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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

O MESTRE DA LATOARIA

26.03.16, melgaçodomonteàribeira

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ti raúl cataluna

 

RAUL FERREIRA CARDOSO

 

Raul Ferreira Cardoso, vulgarmente conhecido por «Raul Cataluna», foi um destacado «Mestre de Latoaria». Casado com Generosa Maquelina Barreira, teve uma prole numerosa (7 filhos) e para a criar foi, além de latoeiro, canalizador, músico e taberneiro.

Embora nascido na freguesia de S. Nicolau, Porto, a sua longa vida viveu-a em Melgaço, na Rua Direita, onde faleceu em 18 de Março de 1976.

Distinguiu-se como artista, na Lotoaria e no Cobre, e, ainda, como, homem de rara caridade. A Guerra Mundial trouxe a fome a muitos lares, mas não entrou em casa de Raul Cataluna, porque o seu trabalho lhe dava o suficiente para a família, e, ainda, lhe permitia levar para casa pessoas a quem dava a sopa, que nem sequer tinham em casa.

Como canalizador trabalhou em Melgaço, em Monção, onde fez o encanamento na casa de teatro, em várias escolas de Âncora, na cadeia da Vila e na Alfândega de S. Gregório.

Mas foi como latoeiro que se destacou.

Em folha de flandres e cobre fez Capelas, Oratórios, Crucifixos, Santuários, Lanternas, que oferecia a familiares e amigos.

As lanternas para igreja Matriz da Vila fê-las em homenagem ao seu mestre João Reis, mais conhecido como João Latoeiro. O Mestre havia feito essa promessa a favor do seu filho António Reis, o qual fora para a Grande Guerra de 1914 a 1918, promessa que implorava do Céu o regresso com vida e saúde. Assim aconteceu.

O Mestre João Reis, porque a morte o chamou antes de poder cumprir a promessa, encontrou em Raul Cataluna o executor da sua vontade.

Algumas das suas obras ofereceu-as aos quatro filhos, que trabalhavam em França; as lanternas para Santa Rita, promessa que fizera por seu filho João a fim de que, tendo ido a salto para França, tudo corresse bem.

Apenas com a 2ª classe, da primária, foi mestre de latoaria e dos seus alunos destacamos José Simplício Moreira, já falecido, Amilcar da Costa, também já falecido, Óscar Marinho e os seus filhos José e Raul.

 

P. Júlio Vaz Apresenta Mário

P. Júlio Vaz

Edição do Autor

pp. 292, 293

 

A EUROPA EM QUE VIVEMOS

24.03.16, melgaçodomonteàribeira

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professor álvaro domingues

 

Inspecção antes da entrada no aeroporto “iria infernizar a vida das pessoas” 

 

23 Mar, 2016 – 11.30 . André Rodrigues

 

“Os atentados não são coisas evitáveis. Temos de nos habituar a viver numa sociedade de risco e a aceitar esse risco sem a ilusão de que tudo se pode planear ou evitar” diz Álvaro Domingues, especialista em transportes.

 

Os atentados de Bruxelas colocaram a segurança das redes de transportes públicos na ordem do dia. De Nova Iorque a Londres, as autoridades responderam aos ataques desta terça-feira com reforços de segurança visíveis em aeroportos, estações de caminhos-de-ferro e de metropolitano.

Mas pode a Europa adaptar protocolos de vigilância mais apertada  no acesso aos terminais de transportes? Em entrevista  à Renascença, Álvaro Domingues, especialista em transportes da Universidade do Porto, reconhece que a ideia é compreensível, mas não se adequa à normalidade desejável para o dia-a-dia dos cidadãos.

 

Há na Europa uma relativa facilidade no acesso às zonas públicas dos aeroportos que contrasta com a prática comum noutros países – Turquia, Israel, Rússia e alguns países africanos – que para travar o risco de ataques terroristas, inspecionam passageiros, viaturas e bagagens ainda antes da entrada no edifício do aeroporto. Faria sentido adoptar um protocolo de segurança semelhante no espaço europeu?

Creio que não. Essa reacção é compreensível numa situação dramática como a que aconteceu em Bruxelas, mas não me parece exequível. Isso iria infernizar completamente a vida das pessoas.

O terrorismo na Europa veio para ficar e para durar. Por outro lado, há uma certa invisibilidade neste tipo de fenómenos, que são muito difíceis de perceber. Portanto, por muito que nos custe, creio que isto é um sinal dos tempos e vamos ter que viver com esta questão.

Mas não é novidade que os terminais de transportes são alvos apetecíveis para os terroristas. Como evitar que um atentado ponha em causa a normalidade do dia-a-dia das pessoas?

Para mim, a solução equilibrada é continuarmos a fazer a vida de todos os dias porque as ocorrências e circunstâncias em que um atentado pode acontecer são infinitas. Desde os atentados de Nova Iorque em 2001 até à estação de comboios de Madrid ou o aeroporto de Bruxelas, todos sabemos que os terminais de tráfego muito frequentados são um alvo porque passa lá muita gente e porque o terrorista quer sempre visibilidade mediática. E o morticínio garante-lhe essa visibilidade. É assim. Não há volta a dar. Mas o efeito pode ser semelhante em termos mediáticos noutras circunstâncias e noutros lugares muito diferentes destes.

Acho que não podemos construir respostas de fiscalização das pessoas e dos utentes à medida que os atentados se forem diversificando nos locais onde ocorrem. Temos de fazer a vida normal de todos os dias sem cairmos nesta paranoia securitária e nesta ilusão de que, com esta vigilância, as coisas vão ser evitadas.

Portanto, a bem da segurança, não aceita a possibilidade de se deslocar com ainda mais antecedência para o aeroporto, estando eventualmente disposto a enfrentar várias horas de fila num posto de controlo?

Isso não resolve nada. Nem era exequível em nenhum aeroporto português. E muito menos em aeroportos de grande tráfego como Heathrow (Londres, Inglaterra) ou Frankfurt (na Alemanha).

Além disso, levar-nos-ia a uma espiral de absurdo, porque não é isso que vai evitar os atentados. Nem os atentados são coisas evitáveis. Temos de nos habituar a viver numa sociedade de risco e a aceitar esse risco sem a ilusão de que tudo se pode planear ou evitar.

Essa conversa é válida para o que aconteceu em Bruxelas ou para um acidente rodoviário de grande envergadura. Há sempre uma alminha esforçada a dizer que tudo se podia evitar ou prever. Mas nestes tempos complexos que vivemos, a sociedade só funciona com uma certa espontaneidade. Eu não posso estar constantemente a criar “checkpoints” de cada vez que uma coisa destas acontece. Isso poderia desencadear o inferno na vida das pessoas. Imagine o que seria sair de casa, entrarmos nos transportes, chegarmos ao nosso local de trabalho e sermos revistados a todo o momento. Isso é impossível. Não pode ser.

 

ENTREVISTA RÁDIO RENASCENÇA

 

TORGA, CAROLINA MICHAELIS E CASTRO LABOREIRO

19.03.16, melgaçodomonteàribeira

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O CARTÃO-DE-VISITA

 

(…)

 

Miguel Torga, o maior andarilho que Portugal alguma vez possuiu e que sabia o país de cor através da memória dos pés, que o calcorreavam em todas as direcções, descreveu num dos seus Diários um encontro que um dia se proporcionou, em Castro Laboreiro, com um molhinho de velhotas, vestidas de preto (as eternas viúvas), sentadas na soleira da porta de uma das casas. Meteu conversa, perguntou-lhes se não havia viúvos na terra – os homens são mais apressados – e principiou a afirmar-se numa das velhas, ar diferente das outras, gestos mais delicados, palavras com outra entoação, rosto menos tosco… Curioso, procurou ir ao fundo do saco e ver se de lá retirava alguma centelha que lhe iluminasse o pressentimento. Sabia tanger com mestria as cordas da ternura, era Poeta, sabia bem como fazê-lo. Pouco depois de um curta troca de palavras, a mulher levantou-se, entrou em casa e trouxe um cartão-de-visita que rezava mais ou menos desta maneira (cito de cor): “Carolina Michaelis de Vasconcelos atesta a quem possa interessar que Maria do Rosário da Rocha, natural de Castro Laboreiro, foi sua criada e, durante o tempo que a serviu, foi-lhe sempre fiel, trabalhadora e dedicada…”. O milagre que a convivência pode fazer!

 

(…)

 

Catarse – Diálogo Epistolar em Forma de Romance

Cristóvão de Aguiar & Francisco de Aguiar

Edição do autor

2011

 

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NO LARGO DA CALÇADA II

12.03.16, melgaçodomonteàribeira

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largo da calçada, década de 80 do século xx

 

  

As camionetas desta empresa, localizada no mesmo largo, ligavam Melgaço a S. Gregório, Castro Laboreiro e Monção. Nesta altura, já havia muito que a Auto Viação deixara de servir a aldeia de Fiães por falta de rentabilidade. Os camponeses preferiam a furgoneta do Meio Quilo, mais acessível, que, além de Fiães, também servia os seus lugares raianos compreendidos entre Soutomendo e Alcobaça. Era o Quim, seu filho, que assegurava o transporte das pessoas e das mercadorias. O Estrela, como era óbvio, tornara-se o pouso diário dos fianenses.

Eu fazia parte dos cliente deste aprazível café. Sentado num dos bancos altos, ao lado da entrada para o balcão, dava uns tragos num fino e observava os poucos adventícios que se iam sucedendo; matava o tempo. Quase todos carregavam com diversos sacos refertos nas mãos. Uns entravam para se resguardar da chuva e saíam logo que o céu o consentia; outros dirigiam-se para o balcão, consumiam e retiravam-se oportunamente; outros, sentados, aguardavam pela hora de saída da respectiva camioneta ou pela chegada do Quim, que estacionava no início da avenida da Barbosa; e outros, ainda, os mais insolentes, serviam-se exclusivamente dos WC, como se fossem públicos.

Na primeira das três mesas situadas por debaixo da escada que conduzia ao mezanino, encontrava-se o Araújo, um empreiteiro que passara uns anos no Canadá. Na companhia de um camponês, falava para a sala, como de costume, tentando persuadi-lo de que era o homem que lhe fazia falta, o homem que respeitava os prazos fixados e que, questão qualidade, não encontraria mais barato.

A terceira mesa, ao lado do WC, encontrava-se ocupada pela popular Maria de  Fiães, uma quarentona avançada. Amadora de boa pinga e de prazeres carnais quando a primeira lhe inflamava a libido, considerava-se uma mulher livre e assumida. Evidentemente que este comportamento discrepante tempestuava alguns, em especial os mais castos e beatos da sua paróquia.

À entrada, de pé no ângulo do balção, o Alfredo Nabiças, um pobretana provocador, gourmet inveterado de Três Marias, empenhava-se em perpetuar as caretas nauseabundas às quais havia muito as pessoas eram insensíveis.

Por detrás dele, na única mesa que ali havia, o padre Araújo corrigia deveres. O maço de Porto, encetado quando se sentara, ficaria por cima da mesa, amarfanhado, quando se levantasse.

O Martins, depois do ténue alvoroço observado entre o meio-dia e as duas da tarde, deixara ficar o Barbosinha na companhia do Abílio. O rapaz, quando tinha uns minutos, ia trocando umas curtas palavras comigo; falava-me da terra onde nascera, que lhe faltava, dos estudos e dos projectos que o motivavam. De momento, a sua ambição era aprender a tocar bateria. « Coisa natural para um brasileiro, pensei. Têm o batuque no sangue. »

Estava mesmo um dia repugnante. Os ladrilhos que cobriam o pavimento do café estavam cobertos de peugadas terrosas e húmidas e da água que escorria dos guarda-chuvas. Sentia-me entediado. A chuva dava-me o blues e a conversa do Barbosinha não era deveras estimulante. Lembrei-me de que tinha a ponta dum pica de erva no bolso. Fui ao WC dar umas passas. Agradava-me fumar, agradavam-me as sensações que a erva me fazia ressentir e agradava-me o bem-estar com que me invadia. Quando voltei a sentar-me, tinha a boca seca. Dei um bom trago no fino. Soube-me melhor.

Em Portugal, uns meses atrás, as substâncias alcalóides apenas eram conhecidas e consumidas por um círculo restrito de intelectuais, artistas e globe-trotters. O fim da guerra no ultramar, como lamentavelmente acontece com as tragédias belicosas desta dimensão, teve consequências terríveis. Entre elas, a mais ostensível foi, sem dúvida, o regresso brutal e constrangedor de uma multidão de colonos à sua pátria. Com eles, desembarcou uma quantidade apreciável de jovens, os filhos, que abandonavam a terra onde tinham nascido e vinham viver para uma que lhes era estranha e cujo solo muitos deles nunca tinham pisado. Alguns destes desarraigados, embebidos das tradições, dos rituais e das superstições dos amigos indígenas, trouxeram, no meio do cafarnaum que a urgência lhes impôs, sacos repletos de liamba. As diversas contrariedades e desventuras de toda natureza, encontradas por muitas destas famílias no país de origem, obrigou os filhos – que, em princípio, tinham trazido a droga para consumo pessoal – a comercializá-la. Foram eles que, de modo ocasional, democratizaram o uso de estupefacientes no país depois do 25 de abril. O enlevo, como era de prever, chegou a Melgaço.

Inesperadamente, vindo não sei de onde, ouço o Barbosinha cochichar-me ao ouvido:

— Que seja a última vez que vais fumar prà retrete, ouviste ?

Apanhado se surpresa, tentei mostrar-me espantado com a sua injunção. Ele sabia que fumava.

— Ó Barbosinha, eu não fumei na retrete! Quando lá fui já empestava a erva – retorqui-lhe com o ar mais natural que pude.

— Se calhar foi o Alfredo Nabiças! Não brinques comigo! – ironizou.

Não tinha fundamentos para me ilibar. Preferi optar pela discrição e, indiferente, disse-lhe:

— Pensa o que quiseres, estou-me nas tintas.

Passaram umas semanas. Nunca mais fumei no WC do Estrela e o Barbosinha esqueceu o episódio.

Uma sexta-feira de tarde, encontrava-me no mesmo banco com um fino diante de mim e a palrar com o Barbosinha. Distraidamente, meti a mão num bolso do blusão e os dedos tocaram num pica que ali alojara. Não sei como, mas lembrei-me do acontecido e veio-me ao espírito uma ideia genial para me reabilitar da acusação do Barbosinha.

Desci do banco e dirigi-me para o WC. Entrei na retrete, acendi o pica e dei duas passas leves. O cheiro não podia ser forte para dar a impressão de que não era recente. Regressei ao meu lugar, mas, antes de me sentar, interpelei o Luís.

— Barbosinha, vai à retrete e depois diz que sou eu que vou pra lá fumar.

Arregalou os olhos, saiu de trás do balcão como uma flecha e dirigiu-se para o WC. Foi entrar e sair. O seu rosto reflectia a cólera do impotente. O olhar vago, como quem procura desvendar mentalmente um hipotético culpado, ameaçou no seu brasileiro melodioso:

— Se apanho o filho da puta que vai fumar prà retrete!

Sentei-me, encantado. Jubilava intimamente.

Nunca mais fumei no café, e o Barbosinha ainda hoje não sabe quem é o filho da puta que fumava na retrete do Estrela.

 

António El Cambório

 

NO LARGO DA CALÇADA I

05.03.16, melgaçodomonteàribeira

 toni costa e berto chiquera na esplanada do café estrela

 

O Barbosinha

 

Estávamos em 1974. A Vila, a maior parte do ano plácida e silenciosa, transformava-se no mês de agosto – e isto quotidianamente – num dia de feira sem tendeiros; o agosto do ano da Revolução dos Cravos fulminara todos os superlativos: os emigrantes, vindos dos quatro cantos do mundo, tinham-se apoderado do concelho.

Muitos destes conterrâneos adoravam externar ostensivamente parte do pecúlio acumulado com grandes sacrifícios durante um ou vários anos, gastando a torto e a direito. Sofregamente, saciavam as abundantes apetências que, por exigências  económicas, se esforçavam por reprimir no país de acolhimento até ao mês libertador. Enterravam, durante uns dias, umas semanas, o papel de humildes, de serviçais e de bajuladores, induzidos a esposar localmente. Exibindo modelos de automóveis recentes e arvorando maneiras pretensiosas, embora grotescas, estavam convencidos de que, socialmente, tinham galgado um degrau considerável.

Esta maneira de ser também se observava em muitos melgacenses radicados nas principais cidades portuguesas, em especial Lisboa e Porto.

Não dispondo de meios para se ausentar e desfrutar de um ambiente bonançoso durante esse mês de estio, a  grande maioria dos melgacenses ociosos tinha, pois, de sujeitar-se e de digerir o restringimento, o alarido e o pandemónio causados por esta maré humana.

Eram umas semanas difíceis, conflituosas que irritavam os autóctones e faziam com que, finalmente, acabassem por ser eles a sentir-se imigrantes na terra natal que raramente abandonavam. Aguardavam pelo fim do mês como o preso pelo dia de redenção.

As divisas enviadas pelos emigrantes através das sucursais dos bancos portugueses no estrangeiro – cujo desígnio era canalizar as suas poupanças para Portugal –, ou trocadas em escudos nas abundantes agências da Vila, faziam a felicidade dos comerciantes que se regozijavam unanimemente. Para eles, fosse qual fosse o ramo, quantos mais emigrantes melhor. « O ideal era haver dois meses como este. Não precisávamos de trabalhar o resto do ano », afirmavam.

Mas agosto já não era mais do que uma má lembrança, e Melgaço nadava no ambiente vegetativo consuetudinário. A população, com a enérgica adinamia que a caracterizava, tinha retomado os gestos, os hábitos, as tarefas, os horários e os gracejos do dia-a-dia com os quais estava familiarizada. Era uma harmonia que duraria pouco mais de dez meses.

Na Calçada, no vasto imóvel pertencente ao Manuel Lourenço (Manuel da Garagem), havia um ano e pouco que abrira um segundo café, o Estrela. Este nome fora uma reposição em homenagem ao que, uns anos atrás, este abastado comerciante, baldadamente, montara noutra parte do edifício.

Naquele tempo, podia dizer-se que passara a ser o centro da Vila, o café que muitos melgacenses – e não só – gostavam de frequentar. A sua clientela constituía um leque com nuances que iam do bêbado ao advogado e incluía funcionários públicos, bancários, políticos, lavradores, elementos da GF, professores do ensino secundário, comerciantes, estudantes, homens de negócios... Apesar desta variegação, ou talvez graças a ela, havia uma afinidade atenta entre os clientes, que, globalmente, engendrava uma atmosfera bastante agradável e cordial.

A existência deste exíguo café era o resultado da associação de dois parentes: um de Soutomendo e outro da Adedela, freguesia de Fiães. O primeiro era um senhor muito polido e afável, chamado Martins, que vivera durante umas décadas no Brasil. « Em Belém do Pará ! », frisava com prazer e uma ponta de nostalgia. O segundo, um trintenário chamado Abílio, sobrinho por aliança do primeiro, era filho do senhor Augusto, conhecido por Meio Quilo ou Augusto Pequeno devido à sua estatura nanica. Astuto negociante, transportador e um dos maiores contrabandistas da margem lusa do rio Trancoso, era um homem que não desperdiçava a menor oportunidade de engravidar os seus haveres. Esta bulimia fora a causa de, em tempos, ter sido vítima de uma burla grosseira que ficou na memória da maioria dos melgacenses: comprara, por bom preço, a um tal Barbosinha, do Extremo, Arcos de Valdevez, uma máquina que, presumidamente, fabricava notas de mil escudos. Não se sentira humilhado pela estafa, pois era um homem habituado a correr riscos, a aflorar o fiasco diariamente, mas por esta se ter tornado pública.

As horas de presença no café eram geralmente asseguradas pelo Martins e pelo Abílio. Porém, por conveniência ou imperiosidade, acontecia que o primeiro deixasse, de vez em quando, o encargo ao próprio filho, o Luís, um simpático adolescente de dezasseis anos que nascera no Brasil.

Este rapaz, como acontece com naturalidade noutras paragens a muitos indivíduos, foi pronta e adequadamente apodado. O Carlos, um jovem estudante maroto, ele próprio alcunhado de Cartucho, quando soube que o Luís era sobrinho do Meio Quilo, crismou-o com o nome do indivíduo que, uns anos antes de ele vir ao mundo, intrujara o tio. Pouco tempo depois, todos o conheciam por Barbosinha.

Nessa sexta-feira de tarde, quinto dia de outono, tanto caía uma chuva forte atiçada por lufadas, como abocanhava; instantes que o sol aproveitava para desferir pontualmente, por entre umas nuvens acinzentadas carregadas de electricidade, uns raios lívidos, cansados. A feira, já debilitada pelo retorno dos emigrantes, ainda o fora mais pela instabilidade do tempo.

Neste dia, os aldeões do concelho, em particular os do monte, vinham à Vila para se aprovisionar; mas também para comprar o necessário no grémio da lavoura (extinto no fim desse mês), nas lojas de ferragens, de tratar de papeladas ou pagar uma contribuição na casa grande (câmara municipal), de concluir ou empreender um negócio...

Havia os que juntavam o útil ao agradável e manducavam uma boa refeição. Na serra, os campos, os animais, mais os diversos afazeres exclusivos das mulheres, pouco tempo lhes deixavam para verdadeiramente cozinhar. Ademais, a penúria de alimentos frescos (carne de vaca e peixe, essencialmente) era uma franca frustração. Os refrigeradores, ou quaisquer outros aparelhos movidos a electricidade, eram inexistentes. A força motriz ainda não dera entrada na maioria dos lugares montanhosos do concelho.

Por esta razão, aqueles que tinham possibilidades, ao meio-dia, depois das aquisições liminares, aproveitavam a ocasião para degustar um repasto inabitual numa das tabernas da Vila. De tarde, davam mais umas voltas, consumavam as minúcias e, ao fim da tarde, encantados, regressavam à aldeia. Podia dizer-se que era um pequeno dia de festa para eles.

Os mais desfavorecidos, expeditos, compravam o devido e voltavam à aldeia antes do fim da manhã num dos numerosos veículos que, ilegalmente, faziam fretes no dia de feira.

Havia, também, alguns que baixavam à ribeira apenas para cortejar. A caneja (caleja) que desembocava no caminho das Carvalhiças (compreendia a parcela da actual rua de Santiago a partir da esquina onde se situa o café Alameda) era o bordel predilecto das parelhas fortuitas que se faziam e desfaziam no mesmo dia.

A partir do meio da tarde, os dois cafés do Largo da Calçada (Estrela e Stop) passavam a desempenhar a função de salas de espera para os utentes da Auto Viação Melgaço, mormente quando o tempo lhes contrariava o movimento, como nessa sexta.