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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

CONTRABANDO EM 1821

29.07.15, melgaçodomonteàribeira

Fronteira, Rio Minho

 

PARA O INTENDENTE GERAL DA POLICIA DE CORTE E REINO


Sendo constante por queixas repetidas enviadas à Intendencia Geral da Policia, que pela margem do Minho, e pela raia de Castro Laboreiro, ainda se pratica a introdução criminosa dos Cereaes, a pesar da lei prohibitiva, e das medidas, que se ha tomado para a sua execução, as quaes a cobiça procura illudir, excitada pelo interesse da baratesa do paõ na Galisa e da ventagem da maior medida; e cumprindo, que além das providencias dadas para prevenir este grande mal, funesta origem da ruína dos Lavradores, e do Estado, se lance maõ de quaesquer outros, que possaõ estorvar as especulações tenebrosas dos contrabandistas: Manda ElRei, pela Secretaria d’Estado dos Negocios do Reino, que o Intendente Geral da Policia, encarregue algumas Pessoas zelosas do bem da Patria, que sejaõ alli residentes, e que como Proprietarios tenhaõ interesse proprio, na fiel, e religiosa observancia da lei, dando-lhe as necessarias instrucções, a fim de que auxiliados competentemente promovaõ a extirpação de um mal taõ ruinoso.

 

Palacio de Queluz em 3 de Dezembro de 1821.

 

= Filippe Ferreira de Araujo e Castro =

 

Retirado de:


O INDEPENDENTE, Edições 1 – 30

 

http://books.google.pt

 

HERÁLDICA MELGACENSE

25.07.15, melgaçodomonteàribeira

 

Heráldica melgacense

 

Entre 1984 e 1986 percorremos o concelho de Melgaço na companhia do Prof. Luís do Vale, vice-presidente da Câmara Municipal: tiraram-se fotos a preto e branco e diapositivos a cores, não só de Casas e seus brasões, mas também de Igrejas, Capelas, Fontes, do Quartel dos Bombeiros Voluntários, da Misericórdia, entre outros; tomaram-se notas durante as conversas havidas com informadores casuais, proprietários, membros do corpo directivo de uma instituição… De todo este material sai agora a público uma parte inicialmente prevista para o último volume de uma obra algo extensa.
Distribuíram-se as peças heráldicas inventariadas por quatro grupos: o de Heráldica Corporativa ou Associativa, o da Heráldica de Domínio (o mais rico, com 12 itens), o da Heráldica Eclesiástica e «A margem…» (inclui uma peça sui generis). Dentro destes grupos elas dispõem-se segundo um esquema de apresentação, que começa com a localização e descodificação e acaba com uma resenha de carácter histórico, destinada a integrá-las nos seus próprios contextos. Aqueles dois aspectos constituem a parte heráldica propriamente dita, tendo sido tratados a partir do modelo Artur Vaz-Osório da Nóbrega – prezado amigo e Mestre, que amavelmente a examinou. Em apêndice surge a transcrição integral dos textos importantes para a inteligibilidade do discurso produzido.
Eis, em traços largos, o contributo com que nos propomos dignificar a Heráldica e homenagear Melgaço – essa feiticeira, que para sempre nos tem cativos.

 

Paderne, Ago. 87

 

UM REPUBLICANO DE S. GREGÓRIO

22.07.15, melgaçodomonteàribeira

S. Gregório, 1940

 

JOSÉ JOAQUIM DE ABREU

 

Se este homem de leis fosse vaidoso, não teria deixado de usar os apelidos Lima e Castro Laborinhas de Illoa e Abendanho.
Embora nascesse na pacatez de S. Gregório, foi baptizado na paroquial de S. João de Monte Redondo, na vizinha Galiza.
Estudou as primeiras letras na escola oficial de Paços regida pelo professor Joaquim José Durães e levado pelos incitamentos de sua mãe fez os exames exigidos para poder cursar a Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, donde em 1904 saiu bacharel formado.
Ainda escolar de leis na cidade do Mondego, casou em S. Gregório em 3 de Abril de 1901com Augusta Maria de Araújo, irmã de António Augusto de Araújo, arguto e benquisto comerciante naquele lugar e ambos filhos dos comerciantes locais José Joaquim de Araújo e mulher Benedita Pires.
O Dr. Abreu foi dos republicanos mais prestigiosos do seu tempo e por isso mesmo o escolhido pelas autoridades superiores da República para montar aqui os serviços do Registo Civil.
Por vezes, mas sempre com muita correcção, desempenhou as funções de administrador do concelho.
A consideração do povo por esta figura republicana melgacense evidenciou-se poucas horas depois da entrada das tropas fiéis à República na cidade do Porto, aquando em 1919 o Reino da Traulitânia ruiu em todo o norte do país. E evidenciou-se por uma grande mole de povo ter acorrido à Praça da República, subindo às salas da administração e aí imposto aos conterrâneos, ao distrito e à nação o nome do Dr. José Joaquim de Abreu para na conjuntura exercer esse melindroso cargo de administrador deste concelho, visto ser preciso ajustar contas com os monárquicos locais.
E se é verdade que na maioria das almas só o ódio esvurmava, louvem-se aqui os chefes da República pela sua superior visão de crimes políticos, que hoje são odientos e amanhã se contam como virtudes.
A comprová-lo está uma resposta dada a políticos do Porto numa casa da velha Rua da Murta por um melgacense ilustre quando o consultaram sobre o destino daqueles:
- Se de Melgaço vier preso algum dos homens apontados pelos senhores, no mesmo momento eu e os meus amigos abandonaremos o Partido Republicano.
E como estas respostas, quantas outras de vultos melgacenses não nos ocorrem neste momento ao bico da pena?
Ora se aqui não há grandeza de alma, onde encontrá-la neste mundo?
Aqui na terrinha também o Dr. Abreu sobre muitos lançou a capa da misericórdia por no seu coração nunca se ter gerado algo capaz de prejudicar direitos ou interesses legítimos dos contrários, pois, segundo dizia, a todos reconhecia o direito de livremente manifestarem as suas ideias e até de por elas se baterem.
O Dr. José Joaquim de Abreu faleceu na sua casa de S. Gregório rodeado dos carinhos da família no dia 20 de Outubro de 1958 e sua esposa finou-se na Orada em casa do seu filho José em 9 de Fevereiro de 1954.
Descansam ambos no cemitério de Cristoval.

 

O MEU LIVRO DAS GERAÇÕES MELGACENSES


Volume I


Edição da Nora do Autor
Melgaço
1989
pp. 608-609

 

AS OBRAS DE SANTA RITA

18.07.15, melgaçodomonteàribeira

Santa Rita - Quartel

 

RECOMEÇARAM AS OBRAS

(A Voz de Melgaço, 15.08.1971)

 

Começaram novamente as obras!...
Um operado ao coração em Santa Rita!...
As mães que tem seus filhos no serviço militar!...
Para diante!... Ofertas!...

 

Pois é verdade, mestre Ribeiro seguiu já para Santa Rita com todos os apetrechos indispensáveis e lá andam a sobradar uma das salas. De resto, mestre Ribeiro é o homem cá de cima. Todos o chamam e todos o querem no serviço de carpintaria. Pois também cá o temos. O pior é que temos os artistas e não temos a «massa». Só há dias, pagamos cerca de 12.000$00, mas nestas matemáticas de Deus, é preciso andar e esperar.
Nunca pagamos a muitos fornecedores a grande fineza de nos esperarem pela possibilidade de lhes pagarmos. Estaríamos ainda muito longe, se não fora esta generosidade com Santa Rita. Nós ficamos agradecidos. Mas com muita pena, este é um dos grandes capítulos de caridade, que só Deus conhece!...
Num destes dias esteve aqui, com a sua esposa e vizinhas, um simpático senhor de S. Paio, que há pouco foi operado ao coração numa das clínicas de Paris e pelo melhor especialista daquela cidade. A operação era do género da do Padre Bologne, muito difícil. Uma sua prima lembrou-se de Santa Rita, fez a sua promessa e aqui vieram todos cumpri-la. Este nosso conterrâneo é da Granja, de S. Paio, e chama-se Manuel José Simões Durão. Mas já guia o seu carro.
Exames – Aqui têm vindo muitos devotos de Santa Rita cumprir suas promessas, pelo bom resultado dos exames de seus familiares. O bom resultado dos exames é para os pais uma grande consolação, depois de tanto dia dinheiro gasto.
Em defesa da Pátria – Também algumas mães que têm seus filhos no serviço militar, em defesa da nossa Pátria, aqui têm vindo recomendar as suas intenções. Todos os domingos aqui rezamos por esta intenção. Que bela, que sublime, a linguagem destas mães em Santa Rita com o Senhor. E sabem? Há dias chegou-nos aqui um rapaz, vindo do Ultramar, que trazia a sua farda e entregou-a a Santa Rita. Ela ficará exposta aqui, como eterna gratidão dum soldado de Portugal a Santa Rita.
(Segue listagem)
Pedimos muita desculpa de virmos bastante atrasados na lista dos nossos benfeitores.
A todos muito obrigado.
Que linda terra esta de Santa Rita, para aqui se fazer uma grande obra…
Quando todos acordarem, isto irá mais depressa.
Mas não acham que o que se fez já é muito?

 

                                                                              Padre Carlos

 

Padre Carlos Vaz: Uma Vida de Serviço
Edição: Carlos Nuno Salgado Vaz
Coordenadores: Carlos Nuno Salgado Vaz
                              Júlio Nepomuceno Vaz
Braga
Julho 2010
p. 328

 

PASSEI MUITA FOME E MISÉRIA...

15.07.15, melgaçodomonteàribeira

Minho desde a estrada de Fiães

 

SAPATOS DE FOLHAS DE FIGUEIRA


Nasci a 29 de Outubro de 1921. Quando vim ao mundo, tinha já 4 irmãos, sou, portanto, a mais nova.
A minha mãe era padeira e peixeira, o meu pai nunca quis saber de nós, foi para o Brasil.
Para ajudar a minha mãe fomos trabalhar todos para ganhar o nosso sustento.
Atravessei muitas vezes o rio para ir buscar coisas a Espanha e, posteriormente, vender em Portugal. Muitas vezes fugi aos carabineiros e à guarda portuguesa que não permitiam o contrabando.
Os meus sapatos eram folhas de figueira, passei muita fome e miséria.
Nunca fui à escola, nunca tive condições, tínhamos que cuidar do gado, granjear as terras, trabalhávamos de sol a sol.
No entanto, também havia momentos de lazer. Depois de um longo dia de trabalho, íamos aos bailaricos para dançarmos, conversarmos e namorarmos.
Lembro-me de um dia em que estava preparada para ir a um baile, tendo dois rapazes à minha espera e a minha mãe viu-os e já não me deixou sair fechando-me em casa. Chorei a noite toda.
Um dia, num baile, conheci um rapaz muito bonito e simpático, começamos a namorar. Mais tarde, como nos dávamos muito bem, casamos.
Ele entretanto foi para a tropa e eu fiquei a viver com a minha mãe. Nesta altura já estava grávida. Tive uma linda menina.
Passado algum tempo a avó do meu marido adoeceu e, como a minha sogra era feirante e nunca estava em casa, fui eu tomar conta dela. Estive lá três anos. Durante este período de tempo o meu marido adoeceu e esteve a tratar-se no Caramulo.
Entretanto, o meu marido ficou bem e depois de muito trabalharmos conseguimos comprar casa.
A minha filha casou e está a viver em Afife. O meu marido faleceu, o que me deixou muito triste.
A minha única consolação é o meu genro, minha filha e neta.


Júlia de Lurdes Fernandes – Casais – Cristóval


Retalhos de Vidas


Edição: Câmara Municipal de Melgaço


Outubro 2002


Pág. 16

 

MANJARES DA NOSSA TERRA

11.07.15, melgaçodomonteàribeira

 

AO VINHO ALVARINHO E AO PRESUNTO
DE CASTRO LABOREIRO

 

Lá em Castro Laboreiro,
no alto e verde Minho
o presunto é companheiro
do divinal Alvarinho.

 

Dos presuntos que provei
é, sem dúvida o primeiro
coroado, porque é Rei,
o de Castro Laboreiro.

 

Muito corado e tenrinho,
bem fumado, saboroso,
regado com Alvarinho,
não há outro mais gostoso.


Portalegre, 10/09/1986


(Maria Albertina D. C. Martins)

 

O SOÑO DE DYLAN BOULAS

08.07.15, melgaçodomonteàribeira

Em Castro Laboreiro

 

POLA SERRA DO LABOREIRO


20:00 Ducha e paz no Miradouro do Castelo. Ceamos sopa de legumes, cabrito asado e viño verde. Tentamos disimular, pero sentímonos vixiados por un tipo con pinta de guerrilleiro checheno, que se fai pasár por mecánico. Vencémolo a grolos, a 210 por hora en curva. E Dylan Boulas sonã con:
Xan o Longo e o Principiño se Sisán, que fuman ópio subidos a un megalito de xeo. Hai un concerto no alto do Castelo. Aparece Shane McGowan desdentado e abaneando. Hai un mapa, unha illa rodeada de alcohol e un tesouro. Pero o mapa está nas mans do Padre Aníbal, que é atacado polos lobos da sotana dourada, que sempre aparecen cando hai bos concertos no Viking’o. Coas unllas negras de Xan o Longo, os animais recúan, pero o balbordo da batalla non me deixa pegar ollo. O Padre Aníbal recoméndanos deixar a misión e pasar do destino e das vacas.
Eu subsonõ, dentro da desfeita, que son un Ranger Arraiano com poderes, e que nada me detén, nin Franco nin Salazar. O yhea, son o Gran Xefe dos Marcos da Fronteira.

A idea de facer terapia arraiana pola Serra do Laboreiro foi espantosa, para ben e para mal (coma en portugués). Espantosamente boa ou mala.
“Que ninguén me desperte, quero soñar para sempre”, beroulle Dylan Boulas aos do Grupo Municipal de Intervéncion Rápida cando nos quixeron desaloxar da casa de Mago Ferrín, onde estivemos durmindo tres días e tres noites, amarrados a unha faria mal pagada do nosso bardo arraiano. Dende a torre de Vilanova dos Infantes, o Padre Aníbal botounos unha prisciliánica beizón e desapareceu para sempre cos seus papeis. Voltaremos.

 

O Ranger Arraiano

 

Retirado de: Arraianos 4 Outono 2005

 

http://www.arraianos.com/arraianosIV_web.pdf

 

MONARCHIA LUSYTANA

04.07.15, melgaçodomonteàribeira

 Capela da quinta do Gasparinho, agora de Santo António

 

LIVRO XVIII. DA MONARCHIA LUSYTANA

CAP. LIX.

 

Dase noticia da familia de Abreu, & referese o que o Papa João XXII. obrou em favor d’elRey.

Partira ElRey da Villa de Leiria para Lisboa pelo mês de Abril 1317., e nesta Cidade gastou o restante do anno, não lhe faltando materias graves a que acudir. Por este tempo lhe inviàrão os moradores de Valadares seus Procuradores, & os da Villa de Melgaço sobre a composição que agora diremos. Os de Melgaço tinhão dado a ElRey 3oo. livras por anno por lhe encorporar a seu destricto Valadares; não sofrerão estes moradores viver alli unidos, & sogeitos, por haver em seu termo Fidalgos de grande conta determinàrão izentarse, & ficar julgado separado. Vivião em hum, & outro lugar fidalgos da familia de Abreu, os quais por honra do seu apellido, que o solar delles he a quinta de Abreu em termo da Villa de Monção visinha, a qual Vasco Gomes de Abreu deu por concerto a seu sobrinho Lopo Gomes de Abreu, na demanda que tivérão sobre a herança de Diogo Gomes de Abreu & sua mulher Leanor Viegas no anno de 1459. distratàrão com os de Melgaço, & viérão a acordo, que os de Valadares pagarião a ElRey as trezentas livras, & que a preço dellas ficàrião outra ves livres, & desanexados delles. Conformandose todos, & inviando de ambas as partes Procuradores à Corte, lhe confirmou ElRey o acordo no I. de Junho em Lisboa. Procuradores de Valadares vem nomeados Gomes Lourenço de Abreu, & João Afonso Taleygas Cavaleiros, alem de outros; & de Melgaço Lopo Gonçalves, & Nuno Gonçalves de Abreu irmãos Destes Fidalgos Abreus, faz lembrança o Conde D. Pedro no seu livro das geraçoens, & delles procedem os que hoje ha no Reyno, conservados com muita autoridade atè o prezente. No reinado d’elRey Dom Dinis tiverão grande lugar, & não menor no tempo dos Reys que lhe succedèrão, como a nossa Historia ira contando.

 

Monarchia Lusytana
pelo Doutor Fr. Francisco Brandam, Monge de Alcobaça, Esmoler de S. A. Chronista mor de Portugal, Qualificador do Santo Officio, & Examinador do Tribunal da Consciencia, & Ordens, Geral q foi da Religião de S. Bernardo.
Lisboa
Na officina de JOAM DA COSTA. Anno M. DC. LXXII.
Com todas as licenças necessarias.

 

Retirado de: http://books.google.pt

 

DE MELGAÇO A CUYABÁ

01.07.15, melgaçodomonteàribeira

Vista sobre Prado

 

JOÃO POUPINO CALDAS


Na sociedade cuyabana dos fins do século XVIII e inícios do XIX, formara-se uma espécie de patriarcado, constituído pelos elementos de maior prestígio, seja pela posição, seja por haveres, seja pela tradição familiar. Compostas em grande parte pelos descendentes dos penetradores do sertão, vindos nas bandeiras ou nas monções de povoado, a que se uniram os filhos da Metrópole, em geral “homens que viviam dos seus negócios” como costumavam individuar-se elles mesmos, as linhagens cuyabanas mais realçadas levam quasi sempre, nas suas origens, um costado luso para três nativos, quando não paulistas. Em geral, são pelo lado materno autochtones e portugueses pelo paterno, como occorre com Serras, Cerqueiras, Rochas e Corrêas, sendo raras as famílias cujo ascendente masculino, dentro da antiga Capitania, não seja português. Podem citar-se nestas condições os Laras, Monizes, Amaraes, Coutinhos e Gaudies, tendo aquelles genearchas paulistas (de Itu, Porto feliz) e estes goianos. Não fugiram à regra os Poupinos, progênie das mais destacadas da época, na qual deveria evidenciar-se, como figura primacial nas luctas nativas, o famigerado João Poupino Caldas. O avô de João Poupino, Joaquim Lopes Poupino, natural da Villa de Belém, bispado de Elvas, arcebispado de Évora, desempenhou proeminente papel na vida da Capitania, para onde veio moço ainda, occupando os cargos de almotacé e vereador do Senado da Câmara, tendo sido ajudante do terço das ordenanças da villa, morrendo capitão das mesmas ordenanças, a 21 de Junho de 1796. A sua actuação nas guerras de fronteiras, na conducção do ouro, no levante de negros no Iacé (Jacé?) e, sobretudo, na construcção do forte do Príncipe da Beira, se patentêa através da justificação que, em 1809, fez um dos seus netos e que fiz publicar na Revista do Instituto Histórico de Matto-Grosso, na qual se vê que “por espaço de mais de 29 annos thé sua morte” “se empregou por muitos annos no Real Serviço de Sua Alteza”. Casado em Cuyabá com D. Maria Bernarda do Rosário, natural dessa villa do Bom Jesus, teve, como testifica o seu inventario, procedido em 1797 os filhos: José Lopes Poupino, Izabel Antonia, Catharina Maria Jorte (ou d’Orta), Maria Bernarda e Anna de Alvim Poupino. José Lopes (filho) falleceu com 67 annos, a 8 de Outubro de 1824, sem deixar descendentes; Izabel Antónia e Catharina conservaram-se solteiras, sendo a primeira demente; Maria Bernarda casou-se com o licenciado Francisco de Paula de Azevedo, fallecido no fim do século XVIII, deixando um filho, Albano de Sousa Ozório e Anna recebeu por marido a Manoel Ventura Caldas, português, filho de Custodio Caldas e Rosa Gomes, naturaes da villa de Melgaço, arcebispado de Braga. De Manoel Ventura, fallecido em 1800, e Anna de Alvim Poupino procederam os quatro filhos Bento José Caldas, João Poupino Caldas, Marianna de Alvim e Maria Teresa. Bento, o primogénito do casal, nasceu em 1788 e João Poupino em 1790, como se vê do termo que se segue: «Aos sete dias do mês de Julho de mil setecentos e noventa annos nesta igreja Matris de Cuyabá baptizou e pos os Santos Óleos o Reverendo Ignácio da Silva de Albuquerque a João inocente nascido a vinte e seis de Junho do dito anno filho legitimo do Tenente Manoel Ventura Caldas e D. Anna de Alvim Poupino, esta natural e baptizada nesta freguezia aquelle natural de Portugal, neto paterno de Custodio Caldas e Rosa Gomes naturaes de Melgaço Arcebispo de Braga e materno de Joaquim Lopes Poupino natural da freguezia da villa de Belém bispado de Elvas e de D. Maria Bernarda do Rosário natural desta freguezia forão padrinhos o capitão Joaquim Lopes Poupino e sua filha D. Maria Bernarda Poupino, solteira».
Adversa fortuna acolheu desde o berço o pequeno João – tinha seis annos quando perdeu o avô e padrinho e ao completar os dez ficou orphão de pae, tendo no anno anterior perdido o tio, esposo de Maria Bernarda. Manoel Ventura era comerciante e casara-se em 1787 com Anna de Alvim. Nesse mesmo anno “tendo de seguir viagem para o Rio de Janeiro” fez o seu testamento, que só veio a ser executado 13 annos após. Declara no mesmo ter nascido na freguezia de S. Lourenço de Prado, termo de Melgaço, comarca de Valença, arcebispado de Braga. No seu inventario, além de grande numero de mercadorias, figuram ouro (em barra, em pó e lavrado) pratas, casas de sobrados na Rua do Ouvidor e uma chácara no Andarahy (Rio), compradas aquella ao cap. Manoel Gomes Pinto, ao preço de 4:000$ e esta ao cap. Pedro Duarte a 2:400$. Os bens de Ventura foram a praça, em 1801 a requerimento do alferes José de Pinho de Azevedo, tutor dos orphãos, e tendo a viúva reclamado ao Rei assistir-lhe, emquanto se não casasse, o encargo de tutora, foi, por provisão de D. João VI, datada de 22 de Julho de 1804, reconhecido o seu direito.
Dos irmãos de Poupino, Bento falleceu antes de 1833, sem deixar herdeiros, Marianna casou com o capitão-mór André Gaudie Ley e Maria Teresa com António Navarro de Abreu (o 1º) de quem veio a enviuvar-se em 1825, casando-se com o desdor. António José da Veiga.

Netto de militar e filho de commerciante – ambos portugueses de boa linhagem – o jovem João conseguiu aprimorar os attributos que a herança physica lhe trouxera. Foi ambas as cousas ao mesmo tempo: homem da milícia e de negócios, e, ainda mais, político de projecção marcada, de prestigio social inconfundível, chegando a ser quasi o verdadeiro Conductor da sua geração, por seus attributos pessoaes de nobreza, bravura e desprendimento, que o fadariam a mais altos destinos, se essas mesmas qualidades não o houvessem sacrificado tão prematuramente, na mysteriosa tragédia do “beco da Câmara”.

Poupino, ao invés, quando se apercebeu da desgraça, que vinha ennodoar a sua administração, havia dois dias iniciada, procurou sinão impedir, que era tarde, a reprimir e attenuar, confinando quando possível ás proporções da hecatombe.
E o cabecilha de motins nativistas, que em 1831 era apontado como açulador da desordem, apparece, à testa de governo, e no momento preciso, como o agente inflexível da ordem e o rígido instrumento da repressão à anarchia.

Estava-se na primeira quinzena de Maio de 1837.
No dia 9, terça-feira da semana que precedia as grandes festas do Espírito Santo, de que era imperador nesse anno o capitão-mór Gaudie, seu cunhado, João Poupino Caldas regressava de umas visitas de despedidas, por ter de seguir para a Corte, quando, na esquina da rua Bella com o beco da Câmara, traiçoeiro agressor o prosta, quasi morto, com um tiro de pistola pelas costas.


JOÃO POUPINO CALDAS
(contribuição para o estudo da “Rusga”

Autor: José de Mesquita
           Do Instituto Histórico e da Academia
           Mato-grossense de Letras

Edição: Cuiabá
               ESCOLAS PROFISSIONAIS SALESIANAS

MCMXXXIV

http://www.jmesquita.brdata.com.br/bvjmesquita.htm