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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

O NETO DE CAMILO

04.05.19, melgaçodomonteàribeira

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A CELA E A VIDA

Um menino e um sapato

 

Um dos episódios maiores na história da Casa dos Anjos consta de um relato que, se não valer pelo seu literário desempenho, poderá servir os agentes naturais que vierem visitá-lo. Uma adolescente da época, Berta Maria, órfã de pai e mãe, senhora de «alma como que num perene coro de gorjeios», sairia daquela morada no lugar de Venade, freguesia de Ferreira, concelho de Paredes de Coura, apartando-se da companhia de suas manas. Ia por determinação da mais velha, Genoveva de seu nome, a morgada, e a despeito da dor que causava na segunda, Ifigénia de sua graça, dar à luz nos longes de Castro Laboreiro o rebento ilegítimo de um tal Leonel, galante que ela avistara pela primeira vez na romaria de S. Silvestre, aparecendo-lhe como detentor de «olhar muito negro», capaz de ler o «pensamento secreto» da que dele logo se enamorara. Faltará aduzir que o rapaz, acobertado por aquele onomástico de gosto popular, só pouco antes completara os dezassete anos, e que era o filho mais novo dos que contava o romancista Camilo Castelo Branco, fruto da união adulterina que mantinha com Ana Augusta Plácido. Nuno Plácido Castelo Branco, o tal falso Leonel, ingressara neste mundo em 1864, e já por alturas do início da nossa história se levantava como índole prometida a várias falcatruas e malfeitorias. O resto é o que resulta das notas que o famoso Camilo elaborou para seu próprio uso, e de cujas linhas faz parte o que se transcreve a seguir.

 

    Nos altos daquela serra, para a qual a deportaram, e onde a ventania galopava, soprada de sudoeste, como um cavalo sem freio, presenciava a amargura da réproba, traída pelo sedutor que, de súbito, a abandonara, trespassada pelo aguilhão do mais pungente dos remorsos, o vagaroso decorrer de cada minuto. Rodopiava o restolho, nas eiras, por entre o torvelinho da poeira avermelhada, e nem o trinado de uma avezinha se pressentia, nem o gorgolejo de uma fonte, naquela desolação. Quando as ânsias do parto a assaltaram, impôs a humilde companheira, a um criadito meio tolo e surdo-mudo, que fosse buscar uma certa comadre entendida, ao outro lado dos penhascos, para que ajudasse a encaminhar o que ia nascer, até este Vale de Josafat. Galgaram ambos os ermos horrendos, com uma lanterna que, a espaços, se extinguia. Ao aproximarem-se, contudo, do leito onde Berta, transida de suores, Já não distinguia o pesadelo da realidade, debatia-se a precita com as vascãs da fatídica morte, que haveria de a vencer. Chamar-se ia o menino, que surgira refeitinho e moreno, Inácio Manuel dos Anjos por se não julgar de meridiana equidade apetrechá-lo com o apelido paterno.

 

Vira ele o dia aos 19 de Maio de 1881, consoante se lê no tombo dos baptismos da paroquial Igreja de Castro Laboreiro. O tal dito criado que escoltara a desgraçada, um certo Felício, procederia às diligências indispensáveis ao enterramento de Berta no cemitério local, e cortar-lhe-ia entre soluços uma madeixa dos cabelos louros, não tendo escasseado quem nisso vislumbrasse a paixão oculta que residiria naquele engano da Natureza, um desarranjo de pernas e braços, que parecia desassistido de quanto extravasa do mais elementar conhecimento das coisas. Quanto ao recém-nascido, decompondo-se num berro de plenos pulmões que se dissolvia no balido dos cabritinhos, acabados também de entrar na vida, eis que o enrodilhou Felício nos panos que a pobre mãe lhe deixara preparados, e se botou à estrada, conduzindo pela arreata um jumento que levava na garupa a condessinha onde se acomodava o pequenito. Passaritavam à frente deles as lavandiscas, e o criado atolambado desvanecia-se em sorrisos, não porque o fascinassem as nuvens brancas que singravam no céu muito azul, mas porque possuía afinal um ser de carne e osso que considerava exclusivamente seu, e ao qual se lhe arrimava o coração. Chegaram à Casa dos Anjos numa dessas tardes quentíssimas de Junho que torna escaldante a pedra tocada pela nudez dos pés.

 

 

Mário Cláudio

TIAGO VEIGA

 Uma biografia

D. Quixote

2011