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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

FARO DE VIGO, 10/9/2016

24.09.16, melgaçodomonteàribeira

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CINE E FRONTEIRA

 

Xavier Nogueira, viaxeiro, historiador, xeógrafo, escribe ao Fondo dos Espellos. “O caso (cóntanos) é que a comezo dos oitenta coñecín en Melgaço certo personaxe digno de lembranza. Presentoumo alguén do lugar que coñecía a súa historia e peripécia (…) Aquel home, xa maior, vivía cerca da Cámara, na rúa que descende lateralmente desde a Praça da República ata a de Hermenegildo Solheiro. Con grande amabilidade relatou como polos anos trinta (ou antes) se dedicara a percorrer as vilas e as festas da contorna nun carromato no que, ademais de servirlle de habitación, transportaba unha máquina de cine, coa que gañaba a vida. Non soamente levaba a cabo proxeccións nas vilas portuguesas senón tamén naquelas outras galegas próximas á raia. Como Bande ou Entrimo. Nomeou, se mal non lembro, varias mais, como Portoquintela, Lobeira e ata creo que Celanova, pero soamente das dúas primeiras teño a certeza”. Despois doutras interessantes consideracións a respecto da película de Manoel de Oliveira sobre o Castro Laboreiro e a raia, tan pouco coñecida entre nós, e logo de referirse ao museo do cine de Melgaço, Xavier Nogueira formula un desexo. Que entre todos consigamos reunir mais datos e documentación sobre “aquel singular personaxe, merecente de ser historiado ainda que só fosse sobre os traballos e atrancos que sem dúbida tivo que passar polos infernais camiños daquelas penedias serranas coa maravillosa máquina de soños no carromato”.
Desgrazadamente, nin na Terra de Celanova nin en calquera outra zona de fronteira da Raia Seca, ou noutras partes, sentín falar desse señor de Melgaço que andaba polo mundo proxectando películas, segundo parece na primeira metade do século XX. Polo menos valía a pena incorpurar a súa memória ao museu de cinema de Melgaço e facer a crónica das súas andadas. En canto a ollada de Manoel de Oliveira, en Viagem ao Princípio do Mundo, á rota prodixiosa que vai de Caminha ao Crasto (sic) Laboreiro, é algo para ser tratado noutra ocasión e de xeito preferente.
Polo momento, pidamos axuda a todos aqueles que poidan proporcionarnos información sobre o señor de Melgaço que percorria a fronteira cunha máquina de cine no seu carro.

Todos aqueles que queixeren colaborar coa súa opinión en NO FONDO DOS ESPELLOS podem escribir por correo ordinário a:

X. L. Méndez Ferrín
Faro de Vigo
Policarpo Sanz, 22
Aptdo. Correos 91
VIGO

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INDISCIPLINA CLERICAL

17.09.16, melgaçodomonteàribeira

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LUCAS DE ABREU MAGALHÃES (P.e)

 

Filho de Pedro Gomes de Abreu e Ana Gomes, Nº 9 do Costado Magalhães de S. Julião de Baixo, foi presbítero e morou no lugar do Viso da freguesia de Chaviães e durante muitos anos prestou os serviços à Misericórdia local como capelão.

Faleceu em 6 de Agosto de 1737 e ao seu funeral anda ligada uma triste e flagrante prova da indisciplina clerical desses tempos.

Foi este um dos muitos padres melgacenses marcados com o ferrete da imprudência por à sombra da fragilidade humana sacrificar nos altares de Afrodite como qualquer leigo. Assim ferreteado decerto não deixou de ser vítima dos costumes sociais por ter sido empurrado para o breviário, quando o corpo lhe pedia matrimónio.

De qualquer das formas é certo não ter sido cauto o padre e como deste seu proceder deixou ficar provas no mundo melgacense, aqui se invocam para ficarem conhecidos alguns dos seus descendentes.

Embora no seu testamento apenas refira duas amantes – Maria Fernandes, galega e Camila Rodrigues, portuguesa e de Paços – três foram os seus aconchegos de solteirão, porquanto naquele número de amásias também se deve incluir a Maria Gomes, solteira, de Chaviães.

 

O MEU LIVRO DAS GERAÇÕES MELGACENSES

Volume II

Augusto César Esteves

Edição da Nora do Autor

Melgaço

1991

pp. 101-102

CHUVADA EM AGOSTO

10.09.16, melgaçodomonteàribeira

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Caminhos e Fronteira na Serra da Peneda

Alguns exemplos nos séculos XV e XVI e na actualidade

 

                                                                                                               Suzanne Daveau

 

Muito forte era na serra, nos anos 70, a marca da emigração para França, sobretudo em Castro Laboreiro. Construíam-se, durante o Verão, vivendas vistosas nas brandas que dominam a vila. Os emigrantes invadiam a montanha durante as suas vacanças, que aproveitavam para celebrar festas e alegres casamentos. No dia 30 de Agosto de 1976, pude ver autocarros carregadíssimos, que se preparavam para deixar a praça central de Melgaço em direcção a diversos pontos de França. A Peneda parecia-se então mais com um anexo afastado de França do que com a ponta avançada de Portugal para norte.

Durante a noite de 28/29 de Agosto de 1976 caiu em Castro Laboreiro uma forte chuvada, que inundou o andar térreo da nova pensão, obra de emigrantes, vistosamente instalada a pouca distância da antiga vila, num lugar baixo para onde convergiam vários caminhos murados. Os donos da pensão, desenraizados da realidade serrana, ignoravam que o clima da Peneda já não é mediterrâneo e incluiu abundantes chuvadas ocasionais no Verão. Ignoravam também as consequências práticas dos pormenores topográficos do lugar. Depois de um dia de muito trabalho, onde tinham servido um banquete de casamento, acordaram sobressaltados em plena noite, no momento em que a água alagava as suas camas e tinha já afogado o motor dos carros de numerosos hóspedes.

A peregrinação ao Santuário de Nossa Senhora da Peneda, em Setembro, é outro acontecimento que mostra quanto a vida da serra mantém relações estreitas com as regiões periféricas. Teria o maior interesse o estudo aprofundado da sua origem e evolução, bem como do seu raio de acção, em Portugal e na Galiza. Provavelmente as ligações detectadas no século XV com os habitantes das bacias galegas a leste da serra, ter-se-ão prolongado até hoje, através desta importante romaria, que se fazia outrora a pé, mas sobretudo de carro, nos anos mais recentes.

 

Revista da Faculdade de Letras – Geografia

I série, vol. XIX, Porto, 2003, pp. 81-96

 

Retirado de: http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/308.pdf

CRÓNICA ESQUECIDA D'EL REI D. JOÃO II

03.09.16, melgaçodomonteàribeira

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(…)

Chegou a Lisboa uma delegação de judeus espanhóis, dirigidos pelo velho e respeitado D. Isaac Aboab, o último Gaon de Castela e que já fora mestre de Abravanel.

Vinha acompanhado de trinta rabinos dos mais ilustres de Castela, o bom velho, e solicitou ao Rei a sua clemência e a entrada dos judeus de Castela em Portugal. Os trinta rabinos ficaram alojados no Porto e o Monarca deu as garantias necessárias porque viu na situação um bom negócio. É assim em política. O Rei necessitava, para a expansão e as viagens marítimas, de dinheiro, artífices e gente que trabalhasse a parco soldo em troca da vida. O Porto, os trinta rabinos, pagariam à municipalidade cinquenta maravedis anuais e calcetariam à sua custa a Rua de S. Miguel, os outros cerca de sessenta mil cruzados de ouro e outros ainda oito cruzados de ouro (isentos os recém-nascidos). Entrariam os de Placença por Olivença, Arronches, Castelo-Rodrigo, Bragança, Melgaço… O Rei reuniu-se na sua mui amada Sintra com o Conselho onde alguns dos seus membros recusaram a entrada dos judeus e, como seria de esperar, as próprias comunidades portuguesas de judeus também se opuseram a que os irmãos de Castela entrassem a fronteira porque era impossível ao país aguentar tal intromissão sem problemas. Onde se acoitaria tanta gente? A imigração em massa traria grandes desgraças! Pois bem, respondeu o Rei: seria só por oito meses! Depois partiriam. Far-se-ia uma escolha e navios especialmente contratados seriam cheios dessa malvada gente e eles, os espúrios da terra, levados para os portos que escolhessem…

 

Crónica Esquecida d’El-Rei D. João II

Seomara da Veiga Ferreira

Editorial Presença

Lisboa, Maio, 1996 

P. 241