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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

INÊS NEGRA

04.03.13, melgaçodomonteàribeira

 

 

Nada nos indica que seria realmente Melgacense, mas o contrário também é válido. É sabido, que na idade média, os exércitos do Rei eram compostos pelos homens que os grandes senhores do Reino punham á sua disposição e nem todos serem homens de armas, e sim servos da gleba. Melgaço era na altura rodeado de várias cintas de muralhas e tal como hoje acontece, a população estendia-se por dentro e fora das muralhas. Pode-se assim especular e dizer que Inês era nativa de Melgaço, vivia fora das muralhas aquando do cerco e se juntou ao arraial de D.João I. Por outro lado poderia ser uma das muitas mulheres que seguiam atrás dos exércitos para os mais variados fins. Mas Inês actualmente está de tal forma enraizada no povo, que a questão não se coloca. Como mulher do povo é natural que se revoltasse com os castelhanos que serviam os interesses que não de Portugal. Na idade média, existia o senhor e o vassalo. Ao vassalo estava reservada a escravidão, uma vez que tinha que viver do trabalho e obrigações para com o senhor e é evidente que nunca poderiam, os estrangeiros, serem vistos com bons olhos. Outro facto importante, é a localização geográfica de Melgaço. Autenticamente encravado na Galiza, a guerra era o seu dia a dia, e indo os homens para a guerra o papel da mulher tinha obrigatoriamente de ser diferente. Seria ela a sustentar a família e a sustentar o senhor. Sendo o senhor castelhano, a revolta do vassalo acaba por ser maior e vai-se juntar ao exército do seu Rei. A sua figura poderia ser, meã de estatura, tez morena e cabelos compridos. A mulher Melgacense, tem entre 1,60 e 1,70 metros. Tez morena dos trabalhos no campo de sol a sol. Os cabelos compridos ajudariam a aquecer as longas noites de inverno, sob chuva ou sob neve. Negros, porque é a cor dominante dos nossos cabelos. Não é de afastar a hipótese de ser casada e ter família. Pode-se imaginar Inês a viver numa cabana de pedras sobrepostas, coberta de colmo, mal cheirosa devido á utilização dos excrementos do gado como combustível e por não haver saída para o fumo produzido pela fogueira onde cozinhariam os alimentos, essencialmente vegetais, e com 1 ou 2 catres a servir de cama. Arrenegada não seria muito diferente, excepto no vestuário. Enquanto Inês vestiria de burel áspero e sem graça, o vestuário de Arrenegada obriga-nos a pensar em vestes garridas, com corpetes e outros atavios, porque ela servia os castelhanos e logicamente os castelhanos se serviam dela. Como o cerco a Melgaço durou 52 dias e o combate se deu perto do fim do cerco, fácil será de imaginar os insultos trocados entre as duas. Evidente será que "p*** dos castelhanos" ou "vai-te para o perro" fossem utilizadas. Arrenegada estando dentro do Castelo, obviamente seria Melgacense assim como Inês. Conheceram-se elas? Vamos crer que sim e assim realçar o antes do combate. Tendo em conta a arquitectura da Vila era por mais normal a existência de casas senhoriais, de boa pedra talhada e telha de barro. Arrenegada servindo os senhores em taças de estanho e pratos de madeira, onde os talheres não entravam e Inês servindo o caldo em malgas também de madeira. O agrupamento familiar deveria ser disperso, isto é, o filho casado deveria ter a sua casa, mulher e filhos ( a mortalidade infantil deveria ser muito elevada). Vamos atribuir o nome de Inês Negra á negritude dos seus cabelos. Hipótese de ser negra ponho totalmente de parte, porque deveriam ser muito poucos os existentes na época. A saga dos Descobrimentos ainda não tinha começado.

Como os mouros também estiveram em Melgaço, o cabelo lustroso poderia ser a origem do nome ou alcunha.

O combate que teve lugar, e não há duvidas nenhumas, que teve lugar entre as 2 mulheres não serviria, chamemo-lhe assim, o repouso do guerreiro? É que o cerco já ia demorado. Vamos crer que efectivamente determinou a vitória dos portugueses, A vida no Castelo não seria nada fácil, porque o poço que abastecia a vila de água ficava fora das muralhas, e a cisterna existente no Castelo não daria seguramente para muitos mais dias. Poderemos pensar que Inês foi recompensada de alguma forma pelo seu gesto pelos novos senhores da Vila. Seria lógico, mas não deixaria por isso de ser um trabalhador braçal, se não no campo, pelo menos na casa senhorial. D. Filipa, a Rainha, acabara de conhecer D.João I. Diz-se que D. João quis oferecer a conquista de Melgaço, o único que estava em poder dos castelhanos em toda a fronteira do reino, como prova da bravura militar dos portugueses. Sabemos que a Rainha ficou hospedada no Mosteiro de Fiães, a 1 légua de distância. Será que o Rei a visitava? O casamento real serviu para fortalecer aliança entre ingleses e portugueses, contra aliança de castelhanos e franceses.

Se colocarmos o combate como desfecho final da contenda, então poderemos achar natural que a Rainha estivesse ao lado do Rei.  Se Inês tem perdido o combate, o cerco continuaria e ela seria uma entre muitas das que morreram ás mãos do inimigo. D. João I foi o 1º Rei da Segunda Dinastia e que teve pela frente o trabalho de expulsar de todo o Reino o governante Castelhano. E a mais sítios teve que ocorrer porque as escaramuças fronteiriças nunca acabavam. D. Filipa é-nos apresentada como a mãe modelo, a geradora e educadora da ínclita Geração. Inês deve ter-se juntado ao arraial quando este se formou para o cerco, porque naquela altura todos os braços seriam poucos. Na parte de dentro do castelo deveria haver muitos melgacenses que nada tinham a ver com os castelhanos, mas que cujas casas se situavam dentro das muralhas. Portugueses eram os senhores e seus homens de armas que foram expulsos para Castela após a rendição. Inês, vejo-a como uma mulher dos 23 ou 24 anos de idade e para o historiador não passa dum dado episódio, entre muitos em que foi fértil a reconquista de todo o reino. Duvido que nos cursos de história seja nomeado este episódio. Já o feito da Padeira de Aljubarrota que , diz-se matou vários castelhanos com a pá de fazer o pão é tema nacional. Mas aqui temos que ver o peso dos acontecimentos a nível do Reino. Em Aljubarrota foi derrotado o exército castelhano, o exército do Rei de Castela, que foi a mola real para a derrota dos Castelhanos a nível nacional. Em Melgaço foi a luta dos portugueses contra alguns senhores feudais portugueses por Castela. Não creio que os melgacenses fossem mais nacionalistas depois de Inês, porque continuaram a ver os vizinhos galegos (oprimidos por Castela) da mesma forma. E Melgaço recebera foral do 1ª Rei de Portugal, D. Afonso Henriques pelo qual lhe tinham sido dadas muitas mercês. A Portugalidade dos melgacenses nunca por nunca foi posta em causa. Neves de Antanho, do qual não possuo nenhum exemplar, conta-nos lendas de Portugal. E Portugal tem muitas mulheres como heroínas, tanto locais como nacionais. Foi o Conde de Sabugosa a criar os nomes de Inês Negra e Arrenegada para as 2 mulheres, uma do arraial e outra do Castelo que andaram á luta e venceu a do arraial, como refere as Crónicas de D. João I de Fernão Lopes. Inês foi tirada do limbo pela Câmara Municipal há uns 25 anos. A mulher melgacense teve sempre o destino traçado. Antes era a guerra que lhe levava homem e filho, depois foi a fome a levá-los a correr mundo e por fim outra guerra, esta bem mais longe a levar-lhe outra vez o filho e o homem. Para a mulher, viuva de mortos vivos, ficou sempre a casa, o campo , os animais e os filhos sem idade para partir.

 

Castelhanos - Na realidade portugueses que  detinham o poder na praça forte e se declararam a favor da causa de D. Leonor e contra as pretensões do Mestre de Aviz.

 

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