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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

VISITA A PARADA I

melgaçodomonteàribeira, 05.03.13

 

 

   Como era costume fazer periodicamente, o meu pai viera passar uns dias a Melgaço. Não gostava da Vila, dizia. Os da Vila, acrescentava, têm a mania que são os mais finos, os mais ricos. Fazem dos do Monte burros.

   Não era da Vila que não gostava, mas sim "dos da Vila". A eterna rivalidade entre os da Vila e os do Monte. O único sítio, além da loja da minha irmã, onde se sentia à vontade, era a loja do Loca. Independentemente das qualidades da pessoa, também era por ambos terem um gosto em comum: a caça. Ali, em companhia de mais alguns conhecedores, passava horas. Quando se maçava, regressava ao Monte. Voltava ao Monte que lhe dera vida, onde sempre viveu. Tinha tudo lá: o passado, o presente e o futuro. Em Parada do Monte, era ele o mais fino e um dos mais ricos.

   Descendente de uma grande e abastada família que dera regedor à freguesia e sotainas à Igreja, nunca precisou de trabalhar. O dia seguinte nunca o preocupava porque, além de ter muito, contentava-se com pouco.

   Havia um ano que não ia a Parada. Por ter estado ausente nos últimos cinco anos, só lá fora uma vez. No Monte, o verdadeiro trabalho faz-se na primavera e no verão. Estávamos precisamente no verão e preparava-me para ir a Parada com o meu pai. Íamos arrancar as batatas. Tinha que ir, tinha vontade. A minha ajuda, apesar de eu não perceber nada dos campos, era bem vinda. Havia sempre tarefas simples para fazer que adiantavam o trabalho, encorajava-me o meu pai. Para mim, o Monte era um regozijo e uma aventura; lá ir de tempos a tempos, era mantê-los intactos. Era a imagem que tinha.

   A Kreidler do meu pai já estava em frente da porta da casa. No Loca comprara uma pasta de chocolate A Valenciana para mim, assim como um frango congelado. Lá em cima não havia escolha possível. A falta de electricidade não permitia conservar carnes e peixes frescos.

   A tarde apenas tinha começado quando, depois das coisas variadas que levávamos serem carregadas na mota, arrancamos rumo a Parada. O sol, que aínda não ouvira falar em efeitos de estufa, marcava presença. Até Pomares, a viagem era uma preparação lenta e constante exercida pela paisagem. Como íamos devagar (o meu pai tinha gosto demais na motorizada), tinha tempo para usufruir de tudo. Pouco mais de um quilómetro antes de chegarmos a Pomares, a mota foi-se abaixo. Depois de uma minuciosa inspecção, constatamos que não tinha gasolina. Mota sem gasolina não é como burro sem comer; a este, a fome fá-lo andar.     

   Chegamos a Pomares com a mota à mão. O Monte começava ali. O moinho que se encontrava à entrada, onde as estradas de Castro, da Cela e de Cousso se tocavam, e cuja água fazia um barulho de cascata, era, para mim, a porta de entrada do Monte. A mudança era radical. As casas, os campos, a vegetação quase inexistente, a noção de espaço eram totalmente diferentes do que havia abaixo de Pomares. Sem falar das pessoas, do seu olhar, da distância e da mão estendida aos que não conheciam. Não podia ser de outro modo numa terra onde ninguém, durante o dia, fechava a porta da casa.

   Fomos directamente à loja do Feito. Era mais acima, junto da nacional, do lado direito. Quando o conheci, já andava com as muletas de madeira por debaixo dos braços. Era irmão do Alípio, tinham casa lado a lado. O Feito guardava-nos a mota numas barracas, ao lado da casa. Também arranjaria um pouco de gasolina para, na próxima, o meu pai poder ir à Vila e lá encher o depósito. Pouca porque era quase sempre a descer e fazia grande parte do percurso com o contacto cortado. O ser profuso não o impedia de ser poupado. Compramos uma peça de "pam" e um bom pedaço de brôa para levar. O irmão era o padeiro. Em Parada, era tudo mais caro pois não havia estrada e tinham que pagar às pessoas que alugavam as costas ou às que alugavam as das burras. O transporte de mercadorias para Parada, Gave e os lugares das duas freguesias fazia viver muita gente, apesar da concorrência.

 

(continua)