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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

FESTA DA LAMPREIA III

06.03.13, melgaçodomonteàribeira

 

 

   O cabrão ! Era esse o plano. Um quilo de café que cravara ou pifara ao Zé António do Manuel da Garagem para lhe fazer abrir as portas da adega ! Não era homem para gastar dinheiro com quem quer que fosse. O Pepe fez uma careta. O João começara a encaracolar, com o dedo, uma mecha de cabelo na nuca. Reagia sempre assim quando se sentia contrariado ou enervado. Estava visto que não lhes agradava o rumo que o Pacho dera à visita.

   Ficámos os três indignados e irritados com o Pachorrego. Queria embebedar-se à custa do irmão do Pepe ! Pelo visto, tinha premeditado a comédia na sua totalidade. Portanto, havia tempos que tentávamos fazê-lo conter e superar a tentação ávida e depravada que sentia pela vigarice. Em vão ! A existência crítica que tivera e que, em menor parte, ainda tinha, não bastava para justificar o ardor pela trapaça que tinha arraigado.  

   Entrámos para a adega. Ai não ! Apenas o Telmo subiu as escadas, o cão, de orelhas erguidas em sinal de apreensão, saíu da casota e sentou-se a meio do quintal, não tirando mais os olhos de nós. O mais pequeno dos nossos gestos era por ele acatado. Estava bem domado.

   Bebemos uma tigela de tinto (bem bom, diga-se de passagem) e ouvimos o Telmo contar-nos que o trabalho para a serração apenas consistia em ir ao monte cortar e acarretar os pinheiros. Era um trabalho temporário que conjugava com o do campo. Depois de um simples olhar, sem trocarmos uma palavra, resolvemos boicotar o cenário mesquinho que o Pacho preparara. Exprimimos o nosso reconhecimento ao Telmo, o gosto que tivéramos em visita-lo e decidimos arrancar para a festa. Não queríamos ser cúmplices da manha do Pacho. Bastara termos perturbado uma reunião familiar num dia de festa. Não foi do seu agrado pois queria beber mais. Jogou a carta do ingênuo admirado. Em vão. Foi o seu turno de ser surpreendido. Amuou mas, apesar de contrariado, acabou por seguir-nos. O amuo não duraria muito tempo.

   Pusemo-nos a caminho. O silêncio só era entrecortado pelo estalar das pinhas e pela respiração agitada e ruidosa do Pacho.  Pouco depois, campos de milho e de batata substituiram o pinheiral que ladeava o caminho. A partir dali, o sol não nos falhou. Latadas mais baixas do que nos nossos lados, carregadas de enormes cachos verdes sulfatados, esposavam a forma dos campos. Para chegarmos à estrada que vem de Orense e atravessa Arbo, continuando em seguida para Vigo, tivemos para quinze minutos e mais cinco, depois, para atingirmos o centro. A roupa aderia ao corpo. O Alfredo, que passara metade do caminho a espanar a fronte com um lenço amarrotado, devia estar ensopado até aos pés.

   Passamos da quietude apaziguada do caminho deserto, à balbúrdia borrascosa da rua principal, abarrotada de gente, que falava, ria, berrava e empurrava. Os automobilistas que necessitavam atravessar Arbo, faziam uma algazarra infernal com o "klaxon" para que as pessoas lhes abrissem caminho. Os insultos mais correntes que faziam parte do quotidiano e da cultura dos espanhois como  "maricón", "hijo de p*ta",  "me cago en la Virgen", "joder, tio"... eram proferidos assiduamente. Estas expressões ofensivas e grosseiras são, porém, ambivalentes, conforme o contexto em que são empregues e o acento com que se pronunciam. Por isso, a sua importância ofensiva era relativizada. A bagunça era total. Ninguém estranhava que, de vez em quando, alguns andassem ao murro. Era isto, talvez, que fazia das festas espanholas e, em especial, das galegas, umas festas atraentes e cativantes.

   Na rua principal que ia dar à praça do Concelho, a única e grande praça de Arbo,  só havia bares e restaurantes. Nos dias da festa, mesmo os particulares faziam dos fundos restaurantes e bares. Em todas as portas se viam cartazes onde se lia : "Hay lampreas". Tanto as vendiam para comer ali como para levar e cozinhar na casa. O cheiro predominante e que inundava profundamente as narinas era, sem dúvida alguma, o do famoso e delicado peixe. Todavia, para os que não gostavam (e havia!), que não tinham meios suficientes para dispender ou que se encontravam sozinhos (vendiam a lampreia inteira, unicamente), os pratos de substituição,  também afixados nas portas, não faltavam : "orella de cerdo cocida, pulpo, chuletas de ternera, calamares, callos, cordero asado a la parrilla, angulas al ajito..." A escolha é que era embaraçosa. Os vinhos não tinham qualquer defeito. De salientar o branco de que todos gostavam e bebiam. Era Alvarinho mas, naqueles tempos,  muito poucos o conheciam. Ninguém podia adivinhar que, em pouco mais de uma década, o cultivo do Alvarinho invadiria as margens do rio Minho, substituindo-se a antigas culturas.

   Dirigimo-nos para a praça onde a horda de gente se deixara enfeitiçar pela actuação de um típico rancho galego. As pessoas deleitavam-se ao som das gaitas de foles e dos bombos que faziam dançar uma dúzia de parelhas num amplo palco. O nosso destino era um café (o único de Arbo, digno do nome) que ali se situava. Tínhamos a boca ressequida. Umas San Miguel fresquinhas e umas cadeiras para nos sentarmos e repousarmos as pernas uns momentos, eram a nossa prioridade.

 

(continua)