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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

Fragmentos de vidas raianas, 1978 a 1981 - VII

31.03.18, melgaçodomonteàribeira

 

 

Continuação do post do 17 de março de 2018.

 

 

O não dito reforçava-se e acalentava-lhe com veemência o ardimento de um dia lhe enumerar, assanhada, o ror de vericidades que oprimia nas profundidades mais inacessíveis da alma. Esta situação abespinhava-a e erodia-lhe o psiquismo.

As tribulações das previsíveis consequências imobilizavam-lhe a menor tentação, a palavra inaudível, o menor gesto, ocasionando-lhe, nestas circunstâncias, palpitações latentes. Por enquanto, tinha de refreá-las sem piedade, custasse o que custasse. Faltava-lhe a audácia, prisioneira dos efeitos garantidos. Por vezes, asfixiavam-na tanto que tinha crises de dispneia. Estava de mãos atadas; era escrava da sua fragilidade.

Tirou a tampa a uma panela enfumarada que dormitava por cima da longeva cozinha de ferro – desvanecida havia bastante –, pegou num prato, entulhou-o de batatas, duma mão-cheia de grelos e de três módicas postas de merluza – pescada –, tudo cozido, e depositou-o diante dele sem uma palavra.

Em Espanha, o consumo pelos mais pobres deste peixe lauto e gostoso  – congelado e de pequena dimensão – derivava do seu baixo preço, causado pela possante hegemonia da frota pesqueira espanhola; na Europa, só a norueguesa era mais eficiente.

Adiu-lhe um galheteiro encardido, um garfo e um bom naco de pão semiduro que cortou num cacete. Com um pudor conventual, saiu, foi ao barraco e atestou a típica caneca de cerâmica branca com tiras azuis de um vinho recendente e espumoso. O Manel acarinhava ali uma provisão de tintol em garrafões de cabaço – detestava o vinho branco –, bebida de eminente nível, confeiçoada pelos lavradores mais calejados da zona.

A cada refeição, o consuetudinário era um litro. No entanto, havia dias que, por motivos ignotos, vazava pouco mais de meia caneca. O Manel bebia por amor, pela irmandade que o soldava à pinga, à cepa. Ainda não tinha dois anos e já as sopas de vinho alegravam os seus dias.

A placidez sorumbática da casa era amordaçada pelo estribilho casmurro da água límpida do regato.

Estes ápices deprimentes iteravam-se dia sim dia não. Sem se atardar mais, a Gracinda, silente, foi-se discretamente. Subiu as escadas e acostou-se à cabeceira da cama, já desfeita, com o pequeno receptor a pilhas na mão.

Enquanto que o marido se alambazava e drenava a caneca, sobrava-lhe tempo para lucubrar um tanto; olvidar a vida consternada e sem qualquer ambição ou finalidade que, irreparavelmente, encaixava havia um tempo desmedido.

Era a hora da radionovela, a sua baforada de nostalgia, a sua alegórica escapatória interina, o seu alcalóide biológico. Graças a estes romances diários, simples enredos, devaneava. Apesar das tramas e das manigâncias coriáceas, das inimizades, das perfídeas e das paixões insustentáveis, contrariamente à sua realidade, o desfecho era agradável, romântico. Esta escapulida mental era um reconfortante paliativo que lhe aligeirava as difíceis preocupações conjugais.

Nos dois quartos do lado, a prole, passiva fisicamente, matutava, imaginando um rumo, um caminho, uma bússola. Insubmissos, cada qual vivia no seu universo. Com a petulância arcana dos adolescentes indiferentes às inquietudes, às sombras e à atonia dos pais, eram transparentes, inexistentes. A certeza de um dia enveredarem por um trilho diferente, construtivo e escolhido por eles, estava-lhes obscurecido pelo hodierno mofino dos progenitores e pela penúria. Cada qual tinha o seu objectivo preciso traçado. Embora utópico por agora, tinham uma confiança total neles.

 

 

Nos lugares desleixados como os da Frieira – incalculáveis –, o afastamento e a dispersão dos compósitos e espinhosos trabalhos isolavam, no conjunto, as pessoas durante o dia. O contacto era, pois, impreterível para que não se recluíssem numa insensibilidade sórdida, pestilenciosa. O seu desenvolvimento, notório, desaguava, tristemente, nos aberrantes e inexplicáveis suicídios repertoriados anualmente na região. O instigador, em todos os seus perfis, era e continuará a ser, sem dúvida – independentemente dos perenes pseudoprogressos de comunicação –, a solitude. Este veneno, impassível e infatigável, quando o álcool – o amensalismo com o qual acreditavam combatê-lo – se mostrava impotente, esvaía, murchava e, por fim, destruía-os. O vergonhoso agravamento afónico da desertificação rural não fazia senão periclitar o emaranhamento da problemática.

Aos idosos da aldeia, inofensivos – como aos de todas as outras –, ninguém lhes evidenciava quaisquer razões para os impelir a aproveitar e a ter curiosidade por coisas e recursos que não estivessem estreitamente relacionados com as suas incumbências jornaleiras. Levavam uma vida negligente, embrenhados numa total ignorância e incompreensão do mundo truculento que os envolvia. Sendo, pois, a sua inserção irrealista, o progresso ia-os adulterando e desorientando.

A violência, o sexo, as tecnologias e as práticas cacofónicas e formatadas que viam na televisão – sangrada da sua missão primitiva que era a cultura e a educação dos mais iletrados –, além de os aterrorizar, ainda mais os coagia a persistirem em se enclaustrar nos costumes e nos dogmas arcaicos que sempre foram os deles, e aos quais se empolgavam devotadamente.

O precipício que disjungia a antiga geração da nova era excessivamente largo e intransponível para que a derrisória e árida propinquidade entre as duas o reduzisse com o tempo, mesmo em parte. Viam-se, falavam-se, mas cada qual campava no seu tempo, no seu território, na sua ilusão. A nova, como toda geração nascente, sitiada por uma cinorexia galopante, era febrosa e vivia o dia-a-dia sequiosa, dessabendo a ainda tenra barbaridade passada; a antiga era uma geração descurada, repudiada, incorpórea, que fazia tudo para ressalvar o que lhe sobejava da acidentada modernidade. Por não entrar nos anais do inédito consumismo crescente – a ditadura contemporânea –, nem os corpos políticos seduzia, a não ser em vésperas de eleições.

Não obstante esse encarceramento instrucional, eram seres curtidos. Vivenciaram e superaram uma trágica e interminável guerra civil – incognoscível para a população – que arruinara o país, orfanara um sem-número de almas, desmembrara milhares de famílias e injungira outras tantas à expatriação. Sustentaram com paciência e dignidade o contragolpe acerbo, deletério e miliário que um período bélico desta amplitude acarreta inexoravelmente. Os estigmas complexos e perduráveis que esta hecatombe cruel, inefável gravou neles definiram-lhes uma temeridade original e enrijada. Já nada mais os poderia atribular.

 

Continua.

 

UMA VISITA ÀS RUINAS DO REAL MOSTEIRO DE FIÃES

24.03.18, melgaçodomonteàribeira

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PROEMIO

 

Um dia, folheando ao acaso o trabalhoso diccionario de Pinha Leal, intitulado Portugal Antigo e Moderno, n’elle deparei e li, este emocinante trecho:

»Leitor, se tens um coração portuguez, se a luz divina se não apagou totalmente em tua alma; se respeitas a memoria de teus passados – dos que te deram uma patria, um lar, uma família; e se algum dia viajares pelo Alto Minho, não deixes de visitar as tristes ruinas do Convento de Fiães; e alli, qual outro Mario, contempla respeitoso estes restos venerandos da fé e piedade do nossos maiores, e chora sobre as ruinas d’este testemunho de suas crenças inabalaveis.»

  

Alli, onde o incenso se elevava dia e noite em perenne adoração ao omnipotente; onde a toda a hora se ouvia o plangente som do orgão, os cantos sagrados dos religiosos e do povo; alli, refugio predilecto dos que no mundo soffriam attribulações; alli finalmente a casa de Deus, em que a piedade tinha amontoado prodigios sobre prodigios de magnificencia, de fé, de caridade – que vemos hoje?

«Ruinas, devastação, silencio, horror!

«As silvas e os cardos invadem os marmores de suas aras santas.

«Os reptis immundos revolvem as ossadas venerandas de varões illustres.

«As aves nocturnas pairam sobre as abobadas, e fazem seus ninhos sobre os brincados capiteis de suas columnas dez vezes seculares.»

 

Surprehendido com esta suggestiva linguagem, que tocava tão directamente a minha sentimentalidade, - fiz logo, um voto de ir a Fiães, se algum dia visitasse essa zona previlegiada do meu paiz, - por muitos chamada: - O jardim de Portugal.

Iria, não para imitar o proscripto Mario, que sobre as ruinas fumegantes da cidade phenicia, chorava os extremos a que a oratoria implacavel de Catão, a tinha reduzido; - mas, para traduzir n’essas desmoronadas pedras, - uma pagina da historia do passado.

 

UMA VISITA ÀS RUINAS

DO

REAL MOSTEIRO DE FIÃES

Guilh. Oliveira

Livraria Ferreira

1903

pp. 7-9

 

 

Fragmentos de vidas raianas, 1978 a 1981 - VI

17.03.18, melgaçodomonteàribeira

 

 

Continuação do post do 03 de março de 2018.

 

 

Com os anos, aprendera a arrogar-se daquele recanto, a viver ali. Agora suspeitava de que não se conformaria com uma mudança. Era o seu buraco, o seu ninho. Morava em Espanha e via Portugal da sua casa; de ambos lados do Trancoso falava-se uma língua gémea, e as pessoas não destoavam.

No verão, era um rincão feérico, refrescante; no inverno, para as pessoas que como ele compadeciam ligeiramente de reumatismo, a humidade – acrescida pela que a barragem estancava – acabava por ser inconciliável, ruinosa. «Na vida tudo tem o seu revés; não se pode ter só o lado bom.», desabafava com acrimónia.

Uma vez diante da casa, em vez de escorar a sacha à parede, dependurou-a na parreira, a umbela nos dias de forte sol. Premunia-se assim contra a encurvadura do cabo que o tempo, insensivelmente, lhe faria incorrer; a humectação, por seu lado, fazia com que o cabo da sachola aderisse idealmente à parte férrea. O Manel era muito avisado.

Com o préstimo dum pé, abriu, com vigor, a porta do que outrora fizera as vezes de palheiro e de arrecadação para um carro de vacas e distintos apetrechos para a lavoura. A madeira da armação e da porta da casa, apesar do tempo enxuto e ameno das semanas precedentes, ainda se dilatava.

Entrou na cozinha que, por norma, estava deserta. Além desta, o rés-do-chão do pequeno pardieiro era composto por uma minúscula dependência que funcionava como sala de jantar nos dias de festa ocasionais. De baixo da mesa retirou um banco já meio desgastado pelo seu traseiro e sentou-se. Não havia outro, os demais assentos eram cadeiras. Não se sentia à vontade numa cadeira. Desde criança, as suas nádegas afeiçoaram-se aos bancos toscos, fabricados pelo pai com a madeira das árvores das terras que cultivavam. Aquele, fizera-o ele.

Deixou deslizar um repousante uf de acalmia, de complacência enquanto passeava o olhar lasso pela cozinha. A casa era velha, surrada e insalubre, mas havia muito que transluzia uma conivência absconsa entre ele e aqueles escombros remendados. Fora tudo feito por ele, pelas suas mãos calosas, pela sua força animalesca. Mesmo o primeiro andar, e isso era uma sobranceria que não ocultava a ninguém.

Estava bem. Fora um dia cansativo, um dia de faina como os outros, mas tranquilo, e isso agradava-lhe. Nascera para esta vida.

Alertada pelo ruído da abertura brusca da porta, a Gracinda resvalou com languidez e em silêncio os degraus da escada de madeira em espiral, o acesso aos três ínfimos quartos de dormir, que absorviam o primeiro piso. Intencionalmente, eternizava a descida. Ao fim do dia, quando o travesso marido penetrava no lar, velava em abordá-lo com minuciosa circunspecção; aferia o seu humor, a fim de se eximir do perigo de expressar a palavra indevida que o quizilasse bruscamente de modo irracional.

Pequena, franzina, o cabelo trançado, enrolado e preso na nuca, uns olhos pequenos e vivazes, tinha uma certa graça, mas aparentava não ter qualquer prestância. Portanto, era uma mulher com genica da qual emanava uma energia imparável e uma solidez incrível, tanto compleicional como moral. De tempos a outros, quando a chamavam a ela e ao marido para arrancar batatas ou sachar milho, manejava, de modo pretensioso, uma sachola da mesma polegada que a dele. O Manel, para a acompanhar e resistir ao seu ritmo endiabrado sem perder a face diante dos outros jornaleiros, devia duplicar os esforços. Desforrava-se publicamente da falocracia do homem.

Congratulava-se, com toda a legitimidade, que fora graças à sua volição e ao seu afinco que fizeram as economias correspondentes para adquirir o casebre em que residiam. Actualmente, o marido satisfazia-se em entregar-lhe dois terços do salário do dia, guardando a sobra para cuidar da sua fraqueza dipsomaníaca.

A Gracinda, apesar de fazer uns biscatos todos os dias, tinha necessariamente de ser muito parcimoniosa em tudo: na alimentação, na electricidade e, em especial, no vestuário. Embora limpa, trajava sempre a mesma roupa: uns dias com uma, outros, com outra e, ao domingo, com a mais engalanada. O mesmo acontecia com o marido. Os filhos, jeunesse oblige, eram bem mais impertinentes.

O Manel, ciumento como um leão, condenara-a, desde que se tinham amigado, a vestir calças quotidianamente: não admitia que lhe mirassem as pernas. Demasiado perfeitas e excitantes, captariam, a seu ver, olhares devassos; era uma criação da qual tutelava o monopólio visual.

Para os usos recorrentes da terra – omitindo as adolescentes e as vintaneiras mais emancipadas –, esta conduta feminina não era nada bem vista pelas sexagenárias e septuagenárias, que eram a maioria na aldeia. Contudo, o tempo, inebriante e indulgente, foi empreendendo uma estagnante cura homeopática, fazendo com que até as mais escandalizadas se vergassem àquele modelo de trajo.

A Gracinda falava pelos cotovelos. Em geral, a verborreia é vista por muitos como uma anomalia, um descabimento, mas, na Frieira, para sua grande alegria, não; provava que a pessoa era extrovertida e se agregava sem demora à vida do lugar.

 «O silêncio é a única coisa de ouro que deixa as mulheres insensíveis.», dizia o Manel. Com ele, havia muito que a Gracinda se resignara a reter a língua, mas com os da paróquia tagarelava de tal forma que, por vezes, baralhada, interrompia-se por já não saber de que estava a falar.

— Vens um bocado mais tarde do que nos outros dias. Vejo que tiveste muito que fazer. – arriscou, com prudência.

«Mais uma!», pensou, agastado. Sem olhar para ela, bufou de novo e, em tom agreste, retrucou:

— Só fiz o que tinha que fazer. Nem mais nem menos.

— E agora estás cheio de fome e de sede, não é? A terra seca-te a garganta. – ironizou, um nada solicitante.

O Manel optou por não replicar, embora lhe aprazesse mandá-la calar-se. Fruira de um dia simpático, estava extenuado e não queria estragar a noite de descanso. Sentia-se com pouco ou nenhum ânimo para polemicar. Com malacia e martelando bem as sílabas, retorquiu:

— Vejo que não se te pode esconder nada, Gracinda.

Quando o Manel era prosódico, a mulher não duvidava de que o melhor era fazer de conta e pôr um ponto final ao breve litígio. Desolada, deu meia volta e lamentou-se subtilmente. O diálogo não podia aviltar-se. À medida que as dissimilitudes entre eles floresciam, os dias assemelhavam-se proporcionalmente.

 

Continua.

 

A MÚSICA VELHA

10.03.18, melgaçodomonteàribeira

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DIOGO MANUEL PINTO DE SOUSA ARAÚJO BESTEIRO

 

Filho de Joaquim António de Sousa Araújo e da mulher veio a este mundo num parto duplo em 22 de Setembro de 1831 e foi levado à pia baptismal em 26 do mesmo mês tendo como paraninfos o P.e José Manuel Dias, de Queirão e Vitória Pinto, de Galvão de Baixo, subúrbios da vila. Era sua irmã gémea Joana Francisca.

Casou em Paderne no dia 7 de Outubro de 1855 com Teresa de Jesus Rodrigues, moça solteira e filha de João António Rodrigues e Marcelina Rosa Alves, do Pinheiro, daquela freguesia e logo no ano seguinte aos 16 de Novembro António Francisco Domingues, da Longarinha, doaram à sua sobrinha Teresa de Jesus Domingues e ao marido o seu prédio rústico Milheiro, de pão e vinho, sito no referido lugar.

Moraram em Midão, onde a mulher faleceu aos 14 de Setembro de 1879 e o Diogo se finou em 22 de Setembro de 1906.

Diogo Manuel foi sobretudo professor régio mas com a profissão de músico aparece indicado no assento de baptismo de seu filho António Cândido.

Os conterrâneos conhecendo-lhe as habilidades musicais, aproveitaram-nas e delas fizeram o consagrado regente da Música Velha, a primeira que foi criada no concelho (1852).

Devia aqui prestar-se homenagem às virtudes deste músico publicando agora sumária notícia do nascimento deste banda musical, mas como isso se torna desaconselhável por o documento já ter sido publicado num destes Costados, limitada fica esta homenagem a um simples momento.

 

O MEU LIVRO DAS GERAÇÕES MELGACENSES

Volume II

Augusto César Esteves

Edição da Nora do Autor

Melgaço

1991

p. 158

 

Fragmentos de vidas raianas, 1978 a 1981 - V

03.03.18, melgaçodomonteàribeira

 

 

Continuação do post do 17 de fevereiro de 2018.

 

 

A esposa, a Gracinda, quando a oportunidade o propiciava, não desprezava estas fantochadas de ricos, como ele lhe chamava. Influenciada pelas cativantes estultícias da pantalha e pelas constantes cantilenas das colegas, insistira várias vezes com ele para que arranjasse uma televisão em segunda mão; o homem foi sempre intransigente. Um dia, colérica, chantageou: «Pois olha, se não a compras tu, compro-a eu!» O Manel, convencido da sua supremacia, rira e, cinicamente, advertira: «Com o machado, abro-ta ao meio, Gracinda». Desistiu. O marido não tinha por hábito ameaçar em vão, e ela sabia-o bem; tinha a triste confirmação disso no corpo.

Para não suspender a viagem  quimérica à mulher do patrão, ainda que fosse apenas por uns segundos, bateu de mansinho com a manápula aberta por cima do balcão. A cortina afastou-se quase instantaneamente e o Manolo desembocou da cozinha. Verteu o tinto na tigela sem pronunciar uma palavra e, consoante irrompera, assim  desapareceu.

Havia pouco tempo que coabitavam. Para ele, pouco tempo era um, dois anos. No entanto, estimava-o e testemunhava-lhe uma sincera admiração por ser um homem obsequioso, sempre bem-disposto, consciencioso e que escutava os problemas dos outros. Era uma maneira de ser que lhe agradava. Graças a Deus, até àquele dia, não tivera de ir bater à sua porta... nem à de ninguém. Ainda que não o demonstrasse, nem o confessasse, o Manel estava a par de muitas coisas. Para ele, a reserva e a civilidade eram propriedades consubstanciais.

Percebera que, embora fosse bastante galhofeiro, era um homem seriíssimo. Quando, por coincidência, assistia às suas pilhérias, ria com um anelo irrefreável, apesar de nem sempre as compreender. Eram suficientes as suas mímicas, a fraseologia e o estilo para o fazer gargalhadear.

Uma música mais forte apregoava o fim da telenovela.

A Maribel, depois de se espraiar ruidosamente, levantou-se com a alhada costumeira. Saíra do entorpecimento em que as novelas a entranhavam. De estatura média, cabelo preto cortado à rapaz, usava uns vestidos floreados, largos e compridos. Forcejava-se para encobrir ao máximo as redondezas que a entristeciam e contra as quais conflituava desde o primeiro e único parto: pesava uns bons vinte quilos a mais do que o marido.

— Ai, tu estavas aí, Manel? Não te vira.

«É bem verdade que as mulheres desgraçam a cabeça com estas palhaçadas.», disse para si.

— Vens do Freixo, não? – e acrescentou logo – Vens tarde, carambas!

A observação não o incensou. Um esgar inaparente dos beiços traiu o seu descontentamento. No timbre da voz decifrou, uma vez mais, a ponta de diatribe habitual à qual nunca se acostumara.

E se tivesse trabalhado até anoitecer ou se, como era proverbial, tivesse dilapidado o restante da tarde a beber? Vinha quando queria e lhe apetecia e ela não era quem para o reputar sobre o emprego que fazia do seu tempo. Quando é que a gente abandonaria essa ousadia, essa desenvoltura de se entremear na vida dos outros e de os avaliar?

Não era o que ela conjecturava, a ideia que fazia das suas quedas, dos seus vícios ou da sua vida que o irritava, mas a permissividade com que se sentia autorizada em admoestá-lo.

Que cresse o que quisesse! Devido à sua mandriice e à sua verbosidade, o carinho por ela nunca levedara e, cada dia, mais abaixava.

A despeito do fastio com que as suas palavras o tinham acirrado, sorriu-lhe friamente e deu aos ombros. Preferiu fazer o néscio e não ripostar.

Podia ser reconhecida ao formidável marido, senão havia muito que a tinha posto no merecido lugar.

Exasperado, inspirou devagarinho o mais que pôde. Eram horas de ir para a casa. Apesar do corte da patroa, recobrara vivacidade e tinha fome. Pediu mais uma tigela para o caminho e pagou as três.

Já noite escura, enxada ao ombro e sibilando baixinho, foi encurtando a distância que o abduzia do logo. Depois de percorrer uns cem metros pela estrada, virou à direita, pelo caminho do regato. A partir dali, a ligeira luz – e intermitente – era a do inapreensível astro da noite quando os cúmulos, de imprevisto, o não impediam de espargir a sua claridade coruscante e imaculada. Por entre campos e por debaixo de um par de latadas, ia ao encontro da velha casa que ocupara uns anos depois de emigrar para a Galiza.

Não ressentia arduidade alguma para se orientar. Era capaz de adivinhar o caminho de olhos fechados. Sem embargo, já lhe adviera, embriagado, de se enganar e de dar sucessivas voltas a um ou outro campo até, por fim, atinar. Outra vez, não caiu no tanque de rega que havia ao lado de uma das latadas porque teve o reflexo de deitar uma mão ao pé de uma vinha.

Uns metros antes de avistar a luz da casa, já ouvia o burburinho particular orquestrado pelas águas do regato, tão recôndito e falante. Discriminava facilmente as variações sinfónicas que, durante o ano, o caudal, umas vezes agitado, atrabiliário e estrepitoso, e outras, sereno, reticente e embalador, gorjeava.

Quando a noite fora boa, deitava-se descontraído, encantado, com a cabeça ensopada de álcool. Durante estas madrugadas, bastante frequentes, a casa afigurava-se-lhe um palácio, o colchão, de penas de ganso, e a mulher, a mais bela e excitante que podia existir. Até o sussurro do ribeiro, que lhe valsava no bestunto, soava como o folclore – uma invenção divina, dizia –, a sua flama, o seu fervor desde que tinha ouvidos. Adormecia arrastado por este arrebatamento, como uma criança, como um serafim.

E, repetidas vezes, tinha o mesmo pesadelo: via-se no cimo de uma montanha, no fundo da qual vislumbrava uma ponte monstruosa sob a qual serpenteava um rio sedicioso. Apesar da sua resistência, terrificado, era propelido no vazio por um viço esfíngico. Apartava os braços e auxiliava-se deles como se fossem asas, até se amainar e governar a conturbação. Em seguida, baixava vagarosamente e pousava-se numa das pontas do viaduto. Uma admirável euforia atufava-o.

Quando acordava e lhe sobreviviam resíduos destas fantasias, infestava-o uma ledice estrambólica.

 

Continua.