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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

VACINA DA VARÍOLA

melgaçodomonteàribeira, 05.03.13

 

Desenho de Manuel Igrejas

 

 

O Manelzinho ganhou da irmã da Caridade, que era a enfermeira do hospital, a caneta vazia, da vacina contra as bexigas. Naquele tempo essa vacina vinha num tubo que terminava numa ponta em forma do aparo que dava ideia de caneta de tinta permanente. Levou-a para a brincadeira habitual. Aquela novidade mexeu com a imaginação do Rogério. Com a sua verbe inigualável convenceu o primo a ceder-lhe a bisnaguilha para ele montar um consultório médico. A garotada da vizinhança foi convocada para vir vacinar-se. Era uma brincadeira nova e engraçada anunciou, convencendo os mais desconfiados. Formou uma pequena bicha, todos de manga arregaçada aguardando a vez de receber as três cruzinhas com a ponta da caneta, tal como faziam de verdade no hospital. Muitos risos com as cóceguinhas que aquilo fazia. Um “paciente”, porém, reclamou do “doutor” que o feriu ao fazer força exagerada no seu braço. A paciente seguinte, a Armanda da Isabel Caçolas, não quis vacinar com medo de ser picada. O Rogério contrariou-se, barafustou por lhe estragarem a brincadeira, ele armado em médico tinha de provar a sua autoridade. Para provar que aquilo era tudo de mentira, que não doía, demonstrou em si mesmo. Arregaçou o braço direito, ele era canhoto, fez um longo risco, algo profundo, ao longo do seu antebraço.

Naquele dia a brincadeira ficou por ali mesmo. Três dias depois, o Rogério amanheceu com um febrão dos diabos. A mãe, a tia, toda a vizinhança ficou assustada. Chamaram o Dr. Suissa que caiu na gargalhada ao ver aquela vacina gigante inflamada e sentenciou: - rapaz, tu nunca vais ter bexigas na tua vida! A febre levou alguns dias a acalmar, retendo o Rogério na cama. Durante algumas semanas andou com o braço na tipóia sem vontade de inventar brincadeira.

Naquele tempo ainda não existia o Guiness, o livro dos recordes; caso existisse, a vacina do Rogério estaria registada como a maior vacina do mundo.

Arrastado, quente e gostoso corria o verão que se aproximava do seu ocaso. Naquela época o tempo passava mais devagar. Era um domingo à tardinha, o Augusto do Félix, a sua mulher Deolinda e o Manelzinho, desciam pela estrada da Carpinteira, despreocupados, em passos vagarosos, regressando de mais uma das costumeiras visitas ao tio Manel e ti Rosa do Regueiro. Este casal de remediados lavradores do dito lugar da freguesia de São Paio, tinham com aquele outro casal uma sólida e antiga amizade que cultivavam com recíprocas visitas. Estrada abaixo, o Augusto do Félix cantarolava:

 

As freiras de Santa Clara, Santa Clara,

quando vão para o coro, para o coro

diziam umas para as outras, para as outras,

ai quem me dera ter um namoro, um namoro.

 

Cebolório, cebolório…

 

Mudando de tom Augusto continuava:

 

Era uma velha que andava a varrer,

debaixo da cama andava a varrer

com sete batatas no cu a bater,

e quanto mais a velha varria

mais as batatas no cu lhe batiam…

 

O Manelzinho achava graça e fazia coro. Pela altura de Corçães, em frente à casa do Teodorico, encontraram-se com a Dona Olívia e a Flavinha Mulata que andavam passeando, saboreando aquele aprazível lugar e os aromas do gostoso fim de tarde. Aquelas duas deram meia volta e todos vieram conversando. Entre as amenidades abordadas veio à baila o Manelzinho e sua condição de já poder frequentar a escola. Ali mesmo ficou acertado o ingresso do garoto na famosa escolinha. Era um património da terra a escola da Dona Olívia. Sempre que era evocada faziam-no com muito carinho.… A sua titular gozava do respeito geral. Já era uma senhora entrada nos anos e a Flavinha, sua filha de criação, também era muito estimada. Havia também o Zeca, acho que neto de Dona Olívia, e embora tivesse mais família, inclusive na África, naquela altura resumia-se àqueles três personagens em Melgaço. Moravam na Rua Direita esquina com a travessa do Castelo, aliás a fachada principal era virada para a travessa e tinha duas escadas de pedra. Uma mais larga que dava para a sala e outra mais estreita de acesso à cozinha. Era por esta que entravam as crianças. A escola funcionava nos aposentos da casa e os alunos eram a mais confusa mistura que se possa imaginar. Tinha ricos, remediados e pobres, rapazes e raparigas desde crianças de colo que só engatinhava até marmanjões que já frequentavam a escola oficial e que, para não ficarem a vadiar pela rua na parte da tarde, os pais colocavam-nos na Dona Olívia.

Para ingressar nessa memorável escola maternal era indispensável levar um banquinho e, claro, o material escolar que se resumia a uma lousa e os competentes lápis de lousa, vários, que eram o resultado do primeiro após quebrar. Os bancos, mais altos ou mais baixos, de acordo com o tamanho de quem os ia usar, reflectiam o poder económico das famílias das crianças. Tinha banquinhos toscos, empenados e mal acabados e tinha banquinhos primorosos, feitos por competentes carpinteiros, alguns até pintados e outros, requinte dos requintes, até com gavetinha. O banco do Manelzinho tinha gaveta, não que o pai dele fosse mais abastado que os outros, muito pelo contrário, mas porque o seu cunhado Lucas, como foi dito, era carpinteiro e o garoto o seu bijú. Algumas crianças não tinham bancos, sentavam nos bancos, grandes, corridos, que ladeavam a mesa das refeições. Era mais cómodo para os maiores, sentar nestes bancos pois apoiavam a lousa na mesa ao invés de ficar sobre os joelhos, quando sentados nos banquinhos. Daí o haver permutas de lugar que envolviam parte da merenda.

 

 

Manuel Félix Igrejas

 

Rio de Janeiro

 

Public. em A Voz de Melgaço