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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

ALI, NO MINÉRIO...

31.10.15, melgaçodomonteàribeira

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estrada melgaço-fiães, junto ao minério

 

PROCURA-SE OURO EM MELGAÇO!

 

No sítio do Portal das Cabras, uma área com cerca de 95 000 m2, junto à antiga lixeira do concelho, em Chaviães, próximo dos limites com Fiães e não muito longe de Roussas. O VALE MAIS sabe que uma empresa da zona de Braga, a que está ligado o atual presidente da AIMinho, António Marques, já tem do Estado português a competente autorização para a respetiva prospeção. Esta tem como objeto avaliar da existência das matérias-primas em condições de tornar viável a sua exploração industrial. Confrontado com esta possibilidade, o presidente da Câmara Municipal de Melgaço, Manoel Batista, explicou-nos que a autarquia não tem interferência direta no processo, nem acalenta grandes expectativas quanto ao benefício que isso poderá trazer para o concelho. Ressalvou, porém, que, em alguma coisa, os melgacenses poderão ter alguns dividendos, inerentes à atual atividade de extração, se esta se verificar, e a necessidade de emprego que isso implicará. Um armazém de farinhas e de bilhas de gás, ainda em Roussas, é a construção que encontramos mais próxima do local. Hugo da Costa é o único funcionário que ali divisamos e que ficou surpreso quando o informamos da prospeção a ser efetuada. Após uns momentos iniciais a tentar digerir a notícia, exclamou: “Isto vai ser uma confusão… pelo menos entre freguesias”, observou, referindo-se à sua localização num local perto da linha limite entre Chaviães e Fiães. Não deixou, porém, de acrescentar “acho bem” e isso “poderá trazer benefícios à nossa terra”. “Carago!... Isso punha toda a gente maluca!” – foi assim que, um pouco mais abaixo, junto à sua moradia, reagiu Laurinda Barbosa à notícia. Natural de Arcos de Valdevez e ex-emigrante em França, há 18 anos que ali reside e “nunca ouvi falar numa coisa destas”. Amadeu Esteves, é o presidente da Junta de Freguesia de Chaviães/Paços e também foi pela reportagem do VALE MAIS que soube da prospeção que vai ser efetuada. Não quis, portanto, reagir a quente, tanto mais que só parte dos terrenos pertence à Junta, sendo o restante do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas. O autarca, com perto de meio século de vida, adiantou, porém, que o local da antiga lixeira (agora ‘aterrada’ com telas) era, nos seus tempos de criança, conhecido como “Minério”, numa alusão que os mais antigos já, então, referiam como terras que poderiam ter as ditas matérias preciosas.

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Publicado em: Jornal Vale Mais

Edição nº 27

Março 2014

 

www.youblisher.com/p/885663-Jornal-Vale-mais-edicao-n-o-27-MARCO/

 

 

MELGAÇO, 3 - 3 - 1388

28.10.15, melgaçodomonteàribeira

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CERCO DE MELGAÇO, 1388

 

Nos inícios de 1388, ainda em janeiro, D. João I partiu para Melgaço, com “huas mil e quinhemtas lamças e muita gemte de pee”, assentando arraial longe da vila. A vila era “cerquada se arrabalde, de bom muro e forte castello” e defendida por uma guarnição de “atee trezemtos homes darmas e outros muitos pioens escudados”, comandada por Álvaro Perez de Sottomayor e Diego Preto Eximeno.

Assim que a hoste real chegou à vila, os seus defensores começaram logo a “tirar aos trõos e a escaramuçar com os de fora; e nam se feez dapno de hua parte a outra, nem cos trõos que lançarom. Durante os dias seguintes continuaram a disparar os seus trons e a escaramuçar com os portugueses, resultando alguns feridos e mortos. Ao fim de nove dias de cerco, já teriam “lamcadas sesemta pedras de tõos, que nam ffizeram porem dapno”.

Dom João I mandou então “aramar hum emgenho acima da ponte da vila”, disparado nos dias seguintes de forma sucessiva contra a vila cercada. Tratava-se de um engenho pirobalístico – um trom - , que provocava danos consideráveis na vila.

Paralelamente ao trom, na hoste do monarca “não quedavam de dirribar madeira e acarretalla, que el Rei mamdava trazer pera fazer duas escalas e hua bastida para mover jumtamente e pousar sobre o muro (…) e mandou mais fazer duas escalas”. Estes engenhos já foram referidos no capítulo relativo aos engenhos de assalto, não havendo necessidade de repetir a informação repetida por Fernão Lopes. Acrescenta-se apenas que a construção dos engenhos e a preparação do terreno para o seu avanço demorou quinze dias, durante os quais as duas partes não cessaram os seus ataques.

 Fernão Lopes indica que os atacantes utilizavam ainda “pedras demgenho” contra os defensores. O mesmo cronista relatou que “cada dia tiravam os trõs e o emgenho hus aos outros, e o emgenho fazia muito mal na vila, e os trõs nam empeciam nada”. Tendo em conta a capacidade destrutiva do “emgenho” considera-se que se tratava de um engenho neurobalístico, nomeadamente um trabuco ou um trabuquete.

O aparato militar era tal que o monarca mandou chamar a sua esposa, Filipa de Lencastre, para que esta assistisse àquele que esperava ser o combate final do cerco.

Então, no dia 3 de março, mandou “el Rei que aballase a bastida com os seus coregimetos comtra a villa, como tinham ordenado, e moveo com fforça de gemte, pero ffoi bem dezoito braças; deshi moveo hua ala, depois a outra, e estiveram anbas defromte do muro arredada hua da outra. E tiraram lhe sete trõos que lhe nã ffizeram dapño. E depois movarã outra vez e ffoi bem rijamente; e chegou se tamto a villa que punham hu pee no muro dentro e outro na escala, Sobio muitas companha e o Prioll primeiro que todos, e mandou el Rei que tirassem a fora. Emtam se feez prestes pera mamdar combater e mamdou dez homes darmas que sobisem no mais alto sobraado, homde hiam as pedras da mao. E moveo todo jumtamente, as escallas pera pousar e a bastida em que hiam os homes darmas e besteros. E da bastida saiam homes com grossos paos que acostavã ao muro, e poseram muitos deles e fycavam de fumdo emparados”.

Os defensores tentavam a todo custo impedir o avanço das forças de D. João I, lançando-lhes pedras e fogo, mas não conseguiam provocar-lhes danos suficientes para refrear os seus ataques. Acabaram por pedir preitesia ao monarca, que se mostrou reticente em aceitar mas, por conselho de alguns dos seus homens, acabou por fazê-lo.

Estabeleceu-se que “desem a villa a el Rei, e que saisem em gibões, sem atemdo lamçadas da villa de demtro ao arraial cemto e vimte pedras de trõos, que nenhuu nojo fizeram e do arraial a villa trezemtos e trimta e seis, que danaram gram parte della”.

Assim terminou o cerco a Melgaço, a 3 de março de 1388, no qual se recorreu a trabucos, escadas e torres de assalto, para além de trons, da parte dos atacantes. Os defensores, por sua vez, apenas recorreram a engenhos pirobalísticos, não havendo referência à utilização de engenhos neurobalísticos.

 

Retirado de:

 

Bárbara Patrícia Leite Costa

2º Ciclo de Estudos de Arqueologia

Engenhos, armas e técnicas na Idade Média

portuguesa (séculos XII – XIV)

2014

Faculdade de Letras

Universidade do Porto

 

SOBRE O MOSTEIRO DE FIÃES II

24.10.15, melgaçodomonteàribeira

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os carvalhos de Fiães

 

 

Embora reduzido a 2 monges, o seu património, apesar de todas as vicissitudes, parece não ter sido posto em causa: o couto, que coincide com a área da actual freguesia, e todo o seu património fundiário é desarticulado e integrado no novo esquema social e administrativo implantado no país pelo liberalismo, no caso particular, integrado no concelho de Melgaço.

Em termos organizativos, embora não haja muita documentação, na sua época áurea por certo não deferiria muito dos seus congéneres: um abade, monges, de origem nobre, alguns letrados e sacerdotes, outros não, de túnica branca e escapulário negro com capuz, ditos monges do coro e que vivem em clausura.

Conversos, irmãos leigos ou laicos, de origem campesina ou burguesa, iletrados na esmagadora maioria e que se dedicavam às tarefas económicas, dentro e fora do mosteiro, nas granjas; eram a mão-de-obra, que vestia um hábito um pouco mais escuro e que vivia dentro do mosteiro, mas afastados dos monges.

Nas imediações da Abadia residia a Família: homens e mulheres que se encomendavam ao mosteiro por razões piedosas ou económicas e que em troca da alimentação, roupa e dormida renunciavam ao direito de propriedade, juravam obediência absoluta ao abade e trabalhavam para o mosteiro. O mosteiro também cuidava dos doentes e dos pobres que a ele se dirigiam em aflição e recebia visitantes em instalações próprias.

O abade era o administrador da comunidade cuidando dos bens, controlando as granjas, velando pela conservação dos edifícios e, dentro do couto, era também a fonte donde emanava o poder terreno.

No âmbito do mosteiro era ajudado pelos monges aos quais estavam atribuídos cargos como os de prior, sacristão, tesoureiro, mestres de noviços e de conversos, enfermeiro, escriba, cantor ou porteiro. Eram encarregados de tarefas tão diversas como as do ensino, ofícios litúrgicos, música, manutenção das alfaias litúrgicas, obras, escrita, contabilidade, cuidados médicos, alimentação, da qual estava excluída a carne, acolhimento a viajantes e das relações da clausura com o exterior, etc.

A granja cisterciense era o centro de exploração económica do domínio monástico. Ali trabalhavam e viviam conversos dirigidos pelo mestre da granja e supervisionados semanalmente pelo monge a que era atribuída essa responsabilidade. As granjas eram constituídas por um conjunto de edifícios económicos, caso de celeiros, estábulos, teares, fornos, moinhos etc., conforme o tipo de exploração e outros domésticos como sejam cozinhas, refeitórios, dormitórios e capela tudo disposto à volta de um pátio.

A vida diária dos monges alternava entre a oração (Opus Dei) no coro, quatro horas diárias mais as missas, com leituras espirituais nos claustros (Lectio Divina) e o trabalho manual (Opus Manuum) nas hortas, no scriptorium ou outras dependências do mosteiro, no conjunto, cerca de seis horas no Verão mais o tempo destinado ao descanso.

O silêncio a que eram obrigados só era interrompido pelo canto no coro, na sala capitular, onde se liam as regras, se tomavam as decisões importantes e se fazia a confissão pública de culpa, e quando o prior distribuía as tarefas diárias no locutório, tarefas e urgências eram resolvidas através de uma sinalética própria.

Dentro do couto, terra imune por excelência em que o rei abdicava das sua prerrogativas jurisdicionais e dos direitos materiais a favor do donatário, as suas responsabilidades iam no sentido de organizar o sistema de relações com os seus súbditos e dependentes e articulá-lo com o poder real e as instituições circundantes.

O abade designava os magistrados existentes na Casa da Audiência do mosteiro, como o juiz, procurador, meirinho e porteiro. Os 12 homens-bons que compunham a assembleia deliberativa do couto eram nomeados pelo juiz, pelo procurador e pelo abade, sendo que após as reformas, no séc. XVII, passou a haver representantes de Alcobaça nessa assembleia; em 1671 havia uma coima de 500 réis por cada falta às reuniões. Magistrados e vereadores, encarregues da administração do couto, eram também designados. Entre outras funções contam-se a milícia, aferidores, recebedores e vendedores. Portanto, uma estrutura similar aos concelhos, cuja diferença reside na origem do poder que, nos concelhos, é de cariz popular e no couto é delegado, neste caso pelo abade.

Do antigo convento subsiste a igreja de planta longitudinal, composta por três naves e quatro tramos, cabeceira tripartida com três capelas quadrangulares, a capela-mor tem dois tramos e as laterais um só, abóbada de berço quebrado e altar de talha dourada (séc. XVIII); no absídiolo esquerdo está um retábulo de gosto maneirista (séc. XVII). Existem ainda alguns capitéis geminados provenientes do mosteiro. A capela da cabeceira do lado do evangelho está decorada com medalhões e arcaturas e na fachada e no altar-mor estão representados os três padroeiros celestes: Stª Maria, S. Bento e S. Bernardo. O túmulo existente na nave sul data do séc. XV, de Fernão Eanes de Lima, pai do 1º Visconde de Vila Nova de Cerveira.

De salientar que o corpo actual da igreja data da fase de restauro já no séc. XVII, tal como a fonte da Madalena e a alameda. A igreja manteve a cabeceira, o portal e as paredes das naves. Elevadas as naves, ganhou em grandiosidade e luz, com uma janela na fachada e no alçado norte contrastando com as frestas a sul mas perdeu a proporcionalidade e a elegância austera anteriores, ainda hoje documentada pela cabeceira, alguns capitéis avulsos e pela pureza do pórtico. Os edifícios da clausura, ainda em ruínas há cerca de 50 anos, já não existem hoje. Algumas casas em redor foram construídas sobre muros e arcos do antigo claustro e materiais foram usados para construção.

O espírito da ordem é visível na austeridade da sua arquitectura ma figuração quase inexistente, na ausência de decoração do pórtico (as estátuas da fachada são do séc. XVII). O espaço interno e as arcadas, de planimetria seiscentista alteraram a luminosidade e o ambiente próprio do espaço cisterciense. Os carvalhos, que se erguem no terreiro, foram mandados plantar pelo abade Frei Félix de Cerveira em 1737.

 

Retirado de: www.rotascister.home.sapo.pt

 

SOBRE O MOSTEIRO DE FIÃES I

21.10.15, melgaçodomonteàribeira

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Mosteiro de Fiães, desenho de José Pereira em O Minho Pitoresco, 1886

 

 

SANTA MARIA DE FIÃES

 

Igreja do mosteiro com o mesmo nome, classificada como Monumento Nacional desde 1913, como em muitos outros casos as brumas do tempo escondem o seu nascimento. A ausência de dados faz com que se aplique um modelo explicativo para as suas raízes: em finais do séc. IX terá sido fundado um ermitério ou um cenóbio de tradição visigótica de S. Frutuoso e com ligações a Dume, sendo que o primeiro documento conhecido data de 1154, havendo um outro de 1157 onde se menciona a regra de S. Bento. A primeira referência explícita a Cister consta de um documento de 1194 onde consta a filiação de Fiães em Tarouca.

É ainda no séc. XII que se constitui o seu património através de doações, legados, compras e escambos onde sobressai em 1157 a constituição do Couto por meio da doação de Afonso Pais (embora falte um documento que confirme as isenções) e o apoio de Afonso Henriques que lhe outorga em 1177 o que possui de bens em reguengos de Melgaço ao termo de Chaviães e de Cátaro ao Rio Minho, erguendo os monges uma granja em terras de Orada e aí erigindo uma capela considerada uma das jóias do românico português. Sancho I revoga a doação da herdade da Senhora de Orada em benefício dos povoadores de Melgaço mas compensa o mosteiro com terras na freguesia de Messegães (Monção).

O primeiro século de existência será o seu período áureo e, como expressão de sua vitalidade, funda Ermelo na sua dependência que constituirá caso único em Portugal; embora não se saiba quantos monges terá podido sustentar, a documentação existente só demonstra a decadência posterior causada quer por mudanças de mentalidades quer pelo desmantelar da organização e apropriação dos rendimentos pelos abades comendatários. Estes aparecem para evitar que as igrejas sofressem os inconvenientes de uma vacatura prolongada, assim, até à nomeação de um novo superior era nomeado um pastor temporário, mas o sistema evolui para uma situação de benefício permanente.

A crise económica, social e também espiritual do séc. XIV com o seu rol de guerras, fome e doenças afectará também os mosteiros influindo na crise de vocações, desorganização e perda de rendimentos. Ainda assim, após as guerras fernandinas e a conquista de Melgaço por D. João I (tendo D. Filipa ficado instalada no mosteiro enquanto decorriam as movimentações militares), em 1392 aquele ainda lhes concederá o “dízimo do pescado miúdo no Rio Minho do termo de Melgaço contra Galiza com excepção das lampreias, sável e eiróses”.

O grande flagelo será, no entanto, a substituição do abade vitalício e eleito na comunidade pelos abades comendatários, absentistas que não conhecem os monges, não estavam a par das regras e usos, não mantinham a disciplina e não faziam cumprir devidamente o ofício divino, promovendo o relaxamento dos costumes. A eles só interessa os rendimentos do mosteiro, bens e rendas eram dissipados e consumidos, as casas não tinham monges suficientes e não eram providas do sustento para as manter, é natural o desleixo na manutenção e conservação dos edifícios. A casa real protege Alcobaça, mas o resto será dissipado.

Em 1532, fruto da intervenção de D. João III, é nomeado comendatário D. João de Cós, antigo prior de Alcobaça, homem enérgico e que vai residir para Fiães na tentativa de recuperar património fundiário, reorganizar a comunidade e realizar obras urgentes.

Quando o abade de Claraval chega a Fiães em Janeiro de 1533, verifica com agrado as obras de restauro começadas por D. João de Cós, nos tectos da sala capitular, na igreja do claustro e nos aposentos do Abade; tudo o resto eram grandiosas ruínas e uma pobreza gritante quanto aos paramentos e alfaias litúrgicas, meia dúzia de manuscritos, alguns muito belos mas antigos e obsoletos face ao avanço da imprensa e apenas o abade, 4 religiosos e 2 conversos. Condições de vida que, no entanto, não diferem substancialmente das da população em geral.

A degradação moral, sinais dos tempos de mudança e de reinvenção da espiritualidade no ocidente; a falta de piedade e o relaxamento dos costumes constituem uma nota pouco edificante em muitos conventos. Em Fiães, o caso da filha do anterior comendatário que na granja de Orada exercia a prostituição conjuntamente com 2 outras jovens, motivou a intervenção enérgica do visitador junto do Juiz de Melgaço, conseguindo expulsar as mulheres que exerciam a prostituição, inclusivamente, na abadia.

Em 1567, com a reforma da Igreja Católica, efectuada pelo Concílio de Trento acaba a sangria. Alcobaça fica como responsável pela Ordem em Portugal, institui-se a figura do Abade trienal e passa a ser exercida uma vigilância a cargo dos capítulos gerais de Alcobaça. Aos poucos foi recuperada a vivência monástica e abre-se uma época de reconstrução e recuperação dos edifícios de que Fiães acabará por beneficiar.

O Marquês de Pombal, na sua política de criação de um Estado centralizado, actua no sentido de submeter a Igreja à autoridade civil; é no âmbito desta problemática que entra o combate aos cistercienses; nomeia um geral da Ordem influenciável e que rodeia de homens da sua inteira confiança os quais promovem a reforma dos estudos monásticos e as pastorais de 1774 que, preparando os monges para futuras extinções possibilita o afastamento dos abades trienais com a desculpa de purificação do ambiente. Assim são extintos Mocambo, Tarouca, Lafões, Seiça, Maceira-Dão e Fiães entre outros, anexando as rendas a outras entidades: as de Fiães foram entregues ao Colégio da Conceição em Coimbra.

Esta primeira extinção foi fatal para muitos mosteiros entre os quais se encontrava Fiães. Apesar da restauração de 1777 levada a cabo por Maria I, a qual corrige a acção contra Alcobaça, a época já não era propícia à recuperação das instituições monásticas: cerceamento à liberdade de ingresso nas ordens religiosas e tomadas de ordens, efeitos da revolução francesa, da expansão do liberalismo e hostilidades durante a revolução liberal causadas pela posição miguelista que foi adoptada pelas instituições religiosas abrem campo ao decreto de extinção das ordens religiosas em 1834, inventariando-se os bens das ordens e integrando-os na Fazenda Real.

 

(continua)

 

UM BRASILEIRO EMPREENDEDOR

17.10.15, melgaçodomonteàribeira

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CÍCERO ALVES SOLHEIRO

 

Nasceu a 30 de Dezembro de 1878 e faleceu no Porto na freguesia da Vitória a 28 de Setembro de 1934 no estado de casado com D. Maria Angelina Augusta nascida a 21 de Janeiro de 1911, solteira, natural de Picota, freguesia de Rouças e neta materna de Maria Teresa de Alves.

Emigrou para o Brasil e seguiu a vida comercial na cidade de Belem, sendo aí sócio da firma J. Marques&Cª na qual foi admitido no ano de 1902.

Foi homem de iniciativa e a ele se deve a carreira diária de Autoviação Berliet afora outro material. A sua lotação era de vinte lugares.

Também a suas expensas se ergueu no Peso, Paderne, um cinema espaçoso e bem montado.

 

O MEU LIVRO DAS GERAÇÕES MELGACENSES

Volume II

Edição da Nora do Autor

Melgaço

p. 206

 

tia, quantas vezes soquei as teclas do piano em Prado para onde tu fugias do barulho dos aquistas do Peso.

tia, as horas que eu ficava parado a olhar as figuras no piano no Peso, as vezes que me repreendeste porque os bombos e os timbalos estavam ligados às teclas.

tia, quantas vezes me deste uma nota de vinte para eu ir aos bailaricos do Luís, o teu beijo na testa e a recomendação para que tudo corresse bem!

estou a escrever sobre o teu Cícero que eu nunca conheci,

estou a escrever-te num adeus

um beijo tia Angelina

 

Ilídio

 

POESIA POPULAR

14.10.15, melgaçodomonteàribeira

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José Serrano, aos 46 anos, em Paris

 

 

 

EMIGRAR

 

Emigrar é – sim! – partir

P’ra terras desconhecidas

E de quando em vez voltar

P’ra férias bem merecidas!

Emigrar é conhecer

Novos mundos, novas gentes

Usos, costumes e línguas…

E sociedades dif’rentes.

 

Sim! Emigrar é sonhar!

É trabalhar e sofrer!

É pensar e recordar!

É lembrar… É esquecer…

Emigrar é aprender!

É ganhar e é chorar!

É rir! Ouvir! E sentir!

É viajar e lutar!

 

Emigrar é encurtar a vida

E nos traz cedo a calvície!

Emigrar é, quantas vezes,

Morrer antes da velhice!!!

… E muitas vezes perdemos

O que em jovens recebemos!

 

 

Uma Vida Entre Poesia

José Maria Rodrigues

JOSÉ SERRANO

Edição: Câmara Municipal de Melgaço

2007

p.133

 

MELGAÇO, NOIVOS EM 1745

10.10.15, melgaçodomonteàribeira

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S. Gregório, início do século XX

 

JERÓNIMO RIBEIRO

 

Capitão, cavaleiro professo da Ordem de Cristo e Fidalgo da Casa Real. Casou com D. Guiomar Nunes de Figueiredo, irmã do Rev.º P.e José Gonçalves de Figueiredo, abade de Cristoval e filho de António Gonçalves de Figueiredo e mulher Maria Rodrigues, assistentes nesta freguesia desde os tempos de seu filho P.e Domingos, mas oriundos de Moselos no termo de Paredes de Coura.

A noiva foi dotada pelo irmão e pela mãe em doze mil cruzados, incluindo-se nesta quantia a legítima da moça mas ainda a deixa do já referido P.e Domingos Gonçalves de Figueiredo, que também fora o abade de Cristoval e o terço deixado pelo pai quer em móveis quer em bens de raiz.

Mas aquele seu irmão P.e José forçou a nota do amor fraternal ao dotá-lo ainda com mais três mil cruzados a pagar dentro de seis anos à razão de duzentos mil réis cada um e ao prometer-lhe reservar apenas duzentos e quarenta mil réis para o bem de alma e deixar-lhe tudo o mais quando Deus o levasse deste mundo.

Além disto permitia aos noivos viverem na residência conjuntamente com ele e em tal caso lhes dava dois criados, uma criada e um cavalo, tudo sustentado à sua custa e por ele pago; no entanto se em casa separada preferissem morar, então só lhe faria estas franquezas passados os seis anos em que estava obrigado ao pagamento dos três mil cruzados.

E, afora tudo isto, anualmente lhes daria cem mil réis para os ajudar a suportar a carga do matrimónio.

E se tão liberalmente dotava a sua irmã era

«por o beneficio e abadia de que é abade ser de bastante rendimento, que passa de tresentos mil réis, alem dos passais com o qual se pode sustentar muito bem, conforme sua pessoa, sem prejuízo do dote que faz a sua irmã dos bens do património e dos mais que tem adquirido. Os passais e a renda do seu beneficio rendiam um por outro quinhentos mil réis».

Nesta altura da vida ainda o abade de Cristoval estava livre das peias, que mais tarde lhe poderiam ter tolhido os últimos movimentos do altruísmo, se lhe não tivesse sido dado o sacudi-las de cima de suas costas por esta escritura de 27 de Junho de 1745:

«que elle por fragelidade humana houvera de Maria Souto, solteira, filha de Francisco do Souto já defunto e de sua mulher Antonia Pires, do lugar do Ranhado desta mesma freguezia coatro filhos por nome Jeronimo, Agostinho, Narcizo e Francisco a quem por direito devia dar estado de casados para descargo de sua consciência e como a dita Maria do Souto se achava contratada para haver de se selebrar o dito sacramento de matrimónio com Manuel Marques, filho de Domingos Marques, do lugar de Sobreiro, desta dita freguezia e para haver de sustentar as cargas do matrimónio com a dita Maria do Souto lhe dava e dotava de hoie para todo o sempre jamais a coantia de carenta moedas cada huma de coatro mil e oitocentos reis a coal coantia lhe dará dentro de dois Annos depois do feitio desta, a saber vinte moedas em cada hum Anno e com a condiçam que os ditos coatro filhos os coais alimentara também com o dote que elle reverendo Autorgante dotava e com esta obrigação he que lhe fas o dito dote the o tempo em que elles seião capazes em idade para tomarem estados ou officios os coais estados ficão por conta delle reverendo Autorgante».

 

Os noivos viveram em Cristoval e aí faleceu o capitão Jerónimo Ribeiro em 1745, indo a Confraria da Misericórdia assistir-lhe aos funerais e dar seu corpo à sepultura.

 

O MEU LIVRO DAS GERAÇÕES MELGACENSES

Volume I

Edição da Nora do Autor

Melgaço

1989

pp. 504-505

 

O FILHO MAIS VELHO DE DEUS

07.10.15, melgaçodomonteàribeira

 

 

 

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O FILHO

MAIS VELHO

DE DEUS

 

Esta obra não pretende ser um manual catequético, mas sim um texto que incita à reflexão séria do leitor sobre a possível relação simbiótica, quase carnal, quase espiritual, com aqueles que já partiram. Mas, os que partiram, partiram para onde? Ou para o quê? O narrador sente-se penhorado com todas as entidades místicas por todo o apoio e todas as graças espirituais que lhe concederam durante e após esta missão de escrita pura.

 

Vai um agradecimento especial ao homem que, mesmo vivendo no mundo incorpóreo, deu corpo diegético a esta narrativa com uma única razão, salvar o seu filho de uma morte bárbara a que a ciência física o havia condenado.

 

Nasceu na casa da Corga, em Remoães  (Melgaço), Alto Minho. Licenciou-se em ensino. Atualmente é professo num agrupamento de escolas de Vila Nova de Famalicão. Amante das letras, desde que se conhece, tem como mestres grandes autores clássicos e contemporâneos: Camilo, Eça, Voltaire, Byron, Sartre e tantos outros. Desde sempre que o seu interesse pelo oculto e pela vida depois da morte lhe provocou um desejo de busca, de procura intensiva.

 

Como autor publicou em 2011

Contos da Raia

 

O Filho Mais Velho de Deus, é o seu segundo livro.

 

O Filho Mais Velho de Deus

Luís Faria

Chiado Editora

1ª Edição

Fevereiro 2015

 

www.chiadoeditora.com

 

GUERRILHA EM MELGAÇO NO SÉCULO XIX - III

03.10.15, melgaçodomonteàribeira

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Lamas de Mouro

 

 

 

(continuação)

 

A vida do Tomaz das Quingostas foi cortada pelas balas da tropa no dia 30 de Janeiro de 1839 na quinta da Alota, em São Paio, quando das Quingostas, enquadrado por elementos da Ordem, vinha preso para Melgaço.

A sua morte foi um assassinato como tantos naquele tempo, legal se o quizerem ver assim, mas um assassinato chocante e condenável em todos os tempos e em todos os logares, quer fosse provocado pela tentativa de fugir aos captores, quer por inadvertidamente, como se diz também, ter pisado os calos ao soldado – o assassinato dum homem sem devassa nem pronúncia o envolverem nas malhas, sem qualquer julgamento lhe ser feito, sem nenhuma condenação ter sido pronunciada contra ele pelas justiças da terra.

Vai passado mais de um século sobre essa data e por estas redondezas ainda hoje se ouve uma ou outra voz depreciativamente aludir à serra e aos tempos do Tomaz das Quingostas.

E enquanto uns, contando desvarios e violentas façanhas, o apresentam como vulgar quadrilheiro e o retratam como ladrão atrevido e assassino sem qualquer escrúpulo, outros, lembrando generosidades havidas com pobres lavradores, atiram para as costas dos comandados com todas as violências e mostram-o, a ele, caçador apaixonado e papa léguas da montanha, homem de muitas e boas relações no meio, acarinhado pelos grandes e a tirar exclusivamente a ricos, unhas de fome, algumas dezenas de mil reis para ele mesmo os entregar, depois, a desgraçados cuja boca não trincava a brôa precisa para mourejarem nos campos todo o santo dia e parte da noite.

A sua vida está a pedir revisão e, se um dia se fizer, talvez desse processo póstumo, saia ele de muitas e muitas culpas ilibado.

E despejado, precisamente, daqueles actos mais degradantes atribuídos à sua vida, talvez ele surja aos olhos dos melgacenses, como os Marçaes e os Brandões das Beiras, com a nova aureola de figura política marcante e talhada pelos moldes daqueles tempos da forca miguelista de 1828 a 1833 e do regabofe e anarquia liberal de 1834 a 1838, militando nas hostes miguelistas contra os constitucionais e, depois, setembrista da última hora, com a tal guia passada pelo Conde das Antas, contra os carlistas, aproveitando a sua sombra, como é natural e humano, para manter em respeito a um ou outro recalcitrante, a este ou àquele empata folhas da victória da sua facção política.

O imperativo da história e a honra da terra ficam agora impondo essa revisão e para a encetar e para iniciar, quiçá, a reabilitação da memória desse melgacense, como um acto de justiça às suas possíveis virtudes cívicas, de tantos documentos existentes sobre Tomaz Joaquim Codesso, «comandante da guarda volante do Alto-Minho» apenas um escolho para ser ponderado:

 

   «Administração Geral de Viana

   1ª Repartição

   2ª Secção

   Nº 303

   Circular                               Ill.mo Sñr

 

Tendo sido informado de viva voz pelo General Comandante da Divisão de Observações das Províncias do Norte, o Visconde das Antas, que elle a bem do serviço público havia concedido uma Guia a Thomaz das Quingostas cumpre que V. S.ª quando pelo mesmo lhe fôr aprezentada a mencionada Guia observe as disposições que ella contem.

Deus guarde a V. S.ª Vianna 23 de Dezembro de 1837

O Administrador Geral interino

  1. R. Marreca

 

Ill.mo Sñr Administrador do concelho de Melgaço»

 

O bando de Tomaz das Quingostas lembra a fábula «O Lobo e o Cordeiro» e, como este, vai arcando com todas as culpas, da responsabilidade de outros, embora. Nenhum dos seus acusadores descobriu ainda as terras de Melgaço e as dos visinhos concelhos trabalhadas pelos sectários da usurpação na falaz expectativa de qualquer vantagem alcançada pelos Carlistas, em alguma das muitas províncias fronteiriças de Espanha, trazer para Portugal a oportunidade apetecida para uma revolta contra o governo português comparsarem também; nenhum dos seus evocadores procurou desenvencilhar as consequências trazidas para Melgaço pelo scisma religioso de 1832-1842 começado no Porto e especialmente agudo em toda a diocese de Braga, onde chegaram a exercer simultaneamente autoridade, sem autoridade, dois Vigários Capitulares, ou apreendeu as lutas surdas e as travadas nos púlpitos, surpreendendo assim esse irrequietismo de Melgaço provocado pelos padres miguelistas na quadra do Tomaz das Quingostas, pois «que no concelho de Monsão appareceu um frade da Falperra chamado Frei Sebastião, que dizia ter vindo de Roma, e ser portador de excomunhões do Santo Padre, para os Ecclesiásticos empregados pelo Governo Constitucional, o qual nomeou Delegados para absolverem os que se lhe apresentassem, ordenado-lhes que não communicassem com os não absolvidos, sendo um destes Delegados o ex-abade de Rouças», o P.e Diniz Ferraz de Araújo, cujo múnus desde 1834 a 1844 exerceram sucessivamente os encomendados P.e Manuel da Conceição, P.e João da Rainha dos Anjos Cunha e P.e Agostinho Manuel Cardoso; nem tão pouco nenhum dos seus detratores visionou todas estas terras do Alto Minho invadidas sucessivas vezes por guerrilhas espanholas e entre estas pelo bando de cento e cincoenta homens capitaneados pelo célebre Guillade, um dos apaixonados chefes do movimento carlista galego, que conseguiu entrar em Tui e em Vila Verde e foi morrer no ataque a Lugo, na conhecida Guerra de Los Siete Años.

Talvez, desde hoje, no espírito do melgacense culto fique abalada a tradicional ferocidade atribuída nas seroadas dos aldeãos a Tomaz Joaquim Codeço se, acaso, consegui humanisar esse vulto das lutas liberais melgacenses e, esbatido de muitas sombras, apresentá-lo na ribalta como um vulgar facioso daqueles tempos; mas nos recantos das aldeas, ninguém se iluda, a sua vida há-de continuar a entreter as horas dos serões, longe da história e afastada da verdade, porque a lenda do Tomaz das Quingostas está feita.

  

 

Melgaço e as Invasões Francesas 1807 – 1814

Augusto César Esteves

Edição do autor

Tipografia Melgacense

Melgaço – 1952

pp. 38-47