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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

A RAIA

melgaçodomonteàribeira, 07.03.13

 

 

PAULA GODINHO

 

FSFH/UNL e CRIA

 

 

   Apesar do desanuviamento das relações entre Portugal e Espanha, com escassos seis anos de premeio, duas obras foram publicadas com uma preocupação similar, em 1758 e em 1764. A primeira, da autoria de Gonçalo da Silva Brandão, denomina-se ‘’Topografia da fronteira, praças e seus contornos, raia seca, costa e fortes da província de Entre Douro e Minho delineada por Gonçalo da Silva Brandão’’, e a segunda, da autoria de D. José Cornide, é uma ‘’Descripcion circunstanciada de la costa de Galicia y raya por onde confina con ele inmediato reino de Portugal hecha en el año de 1764’’.

   No texto de Gonçalo Brandão, a topografia enfatiza as praças-fortes das vilas de fronteira, num itinerário defensivo que circunscreve a raia norte. Na legenda da carta topográfica do rio Minho entre Valença e Melgaço o autor anota que ‘’Continua o rio até Melgaço, onde não há cousa de notar mais que o Salto, penedos de uma e outra parte, por entre os quais corre o rio, e qualquer homem salta de um reino a outro, e por isso se lhe deu o nome de Salto’’. (Brandão, 1758: 10). Alheio à vida local, salienta a vertente de ligação das populações dum e doutro lado do rio que, tal como se notará nas suas observações acerca do castelo de Castro Laboreiro, lhe parece reprovável:

 ‘’Sobre uma serra inacessível está situado o tal castelo, em forma prolongada, diviso em dous de pedra de cantaria. Não sei quem possa defender entrada, nem passagem, e o préstimo que lhe julgo é servir para ninhos de águias (onde há muitas) e covil de ladrões. Os moradores de Castro, gente indómita e intratável, estão aliançados com os galegos’’ Brandão, 1758: 14’’.

   Nas preocupações deste engenheiro, a quem o marquês de Pombal encomendara a inspecção da raia, é evidente a perspectiva exterior, de um Estado que quer conhecer-se a partir do centro, com a finalidade de identificar as potencialidades e as riquezas.

   Da mesma época é a obra de D. José Carnide (1764). Enquanto na do português Brandão encontramos laivos regionalistas, este é um texto caracteristicamente  iluminista,  assente na discrição enciclopédica  da geografia e com idênticas preocupações de cariz militar.(7)

   No texto de Cornide assume uma feição paradoxal a atenção dada parágrafos sucessivos à existência de lugares mistos (de convivência entre portugueses e espanhóis) e a intransponibilidade da fronteira em termos militares. Se nas duas obras se enumeram e caracterizam as barras, atalaias, castelos e fortificações, Cornide descreve-os em ambos os países, enquanto na obra de Brandão só o lado português era alvo de atenção circunstanciada.

 

   (7) Estes cuidados ficam patentes acerca de um convento em Verín que ‘’pode surgir numa urgência como hospital de campanha (Cornide , 1564: 159), em considerações  acerca de Castro Laboreiro: ‘’Na parte de Portugal há um castelo antigo de pouca defesa e menos fortaleza: mas está situado num cerro tão empinado, escabroso e rodeado  de montanhas tão inacessíveis que parece impossível atacá-lo, nem depois serviria de muito.’’ (Cornide, 1764: 147), ou na avaliação que faz da disponibilidade  de homens robustos para a guerra a quem só faltariam as armas e os chefes para poderem conter os inimigos (Cornide 1764: 154).

 

 

Texto integral em www.euskomedia.org

 

Camborio Refugiado 

 

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