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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

OS PINTARROXOS I

06.03.13, melgaçodomonteàribeira

 

 

    O tio Emiliano estava na fase bem sucedida de sua vida. Os negócios corriam-lhe de jeito. Por causa da guerra civil na vizinha Espanha, a circulação de mercadorias era intensa e o imposto indirecto que incidia sobre as mesmas, bastante vultoso. Como cobrador, por ter arrematado o direito de receber tal tributo, o Emiliano tinha uma margem de lucro significativa.

   A sua opulência crescia a olhos vistos.

   A casa Velha nos fojos que comprara ao Zé Zinona, transformou-a numa luxuosa vivenda; comprou mais um carro para aluguer, comprou também a camioneta antiga do Hotel Rocha para passeios turísticos e comprou também o casarão antigo com grande quintal do outro lado do caminho, no Rio do Porto. Mandou reformar o prédio e o quinteiro deixando aquela propriedade digna de gente fina.

   No terreiro onde outrora fora o quartel dos Bombeiros, instalou um depósito de ovos que vendia por atacado e a varejo aos pequenos contrabandistas que os levavam para a Galiza. Na inauguração das melhorias daquele casarão ofereceu aos amigos e familiares uma arrozada de galinha de cabidela regada a bom vinho, tudo à descrição.

   Todas as tardes, ele e a Ana, sua mulher, iam para a casa do Rio do Porto. Não tinham filhos mas viviam cercados de sobrinhos a quem muito queriam e por quem eram muito queridos, principalmente os mais novos e solteiros. Assim, o Gú, o Toninho, o Mi, o Carriço e o Manelzinho, não perdiam oportunidade de acompanhar os tios sempre que iam para a nova casa.

   O quintal era o que mais lhes chamava a atenção. Não era muito grande mas tinha os seus atractivos. Era uma faixa de terreno espremido entre a estrada e o regato (o Rio do Porto), com fruteiras, horta, uma mina (nascente de água por baixo da estrada) e um grande tanque. Das árvores destacavam-se uma cerejeira e uma nespereira, ambas de grande porte.

   Das brincadeiras no quintal participava o Jolí, um cão vadio a quem a tia Ana dava comida que acabou por afeiçoar-se e participar da família.

 

(continua)