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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

A GRANDE GINCANA III

06.03.13, melgaçodomonteàribeira

 

 

     Organizaram-se as equipas conforme as amizades entre eles. Cada uma das equipes era composta de quatro ou mais rapazes (naquele tempo havia muita rapaziada na terra). Os adultos acabaram aderindo, ajudando os grupos de sua simpatia ou de parentesco. Fizeram carros novos ou aprimoraram os que havia, muito toscos por sinal. Inovações foram introduzidas muito em segredo para os demais concorrentes não copiarem.

Eu era muito novo, oito anos e meio, por isso não recordo os nomes da rapaziada de todas as equipes, só recordo a turma do Carriço que era o meu grupo e dos meus irmãos, Gú e Toninho do Félix, do Carlota, do Quim e João de Celestino e o Mí.

    O Lucas fez um casqueiro novo na sua oficina, bem recortado e aparelhado e lixado. O Papá Pires deu orientação de como fazer um travão, grande novidade técnica que ia ser preciso para as várias paradas do percurso.

    O eixo dianteiro, da direcção, outra grande inovação, era curvo centro para manter o casqueiro nivelado uma vez que as rodas da frente eram menores que as traseiras, técnica evoluidíssima para a época.

    O assento do piloto era almofadado e o impulso era transmitido através dum sarrafo apropriado encaixado na traseira do casqueiro, ao invés de empurrar nas costas. Tecnicamente o carro era perfeito.

    A turma do Carriço contribuiu, através daquele protótipo, para a evolução da indústria automobilística.

    Por espiões soube-se que as outras turmas estavam pintando seus veículos com as cores dos clubs de sua predilecção. Vermelho em homenagem ao Benfica, verde ao Sporting, preto e branco ao Sport Club Melgacense, etc.

    Ah! então era assim?

    A equipe do Carriço deliberou pintar o seu carro em homenagem ao Futebol Club do Porto que, por sinal, era o club de coração de todos daquele grupo.

    O Futebol Club do Porto era o grande campeão daqueles anos. Fugidos do caldeirão europeu que estava para entrar em ebulição, cinco jogadores da selecção da Hungria tinham-se incorporado ao Porto.

    Mas a pintura do carrinho não se limitava a azul, não senhores; às listas azuis e brancas, feitas a régua, a tinta de esmalte e no cabeçalho, também a tinta de esmalte, a todo o tamanho, o emblema do Porto que o meu irmão António demorou uns dias a pintar; rodas e eixos também pintados, com tampões de lata; um primor.

    Nem a carruagem da Cinderela era tão bonita quanto o carro do Carriço, sim, porque ele seria o piloto.

    Nas mãos dele, que iria manejar a corda-guia, o travão e executar as tarefas da Gincana, repousavam as esperanças daquela equipe que dera tudo de si e seu génio inventivo fora capaz de conceber

 

(continua)