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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

A MINHA PÁGINA NA NET

05.03.13, melgaçodomonteàribeira

 

 

PORTO DOS CAVALEIROS


A propósito da publicação no JORNAL DE LAMAS DE MOURO – PORTO DOS CAVALEIROS – de Julho de 2003 a história de Virgílio Domingues, a autora Catarina A. Domingues, escreve:

“Resolvemos transcreve-la e publicá-la para lhe garantir a merecida perenidade.”

É com este sentimento, de não deixar morrer a nossa história e a nossa cultura, que transcrevo o artigo publicados em PORTO DOS CAVALEIROS.

 

 

MEMÓRIAS DE UM EMIGRANTE PIONEIRO

 VIRGÍLIO DOMINGUES

 

Nasci em 1920 num tempo de muita miséria, trabalhava-se muito, e trabalho duro que era tudo manual, mas dinheiro não havia – tive a minha primeira moeda (10$00) aos 13 anos, quando fui cegar feno para Castro Laboreiro.

Para os que ficavam na terra, havia quem emigrasse, sobretudo para Espanha e para o Brasil, o contrabando era a única forma de ganhar uns tostões. Eu fui muitas vezes, mas tirava pouco lucro porque ia sempre por conta de outrem.

Durante a Segunda Grande Guerra, por volta de 1942/43, abriu a exploração do volfrâmio nos montes de Castro Laboreiro (em Numão), era um metal muito procurado para armamentos e pagavam-no bem – em quinze dias que passei lá juntei o dinheiro que precisava para pagar as três vacas que tinha “de ganho”.

Já a Guerra tinha terminado, ouvi a uns rapazes de Castro que valia a pena emigrar para França, tinham recebido notícias de vizinhos a dizer que havia trabalho e era bem pago. Foi o que nos animou, a mim, ao meu irmão José e um nosso vizinho, o Oliveiros Domingues (“Livreiros de Mouro”). Foi uma decisão difícil, tive que vender uma vaca para pagar a passagem e ao passador, correndo o risco de ficar sem ele e ainda preso, pois ia clandestino, mas a esperança de melhor vida dava-me coragem.

Saímos no dia 29 de Junho de 1946 de manhã cedo, apanhamos o autocarro na Notária até à estação de Felgueiras e daí fomos de comboio até S. Sebastian, já sabíamos que havia lá um hotel onde se reuniam os que queriam sair clandestinamente, era o local de contacto com o passador. Dirigimo-nos ao hotel, com alguns rapazes de Castro que tínhamos encontrado na viagem, e desde logo ficamos a saber que estava difícil passar, tínhamos que esperar.

Passaram-se mais de dois meses e então, por telefone, o passador deu ordens para seguirmos para Irun, no comboio da noite, em grupos de 7 que lá nos procuraria. Eu, os meus dois companheiros e mais quatro rapazes que também eram de Melgaço fomos no comboio das 11.

Pelo caminho calhou-me ir sentado ao lado de um polícia à paisana, perguntou-me onde íamos, eu respondi que íamos à procura de trabalho a Espanha, mas ele não acreditou, mostrou o distintivo, chamou o colega que estava sentado mais à frente e deram-nos voz de prisão. Chegados à estação, preparavam-se para nos conduzir ao posto, mas eu revesti-me de coragem e desatei a fugir pela linha do comboio acima – sorte que não abriram fogo! Andei aproximadamente um quilómetro a pé, completamente desorientado, e passei a noite escondido atrás de um silvado sem comer nada, cheio de frio e de medo. Ao romper do dia dirigi-me novamente à estação para voltar a S. Sebastian onde tinham ficado os outros, souberam pelo passador do que nos tinha acontecido e já não saíram. Encontrá-los não foi fácil, quanto mais andava mais perdido me encontrava, comprei o jornal e lá numa grande praça sentei-me num banco fingindo que estava a ler, nada disso, eu só pensava no rumo a seguir para chegar ao bendito hotel.

Restabeleci, o cérebro descansou um bocado, e continuei a busca até que os encontrei. Ficaram muito admirados de me ver, pois julgavam-me preso. No dia seguinte mudamos de hotel porque estávamos denunciados. Passaram mais oito dias até que chegou nova ordem para seguir para Irun, mas desta vez de dia e em grupos de dois, para não dar nas vistas, e lá que nos escondêssemos como pudéssemos até ao cair da noite. Assim foi, era já noite escura ouvimos a senha combinada (cantar como as perdizes) e então fomos ao encontro dos passadores (eram 2).

Seguíamos por um carreiro no meio do monte, em direcção à fronteira, quando demos conta de uma luz. Eram dois guardas-civis, fugimos em direcção contrária e escondemo-nos num campo de milho. Ali passamos 24 horas, de noite gelávamos de frio e durante o dia queimava-nos o sol, pois nem podíamos levantar a cabeça.

Na noite seguinte lá apareceram os passadores e depressa nos encaminharam até à fronteira. Á nossa espera estavam dois guardas-civis “comprados” e uma barquinha, para atravessar para o outro lado. Mas alguma coisa no combinado correu mal e os dois guardas voltaram atrás com a palavra, já estávamos na barquinha quando nos ordenaram para voltar atrás ou nos matavam a todos. Não nos prenderam porque tinham acordo com os passadores mas avisaram-nos que não havíamos de passar.

Fomos então para uma capoeira de galinhas que os passadores tinham alugada e aí ficamos dois dias e duas noites sem comer nem beber, mal podíamos respirar. Deram-nos alguma coisa para comer, mas o estômago já não consentia comida e, aconselharam-nos a voltar para S. Sebastian até as coisas melhorarem. Tal como tínhamos chegado ali, assim planeamos sair, dois de cada vez. Eu e o Zé da Açureira fomos logo presos, quando íamos para tirar o bilhete, no mesmo local onde tinha fugido anteriormente. Levaram-nos para a prisão de S. Sebastian e lá encontrei o meu irmão e o Oliveiros que tinham sido presos, quando eu fugi. Andei de prisão em prisão, algemado como um criminoso, desde S. Sebastian até Melgaço. Aí deparei-me com mais um problema, para me libertarem tinha que apresentar o bilhete de identidade ou os documentos militares, e eu não tinha um nem outro, o bilhete de identidade tinham-me ficado com ele em Espanha e os documentos militares não os tinha porque era refractário – decidira fugir ao serviço militar porque tinha filhos pequenos e tinha que os criar. Fui obrigado a ir às inspecções a Viana do Castelo e por infortúnio fiquei apurado. Mandaram-me oito dias para casa e entretanto recebi um aviso para me apresentar na Base da Ota, para ir para a aviação. Não me apresentei e então fui considerado desertor, fui procurado pela polícia e andei fugido.

Em Junho de 1947 decidi tentar “o salto” mais uma vez, cheio de medo pois tinha passado muito maus caminhos e além disso arriscava-me a ser apanhado pela polícia. Desta vez, tentei outro caminho. Fomos até Madrid eu e o Virgílio Pereira encontrar-nos com o José Piscado e o António Domingues (António de Adaúfe) que estavam aí a trabalhar enquanto esperavam ordens do passador. De Madrid seguimos para Pamplona, e daí seguimos a pé pelas montanhas dos Pirenéus. Caminhamos durante duas noites (de dia tínhamos que nos esconder) debaixo de chuva e vento, orientados por um passador já habituado àquelas travessias.

Pisamos solo francês o dia 9 de Julho de 1947. Á primeira jandarmaria que encontrámos já nos entregámos, cansados que estávamos, com fome e sem dormir. Puseram-nos a cortar lenha em troca de sustento e no dia seguinte encaminharam-nos para o tribunal de Bayonne. Lá já fomos acarinhados, mas fomos condenados a 15 dias de prisão suspensa, porque tínhamos atravessado a fronteira sem autorização.

De Bayonne fui para Brestes, uma cidade completamente arrasada pela guerra. Não faltava trabalho e depressa arranjamos dinheiro, mas não havia onde comprar nada, durante nove meses passámos muita fome.

No ano seguinte, no mês de Maio, fui ao consulado de Portugal, em Paris, para me tentar livrar do serviço militar e assim poder regressar a Portugal. Só lá estavam duas raparigas, expliquei-lhe a minha situação e elas mostraram-se compreensivas. Paguei a quantia que pediram e ficou combinado de eu passar às cinco da tarde para levantar os documentos. Mas nesse horário foi o cônsul que me recebeu garantiu-me que não tinha “livramento”, pois era um desertor. Eu fiquei tão transtornado, que cheguei a afirmar que não voltava a Portugal. Ele lá se comoveu e prometeu que faria um pedido ao chefe de Estado-Maior. Assim foi e Graças a Deus fui perdoado.

Só voltei a Portugal passados 5 anos, pela altura do Natal, diziam que “a França ia acabar”, como já tinha acontecido na altura da Primeira Guerra e era preciso aproveitar. Na verdade não foi o que aconteceu, ao todo fui emigrante durante 27 anos, regressei definitivamente ano dia 25 de Abril 1974.

 

Catarina A. Domingues

Publ. em

Porto dos Cavaleiros

Jornal de Lamas de Mouro

Julho 2003

Transcrito por

Camborio Refugiado

 

PS: OS TEXTOS PUBLICADOS NO (INFELIZMENTE ACABOU) JORNAL DE LAMAS DE MOURO – PORTO DOS CAVALEIROS PODERÃO SER CONSULTADOS BREVEMENTE NA PÁGINA WWW.MONTESLABOREIRO.COM DA INSTITUIÇÃO NÚCLEO DE ESTUDOS E PESQUISA DOS MONTES LABOREIRO QUE TEM POR BASE -  HISTÓRIA, PATRIMÓNIO E CULTURA – CASTRO LABOREIRO E LAMAS DE MOURO.

DA PÁGINA WWW.MONTESLABOREIRO.COM RETIREI A INFORMAÇÃO:

NEPML prepara Agosto Cultural2008

O NEPML vai realizar em Agosto o VII Congresso de História Local no lugar da vila, em Castro Laboreiro. O evento é dedicado a vários temas inéditos. Brevemente será colocada mais informação, e no link dos Eventos constará a data e respectivo programa, com temas e palestras.

ADICIONA AOS FAVORITOS WWW.MONTESLABOREIRO.COM

 

Camborio Refugiado


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