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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

FESTA DA LAMPREIA V

06.03.13, melgaçodomonteàribeira

  

Arroz de lampreia à minhota

 

 

   Chegámos à praça com a barriga sossegada. Havia menos gente e a banda deixara o lugar aos "Cunters", conhecida orquesta galega que já fora a Melgaço. Ali, encontrámos o Daniel Pita, fundador da primeira loja de móveis em Melgaço, em companhia dos irmãos Sentados, de Chaviães. Impecável, como de costume, vestira um fato azul escuro às riscas, o último que mandara confeccionar. O cabelo parecia palha d'aço. Compridinho e bem penteado, ainda que houvesse um vendaval, não mexia de um milímetro, graças à laca que por ele espalhava. Um amigo nosso dizia que, quando o cabelo lhe caisse, caia-lhe todo junto, como um capacete. Já tinham comido uma boa lampreia. O mais tarde às onze e meia, tinham de ir embora pois vieram de carro e a fronteira em São Gregório fechava à meia noite. Era um grande amigo... Lá fomos todos para o café. O Daniel ia pagar a rodada. Contámos-lhes a do café Sical e o corte que fizéramos ao Alfredo. Riram-se de  boa vontade e repetiram-lhe várias vezes para chateá-lo :

   "Bem te lixaram, Alfredo." "Estás a ficar velho, caramba, quem te via e quem te vê !" "Nem parece de ti, pá !"

   Toda a gente se ria, excepto o Pachorrego que se mantinha sério como um guarda republicano e batia ligeiramente com o calcanhar da perna direita no chão, sinal de desagrado. Esperou que nos calássemos e, olhando para nós com um ar velhaco e pérfido, preveniu-nos solenemente:

   — Sabeis, rapazes, o último que me fodeu num nasceu onte, há muitos anos que tem a barba branca !

   Mau vaticínio! Não soube porquê, mas não gostei da segurança, da intonação com que se exprimira, nem do cintilar malicioso dos olhos. Seria dos copos ? Era possível, mas tinha a impressão que tramava qualquer coisa. À medida que o fora conhecendo, aprendera a ter um pé atrás, a não ignorar as suas palavras quando falava deste modo.

   Ficámos mais uns minutos a ouvir os "Cunters". Estavam a fazer uma demonstração que se prolongaria até às dez. Das dez às onze iriam jantar. O sol deitara-se. A  hora de comer a lampreia ia aproximando. Deixámos os nossos amigos e encaminhámo-nos para o bar. Chamava-se "San Jenjo", nome de uma vilita galega à beira mar. Estava quase cheio. As poucas mesas inocupadas de certo que estavam reservadas. Ao balcão, empurravam-se uns aos outros, tanto para beber como para comer umas "tapas". O barulho, que foi uma das duas coisas que mais me marcaram em Espanha, era atordoante. Toda a gente falava alto e ao mesmo tempo. Quem queria ser ouvido, tinha de falar mais alto do que o vizinho e assim sucessivamente. Estavam habituados aos berros, ao barulho e, consequentemente, creio que também estavam imunizados contra a dor de cabeça. A segunda, foi o tutear. Os novos aos velhos, aos conhecidos como aos desconhecidos, todos se tratavam por tu. Para mim, era uma obscenidade. Desde pequeno que me incutiram o respeito pelos mais idosos (era incapaz de tratar o Pacho por tu) e que tratei os meus pais por você. No início, quando nos cafés e nos comércios me perguntavam "Que te pongo?", contrariava-me consideravelmente; depois, fui-me acostumando.

   A travessa estava bem fornecida. A lampreia, sem cortar, para vermos que nem um padacinho lhe faltava. Se não fosse suficiente, havia mais arroz na panela, disseram-nos. Não ficou nada nem foi preciso mais. Comemos como os padres, sem falar. A minha mãe dizia: "Ovelha que berra, bocado que perde." Ficamos empanturrados. A maioria das  pessoas cozinhava as lampreias com bocadinhos de presunto. Ainda assim, e talvez por eu ser do monte, preferia quando estas levavam uma pitadinha de unto fresco. Enfim!  Estava "de p*ta madre" (muito boa), tinham dito os dois casais da mesa do lado. Acabámos com a segunda garrafa de branco e pedimos a conta. Oitocentas e oitenta pesetas com o vinho. O pão era gratuito. Duzentas e vinte pesetas cada um. Perguntámos o câmbio, fizemos a conta em escudos e demos o dinheiro ao Pacho que foi pagar. Comprámos (comprou o Pepe) uma pequena caixa de cigarrilhos para fumarmos enquanto tomávamos café.

   A praça pouco mais de meia estava. Muita gente ainda se encontrava a jantar. Sentámo-nos a meio do café pois à entrada não havia mesas disponíveis. Tomamos café, se tal se lhe podia chamar, e, para ajudar a digestão, uma copa de Soberano que, como a publicidade dizia, "es cosa de hombres". Acendemos os cigarrilhos e aproveitámos aqueles momentos de agradável e efémero usufruto. Fumámos num silêncio eclesiástico, apenas interrompido por um grande arroto do João. Ao Alfredo, com as mãos por cima da pança, como de costume, apenas lhe faltava a sotaina  para parecer um verdadeiro padre. Os altifalantes dos modestos carrosseis e de algumas barracas de tiro, instalados numa pequena rua paralela à praça, propagavam uma música disparate e esganiçada.

 

(continua)