de Melgaço e na qual trabalhava. Então, mensalmente, recebia convites para visionar os filmes mais importantes em estreia em Portugal a fim de poder fazer a respectiva crítica no jornal. Como não tinha tempo, enviava os bilhetes para o filho em Lisboa. Durante os poucos meses que estive na capital, vi mais filmes do que no resto da minha vida.

   Uma tarde, depois de uma sessão no São Jorge, descemos a avenida pelo mesmo lado até ao fundo dos Restauradores e fomos merendar a um grande café que ali havia. Já não era a primeira vez e, portanto, conhecíamos bastante bem o ambiente e o género de pessoas que o frequentavam. Havia de tudo: casais de namorados, pseudo-intelectuais, prostitutas, chulos, aposentados, junkies, larápios e pessoas banais, sem interesse, como nós. Era a mistura destas diversidades que nos atraía para aquele café de vez em quando.

   Na mesa ao lado da que nós estávamos sentados, encontravam-se recreados três indivíduos com pouco mais de vinte anos, bem vestidos, camisa com os dois últimos botões desapertados e colarinhos por fora dos casacos, exibindo cordões e pulseiras onerosos e dourados. De cabelos bem penteados e lacados, tinham todo o aspecto de chulos. Mas não o eram.

   Nesse momento, aproximou-se da mesa outro indivíduo igualmente pimpante mas com ar contrariado, quase irritado. Puxou a quarta cadeira e, apenas sentado, perguntou aos outros três com um ar importunado:

   — Ó pá, qual de vós trabalhou ontem à noite na calçada da Estrela ?

   Os três homens olharam uns para os outros, intrigados com a pergunta, e, por fim, um deles pronunciou-se.

   — Fui eu, pá, por quê ?

   — Não gamaste um Opel 1604 S branco com jantes especiais ?

   — Gamei, pois, e foi precisamente por causa das jantes, pá !

   — Pois olha, vais pô-lo no mesmo sítio o mais rapidamente possível porque roubaste o carro da minha irmã, pá ! Estava tão bem na cama hoje de manhã, depois de ter passado uma noite atroz a trabalhar, pá, quando a minha irmã, a chorar, me vem dizer que lhe roubaram o automóvel ! Ó pá, é uma chatice do diabo ! Tem que haver respeito  pelos amigos, carambas !

   Eu e o Moisés, que não perdêramos uma migalha da conversa, tínhamos grandes dificuldades em controlar a vontade incoercível de rir.

   — Concordo contigo, pá, é muito aborrecido, tens toda a razão, mas também deves  perceber que eu não podia adivinhar que o carro era da tua irmã, pá !

   — Prontos, o assunto está arrumado. Quando saires daqui vais pôr o carro no sítio e não se fala mais no caso.

   O outro, contrariado com a facécia, e para temperar o mau humor do colega, disse-lhe alegremente:

   — Não penses mais nisso e vamos mas é tomar alguma coisa. Só é corte porque me encomendaram jantes deste modelo há muito tempo e, para encontrá-las, pá, é um inferno do caraças !

   O outro, que acendera um SG gigante e o guardara no canto da boca, deu duas grandes chupadelas e respondeu-lhe, cansado:

   — Não mo digas, meu ! Por isso fiquei chateado. Nem imaginas as voltas que tive que dar por Lisboa para encontrar estas para a minha irmã, pá ! Isto é um problema...

   Não pudemos aguentar mais. Como se não tivesse nada que ver com a conversa deles, rimos descaradamente, durante uns bons momentos. Estava visto que a profissão de larápio era bem mais difícil e contrariante do que nós pensávamos. Pagámos e regressámos à rua da Emenda.

 

Março de 2010.

 

A. E. C.