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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

A IDA A VALENÇA

melgaçodomonteàribeira, 05.03.13

 

 

O Manelzinho conseguiu levar a corneta e o tambor, os seus exclusivos brinquedos importados, quando foi com a mãe na sua habitual ida à horta. Pelo caminho ia exibindo-os para fazer inveja aos rapazes que cruzavam. O Rogério percebeu de longe a presença daquelas maravilhas de que já ouvira falar. Empregou a sua melhor dialéctica para convencer o primo a deixá-lo usar aquelas preciosidades. Estava difícil convencer o Manel quando teve uma ideia genial:

— Vamos fazer uma música e ir a Valença.

O Manel e os outros garotos que estavam por ali ficaram empolgados. A notícia correu célere. Os rapazinhos foram chamar outros colegas que àquela hora andavam zanzando por outros lugares da Vila. Rapidamente havia na porta da taberna da Lúcia um número de rapazes maior que na saída da escola. As pessoas grandes vinham à porta da casa ou à janela saber o que estava acontecendo.

— Se calhar vai ter outra guerra das cruzadas, dizia o Sebastião à porta da sua taberna. A dona Margarida, “a madrinha”, mais a Felícia, da janela do seu atelier de costura, por cima da tasca do Sebastião, perguntava aflita o que estava acontecendo. À medida que tomavam conhecimento do que a canalha tramava, riam e voltavam aos seus afazeres.

O João da Rosa Porca, tremendo brincalhão, sentado à sua banca de sapateiro, sem interromper o trabalho, participava da movimentação das crianças à porta da sua oficina, do outro lado da rua em frente à taberna da Lúcia, incitando-os e dando-lhes algumas ideias de como se organizarem. Como juntou canalha nessa tarde! Vieram de dentro da vila, da Feira Nova, do Terreiro e até da Calçada.

O Nando da Teresa, primo do Rogério e do Manel, também apareceu para tomar conta da brincadeira por ser o mais velho. Apoderou-se do tambor e o Rogério da corneta, ao Manel deram um pedaço de vide onde tinha de fazer piriri…piriri todo o tempo. O resto da turma, também com pedaços de pau, faziam com a boca imitação de instrumentos, alguns batiam em latas e tinha até um que com duas tampas fazia o som dos pratos. O João da Rosa Porca deu a instrução e eles formaram quatro a quatro e a formação tinha jeito. Com a boca fingindo o som dos instrumentos conseguiam produzir a melodia de um ordinário conhecido. Foi dada a partida, rua do Rio do Porto abaixo ao comando do tambor batido pelo Nando. A batida era boa e ritmada igual à do António Caixa que era quem tocava tal instrumento na Banda de verdade. De repente descompassou e todos pararam após uma dúzia de passos. O Nando estava com problemas numa das alpargatas, a sola despregara e dependurada não deixava pisar firme nem manter a cadência. Descalçou-se igual à maioria dos componentes e foi dada nova partida. Quem comandou a saída desta vez foi o Rogério com um forte sopro na corneta e um forte grito triunfal:

— Vamos a Valença!

As pessoas grandes riam com gosto daquela chochice das crianças. Todos os moradores daquela rua vinham à porta apreciar o desfile. A Isabel Caçolas e as filhas, Ervilha e Milanguta, mais em baixo a Carolina Braga à porta da sua Pensão que conversava com o retratista, o Dom Rodrigo da Feira Nova e o Armindo da Pontepedrinha que estavam ali por acaso; mais adiante o Sabino à porta da sua mercearia, também ria. Os tanoeiros deixaram de bater nas aduelas, talvez para não atrapalhar a batida do tambor e nem por isso atrasaram a feitura das pipas. O tio Diogo à porta da loja da Carneira chamava as pessoas que estavam lá dentro para verem o cortejo. Do outro lado da rua, no portão do solar do Ferreira da Silva, o Zé Canelas e o Teodorico, feitores da propriedade, também riam da brincadeira. Os trá-lá-lás, os piriri-piriris os fom-fom-fons gritados pelas gargantas da rapaziada, mais o esganiço da corneta, as batidas das latas, tudo ao compasso do tambor, escutava-se longe, sobressaindo da pasmaceira daquela tarde de verão. Ao passar pelas pessoas o Rogério parava de soprar e gritava empolgado:

— Vamos a Valença!

O João Pitães largou a forja e veio à porta ver o que acontecia. Em cima da ponte sobre o regato (o Rio do Porto) quase houve um acidente. O Augusto Caçolas, descendo do outro lado, retornando de entregar os jornais em Galvão, vinha despreocupado pelo meio da rua guiando o seu Buick. Com o inseparável arco de pipa nas mãos, com os lábios imitando o ruído do motor do automóvel, num trote miudinho, desligado de tudo, apenas absorvido com o guiador do seu carro imaginário, em cérebro infantil, não obstante de ter mais de vinte anos, quase esbarrou na musica. Não fosse o aviso do João Anti que também vinha descendo daquele lado, alertando-o, a banda seria atropelada. Sorte que os travões do Augusto Caçolas obedeceram, ele fez uma graciosa manobra de marcha-atrás para o lado da rua e a musica passou triunfante. O Cerinha, à porta da sua oficina com a sovela e um sapato na mão, ria a bandeiras despregadas. Dois dos seus filhos também iam na marcha. Brincalhão e zombeteiro como não tinha outro igual, quando o Rogério anunciou que iam a Valença, retrucou:

— Isso. Ide, ide rapazes e fazei boa figura, mas tomai cuidado ao passar em Monção, porque eles têm inveja de nós.

O Edmundo Rato na sua latoaria, descobriu porque o filho, o Nove e Cinco, ainda não voltara do recado que fora fazer: lá ia batendo duas latas no meio da turma. E a empolgação chegou ao delírio! Na Loja Nova o sr. Esteves, a mulher D. Ludovina, a filha D. Micas e a sobrinha, a Isaurinha, o empregado Arlindo e algumas castrejas, assistiam embasbacadas àquela demonstração de alegria, bairrismo e galhardia da canalha melgacense. Até o António Ferrador que descia da Carpinteira, parou o seu carro e o Ronha estacou a carroça para não atrapalharem o desfile musical. E a Banda de Música seguia triunfante tomando a estrada rumo a Monção. No término da Vila, no final da Loja Nova, nos baixos do casarão, onde morava o Tenente Peres, tinha o Lucas a sua oficina de carpinteiro de sociedade com o Manuel do Caneiro. Os oficiais da Oficina já tinham dado pela aproximação do cortejo com a cadenciada barulheira. O Lucas também veio à porta e reparou no Manelzinho soprando num pau enquanto os primos se pavoneavam com os instrumentos importados. Ao mesmo tempo reflectiu que a brincadeira ia longe de mais, quando o Rogério, mais uma vez, anunciou a ida a Valença. O Lucas com um garrafão na mão anunciou:

—Pois já chegaram!

Entrou no meio da formação fingindo despachar sarrafadas. Apanhou a corneta, o tambor e o Manelzinho, levando os três para dentro da oficina onde ficaram de castigo até à noite na hora de ir para casa. Os outros rapazes, no momento da ameaça, pernas para que vos quero. Não obstante o desfecho imprevisto, aquela quase ida a Valença, ficou gravada na memória dos participantes como um retalho feliz das suas vidas.

 

Manuel Félix Igrejas

 

Rio de Janeiro

 

Public. em A Voz de Melgaço