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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

PAISANOS, FRADES E CLÉRIGOS

24.06.17, melgaçodomonteàribeira

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MINISTERIO DOS NEGOCIOS DE JUSTIÇA

 

 

Ouvi tambem, que entre os facciosos vinha parte de huma quadrilha de salteadores que há na Galiza, e que alguns erão Portuguezes, que la se achão refugiados. Nesta ocasião tenho a maior gloria em levar ao conhecimento de V. Magestade que esta Comarca se mostrou com a maior firmeza de caracter olhando os facciosos como huns amotinadores, e inimigos da paz, acolhendo benigna todos os bons Hespanhoes que se retiravão á furia dos malvados, o que tudo levo ao conhecimento de V. Magestade que mandará o que for servido.

O Juiz de Melgaço, diz que em 14 do corrente (Maio de 1882) déra parte dos acontecimentos que tiverão lugar na parte da Galiza, fronteiro áquelle districto, e agora tem a satisfação de participar, que os revoltosos na tarde do dia 14 nos lugares de Arbo, Cella e Barcella forão dispersados por huma partida de Tropa, que para esse fim tinha sido mandada de Vigo, sendo mortos huns cem Paisanos, Frades e Clérigos, entrando neste numero os prizioneiros que matarão nos dias 14 e 15, os Soldados roubárão todas as Povoações, não deixando nem as camisas aos mortos, o que tem feito que aquelles Habitantes tenhão desamparado as suas casas, e se tenhão querido refugiar neste Reino, ao que elle Juiz de Fóra tem obstado, por isso que a segurança publica pode ser atacada, não se poupando a toda, e qualquer e qualquer deligencia para se prenderem todos os revoltosos que se encontrarem, asseverando por fim que o espírito dos Habitantes do seu districto he o mais conforme com o Systema que felizmente nos rege.

 

Valença, 18 de Maio de 1882

O Corregedor da Comarca

João de Sá Pinto Abreu Sotto-maior.

 

http://books.google.pt

 

O AVARENTO DE MELGAÇO

17.06.17, melgaçodomonteàribeira

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O AVARENTO

 

 

Havia um homem duma aldeia de Melgaço que, ainda novo, saltou para França e por lá andou a labutar como mineiro. Sendo o trabalho duro e pouco saudável, acabou por voltar quando tinha alguns francos no bolso. Vendeu as fragas que lhe couberam em herança e comprou por tuta-e-meia uma quintarola ao pé de Braga de antigos senhores arruinados.

Vivia sozinho em casa e a sua vida era o amanho contínuo das leiras e das hortas à volta. Uma vaca, galinhas, alguns coelhos e um cão eram as únicas companhias. À excepção dos trabalhos mais pesados, como o das vindimas e o da ceifa, em que tinha de pedir ajuda, evitava o contacto com a vizinhança.

Viam-no por vezes nos caminhos a vergar ao peso de um fardo de palha ou de um carrego de mato, pois carroça não tinha e não usava. Dizia-se que comia caldo aziumado de uma semana e carne de porco gorda, para poupar. E constava-se que com aquela sovinice toda devia ter uma boa maquia debaixo do colchão.

Uma vez por semana ia ao mercado da cidade a pé vender uma dúzia de ovos, uns quilos de batatas, a fruta que lhe sobejava porque não gastava desses luxos e uma galinha gorda. Até que um dia cegou e foi graças aos gritos de desespero que os vizinhos lhe foram acudir.

Alguns mais gananciosos, aproveitaram a ocasião para procurar debaixo do colchão. Mas não encontraram nada. O homem, ou meteu o dinheiro no banco, ou escondeu-o nalgum buraco da casa.

Morreu pouco depois, deixando a quinta aos sobrinhos de Melgaço que mal o conheciam e o deixaram morrer como cão abandonado. Porque não se entendiam entre si quanto às partilhas, a quinta e a casa foram deixadas ao Deus dará.

A casa, com a falta de uso, começou a arruinar-se e hoje em dia dizem que está assombrada com a alma penada do dono, que anda por ali a guardar o dinheiro escondido. Há quem afirme ter visto de noite luzes dentro de casa. Muitos dizem ser mentira, pois as portadas das janelas estão sempre fechadas e, se houvesse luz dentro de casa, não se veria cá de fora.

 

 

 

Fonte: AA.VV., - Literatura Portuguesa de Tradição Oral

                             Projecto Vicial – Univ. Trás-os-Montes e Alto Douro

  1. p.AP14

 

Retirado de: www.lendarium.org/narrative/o-avarento/?category=28

 

Centro de Estudos Ataíde de Oliveira

 

MELGAÇO QUESTIONA O REI

10.06.17, melgaçodomonteàribeira

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O BISPO D. GIL PERES DE CERVEIRA, D. AFONSO III E OS

MUNICÍPIOS DO ALTO MINHO

 

 

   Melgaço regulava-se por um antigo foral, outorgado por volta de 1185, a que serviu de referência o de Ribadávia, na vizinha Galiza. Estava este foral em vigor quando, em 29 de Abril de 1258, D. Afonso III subscreveu uma nova carta em que se lhe outorgava um foral idêntico ao de Monção: “do vobis forum de Monçom” (32). Este novo foral, que tinha entre as testemunhas o delegado do prelado de Tui, Rodericus Iohanis Magister Scholarum tudensis, não agradou, porém, à gente de Melgaço, porque introduzia modificações a que os moradores teriam dificuldade em se adaptarem, designadamente em relação ao censo anual que deviam pagar ao monarca (33). O rei acolheu com compreensão as reclamações dos melgacenses, que desejava continuar a ter por aliados e sentinelas da fronteira. E assim repôs o estado anterior das coisas, outorgando, em 9 de Fevereiro de 1261, com pequenos ajustamentos, uma confirmação do foral concedido por D. Afonso Henriques.

 

(32) T.T., Ch. D. Af. III, liv. I, fls. 27 v.º-28 v.º.

 

(33) Com efeito, esse tributo tinha sido fixado no tempo de D. Sancho II em 1000 soldos leoneses, a pagar em três prestações, ao longo do ano. No novo foral estipulava-se um tributo anual de 350 morabitinos velhos, também em três prestações nas datas acostumadas. Este valor seria fixado na previsão do pagamento de um morabitino por morador, o que fazia com que se elevasse para 350 os moradores na vila. Essa mudança do panorama demográfico obrigaria a uma redistribuição das terras reguengas que o rei tinha doado ao concelho, a qual, para além de outras perturbações no que dizia respeito às benfeitorias introduzidas pelos seus exploradores, forçosamente diminuiria as parcelas, perspectiva suficiente para provocar uma onda de descontentamento.

 

António Matos Reis

Museu Municipal de Viana do Castelo

 

O Bispo D. Gil Peres de Cerveira, D. Afonso III

e os Municípios do Alto Minho

 

Retirado de:

http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/4813.pdf

 

S. ROSENDO, D. AFONSO HENRIQUES E O CASTELO DOS MONTES LABOREIRO

03.06.17, melgaçodomonteàribeira

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CASTELO

DOS MONTES LABOREIRO

José Domingues

 

O castelo dos Montes Laboreiro ou do Laboreiro (fr. Castro Laboreiro, c. Melgaço) é a segunda fortaleza mais setentrional de Portugal – a primeira é o vizinho castelo de Melgaço (fr. Vila, c. Melgaço). Situa-se em frente do lugar da Vila de Castro Laboreiro, no alto dum cabeço rochoso da cordilheira montanhosa de Entre-Lima e Minho – na época medieval identificada com os Montes Laboreiro, topónimo que ainda perdura do lado galego – servindo de sentinela avançada de toda a raia seca entre estes dois rios.

Trata-se de um castelo medieval de tipologia roqueira, que, não fugindo à regra dos seus homólogos, nos aparece de improviso no fio cronológico do tempo, mudo como uma esfinge, ocultando o segredo das suas origens. Sem embargo, é tanta a sua antiguidade que se não guardou memória autêntica da sua fundação. Não surpreende, por isso, que desde o dealbar do século XVII, pelo menos, os documentos manuscritos e impressos, com alguma assiduidade, tributem a fundação da esculca do Laboreiro a S. Rosendo da Celanova ou à sua família – e não será de todo despiciendo que, do outro lado da raia, ainda hoje continuem a chamar-lhe o castelo de S. Rosendo.

Reza a lenda que D. Afonso III de Leão – o Magno – terá doado, a título hereditário, o monte Laboreiro – “leporarium momtem” – ao conde Hermenegildo Mendo, avô de S. Rosendo, a título de recompensa por lhe ter submetido um grande opositor. Por morte de seu avô passou para seu pai, o conde Guterres Mendo, e, sucessivamente, para S. Rosendo.

Mas todo o período lendário tem o seu aspecto histórico: (I) esta doação e consecutiva transmissão já aparecem registadas em manuscrito do século XII, que relata a vida do cenóbio de Celanova; (II) se efectivamente se pode identificar a arcaica terminologia “monte”, que aparece nos documentos do século X, com as estruturas defensivas muito rudimentares levantadas para as populações se abrigarem dos ataques muçulmanos, normandos e eventuais violências internas, desde esse recuado século que está documentada a existência do castelo do Laboreiro em expressões como “subtus mons leporario” e similares; (III) finalmente, não há dúvida de que o castelo do Laboreiro fazia parte do património do mosteiro galego de Celanova, conforme consta do contrato de permuta outorgado em Zamora, no ano de 1241, entre D. Sancho II de Portugal e o dito mosteiro de Celanova, cedendo este último o castelo do Laboreiro ao monarca luso, que por sua vez lhe liberou a igreja de Monte Córdova (c. Santo Tirso).

Contra o que tem seguido a corrente historiográfica tradicional, mais lendária parece ser a tomada deste castelo pela força das armas, no tempo de D. Afonso Henriques. Tudo por conta e crédito da carta de couto que, no dia 16 de Abril de 1141, o mesmo monarca outorgou ao mosteiro de Paderne, em compensação do tributo de dez éguas com suas crias, trinta moios de vinho, um cavalo avaliado em quinhentos soldos e cem moedas de ouro, que a abadessa Elvira Sarracine lhe tinha prestado durante a tomada do castelo do Laboreiro – “istum pretium et servitium fuit datum quando tomavit dominus rex castellum do Laborario”. Este diploma afonsino vem confirmar a existência do castelo na primeira metade do século XII.

A cronologia documental conhecida impõe que, para se aceitar o sucesso bélico do nosso primeiro monarca, se acredite na conquista da fortaleza roqueira do Laboreiro duas vezes consecutivas, no Inverno de 1140 – uma por Leão e outra por Portugal. Esta ideia torna-se assaz improcedente tendo em conta: (I) a situação geográfica do castelo e a defesa natural proporcionada pela escabrosidade dos colossais penhascos que a natureza cinzelou; (II) os invernos rigorosos no âmago destas montanhas; (III) a morosidade, os riscos e as práticas de sitiar castelos em pleno século XII.

Assim sendo, o mais plausível é que, primeiro, o castelo do Laboreiro tenha tomado voz por Afonso VII, quando este por aqui passou a caminho de Valdevez, e depois, após o Bafordo de Valdevez e consecutivo armistício entre os dois reinos, tenha ficado do lado de Portugal, aproveitando o monarca luso a proximidade geográfica para o visitar e tomar posse. O convento de Paderne, por sua vez e tal como outros congéneres, ter-se-á limitado a comprar ao soberano a carta de couto para o seu mosteiro, pagando o respectivo preço.

Regressando ao hodierno, o “viajante” do Prémio Nobel da Literatura, José Saramago, ficou surpreendido com o nome da porta deste castelo voltada para o casario actual da vila – porta do Sapo – referindo que “alguma coisa daria o viajante para saber a origem deste nome”. Numa tentativa de satisfazer essa curiosidade, é bem plausível que a explicação esteja na formação granítica, em forma de tartaruga, que fica mesmo em frente a essa porta. A verdade é que por estas bandas, plausível legado do Galaico-Português, a tartaruga ainda é o sapo concho ou sapo com concha.

 

José Domingues – Historiador e jurista. Professor e investigador do CEJEA na Universidade Lusíada. Fundador do Núcleo de Estudos e Pesquisa dos Montes Laboreiro. Autor de As Ordenações Afonsinas e de muitos outros trabalhos da história da região do concelho de Melgaço.

 

 

LUGARES INESQUECÍVEIS DE PORTUGAL

Viagens com Alma

Edição Paulo Alexandre Loução

Julho 2011

pp. 417-419