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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MAIS UM ANIVERSÁRIO

06.03.13, melgaçodomonteàribeira

FOZ DO RIO TRANCOSO 42º 9’ 15’’ FAZ 2 ANOS DE VIDA

 

 

 

MELGAÇO NOS ANOS 30

 

 

   O inverno deixava pouco que contar, apenas muitas frieiras nos pés e nas mãos, o nariz sempre pingando fazendo com que a gola e os punhos do casaco ficassem lustrosos de tanto enxugar o pingue. Veio outro verão. Os homens mais novos andavam empolgados com uma grande novidade. A Legião Portuguesa instalava um núcleo em Melgaço para combater o comunismo, grande praga que se alastrava pelo mundo, e na vizinha Espanha já andava fazendo das suas, diziam as pessoas mais velhas. O tenente Lopes, oficial da Guarda-fiscal, foi destacado para instrutor da nova tropa em Melgaço.

   Aos domingos na Feira Nova, os futuros ‘’heróis’’ exercitavam-se na marcha e no manejo as armas, grandes, pesadas e antigas espingardas que vieram de Lisboa. Muita gente ficava de longe apreciando a rapaziada, e a canalha miúda, assanhada, imitava o exército de paisanos. No início não tinham fardamento, era cada um com sua roupa. O João Cataluna, primeiro cornetim da banda de música, passou a ser o cornetim da Legião. Foi grande a empolgação inicial com a adesão de todos os ‘’papo-secos’’, principalmente aqueles que haviam sido dispensados de ir à tropa e desejavam mostrar-se úteis à Pátria. O tenente Lopes decidiu que o adestramento passaria a ser feito exclusivamente nas manhãs dos domingos. Essa deliberação esfriou os ânimos, pois a monotonia da rotina, e logo nas manhãs de domingo, quando todos gostavam de ficar na cama um pouco mais. A frequência diminuía a cada domingo ao ponto de só aparecerem meia dúzia. Revoltado, o tenente Lopes, sentia perigar a sua autoridade e seu cargo. No domingo daquela meia dúzia, foi com eles, armados, de casa em casa, tira da cama os faltosos e levou todos presos para o quartel, que era nos baixos da Câmara, onde passaram o dia.

   Após essa pequena e doméstica contra-revolução, a situação definiu-se: o Gui do António Fernandes, o Franklin da Carneira, o Arnaldo Guimarães, o Manéco do Simão, o Quique do Dr. Augusto, o Lélo do Sr. Aurélio e outros meninos bonitos da terra que tinham aderido pela curiosidade da novidade, desligaram-se, outros, também se desligaram ou abandonaram ou por falta de vocação e só ficaram os idealistas, os empregados públicos, os que pretendiam algum cargo oficial e os registados no Fundo do Desemprego.

   Na vizinha Espanha onde muitos melgacenses iam ganhar seu sustento, estourou uma guerra. Desde algum tempo que a gente mais velha comentava que as coisas por lá não andavam nada boas. As criaturas não se entendiam e o resultado foi aquele. Os tais comunistas, hereges que queriam o que era dos outros, estavam tomando conta do país vizinho e os nacionalistas opuseram-se à pretensão. Era esta a ideia que circulava entre a gente simples, resultado da propaganda oficial. Para os portugueses da raia, a não ser os que tinham familiares no outro lado e por isso se preocupavam, a maioria não deu grande importância. O cenário de guerra era lá no centro da Espanha, e ali perto, na Galiza, sob o poder dos nacionalistas, as coisas estavam mais ou menos calmas. Passou, sim, a haver grande agitação nas relações comerciais informais. O contrabando tornou-se fonte e renda exclusiva daquela gente. Agora era de Portugal que ia para Espanha tudo que representasse alimentação. Melgaço tornou-se grande escoadouro de galinhas e ovos vindos em camiões directos a S. Gregório. Na estrada normalmente deserta até há pouco tempo, agora era uma romaria. Aquela actividade gerava lucros a muita gente, mas directamente nada representava para o Município. O Dr. João Durães, administrador do concelho, mandou que seus fiscais fossem rigorosos na cobrança do imposto indirecto que incidia sobre todas as mercadorias e beneficiava o Município.

   Os donos das mercadorias negavam-se a pagar a liquidar tal imposto, pois alegavam que os produtos transportados não eram para consumo local, estavam em transporte para outro destino, o que era verdade.

   O impasse instalava-se com argumentos de cá e argumentos de lá.

   A guerra civil espanhola recrudescia, as notícias orais de quem conseguia escapar desmentiam as noticias oficiais que os jornais censurados transmitiam. Na Galiza, onde oficialmente não havia embate de tropas, havia fuzilamentos e vinganças por motivos mesquinhos, contava-se. O povo ingénuo de Melgaço só passou a acreditar no que diziam que se passava na Galiza, quando os cadáveres, num cortejo tétrico desciam o Rio Minho, vindos de Espanha. Alguns desses corpos ficavam presos nas pesqueiras, numa tremenda contradição à sua finalidade. Construídas pelos homens para aprisionar os peixes que sobem o rio a fim de se perpetuarem, serviam agora para capturar os cadáveres de homens vítimas da insanidade humana.

   Tinha dias de aparecer dois e três cadáveres. As autoridades melgacenses, interpretando o sentimento cristão do povo da terra, a todos esses infelizes, alguns em adiantado estado de decomposição, proporcionava um funeral religioso como a qualquer cidadão da terra.

   Triste fase do povo do outro lado do rio que a titulo de idealismos políticos, aproveitavam para assassinarem em vinganças por motivos mesquinhos. Mas, apesar da lamentável situação, os portugueses da raia tiravam proveito. Como o dinheiro espanhol estava desvalorizado, o pagamento das mercadorias contrabandeadas, após acabarem os duros de prata, era em ouro e objectos de valor.

 

 

FÉLIX IGREJAS

 

Publicado em A Voz de Melgaço

 

ESTRELLA MORIBUNDA

 

Aquella Rosa branca, a flor mais viva

Dos jardins olorosos de Granada,

Já não parece a flor enamorada,

Triste por viver só, viver captiva.

 

Outr’ora, em seu mirante, pensativa,

Muitas vezes a luz da madrugada

A via entre boninas, enlevada

Nos sons d’uma guitarra fugitiva.

 

Agora, a Beatriz do Poeta abstruso,

A Elleonora das canções do Tarso,

A Natércia gentil do cantor luso,

Sol perdido em nevoeiro escuro e baço,

A cîtharas prefere a roca e o fuso,

Aos meus cantos presuntos de Melgaço

 

Publicado em A Folha (1868/1873) 

 

Coimbra 1872 por João Penha

 

Recolhido da net: http--purl.pt

 

ILÍDIO DE SOUSA 

 

 

  

Praça principal de Arbo

 

 

Festa da lampreia IV

 

 

   Levámos uns minutos para conseguir uma mesa bem colocada. Sentámo-nos, finalmente, à entrada, junto duma das portas do café. Dali, podíamos observar a multidão amontoada na praça e uma parte do palco, no qual os ranchos  espanhóis e estrangeiros iam suceder-se alternadamente. Estava-se bem.

   O ambiente festivo, extraordinariamente aberrante, não deixava ninguém indiferente. Grupos de esplêndidas "muchachas", radiantes de vida, maquilhadas apenas para fazer sobressair a beleza do rosto e não para dissimular os defeitos ou a fealdade, atraíam mesmo a atenção dos mais pacatos ou distantes. O olhar sorridente e excitado saltitava em todas as direcções. Procuravam namorisco. A mulher espanhola tinha uma certa soberba, qualquer coisa de singular. Bastava apreciar os casais de meia idade, já bem instalados, para constatar a afeição e o gosto que os homens lhes expressavam. Com efeito, não escondiam o regalo ostentoso que sentiam quando passeavam com elas ao domingo, de braço dado na rua. Tinham escolha. A guerra civil fizera bascular bastante o número de homens em Espanha. Aínda hoje se verifica esta desigualdade.

   — Bem ! Como é ? Num viemos a Arbo só p'ra nos emborracharmos... – a boca era do João. O Pacho fez uma carranca e passou os dedos  pelo queixo. Percebeu que, indirectamente, lhe  era dirigida – Log'à noite, comemos uma lampreia ou nam?

   — Ai ai ! Entam que viemos fazer aqui ? – perguntou por sua vez o Pepe – Mas cada um pag'á sua parte, num é ? Tu tam'ém alinhas, Alfredo? 

   — Se calhar gastou o dinheiro todo no Sical e agora está teso com'um carapau fresco ! – fustiguei.

   Não podia ser mais directo. Rimos. O Alfredo, as costas bem apoiadas na cadeira e os dedos das mãos cruzados por cima da barriga, estava a ficar irritado perante os nossos risos.  Além de lhe  termos feito abortar  o projecto, aínda era alvo de gozo ! Como todos, gostava de gozar, mas não gostava de sê-lo. Não pôde aguentar mais e, colérico, preveniu-nos, metade em português e metade em espanhol:

   — Ide-vos foder mas é. "Ya vos caeréis, como dice el  xicano !"

   Mudamos de conversa e pedimos mais uma San Miguel, pois a primeira não fora suficiente para afogar a sede. O "cuba libre" que, indubitavelmente e havia muitos anos, era a bebida preferida da juventude espanhola, proliferava até saturar por cima das mesas e do balcão do café. Calámo-nos e deixámo-nos estar a ouvir a música e a apreciar o pessoal. Mais logo, encomendaríamos a lampreia, pois não queríamos chegar à hora e apanhar uma decepção.

   Resolvemos ir dar uma volta pela praça, ver as "chiquitas". O Pacho ficou. Aínda estava "cheio de sede" e esperava, sem dúvidas, encontrar alguém que lhe pagasse uns copos. Precisava recuperar o perdido. Lá fomos, mas depressa nos arrependemos. Tivemos de abandonar prontamente e ficar por ali, pois a tarefa era demasiado árdua e tédia. Além disso, certos espanhóis, com os copos, eram indelicados, nada obsequiosos. Ficamos a pouco mais da metade da praça. No palco, actuava um grupo de "mariachis", músicos mexicanos. Mais tarde, segundo o cartaz que víramos à entrada da vila, poderíamos apreciar o rancho regional "Os Esticadinhos", de Cantanhede. Tínhamo-nos rido ao ler o nome que achávamos cómico. Acabaria com a dinámica Banda de Música Municipal de Marin.

   Ali permanecemos de braços cruzados, sem reparar na hora. Grandes aplausos para os mexicanos. Começou o rancho português. Os trajes típicos que os componentes dos ranchos vestiam eram de uma fineza e uma beleza inigualável. Com a música, os trajes, as danças e os instrumentos, tentavam manter a tradição, a cultura ancestral. Lutavam contra o esquecimento. Calmamente, foi correndo a tarde. Sob os aplausos, o rancho deixou o lugar à banda de música, o rock  dos mais idosos. Ia a banda na segunda música quando vimos o Pacho diante de nós, sem sabermos de onde saíra. Tinha ares de quem estava melhor, mais distendido.

   Fomos encomendar a lampreia. O Alfredo acabou por também alinhar. Entrámos  num bar onde, segundo o Alfredo, faziam uma boa lampreia com arroz (a maioria fazia-a à bordalesa). Pediram-nos oitocentas pesetas. O Pacho achou que era um bocado mais cara do que no passado ano. Nós não tínhamos a mínima ideia, pois era a primeira vez que vínhamos à festa da lampreia. Em todo caso, que nada baixava, já se sabia. Dirigimo-nos a outro bar. Exactamente o mesmo preço. Achámos que não valia a pena procurar mais e voltámos ao primeiro. Encomendámo-la para as nove e meia (em Espanha era uma hora mais e os espanhóis só começavam a comer a partir das dez) mas, para termos a certeza de que  comeríamos o arroz a fugir, como tem de ser, estaríamos ali um quarto de hora antes. Passava  das sete e meia espanholas. A cerveja pusera-nos as tripas a gargarejar. Tivemos tempo de saborear sossegadamente umas finas fatias de "xamón" que o homem dizia ser da Cañiza (?). Não pudemos contradizê-lo pois não éramos assaz conhecedores para podermos determinar a origem. O tinto com que o acompanhámos, da região, pintava bem o interior da tigela, mas não valia o do Telmo.

 

(continua)