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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MARIA RODRIGUEZ, A "GITANA"

melgaçodomonteàribeira, 07.03.13

  

Antiga loja do Zequinha e antigo quartel da guarda-civil – Ponte Barxas

 

 

Começo dos anos setenta. O mundo estava em pleno "peace and love". Nós, em plena adolescência. Como todos sabem, é uma etapa, um período difícil. Queremos afirmar-nos, principiamos a formatar o nosso carácter, a criar uma certa independência, a mostrar as nossas preferências, as nossas escolhas contraditórias e, em geral, é quando a ruptura com a precedente geração se manifesta. Nós não infringimos as regras. Deixamo-nos arrastar alegremente pela enorme vaga de pacifismo e de amor, vinda do outro lado do Atlântico e que, como quase tudo o que de lá vinha,  agitava uma grande parte da Europa. O seu princípio seduzira-nos e contribuía para que nos arrebatássemos da nossa personalidade, das nossas veleidades e exibíssemos, cautelosamente, uma relativa liberdade. As diferentes influências provinham de formas e de fontes diversas. A televisão, as revistas, a música, as cidades onde alguns prosseguiam os estudos e as viagens ao estrangeiro que eu efectuava anualmente e de onde trazia matéria para alimentar o nosso "trip" filosófico, formavam o conteúdo donde nós extraíamos tudo o que tinha que ver de perto ou de longe com o nosso singular mas quão quimérico sonho.

Éramos um bando de cinco adolescentes. Entre os mais novos e o mais velho, havia uma digressão de dois anos. Partilháramos, practicamente todos, as brincadeiras da infância pelos campos, pelos caminhos do rio, pelas ruas da Vila e pelas muralhas do castelo, assim como as aflitivas angústias nos bancos safados da escola. Tivéramos que abordar a adolescência por caminhos divergentes, pois nem as vontades pessoais nem as capacidades familiares eram similares. Foi o influxo desta corrente de doçura, vinda de tão longe, que contribuiu para que fortalecêssemos intensamente a nossa amizade e continuássemos  sempre unidos.

Descobrimos os inúmeros grupos de rock anglo-americanos. A música passou a fazer parte de nós a tal ponto que decidimos montar um grupo imaginário. Chamámos-lhe "A Chave". Eu era o guitarra solo, o Costa Velho, o guitarra baixo, o Tónio da Dores, o baterista e o Bandola, o organista. Como todo grupo que se respeitava, também tínhamos um sonoplasta, o Ilídio Carriço.  Só eu sabia fazer uns acordes numa guitarra seca que tinha. Os "ensaios" fazíamo-los à força de grandes rugidos e enorme inferneira na casa do meu pai, na Calçada, à qual passámos a chamar  o "Clube Chateau d'Eau". Foi naquela época que vieram a Melgaço, ao Cine Pelicano, dois conjuntos espanhóis que nos impressionaram grandemente (o termo de banda, naquela altura, era  utilizado unicamente para designar um número bastante elevado de músicos que, geralmente, interpretavam partituras populares nas festas): o Nueva Generación e o Edison. Este último tinha um sonoplasta ao qual chamavam Tripa, por ser magricela. O Zé Castro, grande trocista melgacense, reparando que o Ilídio Carriço, questão magreza, nada tinha a invejar ao técnico dos Edison, encontrou-lhe imediatamente a alcunha apropriada. A partir dali, o sonoplasta d'A Chave também se chamaria Tripa ! Nunca mais lhe saiu. Nesse mesmo ano, estava instalado no largo diante da câmara municipal o Circo Merito, por todos totalmente desconhecido, ignorado, sem interesse algum. No cimo do capitel, os altifalantes espalhavam vezes sem conta durante o dia o Proud Mary e o Suzie Q, versões dos CCR, grupo californiano que tinha um sucesso esmagador. Ficámos petrificados de emoção e de prazer ! Era esta a nossa música, a que nos fazia vibrar no nosso íntimo profundo, que nos procurava um bem estar imensurável e que nos estimulava na procura da nossa via. Agiu sobre nós como uma forma de deliquescência.

Deixamos crescer o cabelo, mas não com excesso. E, para nos parecermos mais que tudo com os nossos ídolos, tivemos que usar de artimanha. Assim, os jeans americanos que compráramos em Espanha, depois de diversas lavadelas, foram manchados com lexívia diluida em água. Em seguida, ainda molhados, para lhes inculcar um aspecto de grande desgaste, esfregamo-los com areia das obras, servindo-nos duma pedra. Quanto mais esfarrapados e ar de velhos tinham, melhor. A finalidade era mostrar que éramos hippies mas não da última hora. A camisa às flores, que todo verdadeiro baba cool devia exibir com aparato, e as camisolas interiores brancas, totalmente escritas com nomes de grupos e com os mundialmente conhecidos make love, not war, peace and love, faziam parte da vestimenta. E, como não podíamos andar descalços, as sapatilhas de corda espanholas eram o mais indicado.

Aos sábados à noite, ainda que o bando não estivesse completo, encontrávamo-nos no Café Central que funcionava como o nosso quartel geral. Quaisquer que fossem as decisões ou as orientações a seguir, eram tomadas lá. Regra geral, apenas saíamos quando havia um baile nos arredores. Se por casualidade não se apresentasse uma alternativa melhor, ficávamos por ali, na conversa, deitando um olho de vez em quanto à televisão espanhola que, além de ter uns programas mais ou menos potáveis, era a única que se captava correctamente. E, alternadamente, um batendo com as mãos por cima da mesa fazendo a bateria e os outros imitando os seus instrumentos com a boca, armávamos a discórdia e a zizânia entre a gente que não largava do olhar os maço de notas de mil pesetas que o apresentador do jogo Um, dos, três, responda otra vez distribuia sem cessar aos participantes. Então, o Zidro, com o dedo aberto diante do nariz, fazia-nos cheee! Interrompíamos o sonho a pessoas que sabiam que naquela vila, em toda a vida, nunca ganhariam, a trabalhar, metade do dinheiro que naqueles maços viam. A cena reproduzia-se várias vezes na noite. Não havendo na Vila outro sujeito de distracção que não fosse o cinema e a televisão nos cafés, as pessoas repartiam-se por ambos.

Aos domingos de manhã, antes de almoçar, e consoante as vontades de cada um, o Tónio da Dores espontáva-nos o cabelo e fazia-nos o respectivo penteado na barbearia do Gildo onde trabalhava. Estava bem visto, faziam-lhe confiança. À tarde, para onde quer que fosse a nossa partida, estávamos apresentáveis, bem lambidinhos. Em princípio, íamos até ao Peso, ao café do Luis onde se bailava toda a tarde. Ou então, no verão, aproveitávamos a refrescante sombra das Águas (as termas) e galanteávamos as meninas convidando-as a dar um passeio nos pequenos barcos ali existentes num modesto lago, feito com a retenção da água de um arroio e de um rego que por ali passavam. O local era propício para cortejar. O denso e razoável aglomerado de árvores e arbustos, onde os verdes se sucediam sem se parecerem, era considerado o paraiso do bem-estar, do repouso e do apaziguamento interior. Nós sentíamo-nos demasiado novos, sem suficiente serenidade para passarmos horas sentados num banco a falar dum passado que apenas principiáramos a construir. Quando encontrávamos moças que simpatizavam connosco, organizávamos pequenos bailes num montículo frente ao lago. Um dos dois bancos de espessa pedra que ali se encontravam servia para pousar meia dúzia de discos e o pequeno gira-discos a pilhas que minha irmã me oferecera e que, de vez em quando, levávamos. No outro, sentavam-se as donzelas.

A grande maioria dos nossos deslocamentos era feita a pé. Tanto de dia como de noite. Era um intenso prazer. Cantávamos, brincávamos, falávamos com as pessoas que por ventura encotrávamos... Gozávamos os momentos em qualquer momento. Mas isto apenas quando as distâncias faziam parte dos nossos limites. Nos outros casos, a boleia, que era uma componente da filosofia hippie, era por nós plebiscitada.

Havia uns tempos que não sulcávamos as estradas da vizinha Espanha. Para nós, não era ir ao estrangeiro. A Galiza era a continuação do Minho. Desde pequeninos que nos apropriáramos reciprocamente. Quantos homens e mulheres cruzaram, nos dois sentidos, as margens do Minho, do Trancoso e da raia seca para formarem família ! Uma colega de escola disse-me há uns tempos, e com muito discernimento, que todos tínhamos uma costela galega. Havia e há uma determinada emulação entre nós, como há entre países, cidades, vilas, aldeias ou lugares mas nunca se sentiu necessidade de demarcar limites. Também houve sempre troca de palavras de escárnio, de gozo mas sempre com um determinado respeito. Nunca tivemos reacções racistas, de repúdio ou injúria.

Usualmente, quando íamos visitar os nossos vizinhos, era em dia de festa, numerosas no ano. Também acompanhávamos o nosso clube de futebol, o SCM, quando lá ia enfrentar uma equipa local. Senão, acabávamos sempre na Notária. Era para lá que, nos dias de pausa festiva, convergia a juventude da zona. Havia um cinema e o Club Nuestro Lar que fora fundado pelo padre da aldeia. Podia-se jogar aos matraquilhos, ao ping-pong, ficar sentado a uma mesa a discutir, ler um livro da biblioteca do clube e mesmo dançar. O ambiente em Espanha era particular. Tínhamos decidido lá ir, depois de uns meses de ausência.

Era domingo. Encontrámo-nos, como sempre, no Central. Depois de tomarmos café, pusemo-nos a caminho de S. Gregório. Estava um belo dia de sol. Apenas havia nove quilómetros e fomos a pé, assim tínhamos resolvido. Calmamente e na brincadeira, íamos progredindo. Ao sairmos da curva da Portela, ultrapassou-nos na sua motorizada o patrão do Tónio da Dores, o Gildo. Acenámos-lhe, como fazíamos a toda a gente, conhecida ou não. Víamo-lo passar cada vez que nos movíamos para aqueles sítios, mais ou menos à mesma hora. Sabíamos que ia à Espanha mas, a que sítio, nunca o soubemos nem nunca lá o encontrámos.

Continuámos a nossa andadura e chegámos à "recta do Val". Num campo, por cima da estrada, estava um fenómeno nosso conhecido a quem chamavam o Bombeiro. Andava a sulfatar na companhia da mulher que era quem trazia a máquina às costas e accionava a manivela. Ele, com a lança, limitava-se a dispersar o sulfato pelas vinhas. O Tripa, virando-se para nós, comentou em voz alta:

— O gajo não é burro. A mulher é que aguenta o peso da máquina !

O Bombeiro, que ouviu, virou o olhar para o intrometido que se permitira fazer um comentário sobre a sua ardileza e lamentou:

— É muito triste ser ignorante !

Demos umas boas gargalhadas. Claro que o homem tinha razão ! Suportar o peso da máquina cheia, custa, mas não é preciso frequentar a escola das Belas Artes. O difícil é saber onde se deve deitar o sulfato. A isto se resumia, visivelmente, o raciocínio do Bombeiro, sem se poder afastar uma ponta de malandrice da sua parte. Este sucesso fomentara a nossa boa disposição. Em Paços, fizemos uma alta na tasca do tio Abílio Soutulho para refrescar as goelas, antes de continuarmos até à fronteira.

Em São Gregório passámos diante da alfândega e descemos a estrada até ao fundo da rua Verde onde, em frente, metade do caminho empedrado que ia até ao regato, descia a pique. Quando chegámos ao fundo, ficámos parados observando as casas em ruinas junto do riacho, discutindo como se fôssemos turistas e, ao mesmo tempo, com um olho no outro lado. Era o nosso método para sabermos se algum guarda fiscal ou civil se encontrava pelas paragens. Não havia sinais de presença policial em nenhum dos lados. Saltámos as pedras que ali tinham sido postas para facilitar a passagem e encontrámo-nos no lado espanhol. Subimos o caminho que conduzia à estrada, quase em frente do quartel da guarda civil. Ficámos a transpirar. Sentámo-nos à sombra, numas pedras junto da loja do Zéquinha, antes de continuarmos até à Notária.

E foi nesse momento que um grupo de raparigas vindo do lado do Pueblado se foi aproximando de nós. Eram todas umas mais bonitas do que as outras mas, no meado, uma delas destacava-se. Perfeita, fisicamente, era morena, tinha uma cabeleira preta bem farta e uma linda cara de cigana. Eram quatro e não tivemos dificuldades em engendrar conversa. Apresentaram-se como sendo dali, umas filhas de guardas civis e outras filhas de trabalhadores especializados da barragem que viviam no Pueblado. Nós, gabarolas, éramos os componentes de um grupo de rock do Porto, A Chave. Estávamos em Melgaço gozando uns dias de férias. Sentaram-se na nossa frente e fomos falando e rindo com elas. Estávamos os cinco pendentes dos lábios da gitana que era a que mais falava. Chamava-se Maria Rodriguez. Não fomos mais além. A Notária ficaria para outra vez. Ali passámos a tarde dando uns passeios pela estrada. À tardinha, regressámos a Melgaço depois de lhes termos prometido que brevemente volveríamos a visitá-las.

Passaram-se duas semanas. Um dia, no terreiro, um de nós encontrou o Bolas, nosso amigo, que lhe disse que tinha ido à Espanha e que encontrara umas raparigas que lhe perguntaram por uns gajos assim e assim, que diziam tocar num conjunto e ser do Porto. “Claro que lhes disse que conhecia tais rapazes mas que não eram do Porto mas sim de Melgaço e que nem tocavam em conjunto nenhum. Estais lixados. Agora não podeis ir lá.“ E ria-se. Estragara-nos o repolho ! Tivemos que começar a evita-lo pois, cada vez que nos encontrava repetia-nos a história. Ficámos furibundos mas tivemos que conformar-nos. Eram assim as patifarias na Vila. E tivemos igualmente que evitar de ir ao outro lado durante uns tempos.

 

Dezembro de 2009.

 

A. El Cambório.