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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

O AMOR DO PADRE ANÍBAL

26.01.19, melgaçodomonteàribeira

33 a2 - distribuição dólmens planalto c l.jpg

distribuição dos dólmens no planalto de castro laboreiro

 

 

OS DÓLMENES DE CASTRO LABOREIRO

                                                                         Por P. Aníbal Rodrigues

Castro Laboreiro, situada na extremidade da Alto Minho, a nascente de Melgaço e a uma altitude de 932 metros, constitui uma região de extraordinária beleza, onde os seus vales amenos, os planaltos extensos e a serra agreste se harmonizam maravilhosamente, dando à paisagem cambiantes de rara grandeza. Banha   da pelas águas cristalinas do Rio Laboreiro e embalada pelas maviosas canções da sua rápida corrente, é uma região bela cheia de micro-climas desde a terra fria que produz unicamente batata, centeio e pastagens até à parte quente e ribeirinha em que se cultiva toda a espécie de cereais, fruta e vinhos. Desde 1271 até 1855 foi esta região Vila e sede de concelho com Alcaidia e tribunal a que estava entregue o destino da sua população. Pertença do Condado de Barcelos até 1834, Comenda da Ordem de Cristo desde 1319, Castro Laboreiro ocupou um papel de grande relevo, quer na independência Pátria, quer na Guerra da Restauração, desde 1640 a 1707. Defendida pelo seu inexpugnável Castelo, manteve-se sempre fiel ao ideal pátrio, sem nunca se vender ao estrangeiro. Desde 1136, data em que D. Afonso Henriques visitou Castro Laboreiro até ao presente, o povo castrejo conservou-se sempre coerente consigo mesmo e de um portuguesismo a toda a prova. Hospitaleiro, folgazão e alegre, o castrejo reúne em si as qualidades e defeitos do povo minhoto e a firmeza e carácter do transmontano. Vivendo nas faldas da Serra da Peneda, é um povo de uma maneira de viver sui-géneres.

Embora alguns pseudo-historiadores de antanho tenham apresentado o povo castreja como originário de habitantes degradados nesta região, a sua origem confunde-se com o Homem da Pedra ou do Megalítico Ocidental. Compulsando os seus documentos, gravados em pedra, há já 4.000 e 5.000 anos, que a acção destruidora do tempo e a mão demolidora do homem não lograram fazer desaparecer, verificamos que nesta região se desenvolveram sucessivamente duas grandes culturas que atingiram um grau elevado de civilização: - A Cultura Dolménica e a Cultura Castreja. Percorrendo o lindo e extenso planalto de Castro Laboreiro, que nos lembra a meseta ibérica, podemos observar os numerosos e notáveis dólmenes que se dispersam por todo o planalto, dando-lhe um aspecto de grandiosidade histórica, raras vezes encontrada numa região. As tribos nómadas, que povoaram o planalto, viviam da caça, da pesca e da cultura do trigo, centeio, cevada e aveia, bem como da pastorícia, depois que conseguiram domesticar o boi, o porco, o carneiro e a cabra. Da sua permanência nesta região restam-nos os numerosos dólmenes a que o povo liga as belas lendas das moiras encantadas à espera de um valoroso cavaleiro que um dia lhes quebre o encanto e as faça suas esposas. Em noite de São João toda a sua riqueza ficará exposta ao ar para arejar e ser aquecida pelo sol do dia. Os dólmenes desta região estão colocados em sistema ternário e são geralmente constituídos por sete esteios e uma mesa ou chapéu. Além da câmara funerária têm o corredor, com a porta de entrada voltada sempre para nascente. Em todos eles foram inumados as cinzas dos chefes tribais, uma vez que são cercados e cobertos pelas mamoas. Alguns foram já violados, embora o seu principal recheio se encontre praticamente intacto, no que diz respeito aos machados, raspadores, coup de poing, pontas de sílex e de quartzo, etc. Os vasilhames de cozinha ou das cinzas foram destruídos nos dólmenes violados, por se julgarem cheios de ouro e outros metais preciosos. Há-os ainda virgens onde a mão do homem não logrou devassar. Na destruição das mesas ou chapéus dos mesmos tiveram um papel importante a cobiça da laje para a construção de casas nesta freguesia e os trabalhos realizados pelos tractores dos Serviços Florestais, cujos óleos eram mudados em cima das mesas dos dólmenes, quebrando-as. Vale a pena preservá-los da sua completa destruição, fazendo um inventário de todos eles e declarando-os imóveis de interesse público e pré-histórico. Eles constituem, além do património cultural e pré-histórico de Castro Laboreiro, preciosas relíquias do passado e pelas quais podemos aquilatar o grau de cultura daquele povo, como a evolução do homem do paleolítico, mesolítico e neolítico. Seria de muito interesse para a cultura e para o turismo que todos estes monumentos funerários estivessem mencionados e localizados nos mapas e itinerários publicados pelo Parque Nacional de Peneda – Gerês. Facilitaria aos estudiosos destas coisas pré-históricas e aos turistas a sua mais fácil localização.

 

    Castro Laboreiro, 27 de Julho de 1978.

 

 

 

ANTÓNIO IGREJAS, AS DAMAS E OS AZULEJOS

19.01.19, melgaçodomonteàribeira

558 - Antonio Eduardo Igrejas_1998.jpg

antónio eduardo igrejas - 1998

 

ESPAÇO DAMISTA – 1994

(separata da Enciclopédia Damista do Dr. Sena Carneiro)

 

RETRATO DE FAMÍLIA

 

Nome: António Eduardo Igrejas

Nascimento: Melgaço

Data de Nascimento: 7-8-1920

Profissão: Artista Plástico

Estado Civil: Casado

Filhos: Um, do sexo feminino

Sigla: As três primeiras vogais - AEI

 

CURRÍCULO DAMISTA

 

Director Técnico: O Carola

Seccionista: Jornal Século Ilustrado

Seccionista: Revista Vamos Decifrar

Colaborador: Enciclopédia Damista

Colaborador: Jornal Estado de S. Paulo

 

Conseguimos, por acaso do destino, adquirir um quadro raro que permanece no Brasil. Estávamos nós à conversa quando saltou a notícia de que António Eduardo Igrejas viria brevemente a Portugal. Não podíamos perder a oportunidade de entrevistar esse senhor das Damas Clássicas que, com os seus quase oitenta anos, passou no seu país natal apenas a primeira metade da sua vida, já que a outra metade a tem vivido no Brasil. Quando menos esperávamos, Mário Diniz Vaz telefonou-nos a informar de que ele já havia chegado e havia seguido para Melgaço. Conseguimos descobrir o número de telefone e ligámos. Do outro lado do fio Eduardo Igrejas acedeu a encontrar-se connosco mal regressasse a Lisboa. E assim foi. Combinou-se um almoço em que também esteve presente, Carlos Ferrinho, igualmente a viver no país irmão.

 

Desde há muito que desejávamos conhecê-lo. Há quanto tempo não vinha a Portugal?

Antes do mais quero-lhe dizer que o fazia pessoa para a minha idade… Quanto à sua pergunta devo dizer-lhe que nos últimos seis anos vim até cá três vezes. Mas anteriormente estive práticamente quarenta anos sem pisar terras portuguesas.

 

E em que sítio específico vive?

Vivo no Estado de S. Paulo e moro num bairro que embora localizado numa área suburbana, se torna muito agradável por ser habitado por imensos portugueses. Uns foram chamando os outros e tornou-se numa grande comunidade.

 

Pode-se saber o que o levou a abandonar Portugal e em que data o fez?

Havia abandonado Melgaço, aos vinte e sete anos de idade, com rumo a Lisboa onde permaneci sete anos. Mas também não era fácil viver na capital e as dificuldades económicas eram grandes. O meu irmão, um artista de pintura sobre azulejo, já vivia no Brasil e convidou-me a ir trabalhar com ele. Decidi mudar de vida e aceitei o desafio. Parti em Novembro de 1954. Sempre adorei o desenho e a pintura e facilmente aprendi a arte.

 

O que sente ao visitar o País onde nasceu e a cidade onde residiu?

Estar em Portugal é sempre agradável e Lisboa recorda-me tempos em que frequentava o Nacional e o Martinho. Nessa altura jogava todos os dias as Damas Clássicas e entrei em vários torneios. Devo confessar que me perdia com o jogo que para mim constituía um verdadeiro vício. A família era prejudicada com isso e quando fui para o Brasil prometi a mim mesmo nunca mais entrar em competição, pensando mesmo em abandonar a modalidade. Mas o micróbio das Damas é inexorável e continuei a jogar por correspondência e a enviar trabalhos para a Enciclopédia Damista. Colaboro nesta revista desde 1971.

 

A propósito da sua colaboração com a Enciclopédia Damista recordo alguns comentários que refletem uma crítica muito dura. Talvez mesmo destrutiva…

Reconheço que sou um pouco temperamental. Mas sempre que critiquei alguém foi visando o damista e não o indivíduo. Certas pessoas pensam saber tudo sobre Damas. E sai disparate.

 

Quando e como se iniciou a sua paixão pelas Damas?

Comecei a jogar com apenas seis anos de idade. Tal como outros entrevistados também eu fui estimulado pelo meu pai a jogar as Damas. Mas comigo aconteceu pela negativa. No dia em que ganhei fui reprimido… Mas o prazer de exercitar o raciocínio foi mais forte.

 

E actualmente o que faz no Brasil, damisticamente falando?

É uma história que começou há quase trinta anos. Desde 1955 que me havia dedicado ao problemismo quando, em 1970, fui contactado por Carlos Ferrinho, um português natural de Monção. Ele tinha sido convidado como responsável da secção de Damas Brasileiras do jornal O Estado de S. Paulo, para substituir Bakumenko, um exilado russo que acabara de falecer. Ferrinho percorreu uma imensidão de quilómetros propositadamente para me conhecer e… convencer a ajudá-lo na área do problemismo. Acabei por aceitar o convite e cá ando! Tenho colaborado o mais que posso e orgulho-me de ter contribuído para a enorme evolução que o problema teve em todo o Brasil. Adaptei imensos temas às Damas Brasileiras e, juntamente com Ferrinho, fui fundador da Associação de Problemistas de Damas. Fizemos mesmo uma Revista artesanal que se denominava APD.

 

Dada a sua idade, depreendo que se encontra reformado.

Reformado, só do jogo prático. Continuo a trabalhar normalmente na pintura sobre azulejo. Gosto de pintura colorida que é mais alegre do que a clássica, a azul e branco. Sabe, o povo brasileiro é um povo alegre e aprecia mais as cores multifacetadas. Olhe, pode observar através desta fotografia um recente quadro meu, intitulado A Sagrada Família.

 

Embora afastado, acompanha a nossa actividade. Quem é para si o melhor jogador?

Para mim, o melhor jogador é aquele que utiliza mais o raciocínio. A memória, só, não chega. Não basta dizer que determinada posição é conhecida como empatada. É necessário saber empatá-la. E os títulos nem sempre são boa bitola. Não é o resultado de dois ou três Torneios que definem um campeão.

 

Que projectos damísticos tem para o futuro?

A secção do Estado de S. Paulo tem sido um êxito e colaborou decisivamente na divulgação do Problema, no que respeita às características, concepção e nomenclatura. Há muita gente interessada pois a grande parte dos estados brasileiros é maior do que Portugal. Continuarei sempre às ordens do amigo Ferrinho, enquanto desejar a minha colaboração. Sei que Espaço Damísta o vai entrevistar, o que acho muito acertado, pois ele é uma autoridade, em Damas Brasileiras e Internacionais, principalmente no campo das Regras e da Arbitragem.

 

Espera, como a maioria dos emigrantes, voltar um dia a Portugal?

Não me considero um verdadeiro emigrante. Este, normalmente, parte para o estrangeiro com o objectivo de juntar algum dinheiro e regressar para fazer uma moradia, montar um negócio, reformar-se. Eu fui viver para o Brasil e não penso regressar. Bem vê, tudo o que tenho está lá; a casa, o trabalho, a família. O meu mundo está onde estão estas coisas.

 

Para saber mais sobre Damas http://tresedama.blogspot.fr

 

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casa de macau - tijuca - br

 

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vila isabel - br

 

BOLETIM CULTURAL

12.01.19, melgaçodomonteàribeira

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    Na sequência da atenção que a Câmara Municipal de Melgaço tem vindo a prestar à Cultura, nas suas múltiplas expressões, registadas nos sucessivos números da Agenda Cultural e no conjunto de publicações já patrocinadas, considerou-se oportuno criar o Boletim Cultural, como espaço privilegiado para a recolha e divulgação de estudos sobre o nosso património histórico, cultural, natural e humano.

    O denso e agradável conteúdo deste primeiro número, que ficamos a dever à colaboração de um grupo de investigadores, interessados em aprofundar o conhecimento do nosso passado, além de constituir uma valiosa amostra do muito que ainda é possível desvendar sobre a nossa terra, suas gentes e culturas, é também garantia da qualidade de futuros volumes e da adesão de novos e qualificados colaboradores.

    Embora o Boletim Cultural esteja primordialmente orientado para temáticas relacionadas com Melgaço, a critério de responsáveis pela sua coordenação, não deixará de se abrir a outros horizontes de interesse para os melgacenses, que muito contribuirão para a intensificação do intercâmbio cultural, cada vez mais necessário e desejado.

    A organização deste primeiro número, que agora fica ao alcance do público interessado, foi possível mercê da colaboração dos Drs. Eduardo Jorge Lopes da Silva, Antero Leite, José Domingues, Prof. Doutor Albertino Gonçalves, Arq.to Luís de Magalhães e dos coordenadores Doutor Armando Malheiro da Silva, Profs. Doutores Carlos A. Brochado de Almeida e José Marques, que, em conjunto, partilharam o ónus e o mérito deste trabalho multidisciplinar, aos quais me apraz dirigir um agradecimento muito especial do Município de Melgaço.

 

O Presidente

 

O DOUTOR SUIÇA

05.01.19, melgaçodomonteàribeira

2 cx - casa da dona marieta - nº 60.JPG

nº 60, casa da dona marieta

 

UM LUGAR ONDE NADA ACONTECIA…

II

Espalhou-se rápida nas tabernas e no café a notícia do internamento no hospital, do Amílcar da Lucrécia. O grupo de rapazes reunido numa mesa do café do Zé Félix, comentava o caso:

- Realmente fazia alguns dias, talvez mais de uma semana, que não aparecia no bilhar.

- A Maria da Rosa Pires que ultimamente cuidava dele, é que o levou ao hospital.

- Disseram que estava irreconhecível. Um rapagão que ele era, consumido pela febre.

- Tudo começou por uma dor de cabeça.

- Está com meningite e talvez não escape.

Quem afirmava isto era o Neca Pires, sempre bem informado e que acabara de se juntar ao grupo.

O Dr. Esteves, mais conhecido como Dr. Suíça pela marca de nascença que tinha no rosto, encostada à orelha esquerda, médico clínico do hospital, sentenciara:

- Meningite em estado adiantado, não tem jeito!

O Zeca da Cabana, funcionário municipal, de família influente e amigo do médico, presente na hora do diagnóstico interveio:

- Ó Esteves, vê o que podes fazer pelo rapaz, ele é um desocupado, mas é um ser humano.

- É um pária, imprestável, não merece qualquer tentativa…

Era o doutor António Cândido Esteves, radical em suas opiniões e aparentemente desprovido de sentimentos piedosos. Não acreditava em Deus nem em qualquer manifestação espiritual. Uma tarde, na alfaiataria do Augusto do Félix, do outro lado da rua, quase em frente à sua casa, onde passava alguns momentos do dia conversando, surgiu o assunto:

- Claro que Deus não existe, donde é que ele veio?

- Mas, senhor doutor, a terra, os planetas, o universo, quem os fez? – perguntava o Gú, filho do alfaiate.

- Apareceram por acaso. A maior parte das coisas aparecem por acaso.

- E Jesus Cristo? – perguntou o Augusto do Félix.

- É isso que é uma boa alma, como vocês dizem. Foi um sujeito bom, como tantos outros e o povo diz que é uma boa alma.

A conversa nesse dia acabara meio sem graça. Não obstante a sua instrução superior, o doutor Esteves não teve argumentos para evitar o sentimento de piedade que naquele momento lhe devotaram. Todavia convivia o doutor Suíça pacificamente com a religião chegando a participar de alguns actos do culto como se fossem eventos sociais, e era amigo de todos os padres da região, a quem respeitava e era respeitado.

As declarações de ateísmo do doutor Esteves eram contrariadas por suas atitudes de vida. Atendia a todos que o procuravam ou mandavam chamar, sem cobrar coisa alguma, mesmo porque a maioria do povo não tinha recursos monetários. Nos seus tempos de estudante na Faculdade em Lisboa, frequentara a Academia de Equitação, e, desde então tinha predilecção por cavalos e era óptimo cavaleiro. Sempre tinha um animal de boa linhagem, geralmente uma égua, que era o seu meio de transporte para atender aos enfermos nas povoações distantes, na montanha, onde o automóvel não ia.

Tinha um Citroen, modelo 1928, em bom estado, pelo pouco uso, não obstante os quase vinte anos. Quando resolvia utilizar o automóvel, para o tirar da garagem valia-se de alguns rapazotes que o empurravam até pegar. Pelo longo tempo de inactividade sempre a bateria estava descarregada. Nos sábados, dia de feira na Vila, à porta do doutor Esteves havia uma romaria de pessoas que vinham agradecer os seus préstimos; um parente que ele salvara, ou o próprio enfermo já recuperado. Como reconhecimento, faziam-se acompanhar de frangos, galinhas, cabritos, peixes do rio, frutas e outros produtos da terra.

- Ó Manel, vem cá! Leva estas trutas à casa da Marieta.

O Manel era o filho mais novo do Augusto do Félix, o vizinho alfaiate. A Marieta era a mulher oficial do doutor Suíça com quem tinha duas filhas. Não moravam juntos, nem eram casados.

Dava toda a assistência mantendo a casa da mulher no maior conforto e abastança. Parte dos pagamentos que os pacientes lhe traziam eram mandados para a casa da Marieta. Na sua casa na rua da Calçada, morava com sua mãe, a D. Teresa Pedreira, e uma criada. Um dos motivos para que a Marieta não morasse na casa do médico era a intransigência da mãe.

Todavia, segundo os mais velhos, ela, Teresa, tinha sido empregada naquela casa.

Tinha o doutor Esteves, e parece que era esse um dos seus pecados, aparte os conceitos filosóficos e teológicos, uma tremenda vaidade da sua colecção de objectos. Algumas pessoas que ele atendia tinham familiares emigrados em outros países a quem comunicavam o acontecido. Quando estas pessoas conseguiam ir de visita a seus familiares ou em regresso definitivo, traziam os mais variados e valiosos presentes para o doutor Suíça. Uma espingarda de caça, cano duplo, toda entalhada, o melhor que existia na época segundo os entendidos, que alguém levara da Bélgica; relógios idos da Suíça, máquina fotográfica de França e outros objectos de alto valor. Nunca, naquela terra, se ouvira falar em tal: um retornado dos Estados Unidos levou-lhe um barbeador eléctrico. Foi uma sensação!

Mas o doutor Esteves não saía de seus hábitos e não usava nenhum daqueles objectos. Eram como troféus dos quais era cioso e só uns poucos amigos podiam apreciar.

Para manter suas necessidades económicas e sua posição social, tinha considerável património de família. Auferia salário simbólico como clínico do hospital, porém tinha bons lucros com a transacção de gado bovino. Era entendido no assunto, frequentava as feiras especializadas, comprando e vendendo bois e vacas. Mantinha os animais ao ganho durante algum tempo, que consistia no seguinte: comprava os animais em época baixa, quando os lavradores precisavam de dinheiro para custear suas lavouras e vendia-os em época em que os mesmos precisavam dos animais para as fainas agrícolas. Nesse meio tempo os animais ficavam à guarda de proprietários rurais conhecidos ou amigos, que passavam a ser parceiros. Cuidavam dos animais utilizando-os em seus serviços de lavoura e quando o convencionassem vender, o lucro era dividido.

(continua)