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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

VIAGEM A CASTRO LABOREIRO 1938 II

melgaçodomonteàribeira, 07.03.13

 

Castelo de Castro Laboreiro

 

 

    Avisto Castro Laboreiro, que se encontra numa baixa, dominado pelo castelo, necessitado de restauração, dando um aspecto de vida, embora triste no meio da desolação dos rochedos feros que tudo parecem esmagar. Entre muros de pedra e depois de beber largamente numa fonte de água magnífica, como é próprio da natureza granítica da região, entrei na antiga vila, séde de concelho até 1855, e actualmente aldeia.

   Significa Castro Laboreiro, lugar fortificado, castelo, sobre o rio Laboreiro, que lhe passa junto, amenizando com os verdes dos campos de milho, a rudeza formidavel das penedias. No século XVI, Duarte Darmas classificou a região de inóspita e é sem dúvida a melhor designação que se pode dar. É constituído Castro Laboreiro por casas térreas, na sua maioria as mesmas que José Augusto Vieira descreveu no ‘’Minho Pitoresco’’, enquanto uma ou outra têm uma espécie de primeiro andar. Possuem as castrejas habitações para verão e para inverno, denominadas brandas e inverneiras, a que se referiu o Sr. Prof. Doutor Orlando Ribeiro num interessante estudo.

   Simples a igreja paroquial e sem comodidade, porém melhorada pelo actual pároco, que a mandou sobradar em 1920, pois até o então era terra batida como nalguns lugares em África. Digna de apreço é a praça, que infelizmente perdeu o antigo pelourinho, com a escóla primária bastante razoável e de edificação moderna, tendo perto o único estabelecimento comercial, vulgar destas povoações, aonde tudo se vende. Praça bem portuguesa, retrocede-se alguns séculos na sua contemplação, tal o aspecto antigo e ao mesmo tempo pitoresco, com casas de perpeanho e de apresentação regular. O castelo, reedificado por D. Dinis, assenta nas rochas, dominando a povoação, enquanto o escuro das penedias lhe dá maior severidade e tristeza.

   Não parece de maneira alguma que se esteja no Minho, risonho e belo, mas na serra da Estrela, existindo semelhanças com o castelo de Monsanto na aldeia mais portuguesa do país.

   A-pesar-da atracção que o ineditismo da região me provocava, bem diferente do que até então, o tempo não admitia delongas, e, a cavalo, abandonei Castro Laboreiro, para subir a serra, descer a encosta áspera do penedo Lagarto, nome dado pela sua forma, e penetrar na suave chã de Lamas de Mouro.

   O silêncio serrano impressionava, a noção de isolamento tinha sabor primitivo.

   Percorri caminhos velhos até avistar Cobalhão, lugar nessa época alcançado pela estrada e onde um automóvel de Melgaço me esperava. A povoação é superior a Castro Laboreiro, com escóla moderna, igreja melhorada pelo pároco, e, facto interessante a dar uma noção de arranjo, as portas todas numeradas. Na véspera, em Melgaço, dissera que estaria em Cobalhão às 18 horas e, com atrazo de cinco minutos apenas, cumpria o prometido, depois de percorrer ásperos e rudes caminhos. Não faltei à minha costumada exactidão e só compreendi a importância da estrada, quando o automóvel começou a vencer rapidamente o percurso até Melgaço.

 

(1)   José Leite de Vasconcelos, Opúsculos, Coimbra 1928, vol. II pág. 363

a 372 e Revista Lusitana, vol. XIX, pág. 270 a 280.

(2)   Braga 1940.

(3)   Porto 1941, pág. 34 a 40.

 

 

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http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt

 

 

Camborio Refugiado