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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

OS PINTARROXOS II

06.03.13, melgaçodomonteàribeira

 

 

   O verão estava chegando e os pássaros viviam na plenitude da procriação. Quase todas as árvores tinham vários ninhos que os rapazes controlavam, subindo e contando os ovinhos. Pardais, pegas, carriças e estorninhos ali haviam-se instalado.

   Na cerejeira, quasi na corucha, um ninho chamava a atenção; era de pintarroxo e tinha três ovos. Os pintarroxos são grandes cantadores que as pessoas costumavam prender em gaiolas. Ficavam de olho naquele ninho.

   Um belo dia, os filhotinhos, já livres de casca, estropiados ainda, testemunhavam a perenidade da vida. Mais alguns dias e os passarinhos começaram a revestir-se de penugem. Outros dias mais e os passarocos de bicos escancarados, vorazes, não davam tréguas aos pais.

   Os sobrinhos, com a anuência do tio, resolveram pegar no ninho e colocá-lo numa gaiola. Naturalmente os pais continuariam a alimentá-los até ficarem auto-suficientes e, então, pegariam também a eles. Que grande colecção de pintarroxos iriam ter. E assim fizeram.

   Num dos voos para procurar comida os pintarroxos deixaram os filhotes sozinhos e os rapazes aproveitaram para escalar a cerejeira, pegar o ninho e pô-lo na gaiola. Levaram-na para casa e penduraram-na na parede, no andar de cima, do lado de fora, perto da janela, onde os pássaros pudessem ver os filhos.

   Quando os pais regressaram e não viram o ninho nem os rebentos, entraram em pânico. Chilreando, desesperados, voavam desordenados. Era constrangedor ver aquelas duas avezinhas, tontas procurando os filhos nos outros ninhos e no chão.

Depois de muito esvoaçar pousavam num galho e ficavam quietos, colados um ao outro, silenciosos. Deviam estar chorando. Voltavam a voar velozmente, às cegas, de encontro a tudo sem saberem o que fazer.

   Os rapazes observavam esperando que os pintarroxos descobrissem os filhos, sem imaginarem o sofrimento, a tremenda agonia por que passavam aquelas criaturas. Os filhotes, de papos vazios, reclamavam a assistência dos pais e passaram a piar desesperados. Foram ouvidos. Os pais passaram a sobrevoar a gaiola. De vez em quando, no auge do desespero, arremessavam-se contra aquela prisão como querendo arrombá-la.

   Tudo estava dando certo, diziam os rapazes. Logo passariam a alimentar os filhos através dos arames.

   A noite estava chegando e resolveram deixar as aves onde estavam, protegidas pelo beiral do telhado. Foram embora para suas casas.

 

(continua)

 

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