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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

VIAGEM A CASTRO LABOREIRO 1938

07.03.13, melgaçodomonteàribeira

  

Castrejas típicas

 

 

 

RECORDAÇÕES DE VIAGEM

 

CASTRO LABOREIRO

 

Pelo Dr. Busquets de Aguilar

 

GAZETA DOS CAMINHOS DE FERRO

 

Lisboa 16 de Agosto de 1946

 

 

   O caminho de ferro do Minho termina em Monção. Encontra-se projectado o seu prolongamento até Melgaço pelo plano de 1930, o que se justifica plenamente dada a importância da região, onde se encontra a estância termal do Peso. A camionagem por si só não é suficiente para servir com utilidade a região.

   O vale do rio Minho vai-se estreitando gradualmente, e, do lado da encosta sul, desenvolvem-se os contrafortes ásperos de granito escuro da serra da Peneda. Nesta direcção ficam alguns lugares dos mais atrazados do país, devido ao isolamento a que foram votados durante muito tempo. Aqui se localisa Castro Laboreiro e a freguesia da Gavieira com o santuário da Nossa Senhora da Peneda.

   O país conhece Castro Laboreiro pela raça dos seus cães e da Peneda tem a vaga noção de uma serra cujo nome se aprende na instrução primária, região quase inacessível durante largos anos. Todavia trata-se de localidades que necessitam de protecção oficial para um maior desenvolvimento. Leite de Vasconcelos, mestre entre os cientistas europeus, estudou (1) a linguagem e a etnografia de Castro Laboreiro e o erudito escritor A. Luís Vaz escreveu a notável monografia ‘’ O Santuário de Nossa Senhora da Peneda’’(2). Também estudando as danças regionais, o dr. Pedro Homem de Melo, se referiu a Castro Laboreiro no livro ‘’ A Poesia nas Danças e nos Cantares do Povo Português ‘’.(3)

   Hoje para chegar a Castro Laboreiro, a estrada nacional de Melgaço aos Arcos de Vale de Vez, (concluída até Lamas de Mouro) tem em construção um ramal para Castro Laboreiro e com ligação para Espanha, sendo já um cómodo passeio de automóvel, bem diferente das dificuldades que ainda conheci. Por isso creio não ser de todo descabido descrever aqui as impressões da minha visita a Castro Laboreiro em 1938, pois sempre me atraíram estes lugares isolados, destinados a um rápido nivelamento civilizador provocado pela abertura de estradas, que, aliás, é indispensável construir.

   Foi por um dia de Agosto de 1938, que, de madrugada, abandonei as comodidades do Grande Hotel do Peso, estância termal repleta de aquistas, para percorrer a distancia de 4 horas até Melgaço e seguir pelo caminho velho de Castro, pois a estrada de Peneda, que liga com Castro Laboreiro, estava em construção e não passava de Cobalhão. O ar fresco da madrugada dava saúde e energia.

   Na companhia do guia comecei a afastar-me de Melgaço, avistando durante largo tempo o castelo com a sua torre de menagem, enquanto em baixo corriam serenas e calmas as águas azulíneas do  Minho. Caminhava, voltando-me constantemente, para observar a margem galega do rio, de um aspecto semelhante à nossa, ao mesmo tempo que o piso calçado à portuguesa se tornava cada vez mais áspero e difícil. Longe de me diminuir o entusiasmo, avançava apressadamente ao lado do guia, que me ia descrevendo diversos lugares cada vez mais modestos, as casas menos cuidadas, até que a caiação desapareceu para serem apenas de pedra à vista.

   Alcançando o alto da encosta da Rolha, continuei até Fiães, antigo e importante mosteiro beneditino, de sólido granito, com uma avenida de Carvalhos na frente.

   Depois de Fiães, mais modesta ainda, Alcobaça, a aldeia com casas de colmo e em que os seus habitantes olham receosos para quem passa. A fronteira corre perto, dominando-se, de um vale muito apertado, o rio Trancoso, fio de água que banha uma região muito pobre.

   Vencida a encosta da Portelinha, e, por um caminho tão estreito que não é acessível aos carros de bois, comecei a descer. As penedias diminuíram e as areias provenientes da desagregação provocada pelos agentes térmicos, excesso de frio no inverno, calor forte no verão, aparecem-me com côr branca, melhorando a aspereza da paisagem.

 

 

(continua)