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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

VISITA A PARADA II

melgaçodomonteàribeira, 05.03.13

 

Capela da Minhoteira

 

   Por detrás da loja do Feito, apanhamos o estreito caminho que, atravessando um pequeno e verde pinheiral, ia dar à estrada de terra que levava à Cela. Passamos novamente pelo meio de outro pinheiral, que devia fazer parte do primeiro, antes de os separarem com a estrada da Cela, e fomos, enfim, ter ao verdadeiro caminho de Parada. Diante de nós, estendia-se, ao fundo, o regato e a ponte da Minhoteira. Bastante acima desta, avistava-se Parada, deslumbrante, sentada no colo das montanhas. Apetecia olhar e não mexer mais. Á direita, perto do regato, aos pés das mesmas montanhas, deslumbrava-se a bela e graciosa Gave. A vista era singular. Era o sítio ideal para sonhar, se os sonhos dos do Monte não fossem outros. O caminho de pedra descia a pique até à Minhoteira. Não era muito largo e as pedras que o pavimentavam, enormes, há muito que tinham sido alisadas pelos homens e pelas águas das chuvas. A cautela era mais do que necessidade. A ribanceira até ao regato assustava. Uns simples grãos de areia tinham provocado muitas quedas. A descida era particularmente perigosa para as burras que, além da carga, viam os riscos aumentados pelas ferraduras. Até ao regato, a vegetação reduzia-se ao mínimo: giestas, urzes e carqueijas. Algumas burras já tinham ido parar perto do riacho. Uma levou o dono com ela. Quando não morriam na queda, depois de terem batido contra as pedras por ali espalhadas e percorrido dezenas de metros aos tombos, eram, depois de grande sofrimento, abatidas a tiro.

   Minutos depois de termos começado a descer o caminho, cada qual com um pequeno saco ao lombo onde levávamos a meia dúzia de coisas que faziam falta, estava a suar. O sol ia alto, não perdoava. O chapéu de abas largas que todo serrano se devia de trazer, protegia a cabeça ao meu pai. A meio, um jacto de água que de entre as pedras brotava, permitiu que nos desalterássemos. Era fresquinha, vinha das entranhas do monte. Continuamos a descer e comecei a ouvir um zumbido que aumentava à medida que nos aproximávamos da Minhoteira. Era o barulho da água do regato que, desde Lamas lançada, batalhava contra os pedregulhos que, no leito, se lhe opunham. O vencedor conhecia-se;  a incógnita era o tempo.

   Minhoteira. O calor e a descida excederam-nos. É estranho como, apenas a ponte passada, a paisagem se transforma. A vegetação manifestava-se bastante. Junto da ponte, de um lado, um moinho, do outro, a capela, e entre os dois, um grande castanheiro que já se devia ter esquecido da idade. Foi à sombra dele que deixamos o corpo aclimatar-se à temperatura mais clemente que, a partir dali, iríamos encontrar. Aproveitei para comer um pedaço da peça de pão com duas "castanhas" de chocolate. Enquanto mastigava, olhei para o monte que tínhamos descido. O caminho começava a subir imediatamente após a ponte. Da direita para a esquerda, ia-se elevando, elevando até desaparecer no cimo do monte. Quando um adulto adoecia gravemente, eram quatro que, com a pessoa numa padiola às costas, trepavam esse caminho até Pomares. A nós levara-nos mais de uma hora para o descer com um simples e ligeiro saco às costas! A proeza era mais do que rebarbativa!

   Pusemo-nos a caminho. Os campos, rodeados de vinha, eram um leque de cores e de sementeiras. A subida até Parada não era muito cansativa. Parte do caminho, que mal era metade do da Minhoteira a Pomares, era protegida pela vegetação e pelas latadas de vinha bastante abundantes. Como o termo do caminho era junto da igreja e a nossa casa ficava no lado oposto, tínhamos que, em certo ponto, cortar através dos campos. Os antepassados tinham-se acordado em autorizar um direito de passagem. A subida era espaçada por os campos, apesar de grandes, serem em socalco. O cansaço era suportável quando, ao fim da tarde, saltamos o pequeno muro da última leira e vi a Tia Bilam Belha (velha, o V não existia no Monte), sentada no chão, como gostava, a descascar feijões. Já não tinha idade para ir trabalhar para os campos. Franzina e desdentada, ocupava-se das tarefas caseiras mais simples. E que fazer não lhe faltava, dizia. Depois da conversa de uso, demos os passos que nos separavam da nossa casa da Barroca.

 

(continua)