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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

A CHEGADA DA PENICILINA A MELGAÇO

29.06.19, melgaçodomonteàribeira

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UM LUGAR ONDE NADA ACONTECIA…

III

O Amílcar da Lucrécia estava prestes a bater as botas. O José Esteves (Zeca da Cabana) tanto insistiu com o médico que este, talvez nem tanto para salvar o moribundo, mais para testar a eficiência do novo medicamento de que se contavam maravilhas e ele só conhecia da literatura especializada que os laboratórios lhe enviavam, resolveu aceder.

Era isso! O amigo Zeca da Cabana mexera-lhe com os brios quando lhe evocou a penicilina. Telefonou, o médico, para o Delegado de Saúde Distrital em Viana do Castelo dando detalhes do caso, este telefonou para Lisboa e vinte e quatro horas depois a penicilina chegava a Melgaço pelo correio.

A expectativa era geral na localidade e arredores. A notícia de que naquela terra de “Deus me livre” de Portugal ia ser usada a tal penicilina, causou grande furor. O doutor Esteves pernoitou ao lado da cama do Amílcar, injectando-lhe de hora em hora o milagroso pó branco diluído no veículo especial que acompanhava. A reacção foi positiva e pela manhã foi considerado fora de perigo.

O júbilo foi grande e o povo da terra sentiu-se importante por estar participando do progresso da ciência. Uma maravilha, a penicilina ia salvar a vida de todos os enfermos, diziam. O médico ficou orgulhoso e já achava que valera a pena salvar o rapaz.

Manuel Igrejas

 (continua)

MELGAÇO AMIGO

22.06.19, melgaçodomonteàribeira

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MELGAÇO

 

Melgaço é aquele abraço

Sem fronteiras,

Que desliza por vinhedos,

Fragas e ribeiras,

Acenando à Galiza

E sussurrando ao Minho seus segredos…!

 

Vem, Amigo,

Sentir porque choram de frio

As margens do rio em pleno inverno!

 

Descobrir a natureza em pranto,

Naquelas almas serranas

Vestidas de negro, imaculadas de branco!

 

Partilhar do gesto fraterno.

Quando a Serra desce às portas da Ribeira

Para abraçar a Vila em dia de feira!

 

Escutar a Canção do Emigrante,

Na hora longa da partida

E num curto instante de chegada!

 

Percorrer as pedras da velha calçada,

De Fiães a Castro Laboreiro,

De Paderne até à Orada!...

 

Melgaço… feito de pedra morena,

Torre de Menagem

Legenda da coragem de Inês Negra!...

 

Mais, muito mais.

Do que mil e uni matizes

Pintados em paisagem natural,

Melgaço, Amigo,

É luta, caminho raízes.

Pedaço deste nosso Portugal!

 

Retirado de: VIAGENS

Francisco José Carneiro Fernandes

ANCORENSIS – Cooperativa de Ensino, C. R. L.

Vila Praia de Âncora

2000

 

ANÉMONAS NO PLANALTO

15.06.19, melgaçodomonteàribeira

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ANÉMONA DOS BOSQUES

 

Além dos sinos azuis, há outras plantas de filiação nórdica que em Portugal nunca avançaram muito para cá da fronteira galega. Uma delas é a Anemone nemorosa, espécie de que as duas ou três populações existentes no planalto de Castro Laboreiro são as únicas que se conhecem em território nacional. A existência da anémona-dos-bosques em Portugal só foi confirmada em 1999 pelos botânicos Francisco Barreto Caldas, João Honrado e Henrique Nepomuceno Alves. Até então tinha havido uma história de equívocos remontando a Brotero, que identificou como sendo A. nemorosa a planta que hoje designamos por A. Trifolia subsp. albida, e que é mais ou menos frequente no norte de Portugal. De facto, as duas anémonas têm aspecto semelhante, são ambas de floração temporã, e comungam uma preferência por bosques caducifólios húmidos. A distinção entre elas faz-se sobretudo pela folhagem: as folhas de A. nemorosa têm margens marcadamente lobadas, a ponto de por vezes os três folíolos se converterem em cinco.

Estas poucas plantinhas que encontrámos com certa dificuldade, em dia de chuva – e as flores da anémona entristecem irremediavelmente com um aguaceiro – , são uma importante achega à nossa plena integração europeia. Antes de 1999, éramos, com a Islândia, um dos dois países europeus onde a Anemone nemorosa nunca tinha sido avistada. Depois disso ficou a Islândia sozinha sem as suas anémonas e com os vulcões. Até que a economia, pressurosa, veio restabelecer, com o défice no PIB e a bancarrota, os laços de penúria entre os dois países.

 

Retirado de:

Dias com árvores

 

http://dias-com-arvores.blogspot.pt

NÉCTAR DE MELGAÇO

08.06.19, melgaçodomonteàribeira

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TRIBUTO AO ALVARINHO SOALHEIRO

 

- Teremos futebolistas leitores – disse ela, com uma gargalhada profunda, baixa, provavelmente causada por fumar Marlboro, mas que, raios, me fez encher o peito e arrepiar a espinha. Comemos o caranguejo, bebemos mais cerveja e falámos de livros, filmes, actores, celebridades, droga, fama, sucesso e eu mandei vir uma lagosta grelhada e Luísa disse que pagava um vinho verde Soalheiro Alvarinho 96, que foi o mais brioso de quantos verdes eu tinha bebido na vida. Mandámos vir outra garrafa e bebemo-la em golos faiscantes, e duas horas e meia depois de termos chegado saímos do ar condicionado para as ruas quentes e vazias, sem trânsito, sem gente, com as árvores ainda mergulhadas no silêncio da sesta.

 

Último Acto em Lisboa

Robert Wilson

Edição Gradiva

2000

p. 314

 

HOTEL RANHADA, PESO, MELGAÇO - O INÍCIO

01.06.19, melgaçodomonteàribeira

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GRANDE HOTEL RANHADA

 

RANHADA, António Maria Guerreiro – Filho de Domingos José Valas e de Ana Rosa Ranhada. N. p. de José António Valas e de Maria Joaquina; n. m. Fortunato José Ranhada e de Maria Rosa, todos de Vilar de Mouros, Caminha. Nasceu nessa freguesia a 31/10/1856 e foi baptizado a 4/11. Padrinhos: padre João António Guerreiro e sobrinha, Maria Bernarda, seus tios maternos, na ocasião ausentes em Azurara, cujas vezes fizeram Manuel António Guerreiro e sua irmã Rosa Maria. Emigrou para o Brasil em 1875, onde arruinou a saúde. Regressou a Portugal aí por meados de 1887 para fazer tratamento no Geres, regressando de novo ao Brasil, onde o seu estado de saúde se lhe agravou. Voltou definitivamente ao seu país em 1888, recorrendo mais uma vez às termas do Gerês, mas o seu mal não desaparecia, pelo que no ano seguinte tentou Mondariz, Galiza, cujos benefícios foram nulos. Foi então que nessa estância termal ouviu falar das Águas de Melgaço e – tal como o náufrago que se agarra desesperadamente à primeira tábua que encontra – resolveu ir experimentá-las. Apanhou o comboio, apeou-se em Arbo, passou o rio na barca do Morgado do Reguengo e instalou-se em casa de José Ventura Abreu, que por especial favor o recebeu, tal era o seu aspecto. Graças às águas, e também aos ares puros, o hóspede melhorou e, grato, comprou terreno e em sociedade com seu tio Paulo, e João Luís Fife, construiu uma casa para hóspedes… à qual chamaram Hotel do Peso, inaugurando-a a 1/6/1891. Em 1897, e porque o número de aquistas crescia, e a casa já não era suficiente para os acomodar, então, aumentou-a em dobro e reabriu-a a 20/5/1897. Dissolveu a sociedade que tinha com João Luís Fife a 15/10/1990, ficando com o activo e passivo da firma. Crismou o hotel com o atraente nome “Grande Hotel Ranhada”. Como era solteiro, casou a 16/11/1899 com Maria Júlia, nascida em 1864, filha do seu antigo anfitrião, e de Lucinda Libânia Castro (conta-se que ela, em 1889, não o queria em casa – foi necessário seu pai impor-se!) Em sessão da CMM de 4/3/1914 leu-se um requerimento, solicitando autorização para explorar pedra no logradouro público denominado “ Costa de Sontra”, sito em Paderne. Só na sessão de 11/3 é que a Câmara decidiu conceder-lhe a licença, visto a informação da Junta de Paróquia afirmar que não resultava prejuízo para aquela freguesia. No entanto, o vogal Pereira propunha que ele fosse obrigado a repor tudo no seu estado primitivo. Enviuvou a 18/9/1916; a “mãe dos pobres” como era tratada, embora tivesse falecido no Peso, Paderne, foi sepultada no cemitério de Alvaredo no dia seguinte ao seu passamento. Ele faleceu também no Peso, a 28/7/1936, e foi sepultado ao lado dos restos mortais da esposa. Deixou muitos amigos, porque era um homem sério e honesto, um verdadeiro cavalheiro. É certo que deve a vida a Melgaço, mas o concelho também lhe deve muito, pois foi graças a ele (e também aos descendentes) que as águas se tornaram famosas. O Peso chegou a ser visitado por ministros, escritores, pintores, etc., que levaram o nome de Melgaço a todo o país, e mesmo ao estrangeiro. O casal teve cinco filhos: José, Rosa, António, Mário e Amadeu.

 

Dicionário Enciclopédico de Melgaço I

Joaquim A. Rocha

Edição do autor

2009

pp. 335/336