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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MAIS OUI

04.03.13, melgaçodomonteàribeira

 

Dia de feira em Melgaço

 

 

— Mais oui, d'acord!

— Eh bien sur!

— E a Ivette?

— Ficou furiosa, n'est ce pas, Luis?

— Ah bien sur, nam?

— Porra, então esse filho da p*ta não viu que se ia foder?

Sentado na esplanada do adro da Igreja Matriz, santificada a Santa Maria da Porta padroeira da Vila de Melgaço, assim designada por ali ao lado se situar uma das antigas portas de entrada para a praça fortificada, bem no coração da vila, recordo os versos de Ferlinghetti: Passo os dias á porta do café do Mike...  O relógio na torre da Igreja abala-me os tímpanos com o pooouuummm do ferro a bater no bronze do sino. São três da tarde, á meia-noite será pior. O céu cinzento, um calor abafado e um vendaval de vozes que impõe o silêncio.

— Pero que és mui guuapaa!

— Adonde quedou a nai?

— Foi a buscar o viño.

— Nosotros bamonos a igrexa.

É só uma família galega que passa.

— ...da-se, esse gajo num tem olhos?

— Mira coño, que guapa!

— À tout à l'heure!

— Onde comemos hoje mai?

— Em nossa casa, bien sur, nom...

Brum...brum... um carro, matricula francesa, desce a Rua Direita. Transito só para moradores, diz o sinal. Durante este mês ele também é morador.

— Oi Ilídio, não vai na praça, não?

Cumprimento o primo Manuel, há cinquenta anos no Brasil. Desde 1965 que não vê Melgaço. Mora no Rio, trabalha em pintura sobre azulejo com vários trabalhos oferecidos a instituições melgacenses. Passou com seu trabalho na tv num programa cultural e intercâmbio musical com grandes nomes portugueses e brasileiros. Tem uma página no jornal A Voz de Melgaço, onde dá conta da movimentação de melgacenses e suas iniciativas, principalmente no Rio. É o meu confidente e principal apoio em relação ao Melgaço antigo.

Poouummm, passou meia-hora, ás quatro volta a tocar.

Um amigo senta-se e logo salta a bola, grande remate e... é mais um golo do FC Porto. As cores auis e brancas ganharam a noite passada para a Liga dos Campeões Europeus e o resto é conversa. Quem não é portista é mouro e é bom que hoje não se aproxime.

Ouve-se um solo de trompete; bombos e pratos marcam o ritmo. Uma charanga galega dirige-se para nós. Acabada a musica é hora de molhar a garganta... Não demora a fazerem um circulo e a gaita de foles a gemer uma muiñera. Estão a pagar o vinho que beberam.

— Fernando, traz uma água e uma cerveja.

A água é para mim... Uma figura sobre andas, vestes encarnadas e negras aparece de uma ruela. Para o Padre, que acabara de chegar, ela representa uma feiticeira. Á porta da Igreja debato com o Padre a importância das feiticeiras na medicina da Idade Média argumentando forte com a ajuda de Jules Michelet. Não entramos no Santo Oficio, e ainda bem, senão a minha cotação junto do representante de Cristo na vila, descia para valores negativos e não seria do agrado de minha mãe, que aos 84 anos faz parte do coro da Igreja. Anda cansada, porque Agosto é o mês de casamentos e baptisados e o coro está a ser muito solicitado.

Trabalham 11 meses, são jovens, carros de gama alta, vem para casar na Igreja da sua aldeia... encravada na serra, soalheira e verde, mas onde não serão enterrados. Falam francês com as copines da sua aldeia uma delas irá ser sua mulher.

Foguetes rebentam no ar. Não é na vila, sabe-se lá em que lugar é a festa. Muitos santos padroeiros tem o concelho, todos venerados e festejados. Ou será a festa do reencontro? Será que os Santos nasceram todos no mesmo mês?

Ando uns metros e paro no cimo da Praça da Republica que hoje e sempre será o Terreiro, a praça dos papa-café. Carros e mais carros, Mercedes e BM's com musica a rebentar. Um parou no meio da rua para que o condutor trocasse beijinhos com uma copine sentada na esplanada. A sinfonia de buzinas mistura-se com o som tecno. Atravessar o Terreiro está fora de questão, a confusão é total. Descanso um pouco junto ao Parque na Alameda Inês Negra. Os rouxinóis no escorrega seguem o exemplo dos pais, a lingua francesa é predominante. Falo a um ou outro conhecido, as muletas obrigam a repetir a ladainha da enfermidade. Desisti de dizer o que se passa com o meu pé, agora a resposta é, a praticar desportos radicais. De todos recebo um sorriso, está maluquinho, e votos de melhoras que eu prontamente agradeço. A Assossiação Melgaço Radical já é bem conhecida no meio. As descidas dos rios Minho e Mouro, afluente do Minho que nasce nas nossas serras, slide, rapel, caminhadas, está felizmente em crescendo. Passo pela esplanada da Alameda mas não paro. Descanso junto da estátua de Inês e logo atravesso a porta das muralhas. O Solar do Alvarinho fica para trás, não apetece estar fechado. Todos detestam este calor, não venha por aí uma trovoada que só faz estragos. E se for de escaravana nada se salva.

No adro da Igreja sento-me a matar a sede. Água, na terra do vinho, eu só bebo água. Aparece um amigo, logo outro, o calor diminui e eles saltam da toca. Discute-se a noite, levanto-me e vou para casa. A noite não se discute, vive-se. Depois do jantar, uma volta de carro pela serra de Fiães, para apreciar a panorâmica da vila. O Castelo tudo domina. Melgaço é belo. Um mau encontro a seguir. Um filhote de raposa atravessa a estrada e o choque é inevitável. Fugiu mas não sei se sobriverá, a pancada foi forte. Descemos para a Vila, estacionamento não há mas parece deserta. A noite está fria mas no largo da Câmara o calor é muito. Centenas gritam, saltam e dançam com o som dum grupo galego. De seguida será a vez dum grupo da terra.

Sentamo-nos numa barraca, logo chegou costela assada, broa e vinho tinto. O grupo aumentou, a conversa é de loucos, o sino bate as cinco da manhã.

Vou dormir porque mais logo há festa e eu vou estar sentado na esplanada do adro da Igreja.