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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, MEMÓRIA E FRONTEIRA

29.08.15, melgaçodomonteàribeira

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A PATRIMONIALISAÇÃO E A TURISTIFICAÇÃO DO CONTRABANDO

 

Em Portugal, existe um museu (municipal) que tem uma exposição permanente sobre o contrabando, designadamente o Espaço Memória e Fronteira em Melgaço (Viana do Castelo), também conhecido por museu do contrabando e da emigração. Este museu foi criado por iniciativa da Câmara Municipal de Melgaço, em colaboração com o Departamento de Ciências Sociais da Universidade do Minho, através do Prof. Doutor Albertino Gonçalves. A obra foi comparticipada pelo programa comunitário INTERREG III A, o que ilustra a importância dos programas e iniciativas de âmbito comunitário na sustentação financeira de projectos relacionados com o património, o turismo e desenvolvimento local em meio rural.

A implementação das anteriormente referidas políticas nacionais e comunitárias de combate aos efeitos nefastos da desruralização do país foi acompanhada pela criação de programas e iniciativas de financiamento de projectos elegíveis – museus locais, unidades de turismo rural, trilhos, reabilitação de patrimónios edificados, recuperação de aldeias (históricas e rústicas), valorização de sítios arqueológicos, etc. -, incluindo o FEDER, o LEADER e o INTERREG. As autarquias e os agentes privados têm uma acção importante na promoção destes projectos, mas o seu principal promotor é a administração central, que em Portugal tem desempenhado um papel determinante e decisivo na conversão dos espaços rurais em espaços turísticos.

Inaugurado em Abril 2007, este museu tem duas exposições permanentes, uma mais vasta dedicada ao tema de emigração, outra dedicada ao contrabando. A denominada “sala do contrabando” tem cerca de 36 metros quadrados, preenchidos com uma panóplia de registos associados a este fenómeno de transposição e usufruto de uma fronteira política e administrativa para negociação de bens e obtenção de capital. Aqui se incluem réplicas dos principais produtos contrabandeados (tabaco, café, sabão, chocolate, açúcar, arroz, amêndoa, panelas de esmalte, volfrâmio, ouro, prata…), recortes de jornais alusivos ao tema – um deles noticia o aparecimento nas margens do rio Minho do cadáver de um contrabandista abatido pelas autoridades – , autos de apreensões efectuadas pela guarda-fiscal, uma embarcação para a travessia do rio Minho, denominada batela, um colete adaptado para transporte de contrabando, uma farda utilizada pela guarda-fiscal, um torrador de café, imagens fotográficas de locais de passagem de contrabando e um grande painel fotográfico de uma paisagem onde está impresso um excerto de uma obra de Miguel Torga que fala justamente do tema e que a seguir se apresenta:

 

Desde que o mundo é mundo que toda a gente ali governa a vida na lavoura que a terra permite. E, com luto na alma ou no casaco, mal a noite escurece, continua a faina. A vida está acima das desgraças e dos códigos. De mais, diante da fatalidade a que a povoação está condenada, a própria guarda acaba por descer da sua missão hirta e fria na escuridão das horas. E se por acaso se juntam na venda do Inácio uns e outros – guardas e contrabandistas – , fala-se honradamente da melhor maneira de ganhar o pão: se por conta do Estado a vigiar o ribeiro, se por conta da Vida a passar o ribeiro (Torga,1984, 28).

 

Por: Luís Silva

Departamento de Antropologia, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa

 

luís.silva98@gmail.com

 

CAVALEIRO BOM E FIEL, PORTUGUEZ E FIDALGO

25.08.15, melgaçodomonteàribeira

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OS ANTIGOS FORAIS DE MELGAÇO, TERRA DE FRONTEIRA

 

Melgaço recebeu de Affonso I, em 1181, o foral de Ribadavia, terra da Galliza; e, segundo diz o documento, foram os proprios moradores de Melgaço que o pediram por entenderem que era bom. D. Sancho II, 1223 – 1245, converteu em mil soldos leonezes por anno as rendas que tinha na villa, e deixou a cargo do concelho apresentar ao rei um cavalleiro que lhe fizesse menagem do castello. O diploma foi confirmado por D. Affonso III em 1256.

Dois annos depois, em 1258, o soberano dá a Melgaço o foral de Monsão (typo de Salamanca), cuja data conhecida é todavia, como já observamos, de 1261; e estabelece, em especial, que haja na villa trezentos e cincoenta povoadores que pagarão annualmente á coroa, elles e todos que lhes succederem, trezentos e cincoenta morabitinos velhos, em tres prazos, por todos os direitos, foros e coimas que menciona a carta: o rico-homem, que governar o districto, pode entrar na villa, mas pagará á sua custa a despesa que fizer, e não aggravará por fórma alguma os habitantes: o alcaide do castello é posto pelo rei, e a elle prestará menagem, mas não se intrometterá na governança do concelho, salvo se os proprios moradores o convocarem.

A conversão, que se lê no documento de 1258, é em tudo igual á que registraram as actas das inquirições geraes d’esse anno, a respeito de Melgaço. Ocorre, portanto, aqui um reparo. D. Afonso III mandou fazer as inquirições entre Cavado e Minho a 26 de abril de 1258; e o foral dado a Melgaço n’esse anno, está datado de Braga a 29 de abril. Ou havemos de entender que o depoimento dos jurados (e no inquerito de Melgaço intervieram muitos) se refere a um facto antigo, e n’este caso a conversão já existia quando se passou ao concelho a carta de 1258; ou, dando desconto ao tempo que os commissarios haviam de gastar nos inqueritos, desde que tinham sido incumbidos d’estas pesquizas em 26 de abril, devemos crer que a reducção foi feita pelo foral, mas já era conhecida em Melgaço quando ahi estiveram os inquiridores. Sendo assim, este exemplo servirá de aviso para não considerarmos sempre como existentes de longa data os factos, que as actas das inquirições afirmam terem sido expostos pelos jurados, quando não constar que estes deram alguma indicação a respeito do tempo em que aconteceram.

Mas fosse ou não mais antiga a substituição dos encargos exarada no foral de 1258, o que sabemos é que elle era revogado antes de terem decorrido tres annos, em 9 de fevereiro de 1261, por se julgarem aggravados com a innovação os moradores do concelho, sendo então restituidos ao seu estado anterior. Cada vizinho, diz o diploma, recupere e tenha todo o seu herdamento que tinha antes; o que nos mostra que a reforma, augmentando o numero de foreiros, dava aos que accresciam alguma parte dos predios dos antigos povoadores. A carta de 1181 é de novo confirmada, mantendo-se porém igualmente o pacto que fizera com o gremio el-rei D. Sancho II, e que já vimos ter sido ratificado por D. Affonso III em 1256.

No documento, que vamos seguindo, as condições, ou attribuidas a esse pacto ou estabelecidas agora pelo soberano, são, além da conversão de todos os rendimentos fiscaes em mil soldos leonezes: que o concelho terá e guardará o castello á sua custa, devendo apresentar um cavalleiro bom e fiel, portuguez e fidalgo, que faça menagem do castello ao rei: o morador do couto de Melgaço, que exportar vinho embarcando-o, pagará direitos á coroa: o rico-homem não entrará na villa e seu termo, nem no castello, contra vontade do concelho, salvo se for por mandado do rei para defender a terra.

 

Revista da Faculdade de Letras

António Matos Reis

 

http://ler.letras.up.pt

 

A QUINTA DAS VIRTUDES

19.08.15, melgaçodomonteàribeira

 

(…) Umbelina, só ela própria se lembraria de haver sido derrubada, entre o milho, numa tarde de Agosto de pó no ar, à margem de um regato das Taipas, donde era oriunda, mesmo à beirinha daquelas fundas tinas, pétreas e quase tumulares, que pertenciam às termas vetustas, que os patrícios romanos tinham abandonado. E alistar-se-ia o moço que a desonrara num regimento de Braga, relapso à promessa de casamento que, frente ao sacrário, solenemente assumira, e garantia-se, pouco depois, que era visto transviado, jogando a vermelhinha e puxando de facas, emborcando sucessivas malgas de um verde tinto que, pelas caídas comissuras, lhe escorria. Passou Umbelina a procurar alguma tarefa de jornal, propositadamente se situando à mercê de humilhações, mas ocorreu que o gosto de cozinhar a encaminharia para uma festeira estalagem da Falperra e, daí, para certa residência de burgueses de Guimarães, até desembocar nas Virtudes, afinal, defronte daquela lareira de espetos e de potes, onde já com ela e seus dramas topámos. Faltaria debitar a crónica do galante Raposo, lacaio que por inteiro ignorava, se quisermos ser verídicos, a bênção de beleza que, sobre ele, lá do alto, descera e ficara. Esperto e lépido, isso sim, possuía o rapaz consciência de o ser, e não se revelaria de mais aventurar que entretecia uma estratégia demorada de ascensão, a culminar em loja de batentes abertos, casamento com filha de capataz, pequenos entretenimentos negociais de contrabando de influências. Recordava-se dos pedregais de Castro Laboreiro, donde era oriundo, e que se não distinguiam das próprias habitações, como de um continente outro, sem candelabros, nem colchões de lã, onde se tornava áspero bastante, se bem que energético, trabalhar e conviver. E a nostalgia maior que, de muito a muito longe, o deixava deitado, sem dormir, de pestanas subidas, era daqueles rumorejantes e saltadores riachos que lhe sobrevinha, onde se especializara, para gáudio e animação da rapaziada menor, na apanha, à mão e num relâmpago, das trutas transitórias que, sob o círculo das águas, fulgiam e estrebuchavam. Em esparsas noites de Verão, em que as veias lhe pediam a violenta aragem serrana, com esse cheiro de giesta e de arruda, descia Raposo à porta da rua, acomodava-se num canto, pelo meio dos mendigos e dos almocreves, mascando uma pouca de tabaco-em-folha, ou lambuzando um qualquer pau de canela, até que o tomava o sono e, entontecido pelo pesadume, se deixava vencer.

 

A QUINTA DAS VIRTUDES

Mário Cláudio

Publicações Dom Quixote

4ª Edição

2009

pp. 95, 96

 

OS MAMPOSTEIROS

15.08.15, melgaçodomonteàribeira

Igreja da Misericórdia, vista traseira

 

PEDIR PARA DISTRIBUIR: OS PEDITÓRIOS E OS MAMPOSTEIROS DA MISERICÓRDIA DE MELGAÇO NA ÉPOCA MODERNA


A confraria de Melgaço era uma instituição pequena, localizada numa terra fronteiriça, onde não abundavam as fortunas pessoais. Este facto reflectiu-se nos legados que recebeu. Os seus mais importantes benfeitores foram alguns homens da terra que partiram para o ultramar, especialmente para a Índia. Também os provedores se destacaram, enquanto beneméritos. Está ainda por estudar o papel destes irmãos enquanto benfeitores. Sabe-se, no entanto, que parte da sua fortuna pessoal era gasta nos anos em que governavam a Santa Casa. Normalmente, pagavam festas religiosas e obras, proviam pobres ou compravam alfaias de culto, fazendo memória da sua passagem pela direcção da confraria.
Na Misericórdia de Melgaço esta situação foi tanto mais importante quanto muitos deles eram juízes de fora, gente que não era da terra, mas que depois de passar alguns anos em Melgaço e de ocupar o cargo mais importante da confraria mais prestigiada da vila, a escolhia para legar parte ou a totalidade da sua fortuna.
Este facto foi peculiar, porque em algumas localidades, estes homens tiveram dificuldade em aceder às Misericórdias. Porém em Melgaço, explica-se por ser uma terra pobre e raiana onde escasseavam as elites.
A Misericórdia servia-se dos seus irmãos e dos homens que pediam pelas freguesias – os mamposteiros – para angariar fundos que lhe possibilitavam prover os pobres. Ou seja, com as contribuições que recebia, conseguiu manter em funcionamento uma ajuda regular aos mais necessitados. Pedia para poder distribuir.
O compromisso da Misericórdia de Lisboa de 1618, que regia a Santa Casa de Melgaço, determinava a existência de uma pessoa em cada freguesia para recolher pão para os presos, devendo entregá-lo na Misericórdia.
A acção dos mamposteiros desenrolava-se nas capelas, nas igrejas paroquiais e conventuais e nas freguesias. Em Melgaço, desempenhavam funções apenas nas capelas de Santo António, de São Gião e de Nossa Senhora da Orada e nas igrejas da Matriz e na da Misericórdia e pelas freguesias.

 

Maria Marta Lobo de Araújo

Boletim Cultural de Melgaço

Câmara Municipal de Melgaço

2005

pp. 77,78

 

O ASSASSÍNIO DO PADRE

12.08.15, melgaçodomonteàribeira

Alvaredo

 

PADRE MANUEL ANTÓNIO SOUSA LOBATO


Filho de Bento Manuel Sousa Lobato e de Maria José Esteves. Neto paterno de António José Sousa Lobato e de Ana Joaquina Rocha. Nasceu em Vilar (lugar meeiro) em 1841. Foi pároco em Alvaredo, Paderne… Apunhalaram-no barbaramente em sua casa em Vilar a 2/7/1892, de madrugada, cinco rufias da pior espécie, entre os quais se encontrava António Fernandes (o Guerra, ou Bera), de Casalmaninho, Penso, conhecido do cura e da família deste! O móbil do crime era o roubo. Outro dos canalhas era galego, de Lugo. Havia um de Monção e outro de S. João da Pesqueira. O padre Manuel António Sousa Lobato viria a falecer, depois de um sofrimento atroz, a 23/7/1892. Foram duramente condenados, à excepção de um, Ramão, nascido na província de Pontevedra, que a polícia nunca capturou. No JM nº 700, de 12/9/1907, pode ler-se: «Éditos de 60 dias – citando Ramão Lousada, solteiro, de Verim, para dentro de sessenta dias se apresentar neste juízo a fim de responder pelo crime que praticou, com outros, de tentar roubar na noite de 1 para 2/7/1982, os queixosos, padre Manuel António Sousa Lobato, seu irmão António e cunhado Luís Manuel Alves, de Vilar, Alvaredo, em sua própria casa, com escalamento, e aí ferir gravemente os queixosos, resultando desses ferimentos a morte do dito padre, pelo que se acha pronunciado, sem fiança, por despacho de 18/8/1892. A requerimento do Ministério Público e citado como residente em parte incerta, para comparecer dentro dos prazos dos éditos, sob pena de ser havido e julgado como revel sem mais formalidade alguma de processo, e de ser preso por qualquer pessoa do povo, e o será por qualquer oficial público, a fim de ser entregue à autoridade judicial mais próxima. Para os efeitos da Lei de 18/2/1847 se passou o presente. Melgaço, 20/8/1907…»
Esse bandido teria, na altura do assalto, 24 ou 25 anos «era baixo, delgado, com a cara redonda…» e «trazia sempre entre a cinta e o colete uma boa navalha de ponta e mola». O julgamento dos criminosos teve lugar no tribunal de Melgaço a 3/8/1893. O “Guerra” foi condenado a oito anos de prisão maior celular, seguido de 12 anos de degredo. Alternativa: 20 anos de degredo. Santiago, Alfredo, António Pinto, João, foram condenados a 8 anos de prisão maior celular, seguida de 20 anos de degredo. Alternativa: 28 anos de degredo. No dia 7/11/1893 foi confirmada a sentença. A 24/1/1984 partiram da cadeia do Porto para a Penitenciária de Lisboa. O António Pinto faleceu a 21/12/1985. Santiago enlouqueceu e internaram-no em Rilhafoles a 28/2/1987. Dos outros nada se sabe, mas devem ter ido para África, cumprir a pena de degredo, de onde certamente nunca mais voltaram. Este hediondo crime ficou conhecido por «Drama de Alvaredo» ou «Crime de Melgaço».

 

DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO I

Joaquim A. Rocha

Edição do autor

2009

pp. 282-283

 

DEMARCAÇÕES DE FRONTEIRA

08.08.15, melgaçodomonteàribeira

 

Chegou Mem Afonso ao concelho do Soajo em 24 de Julho (1538), o qual pertencia à montaria real. Presentes João Pires e Afonso Eanes, vereadores e ainda Afonso Rodrigues, tabelião de Ponte da Barca que serve o ofício neste concelho. Afirmaram que a demarcação com a Galiza inicia-se em Porto da Varzea, na Serra de Travação e Obieiro, no qual porto havia o ribeiro do Tibo. Proveniente da Galiza o ribeiro de Braços junta-se a ele. Corre a linha de demarcação pelo rio dos Braços até dar ao Porto da Vaca e mais acima ao Porto do Salgueiral. Daqui chega-se ao termo do concelho de Castro Laboreiro. Do lado da Galiza perfilavam-se as aldeias de Intirimo e Pereiro, ambas realengas, Becalte, Quintela e Buscalte, ambas do bispo de Orense e Vilar de Lobos do conde de Ribadave. Nenhuma delas possui cercas ou fortalezas.
Vinte quilómetros separavam o Soajo de Castro Laboreiro. No dia 26 de Julho na casa do concelho Mem Afonso encontrou-se com João Vaz e João Fernandes, juízes ordinários e João Galego procurador do concelho. A demarcação deste concelho começava com o concelho de Intirimo, pertença do imperador Carlos V. A seguir temos a vila de Lobeira, amuralhada, igualmente pertencente ao rei de Espanha. Segue-se o concelho de Vande sob a jurisdição do mosteiro beneditino de Celanova, que não possui cerca nem castelo. Segue-se a Portela do Pão e a vila amuralhada, de Milmanda, pertença de D. Pedro, irmão do conde de Benavente. Castro Laboreiro confina com a Galiza na ribeira de Braços, onde se alcança Porto das Pontes e pelo caminho do Campo do Rosário vai-se ter a Salgueira Ruiva. Atravessam-se vários portos, outeiros e fontes. Segue-se um vale que vai de Cancelas ao Porto de Malhão e atinge-se o rio de Portelinha. Aqui termina o termo no sentido de Melgaço. Os galegos de Intirimo e outras aldeias desde o ano 1520 suscitam dúvidas sobre os limites que se situam do Porto da Ponte ao rio de Braços, atravessando a linha de demarcação com os seus gados.
Melgaço dista dez quilómetros de Castro Laboreiro. Nesse mesmo dia 26 reuniu o enviado real na câmara dessa vila com Estevão Aires e Rui Alvares, juízes ordinários, Martim Mouro, vereador e Gonçalo Morim, público escrivão da câmara. A linha de fronteira aparece delimitada pelo rio Minho. Do lado galego temos a aldeia de Alcobaça, do condado de Valadares, que se cinge ao ribeiro do Trancoso. O termo de Valadares alcança o Porto de Peagal. Aí situam-se as aldeias da terra de Sande sob a jurisdição de Milmanda, pertença de D. Pedro Pimentel, irmão do conde de Benavente. A vila de Milmanda encontra-se amuralhada e possui uma fortaleza. O termo desta localidade começa no ribeiro de Trancoso. Já no rio Minho a vila de Melgaço parte do Porto de Frieira e segue o regueiro da Barqueira. Desde fins do século XV esta vila lançou no rio uma barca de travessia utilizada pelas gentes de ambos os lados. Essa barca paga na Galiza, ao senhor da terra de São Martinho, a quantia anual de 600 reais. Esta terra é protegida pelo castelo roqueiro de Fornelos, pertença de D. Pedro Sotomayor, filho de D. Álvaro Sotomayor, que foi degredado para Itália por ter assassinado a mãe. A referida barca anda no Porto da Reboeira. No rio Minho existem as insúas de Prazenteira, Barca de Seixeiras, Porto de Mandelas e Corvaceira. Todas estas insúas pertencem a Melgaço. Através do rio Minho corre o condado de Valadares, pertença do Marquês de Vila Real, o qual foi desanexado da jurisdição de Melgaço. Os limites do concelho de Castro começam na ribeira de Braços, vão ao Porto de Salgueiral, ao Porto de Pontes, ao Porto de Mey Joanes, ao Porto de Malhão e ao porto de Asnos.

 

DEMARCAÇÕES DE FRONTEIRA

LUGARES DE TRÁS-OS-MONTES

E ENTRE-DOURO-E-MINHO

Vol. III

Centro de Investigação e de Documentação de História Medieval

Universidade Portucalense – Infante D. Henrique

Porto

2003

pp. 16,17

 

NOMADISMO DE CASTRO LABOREIRO

05.08.15, melgaçodomonteàribeira

Branda de Portos

 

BRANDAS E INVERNEIRAS:
O NOMADISMO PECULIAR DE CASTRO LABOREIRO

José Domingues
Américo Rodrigues

         
“Tem os moradores desta Freguesia duas vivendas,
Huma a que chamão a Enverneira, e a outra
Varandas, que se compõe de vários Lugares.”
             

(Dicionário Geográfico,
Lisboa, 1751, vol. 2, p. 529)

 

Em Castro Laboreiro (que foi concelho autónomo, composto por uma só freguesia, até à reforma administrativa preconizada pelo Decreto de 24 de Outubro de 1855), actual freguesia do concelho de Melgaço, com uma área de 9 000 hectares, toda ela integrada no Parque Nacional da Peneda Gerês (PNPG), persiste um invulgar sinal do nomadismo agro-pastoril. Parece que o único caso que, de alguma forma, se lhe pode comparar é o dos Vaqueiros de Alçada, nas montanhas das Astúrias. Mas é claro e sabido que o fenómeno das brandas (embora tudo indique derivar de Verão, optamos pelo termo popular branda, em vez de veranda), que, essencialmente, consiste na mudança de habitação no tempo do estio, é vulgar e se encontra espalhado por todo o âmbito geográfico da Península Ibérica. Onde reside, então, a peculiaridade da conjuntura vivida em Castro Laboreiro?
Para responder satisfatoriamente a esta pergunta não precisamos sequer de nos afastar do território objecto deste singelo apontamento, que é mais de divulgação do que, propriamente, de investigação. Por isso, se nos focalizarmos na cordilheira mais a setentrião de Portugal, entre os rios Lima e Minho, – identificada na cartografia como Serra da Peneda ou do Soajo, mas nós, por motivos que não vem ao caso explanar, preferimos a terminologia arcaica de Montes Laboreiro – constatamos que todo esse maciço rochoso está pejado de brandas. Algumas são de cariz unicamente pastoril, outras também aproveitam o cultivo dos frutos da época. No entanto, todas elas são apoiadas por lugares fixos.
Por outras palavras, estas brandas surgem com o propósito fundamental de apoio aos pastores que, no tempo de Verão, sobem com os seus gados à procura de pastagens a maior altitude e, em alguns casos, acaba por se aproveitar o terreno em volta para as culturas sazonais. No entanto, o lugar de residência é sempre o lugar fixo. Esta conjuntura, em Castro Laboreiro, apenas se verifica nos lugares do Ribeiro, situados no extremo sul do seu território, com uma grande proximidade e afinidade às freguesias contíguas da Gavieira e Soajo (onde predomina este tipo de brandas). Por outro lado, estes povoados do Ribeiro (de Cima e de Baixo) são de formação muito recente, só aparecem no princípio do século XIX. Efectivamente, não constam no rol da Memória Paroquial de 1758 e a referência documental mais antiga conhecida é um registo de óbito de 1812. Por isso, situamos a sua formação neste espaço temporal de cerca de meio século.
Mas o Ribeiro é excepção à regra, porque em Castro Laboreiro – e aqui reside a sua maior especificidade em relação às outras conjunturas de nomadismo – as brandas são complementadas pelas inverneiras e vice-versa. Ou seja, os castrejos, tal como ficou consignado no Dicionário Geográfico, impresso em 1751, têm duas vivendas. A do lugar de cima (lugares de enrriba = brandas) e a do lugar de baixo (lugares de embaixo = inverneiras). A questão, que ainda nem sequer foi proposta, é a de tentar saber qual o lugar matriz. Para efeitos eclesiásticos (rol dos confessados, casamento, baptismo, óbito) o lugar de referência foi sempre a inverneira e também foi lá que se implantaram as capelas de culto religioso mais antigas. Em contrapartida, é nas brandas que os castrejos passam a maior parte do ano, onde se localizam os terrenos mais férteis e melhores baldios, estando-lhe associadas melhores casas e equipamentos. De qualquer forma, existem equipamentos comunitários (forno, eira, moinho…) em ambos os sítios.

Ler mais:

www.academia.edu/6875449/_Brandas_e_Inverneiras_o_nomadismo_peculiar_de_Castro_Laboreiro_

 

TI ÓSCAR, O MESTRE ESQUECIDO

01.08.15, melgaçodomonteàribeira

Exposição de Óscar Marinho

 

CARPINTEIROS


Tal como os alfaiates, barbeiros, sapateiros, ferreiros, serralheiros, etc., os mestres carpinteiros fizeram, outrora, parte de uma elite de profissionais – As Artes e Ofícios. A partir do momento que surgiram as carpintarias e as fábricas de móveis tudo se alterou. Agora, no séc. XXI, praticamente não existem! Havia dois tipos de carpinteiros: aqueles que tinham oficinas, nas quais faziam móveis, que se chamavam marceneiros; e os outros, os que andavam nas construções, fazendo os madeiramentos, as portas de casa, janelas, etc. – esses eram os carpinteiros d’obras. Existe também o carpinteiro de cena, que trabalha nos teatros, mas em Melgaço, s.e., nunca houve nenhum. Eis algumas das ferramentas utilizadas: cantil, cepilho, enxó, fio de prumo, formão, machada, maço, martelo, plaina, serra, serrote, etc. Não dispensava o banco, onde trabalhava a madeira. O marceneiro mais famoso, um artista, foi Abel Augusto Rodrigues (1903-1988). Os seus trabalhos em talha e de restauro podem admirar-se nas capelas e igrejas de Melgaço e de Riba de Mouro. Ensinou o filho do primo, Eurico José (ex-provedor da SCMM), que por essa Europa deixou trabalhos de restauro que – segundo consta – foram muito elogiados. Outro carpinteiro conhecido, não tanto pela profissão, mas como figura popular foi Flórido Esteves (1911-2001). Teve oficina na Assadura. Outro foi o “Lucas”, o regedor da Vila, com oficina na Loja Nova, de sociedade com Manuel do Caneiro. Um dos mais habilidosos foi Fernando de Castro Pinto Barbosa (1930). Teve oficina na Rua do Rio do Porto. Como carpinteiro d’obras tivemos, além de outros, Inocêncio Augusto Pereira (Melgaço, 1909-Cerveira, 1993). Era, nalguns casos uma profissão de risco. E a prová-lo está a morte de Carlos Fernando Vilaça, casado, de Braga, que trabalhando numa casa, na vila de Castro Laboreiro, foi atingido pela manobra de uma camioneta de carga, a 18/11/1968, esmagando-lhe a cabeça! (Sobre este assunto ver VM 1013, de 1/9/1994, p. 11)

 

Dicionário Enciclopédico de Melgaço II

Joaquim A. Rocha

Edição do autor

2010

p. 108