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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

LEGIÃO PORTUGUESA EM MELGAÇO

melgaçodomonteàribeira, 07.03.13

 

 

Rio, 26 de Setembro de 2009

 

Primo Ilídio.

 

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   Sobre o Tio EMILIANO: alfaiate como obrigatoriamente todos os filhos homens do Félix Igrejas, quando mais espigadote foi ser fiel (empregado de confiança) do Júlio Esteves, filho mais velho do António da Loja Nova, que, após estudar e não sei com que capital, montou um armazém atacadista. Aquele mesmo do Artur Teixeira na garagem da Calçada. Aliás o Artur Teixeira (contavam) como empregado de escritório passou o dono para trás assumindo o negócio.

   O Emiliano na condição de funcionário da confiança fazia e desfazia tirando bom proveito, contrabandeando por conta própria, tanto como no tempo do Teixeira o Manuel da Garagem (Manuel Lourenço) fez a mesma coisa. Daí que, (conclusão minha) o Emiliano teve capital para comprar e reformar a casa da avenida e comprar automóvel à sociedade com o Pires, e depois o próprio carro. Alguma coisa grave aconteceu, pois que, eu garoto, na faixa dos oito anos e vivendo com o tio Emiliano, verifiquei que este manifestava grande rancor pelo Júlio Esteves.

   Eu já manifestava pendor artístico e o tio Emiliano mandou que eu copiasse uma figura caricata da banda desenhada que vinha no Primeiro de Janeiro, parecida com o Júlio Esteves, para fazer chacota do mesmo. Curioso, tendo grande aversão ao dito Júlio Esteves (por que havia descoberto alguma tramóia e o despedido) , quando aquele faleceu, o Emiliano vestiu o seu fato azul marinho e gravata preta indo ao enterro, porém, mantendo-se no final do cortejo fúnebre, em atitude de respeito e não de vingança.

   O Emiliano teve relativo sucesso nessa fase da vida pois arrematou o direito de cobrar o imposto indirecto da Câmara Municipal (arrematante como era conhecido?). O Lucas rapazote nessa altura, era uma espécie de almocreve (sem besta) do Emiliano, daí o relacionamento com a minha irmã que acabou em casamento contra a vontade do pai, por o rapaz ser um sem eira nem beira aprendiz de carpinteiro.

   A par da actividade de arrematante tinha o carro de praça. Durante a guerra civil espanhola e já antes, a situação politica naquela país era tormentosa com perseguições e crimes. Daí que, nos cochichos entre contrabandistas, sabia-se de espanhóis que queriam se refugiar em Portugal, Lisboa, onde podiam passar despercebidos. O Emiliano engajou-se nesse transporte que lhe rendia bom dinheiro. Vez por outra não conseguia burlar a polícia no trajecto, o que lhe causou várias prisões que cumpriu na penitenciária do Porto. Num desses fretes aconteceu de, em Alenquer, ser abalroado por uma camionete que lhe amassou o guarda lamas dianteiro direito do ‘’Andorinha’’. O chaufer da camionete verificando não haver vitimas (o Emiliano e o espanhol) fez menção de fugir com o seu veículo, uma vez que fora o culpado. O Emiliano pegou o punhal que sempre carregava debaixo do banco dianteiro, com que ameaçou o outro motorista tirando a chave de ignição aguardando a chegada da autoridade. Quando chegou a polícia de trânsito o motorista da camionete acusou o Emiliano de agressão física com arma branca. O guarda pediu documentos e o Emiliano exibiu a carteira da Legião Portuguesa. Ao ver aquele documento replicou ao acusador: ‘’ele pode usar a arma que quiser’’. Desde esse acontecimento, lembro bem, o Emiliano não ia para mais longe sem levar a carteirinha  e por na lapela o emblema da Legião. Daquele acidente deixou o carro em Alenquer para ser recuperado, o que aconteceu e ficou bom, indo apanhá-lo mais tarde algumas semanas. O que aconteceu ao passageiro clandestino não sei, acho que chegou ao destino.

   Ser da Legião Portuguesa, logo no início dessa invenção ‘’patriótica’’, era moda que dava status. Todas as pessoas gradas se filiaram e os pretensiosos imitaram. Jamais vi estes personagens participarem dos exercícios, apenas a ráia miúda e os que almejavam emprego público e os já empregados. Lembro sim, desses ditos personagens participarem da fotografia ‘’histórica’’ que o Pires tirou de toda a tropa, fardados e paisanos, formados na avenida. Levou toda uma manhã de domingo postando-se em vários trechos até o Pires achar ser o ângulo ideal e luz apropriada.

 

Excerto de carta escrita por Manuel Igrejas a Ilídio de Sousa, Setembro 2009

 

 

Camborio Refugiado