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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

DE MELGAÇO PARA LISBOA

06.03.13, melgaçodomonteàribeira

 

 

    O jantar hoje foi na cantina.

   — Bora, corre que ainda apanhas esse!

   O amarelo subia a rua da Conceição para o Bairro Alto.

   Saltei na Misericórdia - dez horas, baril para começar a noite.

   Uma espreitadela ao Estibordo, bem composto, boa gente; na Pequena Trindade o costume – 2 ou 3. Espreito outra vez, Herberto na curva do balcão, cabeça baixa, um copo à mão.

   Ná! vamos à Trindade.

   Empurro a porta, a esta hora o vidro não pesa.

   Do lado direito mesas ocupadas, do esquerdo vazia a do costume. É a primeira junto à porta que nunca se abre, não presta, o empregado anda quilómetros para lá chegar. Na seguinte, está o Vitorino e o séquito alentejano. Bons rapazes e no meio deles, de costas, o Jaime, bom amigo das Galinheiras. Dá um jeito nos coros do Vitorino ou do Zeca. Uma  palmada no ombro, um S para contornar o Agostinho e bandeja carregada de cerveja.

   Dou de caras com o Cabeça de Vaca, copo firme na mão e olhos a faiscar. Num segundo decido e paro, apesar, de ir contra os meus princípios de nunca parar sem primeiro dar a volta às salas e ao jardim. Está irritado e não mostra ter bebido muito; está mesmo irritado de p*ta madre.

   — Ei Álvaro, que passa homem?

   — Passa o caralho, levei a tarde toda com o Pacheco.

   Álvaro, Cabeça de Vaca, que o Luís Pacheco assim baptizou.

   Dupla mais que explosiva.

   É melhor andar, mas quem me mandou a mim parar?

   Atravesso a sala pelo corredor do lado direito para ter melhor visão do que se passa ao balcão e nas mesas próximas.

   A sala terceira não interessa, é para os turistas, os gajos da linha, dos arrabaldes, dos fora da vida.

   O outro Vitorino, ataca um bife, mais a filha Maria cada vez mais bonita.

   O Sérgio vem do jardim, duas louras, boas, a reboque e diz um olá na saída à mesa dos alentejanos.

   Controlar todos, para não haver surpresas, já que os cantadores - diz-se – andam de trombas. O Zeca e o Sérgio já trocam ditos no jornal!

   No balcão, encosto para o lado dos da Damaia.

   Pencudo e Ruizinho mais a Galinha, o melhor para começar a noite. Bebe-se e discute-se, Vian e a Espuma dos Dias é o tema.

   Passa o Brito, velho de oitentas, amigo de meses, lenço preto ao pescoço – a maior parte das vezes é a meia preta da mulher - que já vem da FAI, coluna Durruti, cadeia na Argentina, anarquista, sóbrio e editor do jornal m*rda,  mais o Xoan etarra de passagem para as suas lutas que também queriamos nossas.

   Bebemos, o Ruizinho satisfeito porque arranjou uma de figurante;  preocupado porque tem que apanhar com o Semedo.

   — O homem é mesmo chato nas filmagens – diz o Ruizinho.

   — Caga nele – sentenciou a Galinha –  é uma semana a entrar nota.

   — Vamos ao Coliseu, atira o Pencudo, temos a Consuelo e o Pepeu Gomes.

   Acertamos em cheio!

   Sala vazia e concerto intimista para umas cem pessoas.

   Solos de guitarra de arrepiar cabelos, uma voz cava, negra e tambores de selva. O rapaz da percussão, quem sabe, ofuscado pelos cabelos negros que giravam à volta da cinturinha da rapariga de verde, bateu pele até à ultima. Acabou de rastos e ela sorrindo desapareceu na Cidade da noite.

   Meia-noite, vamos a subir as Escadinhas do Duque.

   O refúgio de monges recebe-nos com três filas em frente ao balcão.

   O Canelas já lá está, acena-me  com o Fura Fura do Zeca.

   — Para ajudar à bebedeira - sopra por entre vagas de ar de cerveja.

E curtir as sete mulheres do Minho, mulheres de grande valor… (penso eu).

   Fazemos companhia uns aos outros num copo ora cheio ora vazio.

   — A Comuna tem Dário Fo, no Foz amanhã passa Pasolini.

   Acenei a ninguém e procurei um fogareiro.

   Santana à Lapa e vou até ao Zodiaco ver a Margarida, gorda, sexy, simpática, amiga, um ombro na noite.

   Encontrar o Júlio e o Zappa, cerveja para acompanhar.

   Bar, mesmo com a Margarida e o Zé Gordo como anfitriões, só dá para mexer a cabeça, o corpo está tenso.

Quando é que tu apareces?... não há chavalas sem guarda-costas! 

   — Estás bom…– o Fredy, baixo dos Tantra – faz sinal.

   Amigos, os olhos de Margarida a seguirem-me, um beijo quando subi as escadas; um beijo dourado.

   Táxi na Santana Á Lapa, Bolero na Judiaria, o destino.

   O Jaime tinha mesa com três a acompanhar, duas mamalhudas e um pára-quedista que deu à sola quando puxei a cadeira da mesa ao lado.

   Malhavam em inglês e eu pronto a dar o salto quando soou uma palavra em francês.

   A mamalhuda da esquerda ficou para mim; Paris a minha Paris da Villette às Halles, do Tony e dos bailes na Rue de la Pompe, do consulado com argolas nas paredes tal qual as masmorras de Napoleon, os bailes da Bastilha com o Pepe e o Zorro.

   É melhor o corpo que o espírito da alemã que falava francês e não sabia o que foi Champigny.

   Dormir em pensões não é petisco que me agrade mas como entro às 6 da manhã no trabalho o melhor é não armar em esquisito e passar uma vintuinha para ser acordado a horas – indecentes – não vá o Diabo tece-las.

   Quando o sol ainda está escondido começo a dividir as cartas que os nossos vão receber no dia seguinte, noticias ora boas ora más ou nem uma coisa nem outra.

   Dez da manhã, subo a do Ouro e um dos que não viram o nascer do sol, a trabalhar comigo, atira:

   — Moedas p’rá ginjinha.

   Ganhasse ou perdesse o cálice estava sempre cheio.

   Onze horas, caio na cama.

   Despertador para as 4 com pequeno almoço às 5, o dia está a começar.

 

 Camborio Refugiado