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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

ALTO MINHO E GALIZA. ESTUDOS HISTÓRICOS

24.02.18, melgaçodomonteàribeira

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O REITOR DA UNIVERSIDADE DO MINHO

 

O Professor Doutor José Marques é um académico de referência que desenvolveu a sua carreira na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, com extensa obra publicada, reconhecido pelos seus pares nacionais e internacionais e referenciado pelos que tiveram o previlégio de ser seus alunos. Neste contexto, personifica o que nas universidades anglo-saxónicas se designa por scholar at large, pela holística dos seus conhecimentos e pela especialidade dos seus saberes, competências que são evidenciados ao longo deste livro por testemunhos muito variados.

Enquanto Minhoto de nascimento, bracarense de sacerdócio e investigador medievalista, José Marques teve um percurso que se cruzou naturalmente com o da Universidade do Minho (UMinho), numa relação natural, cúmplice e intensa que a Universidade quer reconhecer através deste testemunho do seu Reitor, na publicação desta obra e no evento que lhe está associado. Uma relação muito profícua e multifacetada que tem como principal locus o Arquivo Distrital de Braga (ADB), unidade cultural da UMinho que constitui um dos maiores acervos documentais nacionais, nomeadamente sobre a Idade Média.

José Marques tem sido um dos seus mais insignes utilizadores, cuja leitura com olhar perscrutante, abordagem científica e cruzamento de conhecimentos revelou conteúdos de documentos únicos. Este Arquivo foi um dos principais lugares de estudo e fonte de informação para o investigador José Marques, que ele utilizou intensamente ao longo de quase cinco décadas.

O Doutor José Marques retribuiu essa disponiblidade da melhor maneira e do modo como apenas um académico o pode fazer, pelo conhecimento que criou a partir suas leituras, investigações e análises integradoras e comparativas. De facto, na sua extensa lista de publicações são omnipresentes as referências ao ADB e, importa realçar, existem traduções, para latim moderno ou português, de compilações de documentos medievais como são os casos do Liber Fidei ou do Cartulário do Mosteiro de Fiães.

Para este Arquivo, esta Universidade e esta Região, José Marques é um pensador incontronável sobre o período histórico fundacional dos contextos sociopolíticos e administrativos que originaram o aparecimento da nação portuguesa e de uma geografia diocesana que teve enorme centralidade no nosso percurso histórico do último milénio. Pensador igualmente incontronável para perceber o espaço transfronteiriço e culturalmente identitário do Norte-Galiza. Espaço que a separação histórica entre os dois países ibéricos não eliminou e que se constitui hoje como património relacional, cultural, social, económico e político potenciador de novos modos da construção europeia.

Por tudo isto, o evento da inauguração das novas instalações do Arquivo Distrital de Braga teria de se cruzar com a figura de José Marques. Estas novas instalações são um investimento de grande qualidade, em montante superior a quatro milhões de euros, que dotará o ADB de excelentes condições para a persucução da sua missão de serviço público na conservação, disponibilização e divulgação do seu valioso espólio. É a concretização de um sonho para a Universidade e para todos os que, hoje, utilizam o Arquivo presencialmente ou por acesso remoto.

Estou certo que o nosso Amigo José Marques é um dos que está mais feliz com esta obra, ao ver os seus documentos – porque foi ele quem mais os utilizou – adequadamente preservados para que futuros investigadores possam continuar a sua obra.

Obrigado Professor José Marques, estou certo que o novo Arquivo continuará a ser uma das suas casas.

 

                         António M. Cunha

                        Reitor da Universidade do Minho

 

 

 

UM ESPAÇO FRONTEIRIÇO MAS DE “VIZINHANÇA”

 

A criação das fronteiras tem muito a ver com as decisões políticas, mas a sua consolidação demora muito tempo, nomeadamente no processo de serem aceites pelas populações que moram em territórios vizinhos. Contudo, a vizinhança é um valor mais forte do que as normas administrativas. Um exemplo que patenteia esta realidade é o limes político traçado desde o século XII nas terras da velha Gallaecia entre o reino da Galiza e o novo reino de Portugal. Passaram vários séculos e continuavam em vigor muitos vestígios da continuidade territorial praticada desde a época romana e sueva. Com certeza, as mudanças políticas da primeira metade do século XII foram irreversíveis, mas a permeabilidade da fronteira luso-galaica é um dado indubitável, ao menos até aos tempos modernos da guerra de Restauração.

Por esta razão, resulta do maior interesse construir de uma perspectiva cultural e historiográfica actual um discurso que não retroprojecte o sentido e significado das fronteiras dos modernos estados nacionais para tempos mais recuados. Bem o adverte o autor deste livro em nota de rodapé, quando indica que nos “períodos de guerra entre Portugal e Castela, já não podemos falar em Espanha, nessa altura”, assim como o constante reconhecimento dos “galegos” como identidade própria e da Galiza como um reino, mesmo acreditado nos documentos das chancelarias régias, por vezes mencionado como “Gualiza”. Oportuno relativismo que cura os excessos do presentismo. Esta vontade de entender, a partir duma enorme quantidade de fontes arquivísticas, o espaço situado entre os rios Lérez e Lima como um território comum é, no meu parecer, o principal contributo deste livro. Além disso, nesta publicação está recolhido o mais substancial do percurso investigador do professor e cónego bracarense José Marques, especialista medievalista e perito arquivista educado na escola, que teve também fundos ecos na Galiza, do professor Avelino Jesus da Costa.

Os grandes resultados da magna obra do professor Marques e da sua especialização historiográfica nas terras do Alto-Minho e da Galiza, ficam bem retratados no texto redigido pelo professor José Viriato Capela. Eu só poderia apontar qualquer consideração de caráter geral e acrescentar alguma “brasa à minha sardinha”, focalizando a existência de uma realidade territorial contínua entre as águas do Verdugo e as do Lima. Porque se algo fica bem patente na maioria dos contributos aqui reunidos é que os grandes actores da história destas terras durante os séculos da Baixa Idade Média foram, além dos monarcas portugueses e castelhanos, algumas instituições eclesiásticas como o mosteiro de Oia e, nomeadamente, a diocese de Tui que teve de agir entre dois poderes fortes – as arquidioceses de Braga e de Compostela. O mosteiro de Oia possuiu terras e mesmo uma granja ao sul do rio Minho até princípios do século XVI, o mesmo que o bispado de Tui, que logrou manter debaixo do seu governo paróquias situadas entre o Minho e o Lima, de Melgaço a Ponte de Lima ou de Caminha a Viana. Não se trata de proclamar um saudoso irredentismo que não tem lugar no panorama presente, senão de mostrar que “estes povos do Alto Minho e Galiza”, que o autor considera “palco da história nacional” portuguesa, teriam sido durante séculos o contrário de povos de fronteira virados de costas.

Alguns dos percursos mais atraentes do livro – que estão presentes em vários capítulos – são aqueles nos que se dá conta da elevada presença de candidatos galegos a receberem ordens na diocese de Braga ou os pedidos para fazerem vizinhança. A permeabilidade institucional da fronteira, evidente ainda no século XV, nunca esteve encerrada com chave, mas o que importa é que, em menos de quarenta anos (1430-1468), a diocese de Braga conferiu ordens a 597 candidatos galegos, dos quais 228 procediam da diocese de Ourense e 242 da de Tui. Por outro lado, os previlégios concedidos pelo monarca Afonso V às populações do Minho e da Galiza para poderem vizinhar é outra mostra da permeabilidade da raia, mas revela claramente que, no âmbito comunitário e popular, as fronteiras eram pouco mais do que nominais. Na súplica dos vizinhos da vila galega de Baiona a El-Rei D. Afonso V, diz-se que “elles teveram por custume vizinharem com nossos vassalos”. A ideia de fazerem vizinhança é do mais feliz, porque reconhece a existência da raia, o que não evita que o monarca português autorize oficialmente uma prática que está fundada na existência de fortes laços familiares (“casavam os filhos e filhas os de uma parte com outra”) e de comércio de mercadorias (“ouro, prata e armas, bois e bestas”). Em certo modo, esta vizinhança nunca foi extinta de todo, mas o relevante nesta altura é que se trata de um previlégio real que, ao tempo, evitava a possível prática do contrabando.

Fica para penas mais especialistas do que a minha o dizer uma palavra certa sobre as razões político-estratégicas que, de forma progressiva, foram mudando as relações  de fronteira, até que os seus limites são estabelecidos de modo preciso no século XIX. Eu acho que até à guerra da Restauração a ideia de fronteira era pouco firme e mesmo frágil. Mas alguns acontecimentos de finais do século XIV, como a guerra contra Castela ou a influência dos poderes extrapeninsulares (França, Inglaterra e, nomeadamente, o Papado de Roma) nos destino dos reinos cristãos da Ibéria é claro que tenham sido fatores decisivos para uma progressiva aceitação da fronteira política, o que teve repercussões diretas na gestão de patrimónios monásticos ou episcopais de Oia ou Tui, que acabaram por coincidir, na altura de 1512, com os limites territoriais dos reinos de Portugal e da Galiza.

Devo concluir com um reconhecimento e com gratidão. A edição deste livro tem um carácter de homenagem, quer das suas terras de origem, representadas pela Câmara Municipal de Melgaço, quer da Universidade do Minho e da Casa Museu de Monção, à figura de José Marques. Não é frequente que, nos tempos de hoje, se homenageei o trabalho oculto e silencioso de um investigador que viveu anos e anos entre arquivos e pergaminhos, o que é merecedor dos mais sinceros parabéns, Assinala no seu prefácio o professor Capela que “esta obra é um marco em primeira linha para os estudos históricos e diocesanos bracarenses; é-o também para os estudos portugueses” e acho que seria injusto não acrescentar que também vai resultar obra de referência para os estudos medievais galegos. Aos responsáveis desta iniciativa e, em primeiro lugar o professor Capela, fico muito grato pela oportunidade que me foi concedida de colocar umas linhas próprias no incipit deste volume, que são também de admiração pessoal para com o professor José Marques, a quem conheci em tempos longínquos de colóquios monásticos e “galaico-minhotos”. Naquela altura nem mesmo podia imaginar que o passo do tempo me traria esta nova oportunidade de partilhar com o investigador, o professor e o amigo esta alegria de olhar neste volume a obra de toda uma vida. Bem haja…

 

                         Ramón Villares

                        Presidente do Consello da Cultura Galega

                       Professor Catedrático Universidade  Santiago Compostela                                                   

                      Doutor Honoris Causa Universidade do Minho

 

 

ALTO-MINHO E GALIZA. ESTUDOS HISTÓRICOS

JOSÉ MARQUES

Edição:

CASA MUSEU DE MONÇÃO/UNIVERSIDADE DO MINHO

CÂMARA MUNICIPAL DE MELGAÇO

Março de 2017

 

Fragmentos de vidas raianas, 1978 a 1981 - IV

17.02.18, melgaçodomonteàribeira

 

 

Continuação do post do 03 de fevereiro de 2018.

 

 

Uma vez chegado ao fim da ponte, fez uma curta pausa e resfolegou com ansiedade. Meio aquietado, consultou o velho Longines de pulso. Havia uns minutos que as sete e meia tinham ficado para trás, mas o Manel guiava-se sempre pela velha. Deu uma olhadela medrosa à casa situada no limite da ponte, o café-loja do Manolo.

Depois da meia hora da carreira, embora descendente, e daquela eternidade de transe e de quebranto psíquico, estava lavado da hora revigorante saboreada na tienda do Perfecto. Umas tigelas eram incontornáveis para se restabelecer.

Tanto no café como na loja, a iluminação ainda não fora extinta. Tinha horários, mas encerrava quando lhe dava na gana. Atendendo à hora incerta e tardia a que habitualmente saía da ponte, a ideia de deparar com o café fechado angustiava-o, espavoria-o. O café do Manolo era o mais chegado à sua casa e o único da Frieira da província de Ourense.

Quando se aproximou, reparou que o carrinho de mão e o moinho eléctrico – modelos que o Manolo expunha todos os dias para promover a venda – ainda estavam colados à parede do edifício. «Hoje está atrasado.», pensou. Sossegado, esboçou um sorriso furtivo. Tinha tempo de se refazer sucintamente a fim de voltar à casa com serenidade. Gostava de acabar o dia assim, com remanso.

Desceu o pequeno acidente entre a estrada e o espaço cimentado existente diante do modesto prédio, e arrimou a enxada contra o banco de madeira azul, disposto do lado esquerdo da porta do café. Várias vezes consertado, aquele assento fazia parte dos raros objectos que tinham subsistido aos trespasses regulares do estabelecimento.

Com assiduidade, aos sábados de tarde, desde que aquela casa fora estruturada, as comadres da aldeia sucediam-se nele: mexericavam e perscrutavam os vizinhos portugueses que ali se deslocavam para fazer compras. Uns palmos acima do banco, uma grande vidraça deixava transparecer o interior do café.

Na sala, a uma das mesas – três, como na tienda do Perfecto, mas bastante maiores – com armadura férrea e tampo de fórmica avermelhada, estava sentada a Maribel, esposa do Manolo. Não havia mais ninguém.

Como era sua usança familiar, cumprimentou a patroa com um canoro «Muito boa tarde, minha senhora!» A mulher não respondeu nem desviou os grandes olhos pretos da astronómica televisão, instalada à direita da porta. Não estava ali. De cabeça erguida, devorava abstractamente o ecrã que expelia uma imagem alterada e estremecida.

Para captar a melhor imagem fazível – a Frieira ficava numa aba –, tiveram de posicionar o televisor no ângulo de duas paredes, colado ao forro, o que, inicialmente, suscitou uns consequentes problemas de adaptação às cervicais dos mirones mais fervorosos.

A Maribel estava imersa na segunda telenovela do dia, o refúgio idílico das donas-de-casa ociosas, insatisfeitas. Nas mãos, um saquinho de pipas – sementes de girassol – que ia decorticando e mastigando como um autómato, atirando descaradamente com as cascas para o chão.

Mesmo num meio conformista como aquele, as telenovelas subornavam e colonizavam os espíritos femininos mais pueris e romanescos. Algumas mulheres, as mais sortudas financeiramente, tinham um televisor, apesar de a imagem não ser fenomenal. Durante as longas horas de claustro caseiro em que tinham de fazer avalanchas de tarefas enfadonhas, valiam-ses destes folhetins sentimentais – nos quais umas se urdiam bucolicamente e outras, em parte, até se identificavam – como um subterfúgio analéptico.

Indolente, o Manel dirigiu-se para o balcão, pouco mais curto do que o comprimento do bar.

— Mais um dia, não, Manel? – saudou-o alegremente o dono do café.

Surgira de trás da cortina que fazia ofício de porta entre o café e uma pequena cozinha, a partir da qual – e do mesmo jeito – podia alcançar a loja, de onde viera. A irrupção de uma pessoa, como qualquer outro facto circundante, não escapava aos seus sentidos atentivos, estivesse num ou noutro lado. 

O Manel, cordial, sorriu-lhe, descalçando os dentes denegridos. Lerdamente, apoiou o cotovelo esquerdo por cima do balcão, afectando interessar-se pelo que o titânico televisor difundia.

A animosidade que enfrentava ao passar sobre o rio amputava-lhe qualquer desejo de cavaquear durante uns quantos minutos. Era-lhe primordial revivificar-se. O Manolo não estranhava e havia muito que deixara de puxar conversa. Conhecia-o bem e cedia a seu bel-prazer ao particularismo do Manel.

Não teve de pedir. Como de costume, encheu-lhe a tigela de tinto e sumiu-se por de trás da cortina.

Molhou o bico, e as papilas, como por magia, horripilaram-se intuitivamente. Ainda que não houvesse mais clientes no bar, como pessoa atenciosa que se orgulhava de ser, fez, com recato, um ignóbil trejeito. O vinho que o Manolo vendia havia umas semanas deixava um intenso sabor avinagrado no gasganete. «É criminal.», lamuriou-se sub-repticiamente pela centésima vez. Portanto, tinha muitos adeptos, e ele sabia por quê: era uma pinga capitosa como poucas vezes bebera, da qual meia dúzia de tigelas punham qualquer homem cargado – ébrio – durante umas horas. Por isso, todos lhe perdoavam o agressivo paladar.

Não se podia comparar minimamente com o vinho da tienda do Perfecto que, indubitável ambrosia, quanto mais bebia, mais o corpo adjurava que lhe desse. Para ele, essa é que era a boa pinga. Por muito que ingerisse – e só Deus se inteirava dos seus excessos –, tinha a impressão de permanecer sóbrio.

Interpelado pelos vivos protestos de uma voz feminina, alteou o olhar para a televisão, mas foi incapaz de distinguir o que quer que fosse. Habitava-o uma antipatia paroxísmica por este chisme – objecto inútil.

Nunca se comovera com estas incrédulas absurdidades, nem se sentia concernido pelas figurações idiotas, ridículas, sofisticadas e irreais que ali faziam desfilar todos os dias. Era um mundo tão discordante, tão esparso e afastado do seu e do da gente com a qual convivia... O pouco que, de modo estocástico, fora vendo naquele ecrã apenas concorrera para o confortar nas suas predilecções.

«Aplicam-se a meter-nos os dedos nos olhos. E há quem caia nela. A história é sempre a mesma. Tolices!», sentenciava.

 

Continua.

 

O VASCO, O MANEL E A CENTRAL DE MELGAÇO

10.02.18, melgaçodomonteàribeira

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manuel f. igrejas

 

O ANTIGAMENTE

 

Nos anos quarenta do século passado, como meu primeiro emprego foi ser ajudante do Vasco, na Central. O Despacho Central de Melgaço ficava no térreo da casa das senhoras Teixeiras, ao lado da caneja da Fonte da Vila. O meu pai queria fazer de mim alfaiate como fez com meus irmãos, mas o Dr. Sá, que cuidara da minha tuberculose e reconheceu que não foram tanto os remédios que me curaram… convenceu o Augusto do Félix a não me fazer alfaiate que sobrecarregava muito o peito. Uma profissão ao ar livre, talvez lavrador, seria o ideal. Gostei de não ser alfaiate mas não gostei da ideia de agricultor, ainda bem que meu pai não tinha terrenos. Como já estava espigadote não ficava bem andar vagabundando. O Bino do João Lima fora demitido do cargo de ajudante do Vasco. O Augusto do Félix pediu a intervenção do Dr. Suíça (Esteves) vizinho e amigo, para pleitear do Sr. Teixeira o cargo para o seu Manelzinho.

Antes do Vasco quem gerenciou a Central foi um tal Vieira, cidadão forasteiro indicado pela CP (Companhia Portuguesa de Caminhos de Ferro) a que a Central estava ligada. Este Vieira, além daquele departamento de despacho e recebimento de mercadorias, assumiu a Pensão que anteriormente fora Vila Verde, ali na Calçada em frente à barbearia do João do Gabriel, e mais tarde foi do Zeca da Pureza (o Estica). Quem administrava a Pensão era uma irmã do Vieira, matrona rechonchuda, o tipo de beleza que os papalvos apreciavam naquela época, acho que solteira pois aceitava a corte dos mancebos que a bajulavam e lhe ofereciam presentes. Alguns casados que a título de ir beber uma pinguinha na taberna da Pensão, passavam os fins de tarde naquelas reuniões. Um primo nosso, casado e com filhos, ia todas as tardes ao sair do trabalho, penteado e perfumado para a Pensão. Mais tarde gabou-se que lhe oferecera umas meias e lhas calçara.

O Sr. Teixeira, co-proprietário da Auto Viação Melgaço Lda., atacadista de mercadorias com galpão no largo da Calçada que chamávamos garagem, também era o responsável pela Central, autorizou a minha admissão. O Vasco gostou pois conhecia-me muito bem. Éramos vizinhos com as casas geminadas. Aliás, essas casas tinham sido uma única vivenda em época anterior. Então fui ser ajudante na Central sem ganhar coisa alguma. Naquela época quem se iniciava numa profissão ou comércio, trabalhava de graça, às vezes por anos. Além de não ter vencimento ainda ganhava raspanetes bem ásperos. O Sr. Teixeira aparecia de surpresa e reclamava por a Central estar desarrumada e sem varrer. Foi aí que percebi que além da parte burocrática também tinha de varrer. Mas não o fazia, os rapazes que perambulavam por ali na expectativa da chegada da camioneta que de Monção trazia as mercadorias, iam comunicar aos comerciantes destinatários que lhes davam uns tostões para as transportarem após desembaraçadas, varriam por mim a troco de lhe indicar de quem eram as mercadorias. Quem mais varreu foi o Álvaro da Conceição (Facadas) e o Manel da Rosa Nabeiro que até hoje agradeço.

Após algumas semanas estava senhor de todo o serviço da Central, pois o Vasco que iniciava o romance com a Biti, ausentava-se várias vezes ao dia e eu ainda tinha de mentir caso o Sr. Teixeira aparecesse dizendo que fora resolver na Câmara, assunto da Central. De tal modo conhecia todos os trâmites do serviço que fiquei sozinho com toda a responsabilidade quando o Vasco adoeceu por alguns meses, e nessa altura apareceu um fiscal da CP para avaliar o funcionamento daquele departamento que elogiou o meu desempenho. E eu continuando com o mesmo salário: nenhum! Naquele tempo como por certo todos os tempos, quem se prevalece do trabalho gratuito de alguém, será muito ingénuo não pensar que o ajudante gracioso não irá tirar proveito doutra maneira. O Vasco que não devia ganhar muito bem fazia pequenas trapalhadas com as mercadorias. Eu aprendi. Quando fiquei responsável pela Central fui abordado sigilosamente por um comerciante conhecido que disse, antes da minha actuação, terem-lhe violado uma encomenda de sapatos. No trajecto do comboio e na estação de Monção era frequente o sumiço de parte das mercadorias. A propósito, uma tarde o Pianho ajudante avulso na mecânica das camionetas, apareceu na Central procurando faca ou objecto cortante, que cheirava. Não achou nada que incriminasse. Esclareceu que investigava quem comeu meio queijo do Reino, aquele feito bola vermelha, que faltou numa encomenda. Mais tarde o motorista e o ajudante da camioneta gabaram-se que tinham feito uma merenda e tanto.

O comerciante em questão propôs fazer uma grande encomenda de calçado sob seguro e quando chegasse eu assinava a guia atestando a violação e a falta de vários pares de sapatos que o seguro iria cobrir, em troca ele dava-me um par de sapatos novos. Mas é claro que aceitei! Quando fui reclamar os meus sapatos quis-me dar um par encalhado que eu não gostei. Escolhi uns de camurça, os melhores que tinha na loja. Relutou mas dizendo-lhe que ou aqueles ou não queria nenhum, acabou cedendo.

Quando calcei aqueles sapatos a primeira vez o meu pai observou: estás calçando sapatos melhores que o teu patrão. Patrão simbolicamente pois não me pagava nada!

Mas este antigamente todo é para recordar alguns dos muitos ensinamentos da vida que o Vasco me passou. Um dia chamou-me a atenção para o seguinte: “já reparaste, Manel, que a nossa terra é puta mãe e boa madrasta?” E passamos o resto daquele dia enumerando os forasteiros que se radicaram em Melgaço e se deram bem: Até fizeram fortuna!

 

Rio, Abril de 2012

Manuel Igrejas

 

Publicado em: A Voz de Melgaço

 

Fragmentos de vidas raianas, 1978 a 1981 - III

03.02.18, melgaçodomonteàribeira

 

 

Continuação do post do 20 de janeiro de 2018.

 

 

Com a pesada enxada ao ombro, o passo abúlico e o olhar fixado em permanência na outra margem como se estisesse a auto-hipnotizar-se, decidiu, mais uma vez, fazer face à dramática travessia da extensa ponte pelo centro, o modo menos aflitivo para ele. Como mais alguns, não se servia dos passeios laterais, protegidos por barreiras metálicas, como justamente recomenda o bom senso.

Uma quinzena de metros abaixo da ponte, a água do rio fronteira golpeava com fragor tudo o que se empenhava em dirimir o seu galope. Esporeado pela brutalidade da água que duas comportas liberavam constantemente, evadia-se da omnipotência da represa. Numa luta perpétua, assediava os escolhos abundantes e os calhaus que o flanqueavam. Estes infindáveis blocos pétreos dimanavam das explosões impostas pelas fundações do açude. Passado este bulício, as águas do rio perseguiam o seu caminho murmurando.

O vácuo assustador entre a ponte e o dilúvio de água, assim como a barulheira retumbante, provocavam-lhe vágados abomináveis. As tigelas de vinho deglutidas frequentemente depois do trabalho acentuavam-lhe rudemente o terrível sentimento de pânico.

Quando, por causas laborais, era obrigado a mudar de margem, só assentia por mérito do lavrador ou se não tivesse outra alternativa.

Este suplício era escamoteado com a mais peremptória cupidez por ele. Ninguém, rigorosamente ninguém, estava ao corrente da sua incapacitante fobia. Era um problema de amor-próprio, de ufania. Não queria, de modo nenhum, ser a risada dos outros. Fazia parte dos inconfessáveis segredos que o laceravam.

Embora não fosse com desopilante prazer, havia quatros dias que trabalhava para um casal de lavradores do Freixo. A primeira vez fora há meia dúzia de anos, quando as rugas os tolhera de assegurar a lida dos terrenos e das cepas. Os três herdeiros da parelha viviam na Suiça e esperavam regressar um dia. Entretanto...

O Freixo era um lugar próspero e gracioso da margem direita. Ficava a nordeste da Frieira, sito a meio do monte cuja falda o Manel descera. As habitações – decalque das dos países onde os mais jovens ganhavam a vida –, ressuscitadas ou construídas com os haveres vindos de fora, espelhavam o prestígio dos seus donos.

As parreiras acompanhavam os contornos dos campos, hortados com subtileza, que gozavam de uma exposição solar privilegiada. Esta prerrogativa fazia com que as suas vides produzissem uma uva cujo néctar dava vida a uns vinhos – branco e tinto – inqualificáveis, mas de uma qualidade extra. Apadrinhavam maravilhosamente os peixes nobres do rio e o fumeiro local. Estes produtos, cuja reputação excedera os confins do concelho, faziam a vanidade dos seus habitantes.

O Manel só tinha boas razões para anuir ao trabalho dos idosos lavradores. Com amenidade, preparavam-lhe uma alimentação a seu gosto, sápida e em quantidade mais do que correcta. No entanto, como o conheciam e eram pessoas de incontestável sensatez, acautelavam-se delicadamente na bebida, a fim de prevenir repercussões que se fariam, talvez, reverberar na actividade ou, mesmo, quem sabe, nas relações pessoais.

Por sorte, depois de terminado o dia de labor, tinha à mão onde afogar a sua sofreguidão cíclica. No coração do lugar, o Perfecto, um viúvo de oitenta e dois anos, proprietário da única tienda – loja – da aldeia, ostentava, no andar térreo da sua casa, uma pinga caseira de prodigiosa categoria. Três mesas quadradas, cheias de laivos de vinho tinto e de queimadelas de pitillos – cigarros –, doze cadeiras e um balcão obsoleto – tudo de madeira avelhantada –, mobilavam o negócio.

Havia muito que o Perfecto apenas vendia produtos vitais, de última hora, para a alimentação; o pouco que os habitantes do Freixo compravam faziam-no num verdadeiro comércio. Mas, para o Perfecto, a tienda e ele faziam um.

As paredes do seu comércio estavam, quase na totalidade, revestidas de amplos programas anunciadores da festa de San Roque e da  Romaria do Cruceiro Quebrado, as duas manifestações festivas que, anualmente,  faziam trepidar o lugar. O mais antigo, como muitos outros, descorado e amarelecido como uma bola de unto rançoso, datava de mil novecentos e trinta e três e publicitava a Romaria do Cruceiro Quebrado, celebrada o primeiro domingo de Julho. Nesse ano, calhara o dia dois.

Naquela sala grotesca, reuniam-se quotidianamente os mais ancianos do lugar. Num ou noutro programa, todos eles viam e reviviam instantes folgazões, lascivos e imortais da sua vida. Era um passado que os cingia, que os acaparava e ao qual se agarravam jovialmente; um passado catequizado todos os dias num presente artificioso, que lhes ciciava, mudamente, que o futuro se ia reduzindo à medida que o tempo escoado se estirava.

Por turnos e com buliço, jogavam às cartas, o passatempo popular ao qual se consagrava a pluralidade dos galegos. Para eles, o jogo era um rito que veneravam. Para o Perfecto, que os exortava e se presumia numa arena, era o meio de dar vida ao dia, de testilhar a derrelicção.   

Os jogadores, fitando-se, acatavam fielmente o mutismo durante a partida, mas, uma vez perfeita, a tradicional algazarra de críticas e de regozijo rebentava. O folclore associado tinha muita mais importância para eles do que o jogo.

Para os espectadores esporádicos, como o Manel, esgotados pelo estafante trabalho da lavoura, este cenário equivalia a uma relaxação revulsória. Encostado ao sumário balcão, sem que ninguém lhe prestasse atenção, seguia, religiosamente, aquela brincadeira com franca satisfação. Achava-lhes muita piada. Dizia que eram castiços, dicção que propalava as suas raízes forâneas. Enquanto ia esvaziando tigelas e mordiscando azeitonas saídas dum molho generosamente apimentado, contorcia pouco a pouco o músculo risório. Radioso, externava inocentemente uns dentes cheios de sarro e num estado avançado de apodrecimento.

Era um homem superficial que fazia tudo para não complicar a humilde vida. «Como não sabemos o que vamos descobrir mais tarde, acho que o melhor é não nos apoquentarmos com isto.», gostava de filosofar.

Um dito insulso punha-o a rir até se mijar. Acomodava-se perfeitamente com coisas simplistas, como ele, como tudo o que tinha conseguido discernir até ali; com o dia-a-dia que, frivolamente, se tinha modelado e com o qual se contentava plenamente. O Manel era, à sua maneira, um homem feliz, um homem para quem um dia chuvoso era sempre ensolarado.

 

Continua.