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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO 2000

25.06.16, melgaçodomonteàribeira

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Ao elaborar o “Roteiro de Melgaço 2000”, quisemos chamar a atenção dos nossos conterrâneos e dos visitantes interessados para a imensa riqueza do passado em tradição, cultura e história, usufruindo do presente com sabedoria e ajudando a projectar o futuro.

A Providência brindou-nos com dádivas extremamente generosas.

Temos as águas do Peso, agora com grande caudal, potencial de grande riqueza, se devidamente exploradas. Condições naturais para um turismo ímpar, variado e rico. Vai do Belo horrível das serranias pedregosas à poesia lírica e à beleza olímpica do rio Minho e seus afluentes, sem esquecer o valiosíssimo património histórico e arquitectónico.

Com estradas maravilhosas e o ar despoluído, o que não serão as férias e fins de semana, os passeios e merendas em Castro Laboreiro, Lamas de Mouro, nas casas alvinitentes da montanha, na Aveleira, etc., etc.

Os monumentos de que dispomos, Fiães, Paderne, Chaviães, a Orada, o espólio arqueológico, em especial o de Castro Laboreiro, os castros, a Cividade de Paderne, vilas e castelos, a parte medieval da sede do Concelho e de Castro Laboreiro, entre outros, os solares, com especial relevo para o do Fecho, o que aí vai de itinerários de cultura e diversão para naturais e visitantes.

E que dizer da caça e da pesca, agora em baixa, mas que podem voltar a ser o que já foram, desde que se tomem disposições e iniciativas muito a sério com vista a despertá-las do marasmo?

Há o Alvarinho e o Verde regional, este que os romanos já descobriram e transportavam ás costas dos escravos ou pelo rio Minho até à foz, embarcando-o em seguida para Roma. Aí era guardado nos baixos das casas sob a neve dos Apeninos e servido nos famosos banquetes da Cidade Eterna.

E há a culinária regional, à base de presunto e chouriços únicos, quando genuínos de Melgaço, de cabrito, carneiro, truta salmonídea, lampreia, salmão e sável.

Há enorme potencial para o turismo de lazer, como já o vêm demonstrando Melgaço Radical e Rafting Atlântico.

Os autores, naturais de Melgaço, procuram que este trabalho seja didáctico e formativo, pois não há liberdade sem cultura, nem verdadeira cultura sem liberdade.

 

Melgaço 2000 – Roteiro

Edição A Voz de Melgaço

2000

 

VIDAS MELGACENSES: O TI PIRES

18.06.16, melgaçodomonteàribeira

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O TI PIRES

 

 O cinema exibido na casa do Emiliano, filmes mudos, era produto do génio inventivo do Manuel Pires. Este Papá Pires como passou a ser conhecido mais tarde devido a esse tratamento que os filhos lhe dispensavam, era oriundo do vizinho concelho de Monção, da freguesia de Tangil. Tivera longo tirocínio na freguesia da Valinha como funcionário da famosa loja do Barbeitos.

Estudioso, autodidacta, era o Pires o arauto do progresso. Enfronhara-se nas coisas do cinematógrafo, novidade que estava chegando à região. Por sua inventiva construiu o Pires a máquina de projecção com componentes adquiridos no Porto. Como o Emiliano tinha o espaço fizeram uma sociedade. Ambos novos, recém-casados, com idênticos propósitos de progresso entenderam-se bem durante algum tempo. Além do cinema fizeram sociedade num automóvel Ford, modelo T, 1926. Este carro dirigido por um ou por outro foi o primeiro carro de praça da vila de Melgaço.

O Manuel Pires após prestar o serviço militar foi instalar-se na vila de Melgaço. Aí montou de sociedade com o irmão José uma loja de ferragens e prestação de serviços mecânicos denominada Pires&Irmão, Lda. Os dois Pires logo ficaram famosos, dinâmicos e inventores tinham solução para tudo. Diversificaram suas actividades com serralharia, mecânica, electricidade, fotografia, bicicletas e automóveis, gramofones e cinema. De tal modo eram procurados que montaram nova loja na mesma rua, aliás a principal da terra, rua Nova de Melo. As duas lojas passaram a ser conhecidas como a loja de cima e a loja de baixo. Uma especializada em ferragens e a outra em drogaria. Ambas bem montadas com letreiros nas fachadas e nos vidros, nestes com filetes de ouro, arte que o Pires dominava bem chegando a ser durante bastante tempo o único e competente pintor de letras da região. As casas comerciais e Hotéis do Peso exibiam nas fachadas suas denominações em grandes e artísticas letras pintadas pelo Manuel Pires directamente nas paredes. Nas suas andanças pelas redondezas atendendo a chamadas de trabalho, sempre de bicicleta, conheceu no Peso uma rapariga que lhe agradou. Também a ela lhe interessou aquele famoso mancebo. Era a Carlinda, filha única de Lucas Ferreira Passos, probo e abastado proprietário, descendente de tradicional família. Entre os dois estabeleceu-se um namoro fora dos padrões convencionais da época. Não eram vistos juntos nas festas e romarias e dificilmente aos domingos. O namoro de Pires e Carlinda era quase exclusivamente do conhecimento dela e dos pais dela. Quando dispunha de tempo ou a saudade apertava, não importava dia ou hora, montava o Pires numa das suas bicicletas de aluguer e pedalava até sua amada, quatro quilómetros distante.

O casamento dos dois também se deu fora dos padrões usuais. Consta que, acertadas as coisas e documentação, no dia aprazado a Carlinda e parentes aguardavam na porta da igreja do convento de Paderne. Na hora marcada apareceu o Pires no seu transporte exclusivo, vestido com seu traje habitual, calça e casaco de cotim cinzento e alpargatas nos pés. Após a cerimónia religiosa cada um foi para o seu lado. A Carlinda e familiares para sua casa e o Pires em sua bicicleta para a sua loja. Só à noite se juntavam na casa dela. Esta situação durou até ele alugar o sótão da casa da Umbelina da Baralha, em cujo térreo já tinha uma das lojas: sótão este que só abandonou anos depois, já tinham os seis filhos, por ameaçar ruir. Por falecimento dos sogros herdou as duas casas nas propriedades do Peso mas nunca se transferiu para lá. Aquele inusitado casamento que à maioria passou despercebido, até aos vizinhos, motivou um curioso incidente. O Ponciano, vizinho com propriedades contíguas, nas esporádicas conversas passou a dar indirectas: - Lucas, a tua filha não canta! No seu jeito calmo respondeu: - Se não canta, há-de cantar. Diariamente o Lucas era abordado com a mesma observação venenosa do vizinho. Fazia-se desentendido e dava sempre a mesma resposta: - Se não canta, há-de cantar! Certo dia vendo que as indirectas não surtiam o efeito desejado, maldosamente foi directo: - Lucas, a tua filha está prenha, de quem é? Com a sua proverbial calma, com o falar arrastado, respondeu ao insolente vizinho: - Pois está! É do nosso Pires, o homem dela!

Não levou muito tempo uma filha do Ponciano apareceu grávida. Num dos encontros o Lucas observou ao seu vizinho: - Ponciano, a tua filha não canta!... Furioso, o outro destratou-o: - Vai para o diabo, desgraças acontecem a todo mundo…

 

                                                             MANUEL IGREJAS

A HISTÓRIA DO CINEMA... QUANDO NÃO HAVIA CINEMA

11.06.16, melgaçodomonteàribeira

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UMA HISTÓRIA DO CINEMA NO ALTO MINHO

 

16 de Junho 2013

Ivete Carneiro

 

É um objeto estranho, bonito, com espelhos e desenhos. Chama-se praxinoscópio, pertence aos primórdios da sétima arte e está exposto num museu minhoto, juntamente com outras relíquias. Melgaço tem mais que ver com contrabando, emigração, vinho, costumes ancestrais e lendas medievais, mas é aqui que se conta a história do cinema… quando não havia cinema.

 

António Augusto do Souto só não foi emigrante a salto porque cresceu guarda-fiscal e soube contornar as regras comme il faut. Em meados dos anos 1960, o homem, hoje com 77 anos, natural de Melgaço, foi a França com passaporte de turista e a autorização ministerial que era preciso mostrar à PIDE nas dobragens da estrada. Tudo legal, não tivesse ele na mala de cartão a ideia de vergar o fio por mais do que o conto e cinquenta que lhe dava Salazar, lá no posto afastado de casa para onde o mandou.

«Tinha 29 anos e três filhos, casei novo…» Aos 19 anos. E estava cansado de ir para fora cá dentro, primeiro no Algarve e depois ali em Lanhelas, Caminha, por tuta e meia e horas de estrada. Estávamos em 1965. Nunca foi para as «trincheiras» onde viviam os portugueses lá de Paris, de França. «Aluguei um quartinho porque fazia conta de vir buscar a minha mulher.» Era perto de casa de António Alves, o cunhado, cicerone pela Aubervilliers da altura, que lhe falava bastante de «francês muito boa gente». «Ele que venha cá a casa», disse Souto ao cunhado, insistindo que era só quartito e a sala. «Um belo domingo lá apareceu o Passek. Trabalhava na altura na Larousse, no dicionário mundial do cinema.» Jean-Loup Passek continuaria ligado a esse mundo, vida fora. Manoel de Oliveira conheceu-o como criador e Diretor do Festival de Cinema de La Rochelle. E seria mais tarde conselheiro do cinema para o Centre Georges Pompidou, onde dirigiu a coleção Cinema Plural com a resenha «Le Cinéma Portugais», entre muitas. Uma estafa de currículo.

Gosta de cinema, monsieur Souto? Os filmes, no Alto Minho, estão mais à mesa de uma bela adega. Jean-Loup Passek lá terá percebido. Tomou-se de amores pelos melgacenses personagens principais deste conto. De tal forma gostou da terra que fez um documentário sobre os portugueses em fuga. Ninguém o viu. Nem António Augusto nem os responsáveis pela herança de Jean-Loup. E que herança… «Nunca quis mostrar. Diz que é muito pessoal, que é muito específico daquele momento.»

Angelina Esteves, chefe da Divisão de Cultura e Comunicação da Câmara Municipal de Melgaço, eclipsa-se quando o Sr. Souto se instala para descansar no Auditório do Cinema da vila. Um banco almofadado corrido, quatro ou cinco lugares com vista para uma das faces da Torre de Menagem que encima a vila, um plasma a fazer de ecrã de cinema, os fundos carregados de história, podemos imaginar, daquele que foi o posto da guarda-fiscal. «Se o cinema está aqui, deve-se a mim.» Não gagueja, o hoje presidente da junta de Paços, freguesia de Melgaço, onde Passek assentou praça intermitente, alternada com os pinhais de Pataias de Alcobaça (outra paixão ganha do convívio com o Abílio do restaurante português) e com o chiquérrimo Saint-Germain-des-Prés da Paris dos abastados. O bom do francês queria desembaraçar a cansada mãe da tralha que a paixão do filho pelo cinema lhe foi colando à arrecadação de oitenta metros quadrados – um sem fim de mistérios e pura arte, muitos até angariados com as brincadeiras no Pompidou. E como Portugal lhe enchera as medidas, procurava por aí, na Cinemateca de Lisboa, em Cerveira…

«E então, eu disse-lhe: «Ò João, tens de o deixar aqui para Melgaço.» «Oh, c’est trop petit.» É muito pequeno, não pode expandir. Bom, tinha alguma razão. Um dia agarrei-o e vim mostrar-lhe as coisas boas de Melgaço. Ele conhecia era Paços, a minha casa. E viemos aqui.» Ao posto fiscal, um canto encostado à muralha, de que Passek gostou. E gostou pelo romantismo, pela carga simbólica, traduz Angelina.

«Ele costuma dizer que é um museu sentimental», diz Elisa Vilarinho, que recebe o euro que custa entrar no mundo mágico. O edifício fora adquirido pela câmara para funções sociais, mas desviou o rumo para a cultura e, há quase oito  anos, abria-se ao mundo o embrião do Museu do Cinema Jean-Loup Passek. Ainda é ele que dirige os destinos programáticos do espaço, apesar de mal andar, 76 anos doentes que o afastaram de Portugal há uns anos. Souto esteve com ele no Natal, na última ida a Paris e aos filhos, e viu-o acabado, mas teimoso na solitude. «É solteirão, homem solitário», de muitas mulheres, que trazia, sempre diferentes, aos grelhados das sextas nos chantiers dos immigrés.

É verdade, Melgaço tem mais que ver com contrabando e emigração, da clandestina e da outra, com vinho, com costumes ancestrais de transumância, com lendas medievais… do que com cinema. Mas o francês simpático e bem apresentado que subia e descia as curvas da Peneda na sua Citroen Diane azul-clara, atrás de testemunhos das fugidas dos anos 1960 e 1970, merecia o apreço.

Mas tinha razão, o João aportuguesado – tem cartão de contribuinte, medalha de honra de Melgaço e, diz-se, fala português como os portugueses lhe trituravam o francês, perfeitamente percetível. De facto, aquilo era pequeno. E são três os armazéns a explodir de praxinoscópios e antecessores, de memórias que nos atiram para os irmãos Lumiére e para Georges Méliès e a sua famosa Viagem à Lua de 1902, de imagens vintage. Vai daí, Passek comprou o cinema mesmo, o velho Pelicano feito esqueleto, para estender o museu. E doou-o ao município. E o município fez o projeto e obteve autorização do Instituto de Gestão do Património Arquitetónico e Arqueológico. E calculou o preço. À roda de 250 mil euros. Que não há, nem em fundos externos. Por isso, não se sabe quando vai abrir o novo espaço.

 

Uma carta de Manoel de Oliveira

 

«Para Jean-Loup Passek, criador e diretor do Festival de Cinema de La Rochelle.

Tive a sorte de pertencer ao grupo daqueles que tiveram a honra de ser um dos seus convidados para a primeira edição, com a minha primeira retrospetiva apresentada em França. Evoco com prazer esses bons momentos em que tive a ocasião de discutir de forma muito violenta com o público e de expor os meus pontos de vista sobre uma visão do cinema. Obrigado Jean-Loup.

 

Manoel de Oliveira.»

 

Ler mais em: www.dn.pt/revistas

 

A FRONTEIRA DE SÃO GREGÓRIO

04.06.16, melgaçodomonteàribeira

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ESTADO CEDEU QUATRO EDIFÍCIOS POR CINQUENTA ANOS

 

CÂMARA DE MELGAÇO FICA COM CASAS DE FRONTEIRA 

 

Os quatro edifícios da antiga Estação Fronteiriça de São Gregório, em Cristóval, freguesia mais a norte do território nacional, foram cedidos pelo Estado à Câmara de Melgaço, gratuitamente e por cinquenta anos.

De acordo com o município liderado pelo socialista Manoel Batista, os imóveis, que durante muitos anos constituíam o posto fronteiriço de ligação a Espanha, «vão ser requalificados e devolvidos à comunidade».

Manoel Batista assegurou «já ter projetos para os quatro edifícios, atualmente em avançado estado de degradação», mas que «só divulgará oportunamente».

Com a assinatura do contrato de concessão de utilização da antiga Estação Fronteiriça de São Gregório, e após «inúmeras diligências junto do Ministério das Finanças», a autarquia vê «concretizada uma aspiração antiga».

«Foi já assinado entre o município e o Ministério das Finanças o contrato de concessão que cede, a título gratuito, e por um período de 50 anos, o imóvel do Estado denominado por Antiga Estação Fronteiriça de São Gregório, em Cristóval, Melgaço», adiantou a autarquia.

Para Manoel Batista, «esta medida vai permitir recuperar um património de elevado interesse a nível local e regional, retirando esses edifícios de um processo de degradação contínua».

 

                                                                                                                    Redação/Lusa

 

Diário do Minho, 26.5.2016