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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

O REI DA MONTANHA

27.08.16, melgaçodomonteàribeira

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MATIAS DE SOUSA LOBATO

 

 

Em 23 de Novembro de 1901 – foi concedida a medalha de prata, «por distinção de mérito, filantropia e generosidade com que acudiu aos castrejos atacados de epidemia», o prof. Matias de Sousa Lobato.

Em 10 de Outubro de 1902, o «Diário do Governo» inseriu um decreto agraciando Matias de Sousa Lobato, então professor oficial em Castro Laboreiro, natural do lugar do Rego, freguesia de S. Martinho de Alvaredo, filho de Vitorino de Sousa Lobato, com o hábito de cavaleiro da «Real Ordem Militar de Nossa Senhor Jesus Cristo».

Esta mercê foi-lhe concedida por actos de abnegação que praticou em Castro Laboreiro em 1896, a quando da febre aftosa que ali grassou, prestando incansáveis auxílios de enfermagem aos doentes. Em 1914, por igual motivo, procedeu da mesma forma, sendo-lhe então concedidas as insígnias de oficial da Ordem de Benemerência Por actos de abnegação… que não pelos relevantes serviços prestados à instrução; pois, como professor, creio eu, nunca levou um aluno a exame.

Em 17 de Agosto de 1920 com 61 anos, faleceu na Vila o prof. Matias de Sousa Lobato, natural do lugar do Rego, freguesia de Alvaredo, filho de Vitorino de Sousa Lobato e de D. Maria Benedita Martins, sua esposa. Leccionou durante muitos anos em Castro Laboreiro, onde foi… assim como quem diz, uma espécie de soba e onde grangeou o epíteto de «Rei da Montanha».

 

Júlio Vaz Apresenta Mário

Júlio Vaz

Edição do autor

1996

Pág. 236

ADEGA REGIONAL

20.08.16, melgaçodomonteàribeira

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O ANTIGAMENTE

 

 

Na segunda metade do século passado, já terminada a guerra mundial, a Espanha ainda sofria as consequências da sua guerra civil e da mundial. Havia carência de muitos produtos que fomentavam a prosperidade das povoações portuguesas da fronteira. Melgaço era uma das privilegiadas. O contrabando corria solto, contemplando a todos, directa ou indirectamente. Desde produtos alimentares a utilidades, tudo passava através do rio Minho, do rio Trancoso ou da raia seca, e não era tão escondido assim. Os produtos tiveram a sua fase: os ovos, o sabão, a tripa seca, os cigarros e o café. Café produzido em Melgaço sem ser semeado.

Era frequente até em pleno dia, ouvir-se em determinadas casas um bater ritmado, diziam, quebrando milho e outros grãos. Confesso que nunca vi, mas ouvi. Aos grãos triturados era misturado óleo queimado de automóvel, diziam, para dar a cor desejada. Ao resultado desta alquimia era misturado café em grão, verdadeiro, talvez meio por meio. Ensacado era este produto vendido aos receptadores espanhóis por alto valor. Antes de embarcar para o Brasil, 1952, fui à festa de Orense com o Manuel Macarrão. Ao chegar, entramos num café para tomar alguma coisa e o Manuel advertiu-me: “não tomes café; é feito com as porcarias que mandamos para cá!” O pagamento das mercadorias contrabandeadas era mais em ouro e prata e menos em pesetas desvalorizadas. Os únicos artigos que da Espanha iam para Portugal eram medicamentos e cosméticos. Por alguns anos, foi famoso o fortificante Ceregumil, que todos tomavam como uso de moda. Os cigarros americanos imperaram na contravenção durante anos. Chegavam a Melgaço idos do Porto e Lisboa via correios. Diariamente, dezenas de encomendas, grandes pacotes, chegavam destinados a várias pessoas, maioria de S. Gregório. A guarda-fiscal que na raia não cumpria a sua tarefa ou até participava, desmoralizava o comando que resolveu tomar medida coerciva, plantão na porta do correio para prender as encomendas. Não resolveu. Então impôs medida drástica, mandou trancar portas e janelas da agência dos correios e da habitação contígua, do casal responsável pela agência (os chefes de correio). Funcionavam os correios na metade da mansão da D. Maria Higina, no cimo do terreiro que mais tarde foi consumida por incêndio. Trancadas com grandes sarrafos pregados nas paredes e nas próprias janelas, de modo que nada pudesse passar através delas, nem sequer ser abertas para ventilação. Foi outra medida que não deu certo e até ridicularizou a guarda-fiscal.

O que queremos dizer é que muita gente ganhava dinheiro com o contrabando. Os mais jovens gastavam tudo nas tabernas e nos cafés, os mais ponderados amealhavam. Foi assim que o Vasco da Central, graças ao café, juntou um capital que resolveu investir. Constou em Melgaço que na vila dos Arcos de Valdevez fora inaugurada uma nova taberna tão sofisticada e de grande sucesso intitulada Adega Regional. Associou-se com a Maria Olinda que ficara viúva e regressara a Melgaço com três filhos e a mãe. Esta Maria Olinda era mulher muito dinâmica e trabalhadeira. Instalara taberna na casa das Cortiças, na rua Direita e também negociava cigarros.

Vasco e Maria Olinda, num domingo, no carro de praça do Emiliano, foram aos Arcos conhecer a Adega Regional. Acharam inovadoras as instalações e modo de operar. Alugaram parte do rés-do-chão da casa do Bernardo Cunha, mais tarde do António Chivinho onde em época passada funcionara a pharmácia da Dona Amália, assim conhecida pelo povo, na rua Dr. Afonso Costa. Tenho uma vaga ideia dessa pharmácia onde a minha mãe comprava as pílulas para as bichas, amargas que só elas, mas sempre trazia alguma de açúcar para atenuar.

Contrataram, o Vasco e a Maria Olinda, os serviços do Jacob, grande artista que dominava todas as áreas da construção especializado em pintura decorativa. Dividiram o recinto em espaços apropriados às várias opções degustativas. Sala luxuosa para banquetes, balcão para taberna, saleta para chá e outra para café e confeitaria, tudo finamente ornamentado. Não tiveram o retorno esperado, o investimento fora muito grande, daí que trespassaram o estabelecimento para a Maria Cascalheira e esta para o Henrique do Geraldo. Andou de mão em mão sempre dando prejuízo. Quem melhor conta a odisseia desta Adega Regional é o Dr. Joaquim da Rocha no seu Dicionário Enciclopédico de Melgaço.

A Maria Olinda, com o filho e a mãe, emigraram para a Argentina, o Vasco continuou na Central.

 

 

   Rio, Abril de 2012

                                                                          M. Igrejas 

 

Publicado em: A Voz de Melgaço

 

O SENHOR MARECO

13.08.16, melgaçodomonteàribeira

lugar de mareco

 

O CHAMAMENTO DO MUNDO

 

Na segunda semana de Julho, celebra-se no lugar de “Borja Travessa”, a festa de S. Bento. Os fenos já foram segados nos campos, e a messe inclinava as suas douradas espigas ao sol quente de julho, ultimando o seu amadurecer.

Neste intervalo, havia bagar para algum descanso, que os castrejos aproveitavam para festejar.

Assim, após o serviço litúrgico, o terreiro da capela e a encosta de Sabariz, encheram-se de pessoas que se cumprimentavam efusivamente, trocavam notícias, aguardando por instantes a chegada de algum convidado retardatário para o almoço da festa, que, por ser de festa, seria lauto e copioso.

Foi nesse momento que eu a vi. Bela, elegante, contrastava com as outras raparigas que, vestidas à camponesa, não podiam rivalizar com ela em elegância e postura.

O jovem seminarista que eu era sentiu o coração bater mais forte quando o seu olhar se cruzou com o meu, e, por breves instantes, suspendeu a marcha errática, através da multidão.

Nos momentos seguintes, admirei, embevecido, os cabelos pretos, tão pretos que tomavam uma tonalidade azulada, o seu corpo fino e ágil, o rosto moreno trigueiro, agora ligeiramente carminado.

Foi um momento mágico; durou alguns segundos, depois ela partiu.

Quem seria?

Era costume nesse tempo, aliás, penso que ainda o é hoje, as famílias residentes no lugar, convidar para o almoço da festa familiares e amigos. Alguns vinham de longe.

Foi assim que o meu pai e o resto da família fomos convidados a comer em casa do senhor Mareco, pessoa muito importante do pequeno burgo, amigo e compadre dos meus progenitores.

O Mareco era o príncipe dos contrabandistas, não só de Castro, mas mesmo do concelho.

Na década de cinquenta, era o contrabando uma actividade muito praticada na minha aldeia, como aliás em todas as zonas raianas.

Este não tinha ainda, nem social nem criminalmente, a carga negativa, trazida pelos estupefacientes, muito menos o perigo e a incerteza que o terrorismo trouxe à sociedade, nas décadas seguintes.

Assim, os contrabandistas, economicamente mais abastados, eram normalmente as pessoas mais respeitadas da terra. Era o caso do Mareco, e em grau menor, o do meu progenitor.

Como contrabandista, o Mareco era o maior, o mais rico, o mais inteligente, o mais poderoso.

Em Castro, o contrabando, era “as fábricas”, que tínhamos para trabalhar; como em quase todo o interior, o Estado nada fazia por nós, a não ser cobrar alguns míseros impostos.

Os contrabandistas, ainda que de maneira ilícita, desenvolviam o comércio com os vizinhos do outro lado da fronteira, exportando café, tripas, tecidos, tabaco; pagos com, além da muito desvalorizada peseta, com prata, mercúrio, às vezes ouro.

Desenvolviam mesmo o mercado financeiro, cobrando em Portugal cheques de banco, oriundos das Américas, muito melhores pagos em Portugal do que na Espanha franquista, ainda voltada ao ostracismo pela comunidade das nações.

O dinheiro líquido seria levado em mão própria, através da raia, e entregue em lugar e sítio previamente determinado.

Era só necessário ser “honesto, sério e de palavra”. Nada mais, nada menos.

O Mareco tinha assim a honrar a sua mesa, gente muito importante, ligada à banca, ao comércio, à indústria, oficiais das forças militarizadas e outras forças vivas do norte do país.

Entre os convidados, estava o meu pai, contrabandista muito menos importante, mas velho amigo dos tempos difíceis, pois mesmo para o Mareco, nem tudo foram rosas nos primeiros tempos.

Sentado a um canto da mesa, eu observava esta fauna, com aspecto de gente muito importante, entre os quais o meu pai, que com o seu porte atlético e ar altivo, os ofuscava completamente.

Foi então que a vi, sentada mesmo à minha frente, apenas separados pela largura da mesa, lá estava a minha morena trigueira. Chamava-se Margarida, e o nome lhe ia bem.

 

In Ecos dos Montes Laboreiro

António Bernardo

Edição do autor

2008

pp. 85-88

 

 

A FILHA DO CAPITÃO

06.08.16, melgaçodomonteàribeira

 

(…)

“Calma”, pediu Baltazar, sempre concentrado num documento. Passou os olhos pelas letras, fungou, murmurou sons imperceptíveis e, após mais uma eternidade a decifrar o texto, captou finalmente o sentido. “Diz aqui que temos direito a trinta dias de licença.”.

Um murmúrio de satisfação encheu o abrigo, todos se entreolharam e sorriram. Já se imaginavam no Minho, com a família, a ajudar na lavoura, a banharem-se no Cávado, no Este, no Lima, a dançar o vira, a cavar a terra, a apanhar a uva, a encherem os espigueiros, a comer um cozido regado com um verde de Melgaço, mas que grande narça iriam apanhar na primeira noite entre os seus.

“Um mês”, repetiu Vicente, sonhador.

“Ah se eu me apanho no Minho, a cheirar os carvalhos e os teixos do Gerês, ou a respirar aquele ar das brandas, lá no alto da serra, nunca mais me põem os olhos em cima”, sentenciou Baltazar, cerrando as pálpebras com sentida nostalgia. “Que categoria. Escondo-me lá no mosteiro de Pitões e a tropa que se pine.”

 

A Filha do Capitão

José Rodrigo dos Santos

Edição Gradiva

31ª Edição Junho 2016

  1. 424, 425