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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

CAPELA DA NOSSA SENHORA DA ORADA

30.06.18, melgaçodomonteàribeira

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A IGREJA DE NOSSA SENHORA DA ORADA

 

(NOTÍCIA HISTÓRICA)

 

Nos derradeiros anos do século XI, quando percorria em longas jornadas de instrução e de posse as terras do seu condado de Portugal, D. Henrique de Borgonha, o mais antigo obreiro da nossa nacionalidade, encontrou êrma e quási totalmente arrasada a povoação que depois devia renascer com o nome de Melgaço. Expulsos os moiros – que o ímpeto irresistível dos sucessores de Plágio continuamente rechaçava para o sul da Província – nenhum novo núcleo de população ali criara raízes; e até o castelo comarcão, que se dizia ter sido construído pelos invasores árabes sôbre os alicerces de um castro romano, apenas negrejava no seu morro como ruína quási informe.

Necessitando de concentrar tôda a atenção e tôda a actividade em emprêsas de maior vulto, o Conde D. Henrique não curou de repovoar aquêles sítios agrestes, que então podia julgar livres de qualquer perigo ou ameaça grave; ordenou apenas que a decrépita fortaleza mourisca fôsse benificiada com as necessárias obras de consolidação, a-fim-de assegurar, como cumpria, a defesa da terra, no caso de lá chegar, em dias futuros, alguma das temerosas contendas que desde os primeiros tempos da Reconquista perturbavam de quando em quando a vida política da Espanha cristã.

Assim esquecido, senão inteiramente abandonado, jazeu ali, durante muitos anos ainda, o alto e áspero chão onde hoje se vê a vila de Melgaço. Depois do falecimento de seu marido, a raínha D, Tareja – sempre atormentada, como êle, por grandes trabalhos de ambição – nada fêz também para remediar ou minorar tam imprudente desamparo; por isso, nem o castelo, a-pesar dos “repairos” com que o Conde D. Henrique firmara as suas muralhas centenárias, logrou afrontar sem renovados danos a incessante e traiçoeira guerra do tempo. Por seu turno, D. Afonso Henriques, só ao cabo de 30 anos de reinado, em 1170, atentou na conveniência de prover de boa e basta gente aquêle recanto da terra hereditária, destinado a converter-se, pela sua situação, em um dos mais úteis baluartes de defesa do novo reino; mas, pronto em remediar o mal que tam tarde havia reconhecido, logo remiu com decisão e acêrto êsse pecado de imprevidência. Pouco depois, os primeiros colonos para ali enviados por ordem régia davam princípio à sua obscura obra de progresso nacional e social. Ao mesmo tempo, para lhes incutir maior fé na própria segurança e na segurança das suas searas, outras providências foram tomadas; e em breve, na terra extrema que ao norte sobranceava o rio, a possante fortaleza sarracena, ampliada e robustecida, reocupava firmemente o seu lugar de sentinela raiana.  A póvoa portuguesa de Melgaço tinha finalmente nascido.

Diminuindo de certo modo a importância de alguns dêstes factos, uma versão corrente, abonada por certas memórias monásticas, persuade entretanto que já em tam remota era se erguia a curta distância do castelo, entre outras construções de grande antiguidade, a Igreja da Nossa Senhora da Orada. Ignorava-se a data da sua fundação e o nome do fundador. Edificada no tempo em que a moral cristã começava a moderar os costumes bárbaros dos visigodos, havia resistido como que por milagre (dizia-se) aos maus tratos da natureza e dos homens, durante o período da dominação árabe – acrescentando-se ainda que depois disso, no reinado de D. Ramiro II de Leão, fôra anexada a um pequeno mosteiro de monges bentos mais ou menos sujeitos à grande casa conventual que anteriormente obtivera para a mesma Ordem a doação de tôda a vizinha terra de Fiãis.

Segundo a tradição que guarda lembrança de tais sucessos, aquêle mosteiro-vassalo, secularizado por motivos que se desconhecem nos longínquos anos do gôverno de D. Tareja, convertera-se afinal (juntamente com a cêrca e outras terras contíguas) em uma simples propriedade particular – que, adquirida pouco depois pelos Templários, dêles recebera o nome de Quinta dos Cavaleiros que lhe é conferido nos documentos do século XII. Se com efeito assim aconteceu, pode afirmar-se que foi da aguerrida milícia do Templo, visto que, volvidos alguns lustros, já a chamada Quinta dos Cavaleiros pertencia in totum a uma dama de grandes haveres, a Condessa D. Frolhe, que no ano de 1166, por meio de uma escritura de doação, a entregou de novo, e com outro nome – o de Quinta da Orada – aos monges negros de Fiãis.

Porque não foi incluída a Igreja nessa doação, a que se podem atribuir em verdade intuitos idênticos aos de um vulgar legado pio? Por não ter existido de-facto, o suposto Convento da Orada? Por se haver estabelecido qualquer distinção entre êste e o templo da Virgem, através de tantas alternativas de posse? Finalmente, por se achar em completa ruína (e, portanto, sem valor) a vélha casa de oração? Ignora-se. Cumpre notar, em todo o caso, que D. Afonso Henriques, ordenando pouco depois, em 1170, a reconstrução do desmembrado edifício, sancionou implìcitamente a inclusão do edifício no rol dos bens da Coroa.

 

BOLETIM DA DIRECÇÃO GERAL DOS EDIFÍCIOS E MONUMENTOS NACIONAIS

 

A IGREJA DE NOSSA SENHORA DA ORADA

Nº 19

Março de 1940

pp. 5-8

 

Fragmentos de vidas raianas, 1978 a 1981 - XIII

23.06.18, melgaçodomonteàribeira

 

 

Continuação do post do 9 de junho de 2018.

 

 

Em geral, os problemas eram esparsos. A maioria dos próximos integrara a sua tendência inesperada, a sua cegueira e sabia diferenciar os bons dos maus auspícios. 

Depois de casado, e com quatro filhos, manteve-se com os pais numa casa de aspecto andrajoso, a quatrocentos metros, em linha recta, da Frieira da orla esquerda do Minho, até estes falecerem. A taberna que os pais tinham explorado no rés-do-chão – a única que havia entre a Notária e o rio – foi o que deu à família as precípuas perras – dinheiro – para adquirir o que não arrancavam dos campos. Com o que nestes recoltavam, a agnação subsistiu com entraves, mas suplantou o pauperismo generalizado, e a descendência amadureceu jovialmente.

Uns meses antes do falecimento da sogra – o sogro e os pais já os tinham deixado –, a vida sorriu-lhe. Os anos sessenta tinham dado os primeiros passos. A construção da barragem materializava-se.

As gigantescas degradações materiais e as inumeráveis perdas humanas da Segunda Grande Guerra tinham desencadeado grandes vagas de emigração dos países circunvizinhos mais carecidos, entre os quais Portugal. Esta emigração era vista com permissividade pelo governo salazarista pois enviava umas divisas indispensáveis que remediavam a inópia florescente da camada mais carecida. A eclosão da guerra no ultramar em 1961 – daí em diante, e até aos quarenta e cinco anos, todo homem necessitava de uma autorização militar para sair do país legalmente – deu um impulso ciclópico à emigração portuguesa. Neste fluxo foi muito adolescente.

O Manco tinha pouco mais de quarenta anos. Esta conjunção acalorou-o a associar-se com o cunhado, tenente da guarda civil e marido da sua única irmã, que prestava serviço no posto fronteiriço de Irun, País Basco.

Milhares de portugueses, dos quais uns ambicionavam suplementar a carência incurável, outros, desertar a ininteligível guerra do ultramar, e outros, ainda, escapar às duas cominações, acederam aos países que lhes alimentavam a cenestesia da existência de uma vida melhor, livre, trespassando o rio Bidassoa. O seu ténue percurso internacional – uma dezena de quilómetros –, que delimita a Espanha da França, constituía uma balaustrada acessível, confrontado às veredas intrincadas dos respeitáveis e temerários Pirenéus.

Nesses tempos, um número confortável de espanhóis residentes na zona fronteiriça de Irun passavam todos os dias a fronteira para ir trabalhar em território francês. De madrugada, uma enxurrada de operários, de pessoal hoteleiro, de empregadas domésticas e de trabalhadores de sectores diversos desfilavam pela ponte internacional; imperturbáveis, palravam e brandiam, sem parar, o passaporte bem alto diante dos funcionários.

Alguns oficiais subalternos, como o cunhado do Manco, e um sem-fim de inferiores organizaram um sistema mafioso do qual todos beneficiavam chorudamente. Parasitavam a corrida matinal dos trabalhadores, intercalando entre eles os carneiros – nome da gíria contrabandista que designava os candidatos à emigração – transportados pelos intermediários. Era a estes que os passadores da zona do rio Trancoso entregavam os pretendentes à emigração recrutados pelos angariadores. No caso do cunhado do Manco, eram veiculados pela Vicenta, a esposa, mulher desapiedada questão negócios, e dois ajudantes, visto a configuração ser aleatória.

Arvorando a capa de um passaporte espanhol – em seguida recuperada – com meia dúzia de folhas em branco no interior, muitos portugueses atingiram deste modo o solo francês nos dias em que os funcionários hispánicos peitados estavam de serviço.

Mas, como toda comodidade tem o seu custo, os que quisessem gozar desta passagem de primeira classe deviam desembolsar uma soma consequente.                     

Outros, economicamente mais abstémios, afrontavam, de noite, as autoridades e o Bidassoa num barquito que o passador trazia dobrado sob o braço. O calibre do brinquedo, insuflado à beira do rio, quando não havia qualquer percalço, apenas possibilitava o enbarque de cinco pessoas, incluindo o passador. Duas pequenas espátulas de madeira serviam de remos.   

Os emigrantes portugueses apanhados no território espanhol sem carimbo de entrada – os clandestinos – sofriam repercussões tremendas. Escoltados até à fronteira lusa mais perto da sua terra, eram entregues aos agentes da PIDE, a polícia cujos funcionários se encarregavam das fronteiras, da emigração, dos passaportes e de todos os que se opunham ao regime. Infligiam-lhes, automaticamente, uma onerosa punição carceral por saída ilegítima do país e tiranizavam-nos para os fazer escarrar o nome do ou dos passadores e remontar a fileira. Intento árduo pois os membros das redes usavam pseudónimos.

Os postulantes à imigração não desprezavam os perigos imponderáveis a que se expunham, mas os desideratos eram tão pesados que não os esmoreciam. Uma vez na outra margem do Bidassoa, em Hendaye, com ou sem passaporte, eram recebidos com toda a atenção, visto o país estar em plena expansão económica. Os portugueses, homens de braços viris, aclimatados à rudeza, de modo geral ignaros, prestadios e católicos, eram uma bênção.

E, para melhor os proteger da ditadura franquista, não lhes outorgavam permisso de residência nos quatro departamentos que faziam fronteira com Espanha.

A casa do Manco estava num estado de deterioração adiantado. O andar superior, integralmente de madeira – material secular predominante no primeiro andar nas casas galegas por ser mais quente e barato do que a pedra –, putrefazia-se e dissociava-se aos poucos. Só os fundos, justamente edificados com robusto granito, permaneciam direitos e reutilizáveis. Mas a antiguidade não era apenas sua, pois as partilhas ainda não tinham sido feitas com a irmã. Esta, desde que casara, nunca mais voltara à Frieira. Era tempo de construir uma moradia aceitável. Não eram os meios que lhe escasseavam.

Comprou as metades da irmã, ficando com as ruínas da casa e com os dois vastos campos em declive, do outro lado da estrada.

Alugou uma casa no lugar, mandou derrubar a velha habitação, conservando todavia a pedra das paredes do rés-do-chão e construiu outra de grande envergadura. No andar térreo, equipou um salão grandioso para a organização de bailes, jantares de casamentos e de batizados; montou um bar galego típico, um restaurante, a cozinha respectiva e os sanitários adequados a cada uma das funções, fasto supremo naquela época para a localidade. No primeiro andar, alojamentos espaçosos para toda a família.

 

Continua.

 

QUANDO MELGAÇO TINHA GENTE

16.06.18, melgaçodomonteàribeira

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UM LUGAR ONDE NADA ACONTECIA

 

Os moços da terra, rapazes e raparigas, viviam uma situação de expectativa. Consideravam monótona e sem graça a vida que lhes apresentavam. Bailes uma vez por outra, as festas em honra dos santos padroeiros, nas freguesias, e os desafios de futebol. Liam os jornais no café que lhes noticiavam as maravilhas do após guerra, o programa da ciência, e uma vez por semana absorviam avidamente o estilo de vida capitalista, regalada, que subjectivamente os musicais do cinema americano lhes enfiavam pelos olhos.

Os desafios de futebol durante certa época eram quem mais distraía a população e entretinha a juventude. Naqueles anos era acirrado o despique entre os três grupos que se haviam organizado, o Rápido, o Unido e o Comercial. Nunca houvera tanta rapaziada junta naquela localidade. A última geração fora obrigada a permanecer na terra. Desde sempre, naqueles lugares de natureza e paisagens luxuriantes mas paupérrimas em perspectivas de vida desafogada, a única alternativa para quem desejasse um futuro melhor era emigrar. Quem ficava, resignava-se u uma vida humilde, labutando na agricultura de subsistência ou no contrabando. Os ofícios tradicionais estavam super explorados não havendo clientes para tantos profissionais. A Espanha ali ao lado, antes da sua guerra civil e da guerra mundial, era país rico onde os portugueses da fronteira buscavam trabalho com a facilidade de estar em casa periodicamente. Outros países da Europa não ofereciam grandes condições naquele tempo; o sonho de quem desejava progredir era o Brasil. Ah! O Brasil, donde se voltava “brasileiro”, sinónimo de prosperidade, donde se voltava rico. Pouco acontecia, mesmo assim as fortunas que se conheciam e os palacetes que existiam foram ganhos no Brasil.

Nos anos quarenta ninguém saiu de Melgaço. A guerra provocara aquela situação: não deixou sair ninguém e não levou ninguém. Portugal não entrou naquela catástrofe e dela se beneficiou. Foi assim que aquela pequena terra ficou cheia de mocidade a ponto de organizar três clubes de futebol que disputavam e brigavam entre si. Montaram sedes com secção recreativa e onde se reuniam à noite. O campo do jogo é que era o mesmo inerente a todos, o Monte de Prado, distante da Vila e com difícil acesso, daí que durante a semana a rapaziada mais nova jogava bola na avenida ou na praça da República, para desespero do António Reis, zelador municipal, que tinha de correr atrás deles ou fazer vista grossa se algum parente seu ou filho de pessoa grada estava no meio.

O contrabando era a principal fonte de receita daquele pessoal. Região fronteiriça com a Galiza, separada pelo rio Minho desde que este entrava em Portugal na povoação de São Gregório, mais ao norte, pelo rio Trancoso e para oeste raia seca, era propícia ao comércio ilegal. A guarda-fiscal do lado português e a guarda civil do lado espanhol, eram as forças legais que deveriam zelar pelo cumprimento da lei, na prática mancomunavam-se com os contraventores auferindo sua parte nos lucros. Os governos dos dois países deviam tirar algum proveito desse estado de coisas. As potências beligerantes não aceitariam a exportação legal de determinados produtos que iriam beneficiar o inimigo. Pressupunha-se que tais mercadorias seriam encaminhadas para a Alemanha e tal desagradaria à Inglaterra e aos Estados Unidos da América.

Entre os anos de 1936 a 1939 a Espanha vivera o tormento da guerra civil. Carente de géneros alimentícios, recebia de Portugal, na forma de contrabando tudo que era possível receber. Melgaço, e outras zonas do Alto Minho, fronteiriças, eram paupérrimas. Não tinham produção que pudesse ser contrabandeada a não ser milho. Eram, entretanto, pontos de passagem e por ali, vindos de outros lugares, passavam camiões carregados de galinhas, ovos, chocolate, etc. Estourou a segunda guerra mundial em 1939, o governo nacionalista espanhol que vencera a sua guerra interna com o auxílio da Alemanha, viu-se obrigado a colaborar com aquela nação. Então o contrabando diversificou-se: o volfrâmio, mineral usado na manufactura de armamento era encontrado quase à flor do solo nas montanhas de Melgaço. Foi febril a extracção dessas pedras pretas. O sabão teve preponderância, tripa seca, pedras de isqueiro, café, cigarros e tudo o que servisse para material bélico, era repassado à Espanha. O pagamento era em prata, ouro ou pedras preciosas. O dinheiro em papel ou moedas nada valia. Vez por outra os guardas-fiscais não concordavam com as percentagens que lhes davam e apreendiam as mercadorias. Os pequenos contraventores eram os profissionais das várias profissões que, para engrossarem os seus proventos, de noite, levavam até à margem do rio uma caixa de barras de sabão ou outro elemento que pudesse ser transportado às costas. Eram estes os mais visados pelos agentes da lei que, por pouca mercadoria, nada recebiam.

A guerra no centro da Europa desenrolava-se feroz.

Os jornais noticiavam com destaque as batalhas navais onde o afundamento de navios ganhava as manchetes, quando a França se rendeu aos alemães e a sua marinha resolveu afundar toda a frota naval para não servir ao inimigo, repercutiu. No imaginário dos contrabandistas o termo “frota” passou a ser usado como sinónimo de contrabando. Quando os guardas-fiscais tomavam as mercadorias diziam que a frota afundara. Os contrabandistas passaram a ser conhecidos como “frotistas”.

 

(continua)

 

Fragmentos de vidas raianas, 1978 a 1981 - XII

09.06.18, melgaçodomonteàribeira

 

 

Continuação do post do 26 de maio de 2018.

 

 

Já um pouco curvado para diante e arrastando os pés, o septuagenário desceu com cuidado o reduzido declive que havia entre a estrada e o prédio do Manolo.

Foi quando os dois agricultores, esgotados pela espera ilimitada, acharam que, no fim de contas, era melhor concluir a expectativa; impulsivamente, abandonaram o bar, perseverando, todavia, com o maior alarido, em rejeitar-se a culpa do absentismo do taxista.

Um deles entrechocou-se com o senhor Ângelo, indelicadeza a que foi insensível. Penetrou no café e cumprimentou os presentes com a cortesia costumeira. Abeirou-se do balcão, deu aos ombros, puxou pelas golas e deu dois saltinhos, obviamente.

O Manolo acolheu-o com o entusiasmo usual.

— Senhor Ângelo, então que tal o tempo pela estação?

Não replicou. Com a característica equanimidade que toda a gente lhe reconhecia, exigiu:

— Po... po... põe... mum...mum... mum branco!

— Que diz, senhor Ângelo?

— Po... po... põe... mum...mum... mum branco!

— Quem foi para o campo?

— Não... Na... bran... bran... branco! – repetiu, levemente incomodado.

— Que diz, senhor Ângelo? Não o ouço. Fale mais alto, carambas!

Impaciente, suspirou e sacudiu a cabeça com firmeza em sinal de agastamento e de lassidão. Arranjou o capote à pressa esticando as golas, deu os saltinhos e arremeteu de novo.

— Po... po... po... põe mum... mum... muuun bran... bran... branco! – empenhou-se, quezilado.

O gaguejo enfatizara-se com a aflição, e o seu rosto purpurara, tanta fora a instância.

Para reprimir o riso que estava prestes a deflagrar, o Fernando simulou contemplar o regato e o lugar de Cevide, do lado português, observáveis do janelo do fundo do salão do café. Era, também, para dar mais credibilidade à chocarrice.

— Ah! Um branco? – exclamou finalmente o Manolo – Já podia ter dito há mais tempo, senhor Ângelo! – e deu um dos seus singulares risos – Eu pensei que me dizia que andava manco, já viu? Ai meu Deus!

Agarrou na caneca e baixou-se diante do pipote de vinho branco que confinava com o de tinto.

Foi a altura apropriada para o padeiro delivrar a forte pressão que o sufocava e dar azo à pândega. Era a primeira vez que participava a uma brincadeira implicando o senhor Ângelo. Intrometeu-se amavelmente na conversa.

— Este, senhor Ângelo, já perdeu o juízo e agora está a ficar mouco. Mete pena! É tão novo!  Há quem diga que foi por isso que o correram da França. Não me estranharia nada.

O homem ignorou as suas palavras, como se fosse pusilânime. Nem um célere olhar de solicitude se dignou conceder ao panificador. Ergueu um braço e buliu duas vezes a mão entreaberta diante da testa, como quem quer dissuadir um insecto desenvolto e importuno. Era a sua modalidade. Desta forma, mostrava implicitamente – a quem tinha faculdade para tal – que interpretara o chiste, que este não o estimulava nada e, sobretudo, que não era nenhum títere. 

Para coroar o painel, e sem piar, acomodou o capote, desfraldou-lhe as lapelas e deu os saltinhos compatíveis.

No olhar irónico do dono do café reluzia um afecto real. Meneando a caneca como se fosse um ioiô, a fim de fazer espumar o líquido, encheu a tigela que pousara diante dele. Estava tão acostumado que, uma vez a tigela cheia, não ficava praticamente nada da quantidade de vinho retirada do pipote.

Deglutiu a primeira tigela de uma golada e a segunda de duas. Despejou o recheio do porta-moedas – que abria em forma de vulva – sobre o balcão, destacou umas quantas  moedas e saiu, silencioso, como se não tivesse estado no bar. Viria umas quatro vezes mais durante o dia.

O Fernado sentiu-se embasbacado. Intimamente, admitiu que o homem tinha a sua personalidade. Não era sem razão que todos o tratavam por senhor.

— Já viste, Fernando? Esta gente põe-me louco! – bradou o Manolo.

 

 

O Manco era seguramente a pessoa mais conhecida da Frieira, indubitavelmente a mais temida e, incontestavelmente, a mais amaldiçoada. Hercúleo e titânico – mais de um metro e oitenta e cinco e uns bons cento e dez quilos –, tinha uma força assombrosa e, ademais, um temperamento de suíno.

Ninguém sabia a razão por que tinha o cognome de manco pois, na realide, era maneta. Segundo rumores, o drama dera-se uma tarde, no centro da cidade de Orense, havia bastantes anos. O que ainda não era Manco estava na esquina de duas ruas à espera de uma oportunidade para atravessar com confiança. Subitamente, um velho camião atulhado de canos de cerâmica para o saneamento, vindo de uma transversal, largou parte da carga diante dele e doutros. Acordou no hospital. Os estragos foram plurais, mas o dano irreversível deu-se no braço esquerdo, triturado pelos tubos maciços. Do úmero, os médicos apenas foram susceptíveis de lhe preservar um toco com cerca de uma dezena de centímetros.

Desgraça que, pouco mais tarde, o não impossibilitava de manipular uma enxada ou uma pá e de trabalhar, ocasionalmente, como qualquer indivíduo consumado.

O traumatismo engendrado pela deficiência fora o inodoro fermento que fizera com que, passo a passo, medrasse nele um carácter irascível e provocador que, por vezes, alcançava proporções excessivas e preocupantes. A mínima adversidade era vista por ele como um opróbrio, uma vexação e mesmo como um insulto.

As pessoas, com os seus aforismos e as suas paródias ásperas, justificavam a sua força excepcional afirmando que a do braço perdido fora herdada pelo outro. O caso é que onde deitasse a mão nem Cristo lha abria, diziam.

Fumava como as primeiras locomotivas e bebia vinho branco como um tudesco. Quando estava de mala hóstia – mal disposto –, coisa mais amiudada do que o contrário, era mais idóneo evitá-lo ou abordá-lo apenas se o caso fosse francamente imperioso.

 

Continua.

 

O CHOCOLATE DA NOIVA

02.06.18, melgaçodomonteàribeira

33 b2 - igreja facho cristóval.JPG

igreja do facho  cristóval

 

O CARVALHO DA IGREJA

 

Não posso deixar de falar sobre o Carvalho da Igreja que se encontrava à margem de estrada naquele pequeno recinto onde hoje se encontra o fontanário.

Não me lembre de ter visto outro carvalho de porte igual ou semelhante. Devia ter mais de um metro de diâmetro.

Era neste secular carvalho, que se encontrava à margem da estrada, que se afixavam os avisos. Fazia de vitrina informativa local.

Tal como nós, as árvores também têm o seu ciclo de vida, também morrem. Apenas como ponto de referência para muitos encontros.

Há cerca de cinquenta anos, quando os namorados resolviam casar, iam ter com o padre para dar andamento aos papéis para o seu casamento.

O padre, cumprindo todas as formalidades, dava início ao processo do casamento. Na posse de todos os dados de identificação dos nubentes, durante duas ou três semanas, na missa dominical, tornava público o casamento dos nubentes. Simultaneamente, advertia os ouvintes que caso tivessem conhecimento de algum motivo fundamentado que levasse ao impedimento do casamento tinham o dever moral de o informar.

Além disso, era afixado aviso na porta da igreja ou no dito «Carvalho». Após tornado público, o casamento dos nubentes passava a ser notícia local. A partir daí, era costume as pessoas dizerem, fulano e fulana, é verdade que vão casar, já têm «os banhos a correr na igreja». Se, durante o período que decorriam os banhos, não surgisse nenhum impedimento fundamentado, o casamento realizava-se, caso contrário era impedido.

O motivo mais fundamentado eram as queixas de outra rapariga dizendo ter sido enganada pelo nubente. Ou então acusando a nubente de má conduta moral, não reunindo condições de dignidade para ser uma mulher casada.

Entre outros motivos, eram estes os mais fortes, aqueles que normalmente levavam a Santa Igreja ao impedimento de alguns casamentos.

Acerca dos casamentos que outrora se realizavam nas nossas aldeias não posso deixar de realçar uma tradição muito antiga que se perdeu no tempo.

Há cinquenta anos atrás, até meados do século XX, a boda do casamento era feita na casa dos pais da noiva para todos os convidados, hoje em dia os banquetes são feitos em restaurantes.

Quando corria a notícia que uma rapariga ia casar, as pessoas perguntavam-lhe:

- Então vais-nos dar o chocolate?

À qual a suposta noiva respondia afirmativamente ou não.

Assim para manter uma prática muito antiga, era costume na dia da boda de manhã, ao pequeno almoço, dar chocolate acompanhado com doces a todos os convivas. Para os não convidados do lugar e vizinhos mais próximos, as cozinheiras e suas ajudantes transportavam na mão cafeteiras com chocolate e doces numa cesta ou açafate, fazendo a distribuição porta a porta.

Assim se vão perdendo a pouco e pouco as tradições e costumes das nossas aldeias.

 

Melgaço, Minha Terra – Minha Gente

Histórias de um Marinheiro

José Joaquim da Ribeira

Edição: Câmara Municipal de Melgaço

              José Joaquim da Ribeira

2006

pp. 57, 58