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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

ANTI-SALAZARISMO EM MELGAÇO

07.03.13, melgaçodomonteàribeira

 

 

PARA  HISTA

 

      O que pedes não está ao meu alcance, não faço ideia que alguém se tenha debruçado sobre o assunto. O Paiva Couceiro, além de monárquico empedernido, corrido do nosso Portugal na 1ª Republica, regressou e logo virou costas ao de Santa Comba Dão, ao Cerejeira e companhia. Homem de guerras, África ou Europa, ia a todas, passou o tempo em jogos de guerra, digo eu, e foi aproveitado pelas forças anti-salazaristas para, pelo menos, chatear o regime.

      Vou transcrever parte de uma carta, correspondência pessoal, datada de Rio de Janeiro, 6 de Fevereiro de 1997, escrita pelo Sr. Manuel Igrejas que por certo não se zangará por esta pequena traição:

 

      É realmente lamentável que a produção cultural do Vasco tenha-se extraviado. Se bem que, me parece ele não deve ter muita coisa guardada. A não ser as revistas teatrais que eram dactilografadas e devia ter cópias, os demais escritos ele os fazia sobre qualquer papel que estivesse à mão, de embrulho e até jornal. Não era muito organizado e o que escrevia em prosa ou verso em momentos de inspiração, deixava ao Deus-dará. Ele mesmo perdia as coisas.

      Durante quase três anos em que fui seu ajudante na Central, muita coisa aprendi. Só não conseguiu catequizar-me quanto à sua pseudo ideologia comunista; isso porquê, acho que nem ele acreditava no que dizia, produto da convivência na prisão com intelectuais, activistas profissionais também reclusos.

      Esteve preso, acho, mais que uma vez por motivos políticos. A última vez, bastantes anos, foi maltratado perdendo quase totalmente seu vigor físico. Quando moço era robusto; suspendia um saco de farinha de 60 kg só com um braço. Nessa altura da juventude ele ajudava num forno de pão (não sei qual).

      Na época que convivi com ele beirava os cinquenta anos, para afirmar o que dizia fez braço-de-ferro na minha presença, ou seja, suspendeu-se na bandeira da porta só com um braço.

      A última prisão dele e mais prolongada deveu-se ao flagrante, transportando em seu carro (Fiat de praça) o Paiva Couceiro, que da fronteira dirigia-se, creio, ao Porto, afim de encabeçar uma insurreição.

      Embora soubesse doutros elementos envolvidos na conspiração não denunciou ninguém. Alegou que fora contratado para fazer o frete. Na altura era casado com a Zinda (Ermezinda) e tinham quatro filhos, o António (alcunha Charlot), o Francisco, a Maria Tereza e a Elsa. Estas duas vieram para o Brasil e em 1970 visitei-as em Santos, São Paulo.

      O nosso amigo Vasco na prisão fez um filho a uma assistente social. Ele me contou que apareciam na penitenciária grupos incumbidos de fazer palestras sobre religião e especialmente comportamento cívico (maneiras de agradar ao governo). Com uma das garotas ele estendia o assunto acabando em atracção física. Julgado sobre esse incidente foi absolvido pois a moça é que se foi oferecer. Dessa atracção nasceu um filho chamado Vasco. Quando a Zinda faleceu, vítima, ao que falavam as más línguas, dum aborto mal sucedido, a tal Assistente Social, que já era casada, escreveu-lhe propondo juntarem-se; abandonaria o marido. Eu li essa carta. Ele não respondeu. Após alguns anos de viuvez deu-se o romance com a Biti e esse deve ter sido o período mais fértil do seu génio artístico. Ele a conquistou com cartas românticas e poesias apaixonadas.

      Curioso, nas nossas palestras em tardes de pasmaceira ele falava-me sobre filosofia socialista, sobre a igualdade que imperava na União Soviética, onde todos eram camaradas, os direitos sagrados da cada cidadão, etc.etc., ou seja, o ideal da humanidade materialista. Enquanto isso de vez em quando se contradizia pois além de ter comportamento burguês demonstrava grande sentimento religioso. Respeitava e era respeitado por todos os padres da região. Falava sobre teologia e acreditava nos fundamentos do catolicismo.

 

      Tive informação de fonte directa que os companheiros anti-salazaristas do Vasco em Melgaço estavam muito bem organizados, constituíam uma rede cujos elementos pertenciam a uma classe média respeitada, trabalhadora, acima de qualquer suspeita. Será que o teu avô se enquadra neste cenário (Melgaço, fins dos anos trinta)? Não tens mais pistas, nomes, etc.?

 

Um abraço

 

Ilídio Sousa

 

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