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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

FILIPA DE LENCASTRE

28.11.15, melgaçodomonteàribeira

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MELGAÇO, 3 DE MARÇO DE 1388

 

Ricardo, o escudeiro do rei, estava à porta do castelo porque D. João lhe ordenara que ficasse ali a ver chegar a rainha e lhe indicasse para onde devia seguir.

Os archotes ardiam nas muralhas e em todas as casas rodeadas por elas, e apesar do frio da noite, ouvia-se o canto dos soldados vitoriosos: Melgaço tinha sido conquistada, e era agora portuguesa. João desforrava-se simbolicamente de Juan de Castela e de John of Gaunt, como se ao primeiro mandasse a mensagem de que faria incursões no seu território sempre que o entendesse, e ao outro que não precisava dos exércitos ingleses para nada.

Philippa pensou lembrar-lhe que fora ali que o pai estivera alojado, quando os habitantes e os soldados lhe tinham entregado a fortaleza de mão beijada, mas depois pensou que não fazia sentido defender o pai contra João. Partiu do mosteiro de Fiães para onde regressara passadas as festa natalícias, feliz e contente, a mão na barriga que continuava a crescer, e os cinco meses de gravidez já não tornavam possível esconder.

O banquete era servido na torre principal, mas as mesas estendiam-se pelo terreiro e até pelas ruas, que a população galega que naquele dia passara a portuguesa, achava por bem começar já a homenagear o seu novo rei, que o outro também lhe servira de pouco.

Quando Philippa, no seu vestido verde-escuro, uma tiara de ouro na cabeça, entrou na sala, todos lhe ergueram a caneca de vinho. O rei chamou-a para junto de si e pediu ao escudeiro Ricardo que lhe contasse a primeira batalha a que assistira. Logo uma em que tinham acabado vencedores.

Philippa esforçou-se por não rir, porque a descrição do miúdo, que tinha crescido centímetros sobre centímetros no último ano e a quem a puberdade esganiçara a voz, era no mínimo hilariante. O miúdo lembrava-lhe Henry, quando chegava dos torneios, e tropeçava nas próprias palavras, tal a vontade de num segundo resumir tudo o que acontecera em dias inteiros.

Mas os olhos perderam imediatamente o brilho de felicidade quando percebeu que Afonso estava do outro lado do pai, furioso pela sua presença.

- O que faz uma mulher na celebração de uma batalha? – perguntara o infante entre dentes. À fúria da chegada de Philippa, somava-se o desespero de El-Rei seu pai ter tido o desplante de pedir a um mero escudeiro o relato da conquista, quando tinha o filho à sua esquerda.

Fingindo não ter ouvido o comentário, Philippa estendeu a mão a Afonso, que a beijou de má vontade. Nada incomodada, a rainha perguntou:

- Já sei Afonso, que a tua coragem na tomada deste castelo foi digna da do teu pai.

O miúdo ficou petrificado. Não podia responder torto a quem lhe falava tão bem, e por outro lado a lisonja, como Philippa depressa descobriria, era uma arma que o vencia sempre. Olhou-a desconfiado, mas o pai, apanhando a «deixa», confirmou:

- Apesar de ter apenas onze anos, o Afonso lutou sozinho com um soldado castelhano (omitindo que Nuno Álvares estava a seu lado para o que desse e viesse) e acabou por lhe fazer saltar a espada da mão…

- Que voou pelos ares… e foi bater numa das ameias – continuou Afonso, excitado, esquecido da raiva e do ódio.

Philippa tinha um talento imenso para lidar com crianças, porque não esquecera ainda como era sentir-se mais pequeno, desprotegido e ignorado pelos adultos. Por isso foi encontrando formas de ir prolongando a conversa, até que o enteado se mudou para o seu lado e falou com ela a noite inteira. Esquecido, mas por momentos apenas, de que a criança que crescia dentro dela poderia ser o seu mais poderoso rival.

Melgaço era finalmente portuguesa e a comandá-la, o rei deixara João Rodrigues de Sá, aquele que mandara em seu lugar casar por procuração com Philippa. Quando se despediram, a rainha não resistiu a dizer-lhe que esperava que esta tarefa fosse mais fácil do que a outra, e ele com seu sorriso tímido e reservado, dobrara ligeiramente o joelho para lhe beijar a mão.

 

Filipa de Lencastre

A Rainha Que Mudou Portugal

Isabel Stilwell

A Esfera dos Livros

30ª Edição

Novembro 2014

PP. 318-320

 

QUEM DÁ MAIS...

25.11.15, melgaçodomonteàribeira

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e porque não? a minha bisavó era galega e pariu onze portugueses

 

 

GOVERNO VENDEU A UM ESPANHOL PRIMEIROS METROS DE PORTUGAL

 

“São os 60 metros quadrados do terreno mais a norte de Portugal e a mais importante caseta da Guarda Fiscal que o Governo aceitou vender, sem consultar ninguém, a um privado que, por acaso, é espanhol. Denuncia, ao JN, António Sousa, presidente da Junta de Freguesia de Cristóval, em Melgaço, onde se situa a emblemática fronteira de S. Gregório.

 

Esta fronteira era conhecida sobretudo pela intensidade do contrabando e pelo número de pessoas que a usavam para dar “o salto” para Espanha e depois para França. O facto de, neste local, a fronteira geográfica ser feita pelo rio Trancoso, um pequeno afluente do Minho, que permite o atravessamento a pé, fez da fronteira mais a Norte, uma das mais conhecidas do país.

“É uma afronta o Governo aceitar vender os primeiros metros de território português sem sequer informar as autoridades locais”, referiu Avelino Fernandes, antigo guarda-fiscal, que ajudou a colocar o soalho na pequena casa agora vendida a um espanhol.

Para a população de Cristóval, a solução passará pela anulação da venda ou por uma compra ao novo proprietário. “A nossa ideia é restaurar a casa, içar a bandeira portuguesa e colocar no local informações sobre a história da fronteira”, afirmou Avelino Fernandes.

Manoel Batista, presidente da Câmara Municipal de Melgaço, não se mostra tão confiante no regresso da casa da Guarda Fiscal (onde o rés do chão funcionava como uma prisão provisória para os contrabandistas) a mãos portuguesas. “O município não foi informado, mas a casa e o terreno foram vendidos”, referiu. E continuou: “A solução passa pela qualificação dos restantes edifícios da fronteira como sendo de interesse municipal, o que já cria alguns entraves à venda e à realização de obras”.

“É lamentável, a todos os níveis, que tenham sido vendidos os primeiros metros de Portugal e que ninguém faça nada”, condenou por sua vez Jorge Ribeiro, deputado municipal do PSD. “É triste que, do lado espanhol, o edifício da fronteira esteja impecável e que, uns metros mais à frente, depois da ponte do rio Trancoso, Portugal tenha vendido os primeiros palmos de terra de uma nação”, indigna-se o deputado.

Contactado pelo JN, o novo proprietário do terreno e da antiga casa da Guarda Fiscal na margem do rio Trancoso não quis fazer comentários sobre o negócio.

 

Publicado em: Jornal de Notícias

Emília Monteiro

13/4/2014

 

O FALHANÇO DAS BATATAS

21.11.15, melgaçodomonteàribeira

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Bouça dos Homens

 

O NOME DAS COISAS E OUTRAS MEMÓRIAS – O BATATEIRO

 

Numa conversa interessante, cheia de informações sobre como viver na zona de Lamas de Mouro os anos 50, relataram-me o que parece ser a origem do topónimo Batateiro junto à Bouça dos Homens (Peneda). O nome poderá ter tido origem numas plantações de batata feitas na zona. Assim o topónimo será relativamente recente (possivelmente do período do pós-guerra, década de 40). Terão sido ainda estas plantações que motivaram a abertura da estrada desde Lamas de Mouro, local onde eram armazenadas num curioso sistema de silos.

Nessa época, e quase até finais de 50, a rede viária seria praticamente inexistente e feita essencialmente pelos caminhos de carros de bois e trilhos de pé posto que agora percorremos. Depois os serviços florestais que foram abrindo as estradas numa política de satisfazer as suas necessidades e compensar as populações pelos montes. A minha fonte, filho de um antigo guarda-florestal, recorda que na sua infância a estrada terminava nos viveiros dos Serviços Florestais, actuais Portas do PNPG de Lamas de Mouro. Relatou-me que numa ruptura da barragem da Meadinha as águas terão destruído casas no Santuário da Srª da Peneda e morto pelo menos 2 pessoas, mas o socorro não terá conseguido chegar de jipe mais longe do que a Portela do Lagarto. Esta era a realidade do nosso território que todos os que possuem mais 60 anos nos podem relatar.

Apesar de tudo em 3 gerações o salto foi enorme.

 

Julho de 2010 por Joca

 

Retirado de: www.asnotasparaomeudiario.blogspot.pt

 

 

O CRUZEIRO DA ORADA

18.11.15, melgaçodomonteàribeira

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Cruzeiro da Orada 

 

CRUZEIROS

 

 

Aparentando maior antiguidade outro cruzeiro se levantou na Orada, à margem da estrada macadamizada e precisamente no sítio onde se tocam as extremas das freguesias de Santa Maria da Porta e Santa Maria Madalena de Chaviães. Colocado noutros tempos junto da Capela de Nossa Senhora da Orada para o actual sítio foi transferido por ocasião da abertura da estrada nacional de Melgaço para São Gregório.

Como então o deixaram bem junto à parede do suporte do terreno onde fora colocado e só com muita dificuldade as procissões religiosas andavam à sua volta, a junta de freguesia da vila em sessão de 15 de Fevereiro de 1898 deliberou colocá-lo no centro do pequeno recinto e em consequência mandou terraplanar o terreno e encarregou um dos vogais de proceder à nova colocação deste modesto monumento, símbolo da religião cristã do nosso povo.

À arte nada deve o cruzeiro e entrementes a imagem do Cristo crucificado, de bárbara e tosca configuração, contorcido e sem proporções, afinal um aborto saído das mãos de ignorado lapicida, tem muitos e muitos devotos.

Datado de 1567 ele é um ex-voto dos melgacenses daquela era, ali colocado naquele ano de peste, para agradecer a Deus ter poupado Melgaço aos seus horrores ou a pedir um Pai nosso por alma dos ceifados por ela nestas redondezas. Muitos e mui fervorosos devotos teve este cruzeiro, mas foi a sua inércia e o seu desinteresse pela letra de forma quem conseguiu travar uma campanha jornalística encetada num semanário local para aquela imagem de Cristo ser dali arrancada e substituída por outra trabalhada com arte flamejante e resplandecente. No jornal defendiam-se as belas-artes, mas inadvertidamente se atacavam a crença e a tradição e como o povo mal sabia ler, esta obra dos nossos maiores não foi profanada.

 

(Publicado em Notícias de Melgaço de 18/3/1956)

 

Obras Completas

Augusto César Esteves

Volume I  tomo 2

Edição Câmara Municipal de Melgaço

p. 552

 

CASTRO LABOREIRO HOJE III

14.11.15, melgaçodomonteàribeira

 Castro Laboreiro, Portelinha - Relato de um ataque lupino  Por: Polen Alua

 

 

Recomeçar no interior

Se a maioria das pessoas foge de Castro Laboreiro por causa do desemprego e do isolamento, Vítor e Diana vieram para cá, há dois anos, em busca de uma vida melhor. Ou, pelo menos, diferente.

Ele é natural de Alcobaça, ela é do Porto e foi na Invicta que se conheceram. “Eu trabalho em azulejaria há 14 anos, mas, nos últimos tempos, o volume de trabalho estava a diminuir bastante”, começa Vítor. Até que conhece Diana, uma técnica de ilustração que nunca conseguiu emprego nem na sua área, nem em nenhuma outra.

Para este casal, é ilusória a ideia de que as oportunidades são um exclusivo das grandes cidades. “Temos a nossa pequena horta” afirma Vítor com orgulho. “E aqui aprendemos com as pessoas da terra a cultivá-la e a colher os frutos desse trabalho”, conclui Diana com entusiasmo.

E ter filhos? Na resposta, multiplicam-se dúvidas e receios. A isso não é alheia a falta de serviços essenciais de saúde nas proximidades. Diana aponta culpas “ao Governo e ao poder local, que lavaram as mãos em relação ao que faz mais falta no interior”. Mas também reconhece que “sem crianças não há evolução, sem evolução não há necessidade de serviços essenciais e sem serviços essenciais não há população”.

 

À beira do fim?

O ciclo vicioso é difícil de ser estancado e está em linha com a tendência dos últimos 20 anos. Castro Laboreiro perdeu mais de mil habitantes nesse período. “Uns porque morreram, outros porque emigraram e já não voltam”, lamenta Elisabete Sousa.

Se o êxodo a que se tem assistido não for travado ou compensado com gente nova, “daqui por vinte anos, os velhos já morreram”. Restarão as casas de granito e os campos abandonados. Depois disso, quem virá para Castro Laboreiro? “Ninguém”.

 

Publicado por:

www.rr.sapo.pt

 

CASTRO LABOREIRO HOJE II

11.11.15, melgaçodomonteàribeira

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Ribeiro de Baixo, Castro Laboreiro

 

 

CTT na Junta e escola a 16 quilómetros

Há pouco mais de um ano, Castro Laboreiro quase perdia o posto dos CTT. Em protesto, a população cortou a única estrada que liga a freguesia à sede do concelho. A estação acabou mesmo por fechar, mas os serviços foram transferidos para um balcão na junta de freguesia, que funciona três horas por dia. É lá que se fazem os pagamentos das contas, que se recebem as reformas. Isso e pouco mais.

Crianças, nem vê-las. Elisabete Sousa, funcionária do posto de turismo e Secretária da Junta de Freguesia, explica: “As poucas que temos aqui são obrigadas a ir à escola em Pomares”. Desde o ano 2000 que o Ministério da Educação decidiu que Castro Laboreiro não tinha crianças em número suficiente para frequentar as seis escolas espalhadas pelo extenso território da freguesia.

Francelina é proprietária de um dos restaurantes de Castro Laboreiro e tem duas filhas na escola em Pomares. Todos os dias, sujeitam-se a mais de 30 quilómetros de estrada, entre ida e volta. No Inverno, “a preocupação é muito maior”, diz. É que a neve bloqueia a estrada “e o autocarro não arrisca vir por aí acima para vir buscar as crianças”. A solução? “Ou vai lá o meu marido levá-las de propósito ou, então, não vão às aulas”.

A todos os transtornos, acrescenta-se o cansaço das filhas que “saem de casa muito cedo de manhã e só regressam já noite cerrada”. Ficam, muitas vezes, “tão exaustas que nem conseguem fazer os trabalhos de casa”.

Do jardim-de-infância ao quarto ano de escolaridade, é a Pomares que todos vão parar. De lá, os miúdos migram para Melgaço. Depois, chega a hora da universidade. Adultos para se fixar na terra? “Infelizmente, não”, responde Elisabete, com o sorriso amargo de quem antecipa o definhar da terra que a viu nascer.

Vão resistindo os negócios do turismo e da restauração, o principal cartão-de-visita desta zona que beneficia da envolvente do Parque Nacional Peneda-Gerês, mas que se debate com défices que, não sendo tão prioritários como os serviços essenciais, condicionam o dia-a-dia de quem cá vive ou visita a aldeia.

 

Sem telemóveis nem multibanco

Das três operadoras móveis nacionais, só duas funcionam mais ou menos bem e não em toda a freguesia. E o multibanco “só em Melgaço”, diz Fernando, dono de um hotel que também é restaurante e café. Este empresário de hotelaria diz que o estabelecimento “até nem trabalha mal”, mas “nota-se uma quebra no poder de compra” dos clientes, “que são, sobretudo, os espanhóis e os portugueses que viajam com cada vez menos dinheiro”.

É aqui que a crise entra na conversa. Fernando procura empregados para trabalhar na recepção e no serviço à mesa. “Fala-se tanto de desemprego e eu não encontro ninguém que queira trabalhar. Alguma coisa não bate certo”.

Vítor também entra na conversa. É cliente habitual e amigo do dono do hotel. Sempre que pode, vem de Salvaterra de Magos a Castro Laboreiro. É um amante da fotografia, da beleza natural e dos trilhos para as caminhadas. “Por isso, aqui juntei o útil ao agradável. Pena é que as nossas autoridades não estejam atentas ao potencial inesgotável de Castro Laboreiro”.

Fernando concorda. Diz que o turismo em Portugal está viciado por lugares comuns. “No nosso país, o turismo é todo canalizado para as zonas mais evoluídas, como o Algarve. Nós, os pequenos, acabamos sempre esquecidos”. Ou quase sempre. “Aqui só se lembram de nós quando é para pagar os impostos”, desabafa.

 

(continua)

 

 

CASTRO LABOREIRO HOJE I

07.11.15, melgaçodomonteàribeira

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 Portelinha - Castro Laboreiro

 

 

 

A FRONTEIRA DA SOLIDÃO

 

Em Castro Laboreiro, o sossego dos dias é marcado pelo isolamento de quem vive cercado de granito. Já não há crianças nem escolas. O médico vem de Espanha, uma vez por semana, e atende na farmácia, porque já não há centro de saúde. E os telemóveis mal funcionam. Aqui, tudo é longe de mais.

 

09-06-2014 por André Rodrigues

 

Quem sobe a Serra da Peneda para Castro Laboreiro enfrenta um longo serpenteado de asfalto até lá chegar. A mais de mil metros de altitude, encontramos a vila das 40 aldeias.

Desde as últimas autárquicas – que ditaram a fusão com os vizinhos de Lamas de Mouro -, Castro Laboreiro passou a ser a maior freguesia do país. Mas já era há muito tempo uma das mais desertificadas. Aqui, estamos na última fronteira, em pleno Parque Nacional da Peneda-Gerês, com a Galiza mesmo ao lado. Os de cá afirmam com orgulho que este é o seu ‘cantinho do céu’. Mas neste cantinho vive gente isolada e envelhecida.

“Eu toda a vida vivi cá”, atira Isalina, uma mulher de 71 anos que, tal como a maioria das idosas de Castro Laboreiro, enverga o luto pela morte do marido, antigo emigrante em França, um dos muitos que abandonou a terra quando, após a II Guerra Mundial, as minas de volfrâmio deixaram de ser o sustento das famílias, nos tempos do contrabando. Um passado próspero cheio de memórias trazidas para um presente feito da vida árdua do campo. “Aqui vivemos todos dos animais e da lavoura”, diz.

E já era assim na juventude. Nos melhores anos da sua vida, e não obstante todas as dificuldades, Isalina lembra que “éramos cerca de 20 raparigas, fazíamos bailes” no meio do monte. Uma alegria tão distante no tempo que se traduz num desabafo: “Hoje é uma tristeza, já não há nada disso”. Os poucos jovens que vivem em Castro “só querem discotecas” e a vida da terra “já não é nada com eles”, lamenta.

O queixume, no entanto, não rouba o sorriso a esta mulher de expressão simpática, baixa estatura e pronúncia mesclada de português e galego. Isalina será, talvez, das poucas viúvas de Castro Laboreiro que não está só. A filha, Leonor, acumula um ‘part-time’ num dos restaurantes da aldeia com as sementeiras e os animais. “É uma vida dura”, diz. “Lá na cidade, andam todos mais limpos e próprios. Aqui, não sabemos o que são férias.

A terra dá trabalho o ano inteiro. E também dá o sustento que, em tempos difíceis, garante a sobrevivência básica imediata. Na honestidade de viver do trabalho e para o trabalho, Leonor não tem dúvidas: “Aqui só passa fome quem é calaceiro”. Talvez por isso, a crise que, nos últimos anos, se tornou a constante no dia-a-dia seja, neste lugar, uma questão algo relativa, menos marcante, em comparação com o impacto que o fenómeno tem nas grandes cidades, onde quase todas as famílias dependem do comércio para abastecerem a despensa. “Aqui não vamos à loja nem para comprar legumes, nem galinhas, nem coelhos. Era o que mais faltava!”, diz Isalina. Aqui tudo o que se come “é da nossa terra”. Não há fome que bata à porta. E os cortes na reforma? Isalina não tem grande razão de queixa. Recebe uma boa pensão de França, por causa do marido. Mas tem pena de “todos aqueles que levaram uma vida a trabalhar e agora não vão receber tudo a que tinham direito. É muito injusto”, argumenta.

 

Entre brandas e inverneiras

Isalina e Leonor. Mãe e filha, uma vida em comum. Até na transumância, a tradição ancestral das terras de pastoreio que consiste na migração de casa consoante a altura do ano. Em Castro Laboreiro, quase todas as famílias têm, pelo menos, duas habitações que as defendem dos rigores do clima extremo. Nove meses nas inverneiras, na parte baixa e mais abrigada da aldeia, três meses nas brandas na zona alta. Entre ambas, a oscilação da temperatura pode chegar aos seis graus. No Inverno é frio demais. No Verão, não raras vezes, os termómetros ultrapassam os 40 graus e o ar torna-se irrespirável.

Para Isalina e Leonor, a distância entre as duas casas é de pouco mais de um quilómetro. Transtorno? “Para mim, não é transtorno nenhum”, responde Isalina. “Enquanto eu viver, vou sempre fazer isto”. Leonor também: “Fazemos isto sem qualquer problema e estamos tranquilas em relação a isso. Os das cidades vivem na mesma casa todo ano. Nós não. Já nos habituamos a isto”.

Para estas duas mulheres, o sossego do lugar onde moram é tudo. Mas há muita coisa que faz falta por estas bandas.

 

O reverso da medalha

É na falta dos serviços essenciais que a crise se torna mais evidente em Castro Laboreiro. Em pouco mais de uma década, esta vila nos limites do concelho de Melgaço perdeu as escolas e o centro de saúde. Para remediar a situação, pelo menos uma vez por semana, um médico espanhol do centro de saúde de Entrimo, do outro lado da fronteira, vai à farmácia atender voluntariamente e gratuitamente quem precisa de uma consulta. Elsa é a funcionária da farmácia. Avia receitas e é, também, uma espécie de secretária do doutor Júlio.

“Uma vez por semana é muito pouco para uma terra com tantos idosos”, diz Elsa. “Aqui, não há dia em que não haja uma situação em que o médico é necessário”. E lá vem o doutor Júlio, qual 112 pronto a ajudar. É mais rápido, até, que o INEM” que vem de Melgaço, a 26 quilómetros, e a não menos de meia hora daqui”.

Num caso de vida ou morte, “a pessoa morre”, admite a funcionária da farmácia, que é um caso raro de juventude em Castro Laboreiro. De acordo com os cadernos eleitorais das últimas eleições europeias, “haverá pouco mais de 300 pessoas a viver em Castro Laboreiro”, apesar dos mais de 800 inscritos. Dessas, “só dez, no máximo, são jovens”, reconhece.

 

(continua)

 

 

EMIGRAÇÃO & CONTRABANDO

04.11.15, melgaçodomonteàribeira

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A FRONTEIRA COMO DESTINO

 

Melgaço traz consigo as marcas da emigração. O seu lastro prolongar-se-á, certamente, por longos anos. Ficou para perdurar e não há modo de o ignorar. Os nossos avós foram pioneiros na emigração para os países da Europa, designadamente para França. Quando o País acordou para este fado, já os melgacenses trabalhavam, há vários anos, para além dos Pirenéus. Primeiro, os do monte, logo os da ribeira. O êxodo foi de tal ordem que, em poucas décadas, a população concelhia diminuiu para quase metade (55%). Se o censo de 1960 registava 18 211 residentes, estes resumiam-se, no censo de 2001, a 9 996, ou seja, menos 8 215 habitantes em 41 anos. A envergadura do movimento avoluma-se ainda mais se recordarmos que, durante esse período, Melgaço, principalmente no que respeita às freguesias da ribeira, acolheu importantes contingentes de pessoas provenientes de concelhos mais ou menos vizinhos. A maioria veio suprir a carência de mão-de-obra provocada, precisamente, pelo vazio aberto pela emigração. Acorreram, sobretudo, caseiros para viabilizar as “quintas”, mas também “artistas” para a construção civil, comerciantes, empresários, empregados, funcionários… Esta afluência, que diversificou a origem geográfica dos melgacenses, assevera-se, aliás, uma das marcas indirectas da emigração.

Mas a emigração, no nosso concelho, não se distinguiu apenas por ter sido mais precoce e mais intensa do que nos demais. Apresenta outra característica que a individualiza: manifesta-se bastante elevada a proporção de emigrantes que regressam à terra natal, mormente entre aqueles que, mais antigos, pertencem à chamada  “primeira geração”. Terminada a lide no estrangeiro, demandaram as origens. A dimensão deste movimento expressa-se, de forma imediata, no envelhecimento da população, um dos mais pronunciados da Região Norte. O censo de 2001, registava, no concelho de Melgaço, uma relação de três idosos (pessoas com 65 ou mais anos) para cada jovem (até aos 14 anos). O triplo do País, quase o quádruplo da Região Norte! No caso das freguesias da Gave, Castro Laboreiro, Fiães e Cousso, este número ultrapassa os seis idosos por cada jovem! A intensidade da emigração, a saída dos mais jovens, a esperança de vida e a taxa de mortalidade são variáveis que não chegam para explicar a razão por que, em matéria de envelhecimento da população, Melgaço ultrapassa, por exemplo, a maior parte dos concelhos de Trás-os-Montes. A diferença radica, provavelmente, numa maior incidência do regresso, normalmente em idade avançada, dos emigrantes melgacenses. Os resultados de um inquérito aos idosos das freguesias do Alto Mouro, promovido em 2003 no âmbito da Rede Social, ilustram esta realidade: 90% dos homens com mais de sessenta anos foram emigrantes, o que nos dá uma ideia do impacto da emigração e do alcance do regresso. Trata-se de mais uma marca da emigração, a acrescentar a outras, tais como a distorção do ciclo anual de actividades, a efervescência do Verão e a letargia do Inverno, o desequilíbrio da estrutura produtiva, a propensão para o consumo, a renovação da paisagem ou a mudança dos hábitos e dos valores locais.

Para além da emigração, o presente livro contempla, também, o fenómeno do contrabando, outra actividade vinculada à fronteira, que, na sua ambivalência, ora se ergue como obstáculo, ora se oferece como oportunidade. Em Melgaço, o contrabando é uma tradição que remonta a tempos longínquos que nem a memória enxerga. Café, minério, metais preciosos, gado, marisco, electrodomésticos, tabaco, entre outros produtos, sucederam-se na travessia furtiva da fronteira pela mão de pequenas redes informais assentes na família e na vizinhança, mas também de organizações relativamente complexas. Ao contrabando de mercadorias, talvez se deva acrescentar uma outra “passagem clandestina”, a de homens e de mulheres rumo a destinos mais promissores.

A escolha da emigração e do contrabando para tema deste livro não podia ter sido mais pertinente e oportuna. Sintoniza-se, designadamente, com o desígnio local de promover um espaço museológico e de animação dedicado à “memória da fronteira”. Em Melgaço, tem vindo a ressurgir uma auspiciosa actividade cultural, um sobressalto decisivo para a construção da identidade do concelho e para o estímulo da sua vontade criadora. Boa parte da responsabilidade deste impulso anímico cabe às gerações mais jovens, a que pertencem o autor, Joaquim Castro, e o colaborador, Abel Marques. Pulsa-lhes nas veias a história da terra natal. A sua escrita é reflexiva, movida pelo entusiasmo e pela curiosidade, num misto de rigor e inconformismo. Disposição que não lhes tolda, todavia, o olhar, que se quer pautado por uma abordagem de cariz científico. Tiveram, nomeadamente, a sensibilidade de investigar o nosso “legado histórico” privilegiando fontes de ancoragem local: os jornais Notícias de Melgaço e A Voz de Melgaço, o jornalista melgacense N. Rocha e a memória de conterrâneos. Um dos capítulos mais interessantes do livro consiste, aliás, num relato de vida. Sabendo-se que “cada pessoa que morre é uma biblioteca inteira que arde”, urge programar e intensificar esta recolha de testemunhos e de histórias de vida para uma valorização previdente do património local.

Encarando a cultura actual como um rio que corre na “sombra dos dias velozes”, exposto, portanto, à vertigem do esquecimento, esta obra revisita o passado, procurando convocar “a vida intensa de outrora”. Não o faz, porém, com o propósito de uma contemplação saudosa. Procura-se, antes, que a memória concorra para dar corpo ao presente e alma ao futuro. Nesta perspectiva, o estudo é movido por um duplo ímpeto de apego e de inquietação.

Abre o livro com cinco citações, uma, por sinal, do poeta espanhol António Machado. Não resisto a transcrever o poema na íntegra:

Caminante, son tus huellas

el camino, y nada más;

caminante, no hay camino,

se hace camino al andar.

Al andar se hace camino,

y al volver la vista atrás

se ve la senda que nunca

se há de volver a pisar.

Caminante, no hay camino,

sino estrellas en la mar.

Se é certo que “caminhando, não há caminho, o caminho faz-se a andar”, não é mesmo verdade que convém, de vez em quando, olhar para trás para reconsiderar a “senda que nunca mais se há-de voltar a pisar”. Indispensáveis são, ainda, as “estrelas” para nos orientar. Como constata Walter Benjamim “estamos condenados a avançar com os olhos postos no retrovisor”.

São gratas as obras que, como esta, indagam as pegadas e sondam as estrelas do nosso devir colectivo. Ouvir, fotografar, revolver, contar e escrever o concelho de Melgaço, apresentar, sem exageros ou artifícios, a terra, as gentes e a história é, no meu entender, quanto baste para lhe prestar homenagem.

 

                                                                     Albertino Gonçalves