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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

FIÃES 1841 II

07.03.13, melgaçodomonteàribeira

 

Em Fiães

 

 

(conclusão)

 

 

   Quase um mês depois da catástrofe, o pároco fazia um relatório ao Administrador do Concelho, inventariando o desastre de S. João: 15 casas ‘’com todos os seus apparatos’’, 6 pontes, 5 moinhos, 16 cabeças de gado grosso, 200 de gado miúdo, 10 porcos, 30 ‘’carros de pão’’(cereal), canastros de milhos, forão louvados em 16 000 cruzados’’ O total geral é avaliado em 45 000 cruzados. O número de mortos elevou-se a 14 pessoas, afectando 6 família, uma das quais perdeu 6 membros.

   Organizava-se entretanto a ajuda às famílias atingidas. Primeiro é o Administrador Geral do Distrito de Viana do Castelo que propõe uma subscrição nos diferentes concelhos da sua jurisdição, depois a notícia chegou à capital. Em Lisboa, A Revolução de Setembro parece ter sido o primeiro periódico a divulgar o acontecimento, quase um mês depois, mas as providências por parte do Governo tardarão muito mais. Só em Março do ano seguinte, D. Maria II assina um documento encarregando as comissões de recolherem donativos a favor das vítimas de S. João. Em Dezembro de 1842 os donativos chegam ainda a Melgaço.

   S. João não voltou a ser reconstruído. Os sobreviventes, recolhidos nos lugares mais próximos, por aí ficaram refazendo a vida e guardando a memória do que tinha acontecido. Mas, de facto, o que tinha acontecido? E porque tinha acontecido?

 

   Hoje, a catástrofe de 1841 sobrevive na recordação dos mais velhos, que a ouviram contar aos avós: depois de uma grande tempestade com muitos ‘’ raios que caíram no monte’’, deu-se o ‘’terramoto’’ que trouxe muita terra e muitas pedras para baixo, fechando a passagem e formando uma grande ‘’bexiga de água’’ que acabou por rebentar, destruindo tudo pelo caminho.

   A recordação da catástrofe sobreviveu também através da veneração da iamagem de S. João, recolhida na Igreja de Porto Carreiro. Quase século e meio depois, por iniciativa do Padre Manuel Lourenço, pároco do Fiães, foi construída no local do desastre (onde existiam umas ‘’alminhas’’) uma pequena capela para onde foi levado o orago do desaparecido lugar. Lê-se na entrada: ‘’Monumento evocativo aos mortos do terrível desastre de 17 de Novembro de 1841. Fiães 1988’’.

 

   Documento I

 

   ‘’ O nosso correspondente de Villa nova de Cerveira participa-nos com data de 25 do passado o funesto acontecimento, que abaixo transcrevemos.

………………………………

   Um funesto acontecimento soffreram no dia 17 os habitantes do logar de S. João, freguezia de Fiães, o qual não só estimula a nossa filantropia, mas também provoca nossas lágrimas. Naquelle dia á uma hora da tarde desabou uma nuvem de agoa sobre o monte das Anturas, sobranceiro ao logar de Porto-Carreiro, freguezia de Fiães, conselho de Melgaço; e abrindo parte do mesmo monte despediu delle monstruosos penhascos, que vieram rolar sobre o logar de S. João, lançando por terra 15 casas, ficando abaixo das ruínas 14 pessoas. Esta catástrofe além daquele lastimoso estrago reduziu á miséria muitas mais famílias pela perda de gados de todas as classes, fructos colhidos e por colher, que a violencia das agoas e o desabamento da collina entulhou no valle. Esperamos da habitual beneficência dos nossos concidadãos, ver minorada por uma subscripção (já aberta) a pungente miseria a que ficou reduzido aquelle infeliz povo.’’ (27)

  

(27) A Revolução de Setembro, Lisboa, 11.12.1841

  

   O Atleta, Porto, 14.12.1841

 

 

   Documento II

 

   Secretaria de Estado dos Negócios do Reino

 

   Merecendo-me a maior solicitude o desastroso accidente occorrido ha pouco em o districto administrativo de Vianna, no logar de S. João, freguezia de Fiães, concelho de Melgaço, onde, por effeito de huma impetuosa torrente de chuva, que por longo espaço de tempo cahíra sobre o monte denominado Anteira, sobranceiro ao logar de Porto Carreiro, abrindo parte do mesmo monte, vierão a deslocar-se delle enormíssimos penhascos que, despedidos violentamente sobre o dito logar de S. João, o deixarão quasi todo arrasado, ficando demolidas quinze casas, seis pequenas pontes, e cinco moinhos, e sepultadas sob as ruínas quinze pessoas, além da perda de mais de duzentas cabeças de gado ……………………...................

 

   Paço das Necessidades, em 5 de Março de 1842

 

   Este trabalho, está publicado na sua totalidade em www.letras.up.pt ou www.apgeo.pt/files/docs/inforgeo

 

 

Camborio Refugiado