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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

ROMANI EM MELGAÇO

melgaçodomonteàribeira, 06.03.13

 

 

Acho que já tinham terminado todas as séries dos bons a ganhar aos maus, quando, sem uísque na mão, detesto, resolvi sacar um cd e o que vier é bom!

Acho eu, desde já se diga, que de música só conheço o clarinete do Frederico, velhos tempos do mestre Morais à frente da banda dos Bombeiros Voluntários e o Grupo de Bombos do Ti Miro.

Mentira, também conheço, um solo de gaita de foles com o bombo na marcação… uma carvalheira a dar sombra, bolos de bacalhau, a lampreia assadinha, uns ovos  cozidos e a broa acabadinha de sair do forno antes de começar a subir a serra; duas concertinas e bons cantadeiros, davam alma até à casa da Senhora…

 

Nestes tempos que passam, Quim Barreiros, adoro, e então quando é uma hora a sacar a nota aos putos sem eles darem por isso…ahaaaaaa gand’a Quim, a escola da serra d’Agra sempre pariu bons filhos.

Bom, mas isso é outra estória.

Da confusão dos cd’s poderia sair Miles Daves ou Don Cherry, Joplin ou Doors, Zeca ou Manu Chau mas não; tinha que sair Musafir.

Bonito, disse baixinho para mim que até estava sozinho na sala..

Musafir – gypsies of Rajasthan.

Há anos eles passaram por Lisboa.

Falar do espectáculo é quem viu viu quem não viu não viu. Bato palmas ao presidente da Câmara de Lisboa da altura (detesto o homem) pelos espectáculos que nos proporcionou e a descentralização dos mesmos na cidade.

Há quem defenda a tese de Rajasthan como berço da cultura romani; sei lá, se calhar tem razão, se calhar não tem.

 

Lembro-me, era miúdo, de ciganos com acampamento em Cristoval tiros e uma morta com jazigo no cemitério da vila, mais pelo que se falou do que propriamente dos mesmos.

Mais tarde conheci o Manolo, comerciante de tudo e algo mais, a viver nas casas do  Manuel da Garagem na corga que vai p’rá Orada. Tinha uma filha, rapariga dos seus 15 ou 16, cabelo negro ou azulado, comprido, que só poucos conseguiram por o olho que a rapariga estava fechada a sete chaves.

Uma sexta, Manolo bem aviado entra no Central do Zidro. Era eu o único cliente e è para mim que o Manolo se vira.

— Quem és?

Não sei o que pensei na altura, mas sempre lhe disse quem era.

— Alberto, um abraço, vais beber comigo.

Eu que só tinha as cinco coroas p’ró café já não sabia onde me meter. Manolo leu-me a mente (digo eu) e saca um monte de notas de conto, canta e baila no Central.

O Zidro sai do balcão, deita a mão ao dinheiro, faz-me sinal de cabeça para ir ao balcão. E contou nota atrás de nota até aos 98 contos.

— Ele amanhã vem me pedir os 98, mas só leva 97 porque 1 é para a noite.

Acabei a noite no vinte e sete com o Manolo a bater o tacão, palmas e dedos a fazer de castanholas.

Não voltei a ver o Manolo, infelizmente teve que fugir de Melgaço; um tal de … (não sei mesmo o nome) que tomou conta do Central quando o Zidro se reformou, contraiu uma divida com o Manolo e não cumpriu. Um sábado à tarde a mulher e a filha do Manolo foram ao café receber o que lhes era devido. Depois de serem insultadas pelo devedor e acusadas de distúrbio a mulher do Manolo sacou da naifa. Ameaçou, não fez mais que isso e o empregado do café, com bom arcaboiço, prendeu-a por trás.

Eu, sentado na esquina da sala assisti a tudo.

A gnr apareceu e logo levou as mulheres para o posto.

Eu continuava a ser o único na sala, o aplauso do público que em pé rendia homenagem aos actores.

Desceu o pano, a peça acabou.

Manolo e a família desapareceram de Melgaço.

Um belo dia, de certeza que não chovia, num dos meus encontros com o Joaquim Rocha, Lilo para todos nós, antes que ele falasse vi que trazia novidades.

— Sabes de quem é padrinho o teu pai?

Encolhi os ombros, sei lá de quem o meu pai era padrinho, ainda para mais que ele já morreu e eu não posso falar com ele.

— Lembras-te do Manolo cigano? O teu pai foi o padrinho de baptismo dele.

 

Onde estiveres Manolo, um grande abraço do Alberto.

 

Filho do Carriço, Ilídio Alberto de Sousa de nome

 

Camborio Refugiado