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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

VIVA GALIZA LIBRE I

melgaçodomonteàribeira, 05.03.13

 

Ângelo com uma das suas relíquias.

 

 

Corria o ano de 1975. Do Terreiro do Paço em Lisboa, parte um wolkswagen azul, rumo a Melgaço. 4 ocupantes. O Lúcio condutor e proprietário da viatura, o Zé Cadete e eu trabalhamos nos Correios. O 4º, madeirense do Norte da ilha, do Seixal, estudante de História na Universidade de Lisboa, João Ribeiro, o João Canelas.

O clima político de Portugal é explosivo.

As forças de extrema-direita organizam-se em torno da Igreja Católica, mais concretamente, em torno do cónego Melo, "dono" do Arcebispado de Braga, o 1º de Portugal e que data da ocupação romana da Península Ibérica. As sedes do partido comunista no Norte do País são arrasadas.

O exército espanhol colabora e fornece armas.

Melgaço é a porta de entrada e saída entre Portugal e Espanha.

O Canelas queria conhecer Melgaço porque era no Norte.

O Zé porque conhecia as histórias que eu contava e queria autenticar a sua veracidade.

O Lúcio, esse tinha por objectivo ir a Espanha comprar aguardente, Marie Brizard.

Eu só queria saber novidades e beber um copo com os amigos.

Entre 8 a 10 horas para fazer 500 km. Um martírio para chegar ao Paraíso.

Recebidos entusiasticamente e logo acomodados começou a visita guiada. Só o Lúcio não estava contente porque ainda tínhamos tempo para ir a Espanha e depois sim conhecer Melgaço.

Tanto chateou que logo ali me comprometi a arranjar-lhe a aguardente no momento, sem precisar de ir a Espanha. Metemos pelas ruelas da vila, igreja aqui, igreja ali, e o Lúcio já não sabia onde estava. Entramos no bar do meu amigo Comandante, expus-lhe o assunto e o Comandante pôs o Lúcio ao corrente da situação.

Passar para Espanha estava difícil, tinham sido apreendidos explosivos numa garagem, pertença dum nazi convicto, e havia tropa dos dois lados da fronteira.

E ele não tinha de momento nenhuma garrafa que pudesse dispensar.

— Porquê não vais ao Ângelo, carai, ele arranja-te o que precisares.

Mais umas voltas pelas mesmas ruelas e igrejas e o Lúcio já a dizer que Melgaço é uma cidade.

— Ó amiguinho, por aqui? Dá cá um abraço rapaz.

— Ó Ti Ângelo, como vai essa vida? Dê cá um abraço.

(O Ti Ângelo, alfaiate, na altura com os seus 60 anos era conhecido mais pela malandragem do que pela obra. Durante o regime de Salazar em que era proibido mostrar 1 cm de pele feminina, todo a gente de Melgaço espalhada pelo mundo se lembrava de levar para o Ângelo tudo o que pudesse relacionado com sexo. Imagine a colecção.)

Apresentei o problema ao Ti Ângelo e a resposta foi a esperada.

— Quantas queres? Mas isso não é p'ra ti... tu bebes do nosso!...

— Não Ti Ângelo, é para o meu amigo Lúcio, mas no preço é para mim.

— Duas, se faz favor, diz o Lúcio.

Enquanto o Ti Ângelo se retirava para o reservado da alfaiataria eu entretia a rapaziada.

O Ti Ângelo regressou sorrateiro, o Lúcio de costas.

— Ó amigo, chega-lhe este?

O Lúcio corou, ficou pálido e deu meia volta.

O Ti Ângelo segurava um das Caldas.

Rebentaram as gargalhadas ao mesmo tempo que o Lúcio desaparecia.

 

(continua)